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Pra cá de Marrakech: Bem vindos ao Marrocos

34 graus. Um calor da moléstia em Marrakech, como o brilho na minha testa aí não esconde. Estamos no final do inverno marroquino. Entre um parágrafo e outro, espio as moçoilas — brasileiras e estrangeiras — tomarem banho na piscina do nosso albergue, um belo casarão mouro escondido no meio da medina.


Quando você sai do aeroporto e pega o ônibus em direção ao centro, parece que está viajando pelo sertão nordestino. Tudo é seco e cheio de pedregulhos. As casas cor de telha são pobres e as calçadas, quebradas. O solão encandeia a sua vista e, no ônibus, você começa a suar. As pessoas do lado de fora parecem simples e sem grandes requintes, e entre uma motoca e outra você avista uma carroça.


Só que aí você começa a reparar na arquitetura mourisca das casas maiores e de algumas torres. Mesquitas com minaretes aqui e ali. E, cedo ou tarde, você nota a Cordilheira do Atlas mais atrás, com seus picos nevados junto daquela paisagem nordestina.

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Vista de Marrakech, sem uma nuvem no céu e com a Cordilheira do Atlas ao fundo.

Cheguei após uma breve noite em Lisboa. Foi o suficiente pra matar a saudade dos bolinhos de bacalhau, dos pasteis de Belém, e das graças da língua portuguesa — no avião havia um português jogando “sopa de letras” (caça-palavras), e ao retirar a bagagem assisti a uma entrevista com Pinto da Costa, presidente do Futebol Clube do Porto comentando a demissão do técnico.


Um curto voo de 1:40h separa Lisboa de Marrakech, que não é a capital (Rabat) nem a maior cidade do Marrocos (Casablanca), mas é facilmente a mais turística do país e uma das mais interessantes.

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Primeiro passo: o formulário de imigração em árabe, francês e inglês que você recebe no avião. O francês é a segunda língua mais usada do país, depois do árabe.
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Aeroporto de Menara, em Marrakech.

O aeroporto não é grande, mas prepare-se para passar uma boa meia hora na fila da imigração. O serviço é lento como a peste, lentidão agravada por muitos jovens europeus (acostumados a circular pela Europa sem burocracia e até sem passaporte) que se atrapalham no preenchimento do formulário, ou que chegam no guichê sem tê-lo preenchido. E alguns ainda querem que os marroquinos falem todas as línguas. Na fila ao meu lado, um rapaz espanhol reclamava em castelhano querendo que o oficial de imigração marroquino o entendesse.


Já na fila do outro lado, uma jovem clara, também europeia, posava com uma bela mini-blusa, barriguita de fora, calça collant, olhar provocante e ar de lolita. E eu imaginando o que os homens daqui, já machistas e acostumados a mulheres cheias de pano, devem pensar. Não estou dizendo que eles estão certos, mas estou apontando a inconsequência e falta de tato social das pessoas.


Seja como for, ambas as filas, tanto a do espanhol quanto a da lolita, pareciam andar mais rápido que a minha. Atrás, um tio de bigodinho — que parecia uma versão menos sorridente do Khaled vestido em uniforme policial — supervisionava a nossa manada. Mas apesar da demora, passei sem problemas. Quando você chega nas malas, a esteira até já parou de rolar e elas estão lá só esperando você.


Em tese, haveria também alguém do albergue esperando por mim para me levar, mas é claro que não havia. Ninguém havia confirmado a minha solicitação — que eles oferecem –, e o jeito foi pegar o ônibus comum e achar o caminho por conta própria.


Pra começar, o motorista do ônibus me largou no ponto errado.

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Ruas por onde íamos passado. Foto tirada da janela do ônibus. Muitos lugares com cara de boteco.

Em Marrakech, a principal referência é a Praça Djemaa El-Fnaa, coração do centro antigo. Era lá o meu primeiro destino, pra então tentar seguir o meu mapinha e encontrar o albergue no meio da medina. Perguntei ao motorista se a praça era a parada final, e ele, um gordinho de bigode, disse que sim. Quase meia hora depois, ele me chama, em francês:


– “Você não desceu?“, perguntou-me ele.

– “Não. Você não disse que era a última parada?

– “Nããão, eu disse que era a primeira parada“, responde ele com um breve sorriso.

