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Dia e noite na medina de Marrakech, e a comida no Marrocos

Minha mãe sempre tirou com a minha cara (literalmente) dizendo que eu tenho nariz semita. Não sou antissemita, mas nunca curti muito a ideia. Seja como for, eu pelo visto passo direitinho por marroquino. Ninguém mexe comigo na medina, ao contrário dos turistas caras-pálidas, que sofrem assédio o tempo todo. Eu outro dia perguntei a uma senhora aqui se era por causa da minha barba, ela disse que não, que era “porque você tem assim uma cara de berbere“, disse ela gesticulando e fazendo aquele olhar intenso de quem estava analisando a minha face.


Tá bom, né. Pra quem não sabe, os berberes são os povos nativos aqui das montanhas do norte da África, que já habitavam a região antes da chegada dos árabes no século VII. Hoje há uma mistura, mas ainda há comunidades tradicionais berberes que falam seu próprio idioma e têm seus hábitos próprios, apesar de terem todos se convertido ao Islã.


Pena eu não saber falar árabe. O disfarce se quebra logo que eu abro a boca, já que falo em francês quando quero me comunicar com eles. Ou quando estou em grupo. Outro dia saí com uns brasileiros, um deles um belo-horizontino vestido com a camisa do Atlético Mineiro, e aí foi a festa. Os marroquinos até hoje comemoram a vitória do Raja Casablanca sobre o Atlético no Mundial de Clubes de 2013. A cada segundo alguém gritava “Galo!” e “Chupa, maria!“, que eu não sabia mas é a zoação dos atleticanos em cima dos cruzeirenses. Os marroquinos aprenderam direitinho e gritam com gosto mesmo, com aquele sorrisão no rosto (embora provavelmente não façam ideia do que significa). Só quem não gostou foi uma paulista chamada Maria que estava no grupo.


A medina é assim, muvuca o dia inteiro. Circulamos por um mundo de lojas. Os principais produtos aqui são couro, tecidos, lamparinas, tapetes, e óleo de argan, que é uma semente da região cujo óleo está super na moda — dizem que é bom pro cabelo, pra a pele, e até na comida. E o que não falta é gente querendo te passar gato por lebre. Ontem fui comprar do tal óleo, a tia me jurando que era 100% puro, e no próprio rótulo vinha dizendo que havia óleo de parafina misturado. Só que nem tudo tem rótulo, então prepare-se para vendedor querendo te passar tecido sintético como sendo seda, etc.

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Loja de tecidos, e o rapaz com a camisa do galo.

Isto aqui é algodão com linho!“, me dizia ele na maior cara de pau. Além disso, tudo é supostamente feito à mão. Você que seja trouxa de acreditar em tudo que eles dizem.

Ontem eu tive que rir na cara do vendedor quando ele quis me vender algo de caxemira, dizendo que era típico daqui, e eu perguntei se não era da Índia. Ele, com uma performance digna de Oscar, me respondeu sério: “Certa vez veio uma indiana aqui. Ela viu, gostou, fotografou — e nisso ele ia fazendo a cara da suposta indiana — aí de repente eles começaram a fazer lá na Índia também. Você vê, é como os chineses, que copiaram a tecnologia alemã e agora fazem imitações mais baratas.”. Não consegui ficar sem rir, e ele me olhando sério. Queria me cobrar 50 reais num chale que na Europa eu acho, importado, por 20 ou 30.

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Lamparinas mil.

Enfim, tudo aqui é na barganha, e você precisa ficar esperto pra não levar gato por lebre. Só nem perca seu tempo com os quartzos coloridos, que são pintados, e nem com os (esse os meus colegas biólogos vão gostar) fósseis de trilobita, esses sim feitos à mão, porque não são originais nem aqui nem na China.

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Supostos fósseis de trilobita à venda, aquelas rodinhas cor de areia. (Pra quem não sabe, os trilobitas eram artrópodes da Era Paleozóica, de antes do surgimento dos dinossauros, e seus fósseis estão à venda aqui assim, é claro)

Enquanto nos becos da medina o comércio corre solto, na Praça Djemaa El-Fnaa dominam as atrações populares, bem a là circo de rua. É tanto que a praça, apesar de visualmente não ser nada especial, foi tombada pela UNESCO em 2001 como patrimônio imaterial e oral da humanidade.


Pena que não dê pra entender muito, mas você vê tiozinhos contando “causos” e histórias, que segundo dizem são os mesmos há séculos. Há também os encantadores de serpente, músicos, homens vestidos de mulher fazendo dança do ventre, e toda sorte de espetáculo de rua. A praça fica repleta de rodinhas de gente com algo acontecendo.

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Tiozinho tocando a corneta, e a naja ali no meio. Havia outras na caixa. Às vezes ele puxava um dos meninos pra chegar perto, mas os meninos não chegavam nem a pau.
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Vendedor de óleos, temperos, lagartos de borracha, e sabe-se lá mais o quê.
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Povão rumando para a praça já no cair da tarde.

Quando chega a noite, a muvuca aumenta. Eles montam dezenas de barracas de comida, e sobe aquele fumacê com cheiro de churrasquinho.

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Imagine você ali no meio.
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Tiozinho limpando o suor da testa, que certamente vai para salgar o frango.
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Roda de viola que não é de samba.
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Algum jogo de pegar as tampinhas das garrafas com o anzol.
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Tiozinho animado servindo caracois cozidos. (Aquilo marrom ali que você está vendo não é amendoim, tolinho).

