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São Petersburgo (Rússia) no inverno: O Museu Russo, o Balé Mariinsky, e os marcos de quando se chamava Leningrado

É inverno. Nosso trem desliza sobre o metal de Helsinki a São Petersburgo. Do lado de fora, campos cobertos de neve cheios de casamatas, torres e fiação, parecendo uma área militar vigiada da Segunda Guerra Mundial. O sol já havia se posto desde as 4h da tarde, e só se viam as luzes brancas de holofotes sobre a neve. Dentro do trem, também metal, pois é o que mais se ouve escapando dos fones de ouvido dos finlandeses. Belas finlandesas de rostinho quadrado e tranças louras no trem, mas sentava-se do meu lado bem um marmanjo com cara de russo e casaco de couro preto cheirando a nicotina. É a vida. A pouco mais de 1h de São Petersburgo, a fronteira. Primeiro entra no trem a polícia finlandesa, depois a russa — estes o autoritarismo em pessoa, quase todos com “a cara do filho que matou o pai”, como diria a minha avó. Mas aqui ao menos não há as filas dos aeroportos. O nome do trem, Allegro, parece uma tentativa de corrigir o cenário.

Esse na foto acima é o Rio Neva, que corta São Petersburgo, congelado. Já era noitinha quando desembarcamos na bela capital imperial russa.

Eu desta vez fiquei num hostel diferente, também no centro (é o lugar onde ficar em São Petersburgo), e estava contente em rever esta cidade tão poucos meses após a minha visita anterior — ela agora completamente transformada pelas estações.

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Nevsky Prospekt, ou Avenida Nevsky, a principal de São Petersburgo.
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Numa praça coberta de neve em São Petersburgo no inverno.
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Belas paisagens invernais.
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A imensa Catedral de São Isaac, retratada no post anterior, agora aqui numa noite de neve, e com a decoração de Natal ainda presente.
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A Igreja do Salvador no Sangue Derramado, numa cinzenta manhã de inverno.
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O interior dessa igreja, que eu não havia mostrado antes.
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Lindas iluminuras sacras.
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O altar, que na tradição do Cristianismo Ortodoxo fica por detrás dessas portinholas, abertas somente ao momento da celebração.
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O Museu Hermitage agora cercado por gelo do Rio Neva no inverno.

Os palácios reais de Pedro, o Grande (o Peterhof) e de Catarina, a Grande, estão fechados no inverno — e nós estávamos aqui em pleno janeiro.

O Hermitage (que relatei no post anterior) tinha filas quilométricas devido às férias de virada de ano dos próprios russos, então aproveitamos esta oportunidade para ver outras coisas de São Petersburgo, incluso o excelente Museu Russo e o Balé do Teatro Mariinsky, o segundo mais famoso da Rússia, após o Bolshoi de Moscou. Quero também aproveitar a oportunidade para falar dos pontos de São Petersburgo relacionados à época em que ela mudou de nome para Petrogrado e, depois, Leningrado. Foi aqui em São Petersburgo — e não em Moscou — que teve início a revolução russa de 1917, e foi também nesta cidade (em 1942) que as fortunas da Segunda Guerra foram revertidas em favor dos Aliados, com a vitória russa no famoso Cerco de Leningrado. 

Pois vamos. Começando pelo Museu Russo, mais antigo.

O Museu Russo é onde você encontra todas aquelas obras de arte russas que não encontrou no Hermitage (e muitas pessoas vêm a São Petersburgo sem saber e as procuram no lugar errado). Os interiores são palacianos, como no caso do Hermitage, mas aqui se permitem fotos. As obras são sobretudo pinturas, dos séculos XVIII e XIX a maioria, e algumas inclusive talvez conhecidas suas — e que você nunca soube que eram russas.

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O interior palaciano do Museu Russo, em São Petersburgo. Data do fim do século XIX.
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O quadro Leo Tolstoy descalços (1901), do pintor russo Ilya Repin, por muitos considerado o maior artista russo do século XIX. Ele era amigo de Leo Tolstoy, autor de clássicos como Anna Karenina e Guerra & Paz.
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O Último Dia de Pompeia (1833), do pintor russo Karl Bryullov.
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O original do famosíssimo Cavaleiro na Encruzilhada (1878), muito conhecido entre jogadores de RPG e fãs de fantasia medieval, mas que nem sempre sabem que este é o quadro de um pintor russo, Viktor Vasnetsov, do século XIX.
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E muita arte sacra também. Este é o Aparição do Cristo a Maria Madalena após a Ressurreição (1835), de Alexandr Ivanov.

(Eu aqui fiz questão de pôr as fotos tiradas no próprio museu, mas todas essas obras — e muitas outras — estão hoje disponíveis em altíssima resolução através do Wikimedia Commons, caso interesse a alguém.)

Não demorou muito, após a inauguração do Museu Russo em 1895, a São Petersburgo ganhar contornos mais “revolucionários”. Lembrem que ela era desde 1703 a capital do país e, portanto, o centro de tudo. Foi aqui que assassinaram o czar Alexandre II, em 1881, e onde teve início a Revolução de 1905. Esta, menos conhecida dos estudantes ocidentais, foi importantíssima para a desestabilização da monarquia na Rússia — que viria a cair fatalmente em 1917. 

