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Uísque e Idade Média em Edimburgo, Escócia

Eis Edimburgo, a capital da Escócia.

A Escócia é um país que todos nós conhecemos — pelo uísque, gaita de foles, pelos homens vestindo saias xadrez (kilt), ou pelos gritos de liberdade do William Wallace em Coração Valente. Aliás, “país”? A Escócia faz parte do Reino Unido, que inclui a Grã-Bretanha (Inglaterra, Escócia e País de Gales) e a Irlanda do Norte. Bom, acho que se o País de Gales pode ser chamado de “país”, a Escócia também pode. Mas não são países independentes. Há uma certa autonomia, mas estão todos sob o primeiro-ministro britânico em Londres; no caso da Escócia, desde 1707, quando a Inglaterra a anexou, depois de séculos de guerras. Hoje, uma das discussões mais fervorosas é exatamente a possibilidade que tem se tornado cada vez mais real de a Escócia se separar novamente.


Pra isso, é preciso entender que os escoceses têm uma cultura e identidade diferentes das dos ingleses. Nunca cometa o erro cabal de confundir um com o outro. Pra os falantes de inglês, é fácil distinguir por conta do sotaque: o sotaque escocês (com seus sons nasalados e “R”s vibrados — de laranja) tem um charme próprio mas é terrível de se entender, principalmente se for gente do interior falando. Só indo lá pra conferir.


E eu fui. Era começo de dezembro, já frio como se fosse inverno, pra um evento de alguns dias em Edimburgo, a capital. Como todo bom evento acadêmico, havia a parte social. E como todo bom participante de evento acadêmico, eu aproveitei pra pegar um tempinho extra e conhecer um pouco mais do lugar.


Cheguei num domingo, tudo quieto e molhado. As cidades na Escócia, como na Inglaterra, são uma mistura daquele ambiente escolástico medieval à là Harry Potter, Oxford (com castelos, igrejas de pedra, etc.) e a parte moderna, colorida, bem feia em muitas das vezes, com fast foods por toda parte, lojas de conveniência aqui e ali, e aqueles anúncios de frente de loja barata.

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Mistura de estruturas antigas de pedra com a estética questionável de lojas modernas.

Mas vamos ao que interessa. Do aeroporto há um ônibus rápido que leva ao centro em meia-hora. Do ônibus já se vê uma colina com área verde ao redor chamada de Arthur’s Seat, ou “assento do (Rei) Artur”, até se chegar à área central onde está o Castelo de Edimburgo, a Catedral de Saint Giles (traduzido como Santo Egídio em português), e outros prédios históricos. Você também verá referências e estátuas a Adam Smith por toda parte, o economista lá da “mão invisível” do mercado. Ele era escocês.

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Catedral de Saint Giles e estátua de Adam Smith no centro de Edimburgo.
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Centro de Edimburgo. Essa torre aparece em detalhes no filme Cloud Atlas, que saiu no Brasil em 2013 com o título de “A Viagem”. Recomendado.
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Rua Royal Mile, ou “milha real”, que leva ao Castelo de Edimburgo. (Os ambientes são em geral escuros mesmo).
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O Castelo de Edimburgo ao fundo.

Com todo esse astral medieval, você não vai se surpreender de saber que Edimburgo tem uma das festas de Ano Novo mais famosas do mundo, caracterizada por procissões com tochas pelas ruas. Bem estilo Idade Média. (Só torça pra não chover no dia; afinal, nestas ilhas britânicas chove tanto que, talvez você não saiba, mas a palavra sky, inglês para céu, originalmente significava “nuvens”… pois estava quase sempre nublado mesmo).


Bem, depois de chegar no ônibus do aeroporto, encontrei-me com uma amiga alemã que mora aqui e fomos almoçar. Restaurante indiano — há bons aqui, já que há muitos imigrantes. 

Já a culinária britânica é bastante questionável. Na Inglaterra há a tradição de comer feijão (de lata) ao molho de tomate adocicado no café da manhã, com bacon e batatas fritas. Já na Escócia, um dos pratos mais tradicionais é o haggis, que consiste numa massa de carne (normalmente em formato de bola ou de salsichão) feito com — espero que você não esteja comendo enquanto me lê — pulmão de ovelha misturado com flocos de aveia, vísceras outras e cebola, envolvido no estômago da ovelha como invólucro, pra segurar. (Eles servem isso no café da manhã).


Bom, como eu ia dizendo, fui no restaurante indiano. Pus o papo em dia com a minha amiga, circulamos pelo centro (onde tirei essas fotos), e depois segui para conhecer o local do evento: a bela Universidade de Edimburgo.

