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São Petersburgo (Rússia) no verão: Hermitage, Peterhof, e mais da capital imperial russa

Se Moscou evoca os ares da União Soviética e da Guerra Fria, em São Petersburgo dominam os ares da Rússia imperial — tempo dos czares, de Pedro o Grande, e de Catarina da Rússia.

São Petersburgo é uma cidade bem elegante e europeizada, e foi feita para ser assim. Ela é a obra máxima da transição moderna que a Rússia experimentou no século XVIII, quando deixou de ser um principado asiático herdeiro das conquistas mongóis e passou a ser uma corte europeia. (Até hoje, é claro, a Rússia ainda lida com essas duas identidades.)

A cidade foi erigida pelo Czar (Caesar) Pedro, o Grande, em 1703, numa tentativa de remodelar a Rússia de acordo com a estética e os costumes da Europa ocidental. Ele passou anos viajando para aprender as maneiras europeias, e quando voltou empregou uma série de mudanças, desde econômicas até coisas do tipo obrigar a corte a vestir-se à maneira ocidental, obrigar todos os homens a se barbearem, proibí-los de cuspir no chão, etc. E fundou esta cidade para ser a nova capital da Rússia, transferindo-a de Moscou para cá. (O nome “São Petersburgo”, no entanto, não foi dado pelo czar Pedro em homenagem a si próprio, mas ao apóstolo Pedro. Se ele teve alguma vaidade ao escolher justo o apóstolo homônimo dele, eu não sei.)

Quando nós chegamos de Novgorod, a primeira surpresa foi ver que — ao contrário do que ocorre em Moscou — aqui o metrô tem os nomes das estações escritos também em alfabeto latino, não só no alfabeto cirílico usado pelo russo. A segunda surpresa foi deparar-se como a magnífica Nevsky Prospekt, a avenida mais importante de São Petersburgo.

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Na noite da chegada, em Nevsky Prospekt, a avenida mais famosa de São Petersburgo. Longa e repleta de casas de época, franquias ocidentais, e lojas de marca.

Instalamos-nos bem no centro, num albergue onde todo mundo estava gripado. (Escaparíamos bem em tempo de preservar nossa saúde.) Embora as distâncias aqui sejam amplas, São Petersburgo é uma cidade boa de visitar a pé — sobretudo no verão. 

Conseguimos ver muitas das belezas que São Petersburgo reserva: ela própria em suas ruas centrais e várias igrejas de arquiteturas arrojadas como a Catedral de Kazan e a Igreja do Salvador no Sangue Derramado; o mundialmente famoso Museu Hermitage, e — abertos à visitação apenas nos meses quentes do ano — o Palácio da Czarina Catarina e o Palácio de Pedro, o Grande, chamado de Peterhof.

Nós começamos pelos palácios, que minha amiga de Singapura estava doida pra ver e com medo de que, se deixados para o final, acabássemos não vendo. Eles ficam fora da cidade, mas em 20 minutos de ônibus você chega lá. Esses ônibus, naturalmente, vão sempre repletos de turistas, portanto não tem erro.

Esses palácios só estão abertos por completo de maio a outubro, os meses quentes na Rússia, quando as fontes estão jorrando água e os seus belos jardins estão verdes. Os jardins são no mínimo tão belos quanto os palácios em si e seus interiores.

Mas prepare os bolsos, pois como é comum na Rússia, as atrações turísticas esfaqueiam o seu orçamento — e por partes. Eles fracionam os custos (X para entrar nos jardins, +Y se quiser entrar no palácio propriamente dito, e assim vai). No fim das contas, sai caro. Mas, se você chegou até aqui, não deve deixar de ver.

Comecemos pelo Peterhof, construído para Pedro, o Grande, que reinou de 1683 a 1725. Ele é reconhecido como um dos maiores líderes russos de todos os tempos. Além de empreender aquela revolução cultural de que falei no princípio, ele foi efetivamente quem deu a marcha para as conquistas russas no sul e no leste, sobre os povos do centro da Ásia e que também tinham herdado domínios mongóis. É a partir dele que surge formalmente o Império Russo e que a Rússia surge como potência. 

