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Mais desigual que o Brasil: Em Johannesburgo e Soweto, África do Sul

Sento-me numa confortável poltrona à là século XIX, bebericando do licor de cereja servido pela criada. A poltrona é daquelas antigas de madeira, com estofo estampado; já o licor é uma iguaria regional, guardada aqui em frascos de cristal e servido em copinhos finos e elegantes. À minha frente, um senhor branco, alto e gordo, beirando os 60 anos, me dá as boas vindas à casa de sua família. Ao lado, duas criadas, negras, uniformizadas (e com lencinho no cabelo), nos olham postas aguardando as ordens. Uma delas me lança um prestativo e caloroso Welcome, sir!, sem quebrar a postura. Visto que estávamos falando inglês, senti-me na casa grande de alguma plantação de algodão do sul dos Estados Unidos no tempo dos escravos (como no filme Django Livre). Só que aqui não é século XIX e nem XX — é 2014.


Estamos em Johannesburgo, a maior cidade da África do Sul. É o coração econômico do país, apesar de não ser uma de suas capitais. (A África do Sul divide as sedes dos três poderes entre Pretória, Bloemfontein, e Cidade do Cabo, e portanto tem oficialmente três capitais). Apesar disso, Jo’burg (como é coloquialmente chamada) é talvez a cidade mais representativa do país e dos seus contrastes. Estamos no bairro de Linden, uma área nobre. As ruas são arborizadas e bem mantidas. Está entrando o outono, e as folhas ganhando cor. Esta área é toda residencial, e não há uma viv’alma a pé a ser vista nas calçadas; toda a mobilidade é à base de carros. Na casa onde estou não há sequer portão de pedestre, mas há dois de garagem.


As cercas elétricas, onipresentes no Brasil, aqui também são comuns. Elas são, inclusive, maiores — têm em geral o dobro da altura. Nos portões de muitas casas lê-se as placas de metal escritas Armed Response [“Resposta Armada”] a quem tentar algo. São as empresas de segurança privada que, como no Brasil, se tornaram um negócio da China. Só que aqui elas têm uma mensagem um tanto mais hostil que os nossos simples “Vigilância 24h” no Brasil.

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Foto da minha rua em Linden, Joanesburgo. Há outras ainda mais bonitas por onde passei de carro na vizinhança.

Preciso que você preencha esta ficha“, me indicou o dono da casa.


Passou-me um formulário em afrikaans. Afrikaans, pra quem não sabe, é tipo um holandês antigo. É o que falavam os colonos holandeses que vieram pra cá a partir de 1652, e com o tempo a língua diferenciou-se do holandês falado hoje na Holanda. Foi também a língua do regime do apartheid (que é, em si, uma palavra holandesa, significando algo tipo “estar separado”). Não era o inglês, mas sim o afrikaans a língua que a minoria branca governante de origem holandesa quis impor à maioria negra, que hoje é em torno de 80% da população. Após a queda do regime em 1994 e a eleição de Mandela presidente no novo governo, afrikaans tornou-se somente uma das 11 línguas oficiais do país (junto com o inglês e 9 línguas locais).


Ele me arrumou um em inglês, e terminamos a burocracia. Como eu ainda não havia terminado o licor, uma das criadas — a mais nova, a outra é uma senhora tipo Tia Anastácia — pegou o copinho e saiu à minha frente, como que segurando uma vela em procissão, mostrando-me o caminho pela mansão até o quarto. A decoração rica e charmosa era embasbacante, assim como os leões à beira da piscina com suas fitas roxas enfeitando o pescoço. Passamos de uma casa à outra adjacente, no mesmo terreno. Subimos então pelas escadas do que parecia ter sido um salão de festas, agora decorado como uma ampla sala de estar. Meu quarto era pequeno mas bem decorado. À moda antiga, não havia chuveiro, somente banheira. Não me lembrava a última vez que tinha tomado banho de banheira. Me esbaldei.

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Interior da casa.
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Um dos quartos no segundo andar.
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Sala de estar na casa adjacente (mesmo terreno), onde eu fiquei.

