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Paraíso perdendo-se: No centro de Java, e o dia-dia em Yogyakarta (Indonésia)

Depois do Brasil, a Indonésia tem a maior cobertura florestal do mundo. Como o Brasil, a Indonésia sofre com a fome inesgotável dos mercados internacionais por recursos naturais: minérios, madeira e, cada vez mais, terras e água para a agricultura de exportação controlada por poucos. Vive como o Brasil numa eterna economia de produtos primários, como no tempo de colônia.

A Indonésia conquistou independência da Holanda em 1949, experimentou uma longa ditadura militar (1967-1998) apoiada pelos Estados Unidos, e o resto você já conhece, é como o Brasil: governos pouco eficazes e mancomunados com as elites locais e estrangeiras que fazem a rapinagem e embolsam os lucros. A maioria pobre, compreensivelmente, está mais preocupada em satisfazer as suas necessidades imediatas do que em pensar na sustentabilidade do país — não veem o abismo que vem logo ali na frente. Dentro de 50 anos pode não restar mais nada.


Dos vários trabalhos que estou fazendo em desenvolvimento sustentável, um me trouxe aqui este mês. Vim a Yogyakarta, no centro da ilha de Java (a principal da Indonésia), para poucos dias de um encontro.

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A vista da minha janela, para a piscina do hotel. (Lá a sensação é a de que você está nadando nas ruínas de algum templo maya.)
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Vulcões nos arredores. A última explosão foi em 2010. A sensação é de estar mesmo em algum paraíso tropical perdido.

Claro que nem tudo é floresta. A Indonésia é o quarto país mais populoso do mundo (250 milhões), e tem uma cultura riquíssima. Cada uma das milhares de ilhas que a compõem tem suas particularidades. A maioria é muçulmana, mas há áreas cristãs, hindus, budistas, e aquelas que seguem religiões tribais locais. Boa parte das vezes há uma mistura.

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Os indonésios são, em sua grande maioria, muçulmanos, mas há uma forte influência hindu e budista na estética.
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Nosso salão de café da manhã, com uma das sorridentes serventes. Essa me serviu um suco quente de tamarindo com gengibre.

Pra quem não sabe, eu morei aqui na Indonésia um tempo em 2011. É dos meus países favoritos não só pela linda natureza, mas também pela culinária maravilhosa e pela gente das mais alegres que eu já encontrei. Os indonésios acertam a fazer um equilíbrio entre serem, por um lado, cerimoniosos, e por outro risonhos e palhaços. Aqui tudo é motivo pra aquela risada gostosa meio abestalhada.


Além do encontro propriamente dito, eu tinha dois objetivos: comprar uns belos tecidos e comer novamente o prato típico de Yogyakarta: gudeg, jaca verde no leite de côco (soa estranho mas é uma delícia!).


Não precisei procurar muito: o gudeg já estava servido já no café da manhã. Na Ásia, talvez você não saiba, mas a refeição do café da manhã tende a se parecer com o almoço e a janta — não há essa coisa de beber café com biscoito ou comer sanduíche. Como o dia é quente e começa cedo, às 7h em ponto eu estava lá pra ver o solzão raiando naquelas árvores, e batendo um prato de peão.

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Gudeg, prato de jaca verde cozido no leite de côco com pimentas. Uma maravilha. Esta foto não é exatamente a do meu café da manhã, mas meu prato foi mais ou menos assim. (No café da manhã eu acho que estava voraz demais e nem me detive pra fotografar nada).

Muito legal, muito bonito, mas o calor é úmido de um jeito que eu acho que você só encontra igual na Amazônia ou na África Central. Sua roupa ensopa numa questão de instantes, e você estará permanentemente suado.


Pra quem quer visitar ou comprar, a Rua Malioboro (Jalan Malioboro) é o coração do centro. Uma longa avenida repleta de barracas e lojas (tudo baratérrimo). Mas o movimento é intenso. O povaréu passa por você como no centrão de qualquer grande cidade brasileira. As pessoas são baixinhas, e você vê bem lá adiante enquanto fica engarrafado nas calçadas, entre vendedores e transeuntes que ficam parados apreciando alguma coisa sem a menor cerimônia do congestionamento que estão causando. Seu nariz é disputado por muitos odores, dentre eles milho assado, frango na grelha, e cigarro. Seus ouvidos ficarão entre as caixas de som das lojas, as dos pedintes, e os músicos que passam o dia no centro buscando algum trocado em troca de uma cantoria ou de uma moda de viola pra você.


