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Desbravando a verdadeira Rússia: Um dia em Novgorod

Moscou e São Petersburgo te mostram uma Rússia portentosa, ostentando riquezas e belezas, mas saiba que aquilo não é representativo da Rússia em geral. A grande parte da Rússia é humilde, de infraestrutura simples (frequentemente malacabada, da era soviética, pra dizer a verdade). Portanto, longe das áreas turísticas de São Petersburgo e Moscou é que você terá contato com gente, comidas e ambientes mais autênticos russos. Pra isso, uma boa pedida é dar um pulo em Novgorod, convenientemente localizada entre as duas metrópoles.


Pra começar, certifique-se de que seu trem vai para Veliky Novgorod e não Nizhny Novgorod, que é uma outra cidade no caminho para a Sibéria. Veliky Novgorod, apesar de “Veliky” significar “grande”, é uma cidade pequena — o “grande” fica por conta da sua importância histórica. Já são mais de 1100 anos, com referências históricas à cidade datando do ano 862. Admito: não há lá muuuuuito o que fazer, pois a Novgorod não é muito turística, mas vale a pena passar aqui um dia para conhecer um pouco melhor o interior da Rússia. Foi o que eu fiz.


Éramos somente três — e não os cinco do grupo original — quando tomamos o enfumaçado trem noturno. Duas das amigas acharam que seria hardcore demais e preferiram evitar Novgorod e partir direto a São Petersburgo no trem de alta velocidade, o Sapsan (“falcão peregrino”), trem moderno que faz Moscou – São Petersburgo em 4 horas. Já eu, meu amigo brasileiro e a minha amiga italiana encaramos o trem noturno normal. Ele leva 8,5 horas de Moscou a Novgorod. De lá seguiríamos a São Petersburgo de ônibus depois.


Os trens russos, ao contrário do que você talvez pense, não são ruins. Há uma boa infraestrutura para dormir, e eles são melhores do que em lugares mais ricos como Canadá ou Estados Unidos. No entanto, meu amigo, minha amiga, prepare-se para muuuuuita fumaça de cigarro. Os russos bebem e fumam — ponto. Três dos seus cinco sentidos serão temporariamente comprometidos pela fumaça alheia: os olhos ardem, o seu nariz não sente mais nada, e a língua quase só capta nicotina. Se você tiver sinusite, rinite ou for asmático, nem se atreva. Fumar em meio aos assentos é proibido, mas quase todo mundo fuma nos corredores entre vagões, e o ar traz, então…


Foi sem dúvida uma das noites mais asfixiantes da minha vida.

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No corredor do trem arrumando a minha cama. (Não, o trem não estava em chamas; isso na foto foi da câmera).

Afora o cigarro, prepare-se para o conversê dos russos jogando baralho e bebendo (não necessariamente álcool, mas também chá preto ou qualquer coisa). Não chega a ser uma algazarra, mas está bem mais perto do Brasil do que do silêncio de biblioteca que você geralmente encontra nos trens da Alemanha ou do Japão. Mas, verdade seja dita, depois de encarar os trens da Índia e da Indonésia, esse russo foi comfort lux.


Apesar da fumaça eu consegui dormir e às 6 e pouca da manhã estávamos chegando a Novgorod. Tudo ainda escuro. O Google Mapas não dá muitos detalhes das cidades russas, mas eu sabia a direção geral que devíamos seguir. Contudo, estávamos com fome, e tudo o que havia disponível era um “bistrô” vagabundo, a là beira-de-estrada, tipo Um Drink no Inferno só que versão russa. O ambiente no lugar era aquele de caminhoneiro, com uns pedaços de frango frito expostos no balcão e uma atendente mal encarada. Pra dar uma ideia, o meu amigo brasileiro — que não é nem um pouco fresco e ainda tem uma forte veia anti-imperialismo americano — preferiu comer no único outro lugar ali disponível: o McDonald’s.


Contudo, o McDonald’s não abria antes das 7, e ainda eram umas 6:20. Eu sugeri então que caminhássemos rumo ao centro da cidade, e lá encontraríamos algo. Acho mais de uma hora se passou, caminhando pelas ruas quietas, até que avistamos um lugarejo onde as pessoas — com caras de trabalhadores indo para o expediente — entravam e saíam.

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Com a minha amiga italiana de manhã cedo em Novgorod, em frente à rodoviária — que fica vizinho à estação de trens. (Ali na parede é Novgorod em russo).
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As ruas quietas de Novgorod ao amanhecer.
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Lugarzinho que achamos para tomar café da manhã.

Não parecia haver uma viv’alma que não fosse russa lá no lugar — aliás, na cidade inteira. Eu e meus dois amigos éramos os únicos turistas, com aquelas caras de perdidos tentando se achar. As atendentes nos olhavam com umas caras impacientes de “E aí, vai pedir alguma coisa ou não?” enquanto a gente tentava identificar o que era cada um dos quitutes no balcão (ler o nome em russo não adiantava muito, e sabíamos que a chance de alguém ali falar inglês era ínfima — nem nos atrevemos).

Escolhemos meio que pela cara das coisas, e não nos arrependemos. Os russos fazem pãezinhos com uma série de coisas, e é tudo muuuuuuito mais barato do que em São Petersburgo ou Moscou. São simples, tipo lanche de padaria, mas gostosos. Além disso, vimos alguém pegar café com leite (bem ao estilo “pingado” brasileiro), e aí apontamos para a xícara do homem, com aquela cara de cachorro bonzinho para a funcionária como quem diz “Eu queria um também”.