Já era de tardinha, e como Johannesburgo não é recomendável à noite devido à insegurança, fiquei por ali. O dia seguinte, sim, era de visitar a cidade. Como aqui não há ônibus e a cidade parece toda desenhada para automóveis, chamei um táxi para me levar até o centro. Meu motorista era um rapaz negro, quieto e sorridente, chamado Trust (“confiança”, para os menos versados em inglês). No sul da África há o hábito de se darem uns nomes um tanto curiosos. Outros que conheci foram Sunshine e Wonderboy. É sério.


Quando eu disse a Trust que era brasileiro, sua face se iluminou, como costuma acontecer com os sul-africanos (com os sul-africanos negros, deixem-me especificar; aqui é como se houvesse ao menos duas sociedades paralelas, uma negra e outra branca, com culturas muito diferentes). Depois de alguns comentários breves sobre a copa, ele me interpela:


— “Você fala inglês bem. Com muitos brasileiros eu tenho dificuldade de entender o que estão dizendo“, me diz ele com um olho em mim e outro na direção.

— “Obrigado. Você leva muitos turistas brasileiros?

— “Não. É que os nossos pastores são do Brasil. Eles às vezes aprendem melhor o Zulu, pra falar nas aldeias, do que inglês

— “Ah é?“. (Ora se não…)

— “É. A Igreja Universal. Você conhece?

— “Conheço…“. (Presentíssima na África, cativando os pobres).


Havíamos chegado ao Origins Centre, um museu dentro da Universidade de Witwatersrand. Eu já havia visto o magnífico Museu do Apartheid (que recomendo a todos) numa oportunidade anterior, e agora resolvi ver esse.

O Origins Centre eu, na verdade, só recomendo àqueles que gostam muito de arqueologia e de pré-história. Eu esperava um pouco mais sobre várias culturas e sociedades africanas de antes da chegada dos europeus, mas a maior parte do museu é sobre a idade da pedra, evidências de que o Homo sapiens surgiu na África, e de que os primeiros objetos artísticos pré-históricos também são da África. (Depois de se descobrir que o homem havia mesmo surgido na África, os europeus disseram “Ok, mas as mais antigas evidências de arte rupestre, e portanto a mente humana avançada, com dotes artísticos, surgiram na Europa”. E o museu mostra que não, que as evidências mais antigas disso também são da África. Ah europeus…).

Enfim, o museum também trata bastante dos bush men, ou “homens do mato”, que é o nome coloquial ao povo nômade nativo daqui, de antes de migrações internas trazerem os Zulu e outros povos africanos pra cá, e que tem suas próprias línguas, crenças xamanísticas, a dança através da qual os iniciados mantêm contato com os espíritos dos mortos, etc. Essa parte é mais interessante, ao meu ver. O museu é cheio de vídeos legais.

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Pinturas rupestres no Origins Centre, em Johannesburgo.
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Campus da Universidade de Wits, como é apelidada.
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Biblioteca principal da Universidade de Wits.

Eram umas 11:30h da manhã após a visita ao museu, e a essa altura eu já estava sem Trust. Me avisaram que pegar táxi na rua é pouco recomendado, e eu não tinha número local pra chamar, então agendei pra ele me pegar ali às 6 da tarde — e esperar que ele aparecesse. Só me restava ter confiança mesmo. Era um belo dia de sol e seus 15 graus de temperatura, dia de descobrir Jo’burg.


Dali eu pegaria o ônibus vermelho turístico que roda pela cidade. (Eu normalmente evito esses “programas turistão” convencionais, e prefiro circular por conta própria, mas vista a escassez de transporte público e a enormidade das distâncias, foi o jeito). Perguntei aos funcionários do museu onde ficava exatamente o ponto, que eu sabia estar ali perto:


— “Fica logo aqui ao lado de fora do campus. Passa daqui a uns 25 minutos“, me respondeu um sul-africano de ascendência indiana, olhando a tabela de horários na brochura do ônibus turístico.

— “Se demora isso tudo então eu vou a pé pra o próximo ponto, que pelo que eu estou vendo não é longe daqui. Dá o que, uns 20 minutos andando?“, perguntei eu.

— “Nããão… é perto. Coisa de 5, 10 minutos. Mas não vá a pé não. Eu mesmo não ando a pé“, disse-me uma mocinha negra, também funcionária.

— “São o que, quatro quadras?“, perguntei eu.