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Nos jardins do Peterhof, com as folhas já a ganhar cor neste setembro. Como você pode perceber, ele tem a estrutura dos jardins palacianos da França, que deu grande inspiração à corte russa dessa época.
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Igreja em parte da frente. Como de hábito, as igrejas ortodoxas têm suas cúpulas revestidas em ouro. Essas aqui reluzem lindamente sob sol.
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Fonte nos jardins do palácio. É praticamente um parque inteiro, que costumava ficar à disposição de Pedro e, posteriormente, dos outros monarcas que vieram.
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A face “interna” do palácio, com mais uma fonte que ia até o mar. É isto mesmo, ali já é a saída para o Golfo da Finlândia. A ideia em construir São Petersburgo nesta região foi exatamente dar-lhe acesso marítimo direto aos países europeus, ao contrário de Moscou que fica lá no interior. Novamente, muito ouro.
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A fachada “interna” do palácio vista de longe, com as suas fontes douradas. (Aquela ali à esquerda é meio estranha mesmo.) Já o interior do palácio não permitia fotos, mas garanto-lhes que é tão dourado quanto vocês imaginam, e novamente no estilo dos palácios franceses; se você visitou Versailles na França, pode imaginar.
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A fachada externa do Palácio de Catarina, a Grande. Catarina era, na verdade, alemã, mas casou-se na família real russa e veio a se tornar a mais memorável líder deste país. Ela reinou de 1762 a 1796.
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No amplo (e belo) parque que eram os jardins reais do palácio de Catarina.
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Essa pirâmide Catarina mandou construir como mausoléu para os seus cães de estimação. Com o meu amigo Brunno.
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Os corredores do palácio de Catarina.
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Com o audioguia cercado de ouro nos halls palacianos.

Com toda essa ostentação enquanto o campesinato russo passava fome, você é capaz de imaginar como, daqui a pouco mais de um século, movimentos revolucionários se iniciariam e deporiam os monarcas russos de maneira violenta.

Catarina tinha, além desse palácio, um outro no centro de São Petersburgo, o Palácio de Inverno. (Esses com parques e fontes eram para os meses de verão.) O Palácio de Inverno foi inaugurado em 1732, ainda antes de Catarina, mas em 1764 ela expandiu-o com prédios adjacentes dedicados exclusivamente a abrigar sua crescente coleção de arte.

A esses prédios deram o nome de Hermitage, uma palavra de origem francesa (a inspiração cultural da corte russa e da maioria das cortes europeias), que significava um lugar onde alguém poderia ficar sozinho, como um eremita. Ela lá ficaria a sós contemplando sua coleção de arte.

A coleção foi aberta à visitação pública em 1852, décadas após a morte de Catarina, e permanece hoje como museu. Em área ele é o segundo maior museu de arte do mundo (atrás apenas do Museu do Louvre, em Paris), e tomou todo o Palácio de Inverno. O tamanho da sua coleção total, no entanto, é bem maior que o que sua estrutura física comporta. São 3 milhões de itens, incluindo a maior coleção de pinturas do mundo.  Como resultado, o Museu Hermitage começou a abrir filiais mundo afora para expor o que não está na exibição principal (e há uma rotatividade). Já há um Museu Hermitage Amsterdam e, para 2019, outro será inaugurado em Barcelona.

Aqui na Rússia, prepare-se para imensas filas se quiser visitar o Hermitage original, mas vale a pena. Verdade seja dita, é essencialmente uma coleção de arte estrangeira. Alguns visitantes se desapontam por ele não ser muito “russo”. (Se quiser ver arte russa, vá ao Museu Russo, que eu visitaria alguns meses depois, aqui.)

