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Luxemburgo, um país que você desconhece

Pra mim, até agora a solução da equação França + Alemanha + bancos e muito dinheiro era sempre “Suíça”. Mas agora aprendi que Luxemburgo também é uma resposta válida.

Este pequenino país — menor que metade do estado de Sergipe — está espremido entre a França, a Alemanha e a Bélgica (que por sua vez já é uma boa mistura de França com Holanda). Quase sempre passa despercebido no mapa, mas Luxemburgo está no topo de muitos rankings socioeconômicos, e tem das maiores rendas per capita do mundo. Ou seja, podre de rico.

Aqui estão sediados muitos bancos e empresas atraídas pela política fiscal macia do Grande Duque, o chefe de estado. Luxemburgo é uma monarquia constitucional, como o Reino Unido ou a Holanda, mas aqui o monarca tem maior poder de fato, não só o status simbólico. Um país que normalmente não está nas rotas dos turistas brasileiros, mas que eu fiz questão de conhecer. Ele foi a primeira parada das minhas férias desse Natal passado.

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Luxemburgo, o país que muita gente não vê. Espremido entre a Alemanha ao leste, França a sudoeste e Bélgica a noroeste.

Minhas férias começaram com um trem lotado onde fiquei 2h em pé — pra você não achar que isso só se passa no Brasil. Por alguma razão, todo mundo resolveu viajar na mesma hora que eu. De Amsterdã, na Holanda, a Bruxelas, na Bélgica, de onde eu pegaria qualquer trem para Luxemburgo.

Não sou o maior amigo de Bruxelas — acho uma das cidades mais esculhambadas da Europa —, mas tenho que admitir que os belgas cozinham bem. Eu tive portanto o plano infalível de almoçar em Bruxelas, no Café Arcadi, onde fazem umas tortas salgadas maravilhosas. O pequeno porém é que eu não sabia o endereço. Eu tinha só uma lembrança geral de onde ele fica, e saí a procurar.

Depois de me bater um pouco, acabei pedindo ajuda a um casal que ia passando com um mapa. Depois de muita conversa em inglês, o cara vira: “Ô Cláudia, como era mesmo o nome daquele lugar onde a gente passou?“. Heh, brasileiros. Acabou que o lugar era logo ali de junto, perto da Rue d’Assaut, ou “Rua do Assalto” (essa ia fazer o maior sucesso no Brasil). Perto dali fica também a Rue de la Putterie (se estiver duvidando, busque no Google que você vai ver). Bruxelas tem dessas.


Fiquei tão envolvido pela minha torta com cebola na manteiga que nem me lembrei de tirar foto — perdão. Da próxima vez eu tiro.


Voltei pela Rue de la Putterie até a estação central e tomei meu trem para Luxemburgo. Mais 2h e meia, mas fui sentado desta vez. Quando chegamos lá já estava anoitecendo, e eu sabia que tinha uma longa caminhada até o meu albergue.

O que eu não sabia é que Luxemburgo tinha tantos altos e baixos, pois isso o Google Mapas não te mostra. Há uma cidade alta e uma cidade baixa, nem sempre com passagens de uma para outra. Quando há, são muitas vezes ruelas tortuosas ou escadarias, como você esperaria de uma cidade com estruturas da Idade Média. Uma perdição.

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Saguão da estação central de trens em Luxemburgo.
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Estação Central vista pelo lado de fora.
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Área ao redor da estação, uma parte mais moderna da cidade, nada especial. Cheia de imigrantes, muitos deles portugueses. Não se surpreenda se ouvir a língua na rua.
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Ponte que leva de lá ao centro histórico da cidade, onde estão as coisas interessantes.
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Ruelas medievais no centro histórico de Luxemburgo. Fácil de se perder. E tome-lhe sobe-e-desce.
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Mais ruelas medievais. Ao menos é um cenário bonito onde se perder.

Acabei vendo mais da cidade à noite do que planejei, e albergue que é bom, nada. Fui parar por engano lááá no fundo da cidade baixa, uma área bonitinha chamada de Grund (do alemão para “chão”, como ground em inglês). Pelo nome você já imagina que lá é o fundo do fundo.

E não teve jeito, tive que perguntar a alguém. Ninguém sabia o nome da rua pra onde eu ia, então tive que usar museus “próximos” como referência. Meu alemão é quase zero, mas no francês eu me viro bem, e por sorte um casal de senhores lá embaixo pôde me ajudar. Meia volta volver.

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Vista de uma pequenina ponte sobre o Rio Alzette, na área do Grund, em Luxemburgo.