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No centro de Edimburgo, “The Elephant House”, um café-bar onde a inglesa J.K Rowling escreveu parte do primeiro livro de Harry Potter.
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A universidade em si tem vários campi, mas esta é a parte antiga, com uma biblioteca bem tradicional. Faz você voltar no tempo.

Foram mais dois dias de reuniões aí — uma oficina sobre impactos da mudança climática global na Europa — com os comes e bebes abundantes de um bom evento acadêmico. (Sem pulmão de ovelha, graças a Deus). Mas o notável mesmo foi a degustação de uísque a que fomos convidados uma noite.


Não sou do tipo que bebe, e nunca gostei de uísque, mas, na Escócia, não tinha como ficar de fora. Fui. Numa mesa posta havia várias tacinhas já aguardando os convidados, num belo salão com piso de madeira e decoração antiga. À frente, para nos descrever as bebidas, um escocês alourado de sorriso bobo impossivelmente parecido com o do Rei do Camarote, aquele que virou hit da internet em 2013. Acho que era a emoção que ele sentia pelo uísque.


Pra quem não sabe, o uísque é feito da destilação do álcool de cereais (cevada, trigo…). O que se chama de “malte” não é uma planta mas um processo, muito usado no caso dos uísques escoceses, de deixar o grão germinar um pouco e as suas enzimas transformarem amido em açúcar, alterando o sabor. Pode-se portanto usar cevada maltada, trigo maltado, ou assim por diante. Os escoceses daí separam seus tipos de uísque de acordo com a região de origem. O envelhecimento é em barris de carvalho (e não na garrafa). Eles engarrafam a bebida a mais ou menos 60 graus alcoólicos. Este é o uísque puro, mas muitas vezes você já o acha diluído, a uns 40 graus.


No nosso caso, o negócio veio puro mesmo. E eu não imaginava que os fabricantes e bebedores de uísque eram tão criativos. No rótulo há uma descrição do aroma da bebida, do sabor inicial, e do sabor após pingar um pouquinho d´água. O nosso Rei do Camarote — ou melhor, Rei do Uísque — estava um amor só, discorrendo sobre essa e aquela garrafa. Perdoem-me não ter atentado para os detalhes, mas vocês vão concordar que haja criatividade. Saquem só a descrição de uma das garrafas que eu provei:


Aroma: ameixa, melão, passas fervidas, grãos de café, e cinzas.

Sabor: Primeiro um sabor seco e travado, daí o de pão de ló assado no licor de frutas vermelhas e com côco verde. (Não estou zoando. Peguem qualquer garrafa de uísque escocês puro que vocês vão ver as descrições viajadas).

Após a gota d’água pra diluir: marmelada de laranja e jaqueta de couro de um fumante, ou o sabor de pudim de leite com uma rodela de laranja flambada em cima.


Você que está aí duvidando, se ler inglês veja a foto.

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E esse ainda era normalzinho. Havia outros que alegavam ter cheiro de estojo de primeiros socorros, gosto de pão assado, fósforo riscado e o cacete. Claro não senti gosto de p**** nenhuma a não ser o de álcool, mas vai ver o meu paladar simplesmente não está treinado o bastante.


Eu sei que foi divertido, e o Rei do Uísque logo estava meio mamado e dizendo besteira. Por sorte havia umas bolachinhas com queijo pra enganar o estômago, e em seguida fomos pra um jantar de encerramento. Nada de haggis pra mim, mas teve gente que pediu (na maior parte aqui da Europa os pedidos são individuais em vez de compartilhados como aí no Brasil).

De quebra, experimentei a tradição natalina britânica dos Christmas crackers, tubinhos de papelão enrolados em papel de presente. Cada pessoa puxa de um lado, a coisa parte e estala como um traque, e dentro tem uma mensagem, um brinquedo, e/ou uma coroa de papel colorido a ser usada pela pessoa durante o jantar. Coisa simples e boba mas divertida.

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Foto de um Christmas cracker com as pessoas puxando.

Valeu a pena. Não comprei saia xadrez nem toquei gaita de foles (embora houvesse vários homens vestidos à caráter e tocando a gaita para os turistas na rua), mas descobri coisas novas sobre a Escócia. Não deixem de vir aqui e levar alguma coisa de lã, que eles aqui vendem por toda parte. Dizem que no verão as áreas naturais também são interessantes.

E não deixem de ficar antenados nas notícias até setembro de 2014, quando os escoceses irão às urnas para um referendo histórico decidir se permanecem parte do Reino Unido ou se passam a ser um estado independente. Tal como no Christmas cracker, se partir vai ser um estouro.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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