Eu olho pra ele com aquela cara. (E juro que minha pronúncia não é nada tão terrível que o faça confundir dernier com premier).

– “Mas daqui dá pra ir.”, completou ele com aquele tom de motorista de ônibus a solucionar os seus problemas. “Uns 20 minutos de caminhada, siga aí por dentro da medina, e você chega lá na praça.


Que outra opção eu tinha? Peguei a minha mochila e saltei.

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Eis onde o ônibus do me largou.

O ambiente é tudo o que você imagina e mais um pouco. Calor de 30 e tantos graus às duas horas da tarde, e o cheirão de feira-livre, de verdura passada e água suja no chão, adicionado a muita urina evaporada. De quebra, as motos, bicicletas e carroças ziguezagueando em meio às pessoas.


Medina, lá vou eu, pelo becos e ruelas em direção à praça central, Djemaa El-Fnaa.

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Centrão de Marrakech, onde meu caminho começou após descer do ônibus.
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Medina adentro, rumo à Praça Djemaa El-Fnaa.
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As ruelas na medina.
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Motos no meio das pessoas, e todo tipo de coisas à venda.
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Sacas de temperos à venda.
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Artesanato em metal.
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Galinhas.
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Um vendedor de rua.
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Carroças puxadas por burros.
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Mulheres marroquinas andando na medina.
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Arcadas mouriscas.
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E um grande comércio que parece não ter fim.

Conforme você vai se aproximando da Praça, a medina vai ficando mais turística. É um grande mercadão, por vezes coberto, por vezes a céu aberto, onde você facilmente se perde. Esqueça esse negócio de nome de rua. O máximo que você acha aqui são umas plaquetas ocasionais te indicando a direção da praça principal, e só.


Depois de muito expor a minha figura na medina, achei a praça. Djemaa El-Fnaa não é exatamente uma praça arborizada estilo cartão postal, mas um grande calçadão aberto e cheio de barracas, vendedores ambulantes e artistas de rua. À noite então, você aqui tem desde encantadores de serpente até palhaços (ou você vai me dizer que nunca tinha imaginado palhaços árabes?).

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Praça Djemaa El-Fnaa à tarde.
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Sinta o solzão quente.

O suor já me escorria, e a ponchete de dinheiro escondida debaixo da roupa já estava encharcada. Acho que a moça do albergue nunca se perguntou por que as notas de euro, já secas, estavam todas tortas e empenadas.


Mas quem disse que de lá foi fácil achar o caminho? O restaurante que serviria de direção para eu saber qual ruela tomar simplesmente não existia mais. Pegou fogo. Só que, é claro, isso eu não sabia. Rodei por mais de uma hora procurando, e nada. Ofertas de ajuda não faltavam, mas eram todas suspeitas: 15 reais pra lhe indicarem onde fica a rua. Aqui quase todo mundo cobra por coisas que no Brasil a gente faz por presteza. Isso, é óbvio, não se refere aos marroquinos em geral, mas definitivamente é o comum nas áreas turísticas. Então esteja alerta, pois o favor quase sempre vem com uma conta no final. Se estiver disposto a pagar, melhor acertar o preço no começo para evitar confusão.


Pra escapar disso, perguntei ao guarda. Ele me indicou sem problemas (e sem custo), e eu segui. Por sorte, eu havia visto algumas fotos do lugar na internet e tinha instruções escritas. Finalmente, entre becos e ruelas, eu achei o albergue.

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Gato na encruzilhada de becos.
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Enfim, o albergue. Precisa ter alma de Indiana Jones pra achar.
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Mas também, do lado de dentro…

Esse é o pátio interno do albergue, de onde este humilde viajante vos escreve. Esses pátios internos com fontes e às vezes jardins são típicos árabes, tradição depois passada aos espanhois e portugueses. (Pra quem acha que custa uma fortuna, saiba que a noite aqui pode sair a menos de 35 reais).


Neste exato momento, o muezim ecoa pela cidade chamando os fiéis para a oração final da sexta-feira, que é o dia mais importante no Islã (como o domingo é para os cristãos).


Será um mês aqui em Marrakech, em princípio a trabalho, mas é claro que também para conhecer o lugar. Então aguardem as histórias.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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