O casal de senhores me indicou um elevador escondido que leva direto de volta à parte alta do centro histórico, e recomecei minha jornada. Depois de ainda me bater por pelo menos mais uma meia hora, cheguei ao albergue. Me senti como naqueles jogos de RPG/Aventura em que você tem que achar o caminho.


O albergue (Luxembourg Youth Hostel) em si não era nada especial; parecia um predião de 4 andares de residência estudantil com quartos coletivos. Já fiquei em albergues com mais personalidade, mas vamos lá. A sorte é que era inverno, e que os europeus em geral não são de tomar tanto banho quanto nós, pois havia não mais que dois chuveiros para um andar inteiro com capacidade para umas 100 pessoas. No quarto, um cara roncava que mais parecia que eu estava dormindo com Smaug, o dragão de O Hobbit.


E, falando em Hobbit, o café da manhã era bastante chinfrim, daqueles que forçam você a buscar um segundo café da manhã logo em seguida. Fatias de pão branco, queijo, presunto, e leite com sucrilhos, além de umas maquininhas de café e suco. Se for vegetariano com pouca tolerância à lactose como eu, está lascado. Me aventurei no café, mas acho que devo ter apertado o botão da “água quente” por engano. E quanto ao “suco”, enquanto eu tomava o meu um rapaz espanhol perguntou ao amigo de frente para a máquina: “Es de naranja?“. O amigo não ouviu, ao que eu intervim: “Si, pero hay que utilizar un poco la imaginación“. Ele se aventurou; tomou um gole e retrucou com aquela cara irônica de espanhol: “Mucha imaginación!“. Se você nunca saiu do Brasil e só conhece o suco de laranja daí de verdade, saiba que é abençoado(a), porque aqui na Europa é quase sempre suco processado ou tang de laranja. Mas, bom, vamos à cidade — pra tomar café e conhecê-la.


Luxemburgo faz uma mescla das culturas dos seus dois grandes vizinhos, a francesa e a alemã — embora, à minha vista, me pareça que puxa um pouco mais para o alemão. Por outro lado, o francês é mais falado que o alemão aqui. Até porque o alemão que aqui se fala é mais o “Luxemburguês”, um dialeto local que os alemães acham engraçado. (Não diga ao povo de Luxemburgo que o que eles falam é dialeto; eles gostam de dizer que é uma língua diferente).


Pra aprender um pouco mais sobre a cidade, fui ao museu histórico. Bem arrumadinho, e não é cansativo. Mas primeiro, como de costume, fui ao café do museu tomar um espresso pra evitar a sonolência depois da noite mal dormida com Smaug. Aproveitei também pra comer algo. Lá também conversei com Manoel, um dos muitos imigrantes portugueses aqui. O lugar aconteceu de ser um café meio naturalista, com várias opções vegetarianas/veganas, e peguei um bolo de manga que não estava mau. (Já a salada de quínoa, cereal andino hiper-fashion na Europa, deixaria os bolivianos e peruanos decepcionados, pois só tinha gosto de limão. Mais sobre o quínoa quando eu relatar a ida aos Andes, em breve).


Segundo a lenda, o Conde Siegfried, um nobre germânico, passava por estas bandas nos idos do ano 963, quando avistou uma ninfa das águas, Melusina. Foi seduzido e acabou fixando morada aqui, construindo o Castelo Bock, e casou-se com ela. A ninfa, é claro, não aparece na História, mas o castelo Bock existiu e suas reuínas continuam aqui. Na História, o conde (que também existiu de verdade) adquiriu as terras com a Igreja Católica.

O lugar era chamado de Lucilinburhuc, nome na língua local da época para “pequena fortificação”, que é o que havia ali, talvez deixada pelos romanos. Ao longo dos séculos os herdeiros do conde deram jeito de se manter independentes apesar das ameaças e ocasionais invasões de seus vizinhos, França e Alemanha. Os luxemburgueses se orgulham não só disso, mas também de serem membros-fundadores da União Europeia (junto com Bélgica, Holanda, Itália, França, e a então Alemanha Ocidental).

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Ruínas do Castelo Bock.
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Paredões remanescentes da Idade Média, com as cidades alta e baixa.
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Vista das antigas muralhas e da igreja de São João do Grund. Agora imagine eu perdido aí à noite, subindo e descendo com o mochilão nas costas. Ah vida.