Pra quem ficou se perguntando acerca das caixas de som dos pedintes, veja abaixo os ceguinhos que eu filmei. A música sai na caixa de som dele, e diz a lenda que é a ceguinha ali atrás dele quem canta. Sintam só o solo de guitarra.

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Pra quem achou que eu estava zoando que falei que tinha uma ceguinha ali atrás, eis a foto.
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A Rua Malioboro, no centro de Yogyakarta. A muvuca é como no Brasil, mas mais seguro.
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Vendedora de churrasquinho na rua.
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Vendedores de rua.
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Ciclista-taxista tirando um cochilo. Como ele havia vários.

Pelas ruas, muitas lojas de batik, os motivos floridos e decorados das coloridas roupas típicas de Java. Não que os indonésios as vistam o tempo todo, mas são bem comuns. Uma loja de roupas em Yogyakarta tem muito mais cores do que no ocidente, onde nosso padrão de charme são cores pasteis, terno preto e essas coisas.

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Numa loja, uma senhora colore à mão os padrões de batik num tecido. (Curiosamente, essa mesma senhora eu encontrei quando vim aqui pela primeira vez em 2011).
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Loja de camisas batik em Yogyakarta.

Numa das lojas perguntei por um lugar para almoçar. Aqui McDonald’s, Kentucky Fried Chicken (KFC) e essas junk-food americanas são consideradas sinal de status (como no Brasil, cof cof…), então a moça gentilmente me recomendou que fosse num deles ali perto. Não era o que eu estava procurando — eu queria algo autêntico. Então ela me recomendou uma bodega simples, virando a esquina, onde almocei pelo equivalente a 2 reais, um tempero melhor que o do hotel.

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Minha bodega.
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Puro deleite.
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Meu almoço na cestinha com papel: arroz, tofu e gudeg com muito molho de côco e pimenta. Repeti.

Ainda circulei um pouco. Os ciclistas-taxistas me ofereciam serviço, mas a pé estava bom. Tomei um belo suco de graviola, e comprei mais algumas lembrancinhas. O Dia das Mães vinha aí, afinal. Não tinha assim tanto tempo, e logo precisava voltar ao hotel, onde o encontro acontecia.


Quem vem a Java deve vir a Yogyakarta, que é sua capital cultural (mais que Jakarta), e não deve deixar de ir aos templos antigos de Borobudur (budista) e Prambanan (hindu) nos arredores da cidade. Foram lugares que eu visitei na minha vinda anterior aqui, que foi um tanto mais aventuresca.


Se quiserem ver a floresta venham logo, pois está acabando rápido. A menos que se faça alguma coisa.

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Monumento à luta de independência do país. Quando as pessoas querem e se mexem, as coisas acontecem.

EPÍLOGO

– “E um bônus, hein mister!

– “Bônus? Eu quero! Desconto é sempre bom!

– “Nooo, mister“. *Risos*. “Bônus pra a gente! Mister rico!

– “Inshallah!”

– “Mister muçulmano? Amiga. Boa. Casar. Baby.” *Aponta pra a barriga da outra moça, sentada, que não estava grávida – ainda*

(Nunca antes havia eu tomado uma cantada tão assim direto ao ponto).

– “Não, peralá, não sou muçulmano, não. Brasileiro“.

– “Ah! Brasil! Brasil bom também!” *Risada marota, e seguia para passar o meu cartão*.


No aeroporto, comprando duas camisas batik com um par de vendedoras animadas, com seus véus e risonhas até não poderem mais. 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Paraíso perdendo-se: No centro de Java, e o dia-dia em Yogyakarta (Indonésia)

  1. Ahhhhhh. Maravilha, Java e sua charmosa e cultural Yogyakarta. Muito interessante a cidade, seu centro comercial, seu bulicio, e seus templos alem do seu lindo batik. Impossivel nao curtir essa bela ilha e seus encantos.

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