— “Cara, você não pode sair andando assim por Jo’burg. Isso aqui não é o Brasil“. Esse deve achar que o Brasil é a Suíça. “É melhor você esperar o ônibus. Entre no Museu de Arte, que fica na esquina, e fique lá aguardando o ônibus. Na volta, você pede aos policiais pra esperar com eles na guarita“, me disse o rapaz, já meio impaciente.

A mocinha viu a minha cara pouco convencida por esse exagero.

— “Se sua foto estiver na capa do jornal amanhã de manhã, não diga que a gente não avisou“, me disse ela, com ar dramático.


Ouvindo eles, você tinha a impressão de que estava em Donetsk ou em alguma outra cidade do leste ucraniano, sob fogo russo, e tendo que correr de um abrigo pro outro para sobreviver. Eu olhava para a rua e via pessoas passando normalmente. É fato que não inspirava a segurança das cidades da Europa, mas não vi nada assim também demais. Nesse aspecto, pareceu-me não muito diferente de qualquer metrópole brasileira. O segredo parece ser ficar atento e manter-se em áreas movimentadas.


Saí. Deixei eles lá com as paranóias e rumei ao centro. Caminhei 10 minutos sem problema, passando pelas pessoas, que nem me davam bola (ao contrário do Brasil, onde já passeei com amigos estrangeiros e as pessoas ficavam olhando, curiosas), e cheguei aonde queria.


Eu estava no bairro de Braamfontein, uma área meio hipster, com prédios de tijolinhos e um ar da Nova York dos anos 80. Aos sábados — e era sábado — acontece o Neighbourgoods Market, onde eu almocei antes de prosseguir. É tipo uma feira de comidas entocada num prédio velho. Uma muvuca danada, mas as comidas eram boas.  

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Ruas de Johannesburgo. Área fora do campus da Universidade de Wits.
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Centro da cidade, uma parte mais arrumadinha.
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Senhora vendendo milho assado numa parte mais popular do centro.
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Coração do bairro hipster de Braamfontein. Garotada hip hop dançando brake na rua, e telão passando futebol.
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Cozinheira posa pra foto no Neighbourgoods Market.
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Esta outra cozinheira quase caberia no tacho, de tão grande que esse era. Ali são camarões pistola.

Ali fora achei o ponto do meu ônibus vermelho e aguardei sem problemas, como planejado. É desses ônibus que param em vários pontos-chave da cidade, e você pode descer se quiser. Os próximos pontos foram Constitution Hill (que eu ainda preciso visitar por dentro — foi onde Mandela esteve preso, hoje transformado de prisão em corte do judiciário) e a Gandhi Square.

Essa praça a Gandhi não é nada demais, mas a história é interessante. Mahatma Gandhi morou na África do Sul dos 24 aos 45 anos, trabalhando como advogado. Foi aqui que sua paixão por justiça social se acendeu. Certa vez pediram que ele se retirasse da primeira classe de um trem por ele não ser branco; ele se recusou, e foi expulso. Numa outra vez o proibiram de utilizar o elevador social, por não ser branco. Então você já viu como o ideal de desobediência civil dele foi se formando contra essas leis racistas e colonialistas que também existiam na Índia. Na Gandhi Square há uma estátua dele jovem, com a aparência de quando morava na cidade.


Dali eu iria à parte mais curiosa do passeio: tour guiado na favela sul-africana onde cresceram Mandela e o arcebispo Desmond Tutu, seu companheiro de luta contra o Apartheid.

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Vista da cidade a partir do meu ônibus vermelho de dois andares. Ótimo para tirar fotos.
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Gandhi Square, com um dos raros ônibus de transporte público. Você vê não tem nem muia gente esperando, em pleno sábado de manhã. Vá ver no Brasil…
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Mahatma Gandhi, jovem e mais velho, em sua aparência mais conhecida, do tempo das lutas pela independência da Índia.