E nenhuma visita a uma cidade de influência alemã é completa nessa época sem uma ida às tradicionalíssimas Feirinhas de Natal (Christkindlmarkt). Não se assuste com a palavra alemã; as feirinhas de Natal são bem legais e típicas, e ajudam a compensar a falta de sol e o frio do inverno. Há sempre as barraquinhas vendendo vinho quente (quentão, ou glühwein no original alemão), artesanatos natalinos, comidinhas, etc. Claro que hoje, com a globalização, você encontra de tudo, desde stands de brinquedos fabricados na China até incenso indiano. E as “comidinhas”, é claro, seguem a tradição alemã, então muito salsichão, chucrute e fritada de batata.

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Feirinha de Natal em Luxemburgo.
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Uma das muitas barracas vendendo quentão. Já a Gaufre é uma wafer belga, uma massa crocante açucarada com creme, morangos, nutella ou o que você quiser em cima.
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Barraca com as moças vendendo fritadas de batata. Não estou chamando de “batata frita” porque não é naquele formato mais comum. Estas daqui são em rodelas grossas, e são fritas com alho e ervas. Ficam uma beleza.
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Tiozinho vendendo marrons chauds, o que literalmente do francês quer dizer “marrons quentes”. Mas não tem nada a ver com a Alcione. São castanhas portuguesas assadas — também super típico.
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E as feirinhas de Natal também têm música ao vivo, normalmente com orquestras tocando aquelas músicas natalinas clássicas.

Passei longe do salsichão, mas experimentei as fritadas de batata e também um quentão especial que, segundo me disseram, é típico daqui: o Feuerzangenbowle (até tirei foto do nome escrito pra me certificar de que acertaria a escrevê-lo depois).

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Feuerzangenbowle, o quentão flambado de Luxemburgo.
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Demonstração na frente da barraca. Basicamente o cara ateia fogo ao rum e o derrama sobre um cone branco de açúcar, que então derrete-se sobre o vinho quente no panelão.
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Experimentando o negócio. O gosto é de quentão com um pouco mais de açúcar. Não é mau. Ajuda a esquentar.

Já a minha segunda — e última — noite no albergue poderia ser chamada de “A Desolação de Smaug”. O meu colega de quarto (éramos seis ao todo) roncou como nunca, a noite inteira. Todo mundo tem uma história dessas de algum roncador, mas esta realmente foi das piores da minha vida. Tive uma noite daquelas de dorme-e-acorda como em viagem noturna de ônibus ou avião. E eu vi a hora de o pau comer, pois ninguém no quarto conseguia dormir — exceto, é claro, ele próprio. Certa hora deram três pancadas na cama dele e dois gritões, mas nada. Desceram até na recepção para reclamar, onde prometeram mudar o cara de quarto… na noite seguinte. Eu vi a hora de o roncador apanhar. Eu sei que quando ele acordou, aos gritos dos que passaram a noite quase em claro, já eram umas 6:30 da manhã. Eu havia desistido de dormir.


Desci pra tomar meu café como se tivesse perdido a noite. Lá acabei encontrando vários brasileiros intercambistas do programa Ciência sem Fronteiras. Os albergues europeus agora estão cheios de conterrâneos. Se você acha que brasileiro cá fora é sinônimo de baderna e vergonha alheia, não se iluda: os jovens europeus aqui fazem tanta ou mais baderna. Além disso, essa vinda mostra brasileiros de verdade aos europeus, para além dos jogadores de futebol e das dançarinas do carnaval. Muitas pessoas aqui na prática vivem como se o mundo se limitasse a Europa, América do Norte e Ásia. A América do Sul aparece como aquele lugar distante, exótico e tropical, mas na prática os europeus acabam sabendo muito mais da Índia ou do Japão — culturas muito mais distantes — do que do Brasil, o que é um contrassenso. Então fico contente de ver isso mudando na medida em que os jovens europeus fazem contatos com jovens brasileiros.


Quanto ao meu sono, bem, o “chafé” do albergue é claro não resolveu, mas o alarme de incêndio ajudou a me acordar. Uma menina chinesa queimou torradas e acabou enchendo todo o refeitório de fumaça, para satisfação geral. Eu arrumei a mochila e fiz meu check-out, pois à tarde me aguardava um voo para a Itália, onde passaria o Natal. “Mairon em Veneza” no próximo post.


Por agora, deixo vocês com mais algumas fotos de Lëtzebuerg, como eles aqui chamam o país e a sua capital.

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Prédios históricos com ar de mal-assombrados em Luxemburgo.

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A Catedral de Nossa Senhora de Luxemburgo.

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(Continua em Veneza: Canais, labirintos, boa comida e hotéis de luxo.)

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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