Na verdade, comemos bem — e, diga-se de passagem, sem gastar quase nada. Tivemos também a chance de ver alguns russos tomando vodka já essa hora da manhã. Saindo dali fomos ver as praças e o kremlin (fortaleza) da cidade.

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Numa das praças bem floridas de Novgorod. As estátuas, em geral, são militares, ou de poetas clássicos, ou de Lênin.
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Posando junto à estátua de Lênin.
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Já perto das muralhas do kremlin de Novgorod.
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Igreja ortodoxa no interior do kremlin de Novgorod.
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Monumento de bronze conhecido como o “Milênio da Rússia“, erigido em 1862 no aniversário de 1000 anos da cidade. As imagens são de vários personagens importantes da história russa, como Pedro o Grande e muitos outros.

Depois de passear algumas horas pela cidade, era hora de achar algum lugar pra almoçar. O desafio estava lançado mais uma vez. Chegamos a entrar num restaurante arrumadinho onde a garçonete esbravejou (ao bom estilo rude dos serviços russos) porque queríamos olhar o cardápio antes de tomar assento. Só não mandei ela à merd@ porque eu não sabia como fazê-lo em russo.


Saímos dali e olhamos vários outros lugares, sem muito sucesso. A maior parte eram somente bares. Até que minha amiga italiana resolveu entrar num pequeno supermercado pra comprar biscoitos e nós notamos uma lanchonete (desses bem de supermercado mesmo) ali servindo almoço. O lugar era simples, bem povão, sem muito glamour. Como não havia cardápio nem nada, tivemos que mais uma vez usar a tática do apontar-e-fazer-cara-de-pidão, e deu certo. A parte melhor foi que acabamos apontando para uma sopa de beterrabas que era apenas para os funcionários do supermercado. A mulher ficou sem jeito, olhou para a outra, chegou até a sorrir, e gentilmente nos serviu uns pratos da tal sopa — que estava boa. Essa sopa de beterraba com creme de leite e endro (e às vezes pedaços de carne) se chama borsh, e é super típica no leste europeu.


Lavamos a égua, e estávamos lá nos gabando da sorte quando entraram dois cidadãos falando alto, um deles tão bêbado que nem percebia que estava com dinheiro caindo dos bolsos. Sentaram-se bem à mesa ao lado da nossa, e vociferavam umas coisas que a gente não entendia. Não sei se nem os russos entendiam, pois tinha toda a pinta de ser conversa de bêbado. A cada minuto caía mais uma moeda ou nota no chão. A gente nem se atreveu a ajudar antes que ele desse um revertério, e saímos de fininho depois de pagar.


Saindo dali, avistamos mais adiante na calçada alguém segurando o outro pela gola, como quem ia dar um soco. Ao chegar mais perto percebemos que era uma mulher, esbravejando fula de raiva contra um cara, e o cara, meio mamado, tentando se explicar (ou assim parecia). A gente olhou um pra a cara do outro com aquele cara de “Meu Deus, o que é este lugar?”. Detesto estereótipos, mas foi simplesmente o que nós íamos vendo.

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Minha amiga italiana tomando borsh (a sopa de beterraba) na lanchonete do mercado, enquanto meu amigo escolhia algumas coisas no balcão.
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Áreas residenciais simples no centro de Novgorod.

Dali ainda passamos a tarde só zanzando, pois já tínhamos visto tudo, e à tardinha fomos à rodoviária pegar nosso ônibus a São Petersburgo. As bagagens nos havíamos deixado lá num guarda-volumes pela manhã.


Não havia outros turistas; parecíamos estar cercados só mesmo de famílias e viajantes com cara de russo; gente simples, como as que você vê nas rodoviárias do Brasil. Uns ônibus meio arabacas estavam estacionados ali perto. À nossa volta, brincava empolgado com uma espada de plástico um menino loirinho, a quem apelidamos de Ivan, o terrível.

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Na rodoviária de Novgorod aguardando o ônibus.
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Nossas maravilhosas máquinas lá atrás.

E, ainda naquele dia, nos esperava São Petersburgo, a capital imperial.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Desbravando a verdadeira Rússia: Um dia em Novgorod

  1. Hahahah, só mesmo o senhor, e esses seus amigos semelhantes, para ter essas aventuras loucas hahah Deus me livre haha teria preferido o falcao peregrino para S Petersburg hahaha. Que horror hahah fumaça, beberança, conversêe, jogo haha Deus é mais hahah. Tõ fora hahah… Adorei o tipo do bistrô, a la o titulo de filme hahah um drink para o inferno ou algo parecido, arrremaria hahah deveria ser infernal hahaha
    Vilgen que horrror, esses bebados. Ô coitados hahah e olhe que não era inverno,
    Meu amigo, belissima essa foto do senhor diante do monumento a Lenin. Linda. Com essas flores e essa postura, Muito charmosa. . Gostei da cidadezinha. Belos monumentos, linda arquitetura, Lindos jardins, belas flores. Lindas as muralhas desse Kremlin. Apesar das dificuldades da aventura, pelo visto valeu a visita. Muito bonitinha a cidade. postagem divertida e histórica. valeu

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