Os sul-africanos obviamente não utilizam o nome “favela”, mas sim townships, para as comunidades de baixa renda aonde os negros foram alocados durante o regime do apartheid, nos subúrbios da cidade. A maior delas é Soweto, abreviação para South Western Townships (e de onde a banda de pagode brasileira pegou o nome). É um complexo, hoje quase que uma cidade paralela com milhões de habitantes, e com suas partes melhores e piores. As ruas principais lembram aquelas de bairro de classe média no Brasil, com bares, carros estacionados com o som alto, etc. Quase não há brancos. Ao redor há as partes mais pobres, onde vi a molecada brincando pela rua com as coisas do lixo.  


Oficialmente, são 25% de desempregados na África do Sul, sobretudo negros. Estima-se que a taxa real chegue aos 45%. (No Brasil são 6%, pra efeito de comparação). Fala-se da África do Sul como economia emergente, mas ela é só a 33a em tamanho (o Brasil é a 7a), atrás de países como Venezuela e Irã. Se você achou que o país estaria melhor posicionado, se deve ao marketing feito pelas classes ricas, omitindo a pobreza que ainda prevalece. No índice de desigualdade Gini, que mede a diferença de renda da população, a África do Sul consegue ser pior do que o Brasil. (Esse índice vai de 0 a 1; quanto mais, pior. Os países escandinavos, os melhores, têm entre 0.25 e 0.30. O Brasil estava nos 0.58, caiu pra 0.51 depois de Lula. A África do Sul segue com seus 0.63, dos piores do mundo, ainda agravado pela questão racial).


A novidade agora em Soweto é o crescente abuso de drogas (soa familiar?). Meu guia local me disse que a nova onda é Nyaôpe, uma mistura de viagra, maconha, e remédio anti-retroviral (fornecido pelo governo aos pacientes com HIV).

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Conforme eu caminhava em direção ao portão que levaria à minha liberdade, eu sabia que, se não deixasse pra trás a minha amargura e o meu ódio, eu estaria ainda na prisão” — Nelson Mandela, após quase 30 anos preso (1962-1990).
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Ruas de Soweto, a maior comunidade de baixa renda da África do Sul.
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Crianças brincando num terreno baldio em Soweto.
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Casa onde cresceu Nelson Mandela, hoje restaurada.

São muitas as línguas faladas pelas comunidades negras na África do Sul. Algumas delas têm os famosos “cliques” na pronúncia. Esta abaixo é a minha tentativa de aprender sua pronúncia correta com o guia. Apesar do vento, é possível escutar toda a minha maestria fonética.

Apesar de tudo, você vê as pessoas animadas, distraindo-se como podem naquele seu convívio social, e sobretudo valorizando as conquistas da derrubada do apartheid. Nesse domingo (27 de abril de 2014) os sul-africanos celebraram 20 anos da queda do regime, do reconhecimento dos seus direitos. Há eleições gerais dia 7 de maio, e apesar dos escândalos de corrupção no partido governante, que era de Mandela (o African National Congress), os sul-africanos negros ainda votarão maciçamente por ele, crendo que melhorias virão. O partido, é claro, não se cansa de usar a figura de Mandela — ainda super querida — no seu marketing político.

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Propaganda do partido governante, ANC (African National Congress), no centro de Joanesburgo.

Saímos já de tardinha de Soweto, de onde retornei para o meu ônibus vermelho e cheguei, ao fim da tarde, de volta ao campus da Universidade de Wits para esperar por Trust, o motorista. Cheguei ainda a tempo de avistar, do ônibus, o sul-africano indiano, funcionário do museu, que ficou de manhã insinuando que eu seria assaltado. Ainda deu tempo de apontar pra ele, que esperava num ponto de ônibus, pra que ele me visse inteiro. Deu um sorriso, de reconhecimento. Pouco depois Trust chegou, perguntando se estava atrasado. Não. Voltei para o meu bosque encantado das mansões de Linden, onde o dono da casa ouvia música clássica sacra em seu sofá. Dei um oi e, com ajuda da “Tia Anastácia”, pedi pizza, e dividimos, ela animada.

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Na Ponte Mandela, em Johannesburgo. Seu trabalho foi só o começo, meu amigo.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “Mais desigual que o Brasil: Em Johannesburgo e Soweto, África do Sul

    1. Que coisa genial! Eu conhecia essa música, mas — confesso — até hoje não havia observado os cliques, nem me dado conta de que essa cantora foi a que o meu amigo aí mencionou! Obrigado, Fátima! Abs

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