O Hermitage, no entanto, é um espetáculo — e enorme. Você pode passar uma tarde (ou um dia, se tiver apetite e não tiver fome) transitando entre seus diversos prédios, de interiores diferentes, e vendo exposições que vão desde antiguidades egípcias a arte renascentista italiana. Não era permitido tirar fotos no interior, mas o estilo é da mesma época do palácio de verão de Catarina mostrado acima.

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O Palácio de Inverno, hoje prédio principal do Museu Hermitage. (Sim, as pernas da moça também são bonitas.)
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O Palácio de Inverno.
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A “Praça do Palácio”, onde o Hermitage fica.

Todo o centro de São Petersburgo é um “parque de atrações” com obras arquitetônicas dos séculos XVIII e XIX. Você anda algumas quadras, vira a esquina, e lá está algo impressionante.

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Diante da portentosa Catedral de São Isaac, de estilo neoclássico. Foi completada em 1858.
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O interior da cúpula.
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A Catedral de Kazan, feita à imagem e semelhança (em miniatura) da Praça de São Pedro em Roma. Foi inaugurada em 1811. Não estranhe haver várias catedrais numa mesma cidade, pois as igrejas aqui não são católicas romanas, mas do cristianismo ortodoxo. (A Igreja Ortodoxa Russa, inclusive, não gostou da ideia do arquiteto de imitar a Praça de São Pedro em Roma, mas o projeto foi concretizado mesmo assim.)
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A Igreja do Salvador no Sangue Derramado, completada em 1907. A inspiração foi a catedral de São Basílio em Moscou, do século XVI.

Como você pode perceber, São Petersburgo não foi concebida para ser algo original e inusitado, mas para ser uma capital cosmopolita que acomodasse várias tendências e trouxesse a Europa à Rússia. Algumas pessoas criticam isso, mas é preciso compreender o espírito da cidade, da época, e do propósito de sua construção.

Vale pontuar também que aquele “sangue derramado” a que se refere a igreja ali acima não é o de Jesus, mas do czar Alexandre II, assassinado naquela praça em 1881. A homenagem foi feita por seu filho, Nicolau I, czar que o sucedeu. (Esse seria o penúltimo, até o fim da monarquia em 1917.)

Como eu coloquei antes, a Rússia era um reino profundamente desigual à época, onde a vasta maioria da população era camponesa, pobre e iletrada. Para se ter uma ideia, a servidão feudal só foi abolida na Rússia em 1861, séculos depois da Europa Ocidental, e aqui a classe burguesa e mercantil era muito menos desenvolvida. Assim, não é de se surpreender que houvesse revolta popular e que aos revolucionários comunistas do início do século XX tivesse bastado derrubar a família real dos Romanov para obter o poder. 

São Petersburgo viria a ser rebatizada de Leningrado após a Revolução Russa, e deixaria de ser a capital, mas disso eu falo no relato da minha próxima visita à cidade, no inverno.

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As profundas estações de metrô de São Petersburgo. Você leva literalmente minutos, e não consegue enxergara onde acaba.
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Com o caudaloso Rio Neva, que corta o centro da cidade.
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Furtando sobremesas.
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до свидания, Rússia! Até a próxima!

Veja também: São Petersburgo (Rússia) no inverno: O Museu Russo, o Balé Mariinsky, e os marcos de quando se chamava Leningrado.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “São Petersburgo (Rússia) no verão: Hermitage, Peterhof, e mais da capital imperial russa

  1. Meu jovem, que maravilha. Fiquei fascinada, Que cidade deslumbrante, que belos monumentos, que magnifica fusão de culturas, que arquitetura arrojada e de grande e belos efeitos. Lindissima, Os palácios parecem-se com alguns de Paris e Viena, Lindissimos. Que belos bosques e jardins, lindas especies de flores, charmosos espelhos d’água…Que belo colorido. Fantástica, cosmopolita e linda cidade. Adorei, Parece que voce está na Europa mas uma Europa, apesar de suntuosa, com tons peculiares, diferentes, Mágica. Esplendorosa cidade. Adorei, Linda postagem. Uma surpresa ver uma cidade assim na Russia,

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