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Pra não dizer que não falei dos doces árabes, ou da parte moderna de Marrakech

Laranja madura, na beira da estrada, aqui nem está bichada nem há necessariamente marimbondo no pé. Na verdade, fora da medina há ruas belamente decoradas com laranjeiras nas áreas mais modernas de Marrakech. Parece o Brasil, só que todos os prédios têm a mesma cor, e há palmeiras e laranjeiras dando o toque especial. Muitas das laranjas vêm fazer parte dos doces que acabaram ficando de fora do post anterior sobre as comidas no Marrocos.

Como turista, às vezes a gente se apega à parte antiga (turística) e acha que aquilo é a cidade. É assim na Europa e aqui no mundo árabe não é diferente, com as medinas. É o mesmo que estrangeiro achar que o Pelourinho é Salvador, sendo que na prática é uma área aonde os soteropolitanos pouco vão.

Em Marrakech, a parte nova é chamada de Ville Nouvelle (“Cidade Nova”). Ela foi idealizada pelos colonizadores franceses, que fizeram do Marrocos um “protetorado” entre 1912 a 1956, daí o Marrocos ter o francês como principal língua europeia. A área foi se desenvolvendo após a independência (1956) e hoje é point de passeio tanto de turistas quanto de marroquinos de classes média e alta. A medina (que é onde o povão morava) ficou como comércio de baixa-renda e pra turista.  

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Ville nouvelle, área mais moderna de Marrakech, com suas laranjeiras na calçada. Mais arrumada que muita cidade brasileira.
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Como no Brasil, há os ambulantes. Este vendia grão-de-bico cozido, muito popular entre os marroquinos.
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Os carros e motos são a mesma loucura que no Brasil, e ninguém pára pra você atravessar.

Caso alguém esteja surpreso de ver a moça ali de preto sem véu, saiba que aqui eles não são muito rígidos com isso. Sobretudo as mais jovens, estão muitas vezes sem véu (embora com os ombros e joelhos sempre cobertos). Acontece muito, por exemplo, de elas estarem às vezes com o véu e às vezes sem véu. As moças que trabalham aqui no albergue, por exemplo, usam véu na rua e aqui dentro tiram. Aí fazem exposição dos seus belos cabelaços castanhos ou negros. Os homens marroquinos, pouco acostumados, não conseguem ver um centímetro de pele exposta que já começam a babar, e se comportam igual a pedreiro de obra.


As mais jovens são também muito mais acessíveis que as já senhoras, que são quase sempre mais tradicionais e de cara fechada. Então acho que há um abismo generacional, parecido com o que se vê no Brasil entre quem foi criado antes dos anos 60 ou depois dos anos 60. (Por exemplo, é improvável que você jamais tenha visto a sua avó vestindo calças). As coisas aqui estão mudando.

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Minarete da Mesquita de Koutoubia, perto da medina mas já na parte moderna da cidade. E jovens caminhando na calçada.

Por outro lado, é curioso notar como certas tradições se mantêm independentemente do conservadorismo ou da religião. Por exemplo, eu já havia notado nas viagens à Indonésia e à Turquia que em países muçulmanos é difícil ver cachorro. Não há cachorro, ou são raros. E a razão é que a saliva dos cães é considerada impura (bem, de certa forma é mesmo). Já os gatos estão livres pra circular à vontade, e o que você mais vê na rua é gato vira-lata. Você se depara até umas cenas meio “fortes”, tipo filhotinhos de gato partilhando uma cabeça de galinha crua no canto da rua, essas coisas.

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Esse é o refeitório do café da manhã. E esse é o gato mais pidão aqui do albergue. Há vários. Esse é aficcionado por manteiga.

Falando em refeitório, eu havia omitido os doces no post anterior. Depois me dei conta. Os doces aqui no Marrocos não são maus. São um pouco “padronizados”, no sentido de que quase todos incluem amêndoas (ou nozes, ou afins) moídas e mel em alguma massa. É como leite condensado no Brasil, que vai em quase todos os docinhos, senão todos. Aqui eles são bem doces, então se você é daqueles que não gosta muito de açúcar, vá com calma.

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Caixa de docinhos marroquinos.
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Marroquina vendendo doces numa banca na praça.
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Comendo dos famosos cornos de gazela numa bodega hoje de tarde. O nome se deve ao formato curvo. São deliciosos, feitos com amêndoas moídas, açúcar e água de flor de laranjeira na massa. E, ao contrário de boa parte dos outros doces, esse tem pouco açúcar e não é enjoativo.

É também bem comum ter fruta na sobremesa, e acho que é estação de laranjas, então elas estão por toda parte. Vai até bolo de chocolate com laranja em cima e, meu filho, é bom, viu.

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O pó branco parecendo cocaína é açúcar refinado, e o outro é canela.
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Bolo de chocolate com laranja, e rodelas em cima.

Esse aí eu comi ontem no jantar, naquele mesmo refeitório do gato. Tocavam umas músicas Anos 70/80 (tipo Sweet Child O’Mine, Hotel California, etc.), e afora o bolo e as músicas, a minha atenção se dividia entre a simpática garçonete, Khalima, e o dono do albergue, um senhor catalão alto que parecia o Professor Girafales de óculos e cabelos brancos, que estava sentado na mesa ao lado trabalhando no computador calado mas volta e meia soltando um “mierda“, que quebrava o meu foco.


E a vida cá no Marrocos segue.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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