Em 1905, a Rússia havia sido derrotada pelo Japão no Oceano Pacífico — a primeira derrota de uma potência europeia para um adversário não-europeu nos tempos modernos —, e o descontentamento geral das massas persistia. O campesinato havia sido libertado da servidão em 1861 e deixado ao léu, sem condições de prosperar; os obreiros na cidade sofriam abusos dos industriais e tinham poucos direitos; e minorias étnicas no interior desse extenso país ressentiam a política de “russificação” forçada dos czares.

A monarquia aceitou então criar um parlamento aos moldes dos que existiam Europa afora (aqui chamado de Duma), e elaborou uma nova constituição. Os problemas, no entanto, só ficariam dormentes, e apenas por mais 12 anos.

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Em 1914, com o iniciar da Primeira Guerra Mundial, que pôs Alemanha e Rússia em campos opostos, os russos acharam que São Petersburgo (cujo nome se origina do burg, nome alemão para “cidade”) não era patriota, e o mudaram para Petrogrado (usando o nome russo grad, de mesma significação). Como se sabe, durante esta guerra a monarquia russa foi decapitada pelos movimentos populares (em 1917), e teve surgimento a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. 

É possível visitar ainda, aqui em São Petersburgo, o escritório onde Lênin, líder da Revolução de 1917, trabalhava, e inclusive a varanda de onde discursava às multidões de trabalhadores.

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Escritório onde Lênin trabalhava, e daquela porta a varandinha de onde ele se dirigia às multidões.
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Escritório do Partido Comunista depois. Com o retrato de Stálin devidamente ali, como era obrigatório. (Os comunistas, no entanto, re-transferiram a capital de volta a Moscou.)

3 dias após a morte de Lênin em janeiro de 1924, o nome da cidade mais uma vez seria mudado, para Leningrado

Leningrado veio a ser um dos palcos mais famosos da Segunda Guerra Mundial. Em sua chamada Operação Barbarossa, os alemães invadiram a União Soviética em 22 de junho de 1941 almejando Moscou, a capital; o sul, onde estava o acesso aos campos de petróleo do Mar Cáspio; e o norte, cá onde estava Leningrado, de valor industrial e simbólico para os russos. Os alemães lograram estender-se União Soviética adentro mas logo chegariam aos seus limites. Foram detidos a 100km de Moscou no centro; no sul, perderam a épica Batalha de Stalingrado em 1942-43 (hoje a cidade de Volgogrado, sul da Rússia); e cá no norte mantiveram um cerco de quase três anos a Leningrado, sem jamais conseguirem tomá-la. 

Para quem gosta de História das Guerras, o Museu de História Política aqui em São Petersburgo é um prato cheio de fotos, itens de época, armamentos, e detalhes de como tudo se passou durante aqueles dois anos de cerco em meio à guerra. Foram 872 dias de drama, tensão e fome. Dizem ter sido o cerco mais custoso em vidas humanas da História moderna.

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Foto de janeiro de 1944, após a liberação de Leningrado.

E lembrar que isso foi a ainda neste século passado, e que 69 anos depois eu estaria aqui andando por essas mesmas ruas num janeiro.

Em 1991, com o fim da União Soviética, um plebiscito consultou a população acerca do nome da cidade, e ela voltou a se chamar São Petersburgo — seu nome mais clássico.

Hoje, é claro, os novos russos seguem em desenvolvimento de sua nova identidade, resgatando elementos tanto da época czarista quanto dos direitos civis adquiridos durante a era soviética. A Igreja Ortodoxa Russa, por exemplo, tem ganho bastante força nas últimas décadas.

E um desses elementos que parecem perenes na Rússia é o balé. Aqui em São Petersburgo quem domina é o do Teatro Mariinsky, que eu fui ver. Assim como o Balé Bolshoi em Moscou, é preciso reservar lugares com meses de antecedência se você quiser os assentos menos caros. (É possível comprar tudo com cartão de crédito no próprio site do teatro. Fiz isso mais de uma vez e não há mistério.) Há tanto apresentações de dança quanto óperas entre as opções, num calendário de exibições que vai mudando ao longo do ano.

Eu não sou fissurado por danças, então não foi aquela coisa oh-meu-Deus-que-coisa-estupenda, mas valeu a pena, e acho que é parte da experiência de estar na Rússia. Se você for entusiasta por balé, é capaz de ter orgasmos.

E viva São Petersburgo. 

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No Teatro Mariinsky, prestes a ver o espetáculo.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “São Petersburgo (Rússia) no inverno: O Museu Russo, o Balé Mariinsky, e os marcos de quando se chamava Leningrado

  1. Nosssa Senhora!…que deslumbre!… que belezas,!…que banho de História. Adoro essas histórias.; Que cidade espetacular. Nao sei qual a mais bonita, se no inverno ou no verão. Um espetáculo para os olhos!. Linda essa avenida iluminada e a decoração de Natal. E esse museu de História russa,, então, é de babar. Que emoção ver Leo Tolstoy tão simples e tao grande. A sala de Lenin,,, e que belos quadros. Ímpares. Uma beleza. Magnificas essas igrejas e seus deslumbrantes interiores, Um espetáculo à parte. Que cidade.!… belíssima!…. Impressionante. Um encanto. Precisa ser visitada mesmo. Uma riqueza só. E que teatro monumental. Um espetáculo, Que charme, meu jovem, ”Abalou bangu” como diria uma amigo carioca hahah. Maravilha de cidade e de postagem.,Congratulations,

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