Mas eu fiquei de falar das comidas daqui. As pessoas ficaram se perguntando o que eu estava comendo naquela foto inicial do post anterior. Aquilo era um figo da Índia, uma fruta roxa do tamanho de um figo, mas com textura de goiaba por dentro (cheia de caroços pequenos no meio da polpa) e meio azeda. Os dentes ficam lindos. Aqui na praça é cheio de carrinhos-de-mão vendendo.

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A fruta dá nesse cacto aí, e se come sem a casca. O tiozinho corta com uma navalha e te dá o interior enfiado num palito.

Teve quem pensasse que eu estava comendo kibe. Na verdade, eu não vi nenhum sinal de kibe nem de esfirra por aqui. Se é que essas são mesmo comidas árabes (e não invenções brasileiras), são lá do lado sírio-libanês, no Oriente Médio. Aqui nem sinal. O que muito tem aqui é cuscuz, que no norte da África é feito de semolina (trigo moído) em vez de milho como no Brasil. Você come misturado com caldo e verduras ou carne no almoço.


Além disso, eles servem muito o tajine, que é um cozidão de qualquer coisa na panela de barro. Tem tajine de verdura, de frango, de carne, do que você quiser.

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Cuscuz com verduras, e a coca-cola em árabe.
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Garçom servindo o tajine. Vem num prato de barro com aquela tampa cônica.
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Tajine de legumes, pão (que aqui sempre acompanha as refeições), e suco de laranja, também bastante comum.

O gosto é meio insosso, se você quer que eu seja franco. Tem gosto de verdura fervida no sal, e o tempero passa looooonge. Talvez os de carne sejam mais saborosos. Aqui é típico comer cabeça de carneiro, que vem inteira e é uma iguaria marroquina, mas esses pratos vocês vão ter que descobrir por conta própria.


O que eu peço muito são os grãos. Achei uma birosca perto da praça onde almoço por 4 reais. Há umas lentilhas bem temperadas e feijão branco no caldo. O naipe do lugar faz você se arrepiar, mas até agora não tive dor de barriga.

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A birosca onde eu almoço.
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Aqui o povão almoça de mão mesmo, mas o tio me dá uma colher ou garfo. Turista passa longe.
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Meu cuscuz com feijão de cada dia. Ali no meio do feijão é azeitona.

Um videozinho do lugar:

Aqui todo lugar que se preze te oferecerá, de graça, o chá de menta típico marroquino após o almoço. Foi o que mais gostei em matéria alimentar aqui no Marrocos até agora. O chá é uma mistura de menta fresca com sálvia e jasmin, vem já adoçado e é uma beleza. Não vi pra comprar; eles fazem no dia. E o melhor é que, segundo o hábito, você tem que ir distanciando o bule do copo, e servir igual Cataratas do Iguaçu. Esse tio aí, sem brincadeira, consegue 1 metro de distância. Ele abaixa o copo com a mão esquerda, suspende o bule até onde pode com a mão direita, e não erra. Ainda consigo uma foto.

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O chazinho de menta no copo de pinga depois do almoço é tudo de bom.

Já o café, meu filho, esqueça. Café aqui é azedo pra burro, ralo, e às vezes misturado com chicória. Não estou brincando. A ideia é fazer render. Pra quem não sabe, a chicória é uma raiz. Dizem que é bom para a saúde, mas no café fica horrível.


Em termos de bebidas, opte pelo suco de laranja, que aqui você acha por toda parte a 1 real. É fresco, feito na hora, mas servido naquele copinho de vidro melado, que o cara pega com a mesma mão que recebe o dinheiro. Mas é saboroso. E depois de estar meses na Europa, limitado a suco de laranja pasteurizado de garrafa, esse natural vem a calhar.

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Vendedor de suco de laranja fazendo pose.

Por fim, o que você também encontra muito são frutas secas, sobretudo tâmaras e damascos (abricós). São relativamente baratos, mas você precisa procurar bem ou será esfaqueado na praça, onde eles chegam a te cobrar R$70/kg por algumas. Os damascos não diferem muito do que se acha na Europa ou no Brasil. Já as tâmaras secas, incomuns no Brasil, são deliciosas e bem doces.

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Tâmaras e damascos secos, de diversos tipos. À direita dos damascos (os amarelos), há também figos.

Os vendedores aqui sempre te chamam quando você passa, e te oferecem pra degustar. Eu, claro, experimentei. Aí já veio ele empolgado se adiantando:


— “Tem essa caixa de 1 kilo, e essa outra de meio kilo, qual você vai querer?“.

— “Não não, só tô experimentando, não quero levar agora não“.

Aí ele me olhou com aquela cara de “filho da mãe, degustou e não vai comprar”.

— “Você é argelino?“, me perguntou ele. (Nota: os argelinos e os marroquinos não se dão lá muito bem, e a fronteira até é fechada).

— “Não, sou brasileiro. A gente se vê.”


E me despedi dele. Aqui se você der corda o vendedor te segura até você comprar.


Eles aqui às vezes ficam p*tos com esse hábito brasileiro de chegar, fazer aquela social, e não levar nada. Quem manda eles acharem que todo turista é trouxa?


Bom, a saga continua. Nos próximos posts falo sobre os monumentos em Marrakech. Há bastante coisa bonita.

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Palmeiras na praça à noite, com o minarete da Mesquita de Koutoubia ao fundo.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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