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Oásis e tapetes berberes: De Ouarzazate às margens do Saara

Um oásis é algo muito mais impressionante visto ao vivo. Antes mesmo de chegarmos ao oceano de areia, o Saara já é bordeado por uma cortina de pedra, uma terra pedregosa e seca de muitos quilômetros entre as montanhas e o deserto. Daí, de repente, você vê uma mancha de verde, às vezes nada muito grande (por vezes não mais que 1km quadrado), mas com água e plantas, o suficiente para que algumas famílias ali habitem. No Marrocos, muitas dessas famílias são berberes, o nome dado aos povos nativos daqui (beduínos, tuaregues e outros), de antes da chegada dos árabes.


Após passarmos pela área de filmagens externas na região de Ouarzazate, passamos rapidamente pela cidade de Ouarzazate propriamente dita, uma cidade dominada por estúdios de gravação e hoteis chiques para os atores e equipes de produção. Há coisas pra turistas mas nada muito autêntico — é uma ilha urbana produzida para produzir produções cinematográficas.


A partir dali adentramos a cortina de pedra que nos separava do Saara. Apesar de seca, a paisagem é bonita. Quando o verde aparece fica mais bonita ainda. Há vales compridos com córregos, mata ciliar e pequenas lavouras que são o sustento de quem mora ali.

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A produzida cidade de Ouarzazate, sob o céu de Allah.
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Pequeno oásis fértil num mar de terra vermelha.
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Córrego em meio aos rochedos. Parece cenário de filme.
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Nas terras áridas, com um oásis atrás.

Paramos num hotelzinho de beira de estrada para pernoitar. Um friiiio maior do que você imagina. E sem aquecedor.


Saímos cedo no dia seguinte. O jantar havia sido farto, com sopa, legumes cozidos, carneiro e cuscuz de trigo. Já o café da manhã foi simples: pão chato na chapa com manteiga e chá ou café. Mustafá, o nosso motorista enfezado e corcunda, havia desaparecido e chegou já à hora de sair, acompanhado do seu inseparável cigarro e com os óculos escuros à cabeça.


Mustafá também era meio bipolar. Às vezes estava enfezadíssimo, com cara de que ia matar um. Dava cada esporro em quem se atrasava que você ficava constrangido pela pessoa. Certa vez perguntou a um pessoal que se demorou no banheiro se eles iam morar lá. (Como eu disse, os homens aqui são desaforados e não hesitam em comprar briga). Daí rapidamente já estão rindo de novo e se dando beijinho (aqui apesar de todo o machismo, é normal os homens se darem beijo no rosto, como fazemos entre homens e mulheres ou entre mulheres no Brasil).


Pro Mustafá bastava uma das belas espanholas do nosso grupo puxar conversa, e ele se amaciava todo. Botava música na van nas alturas, e às vezes até batia palma e pedia pro pessoal acompanhar. Dava um frio na barriga cada vez que ele tirava as mãos do volante naquelas estradas curvas. Depois descobrimos que, nas paradas técnicas, ele tomava uma marvada e por isso também que voltava animado. É proibido pelo islã, mas há quem beba às escondidas. Eles aqui vêm com uma conversa de “uísque berbere”, que é o apelido que dão ao chá de menta que eles bebem e oferecem por toda parte, mas há quem meta mesmo um álcool dentro. Aah, Mustafá.


Estes são uns vídeos bem curtos feitos do interior da van, mas que já dão o feeling.

Nossa parada matinal seria um oásis berbere onde vendiam tapetes. Entra em cena o nosso guia local, esse sujeito de ar ladino cujo nome eu não lembro.

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Era um vale verde repleto de árvores, campos de plantio, e córregos para irrigação. O ventinho batia à sombra daquelas plantas, e pássaros cantavam. Era uma ilha de vida no meio daquela aridez inóspita. Parecia um paraíso perdido.


Ao chegarmos, o guia logo nos pediu que não tirássemos fotos das mulheres. O pessoal aqui é meio sismado com foto, e pelo visto já houve quem as tirasse pra pôr em capa de revista etc. Segundo o guia, dois casamentos naquele vilarejo haviam acabado por causa de foto. O que posso lhes dizer é que as mulheres aqui, fisicamente, são muito poucos diferentes das de qualquer zona rural brasileira, só que com uma roupagem meio diferente e lenços pretos na cabeça. Mas são sorridentes e têm aquele ar de senhoras humildes, que também se encontra no interior do Brasil.

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As escarpas secas e o vale verde.
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Vista desde o meio do oásis. Você se sente num refúgio de vida.
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Mulher berbere em meio aos campos.

Não demorou e adentramos as casas de adobe onde vivem, e onde queriam nos mostrar tapetes. O interior era simplérrimo, sem móveis, e com lâmpadas incandescentes penduradas no teto para iluminar. A simplicidade do lugar contrastava com a riqueza de detalhes da arte dos tapetes. As artes berberes têm motivos mais geométricos que as árabes, com formas que lembram runas nórdicas. A origem remonta aos antigos fenícios.


No interior, nos recebeu um homem que falava inglês. Ele era possivelmente o único. As mulheres muitas vezes sequer sabem árabe, já que os berberes falam suas próprias línguas (completamente diferentes do árabe). O tio parecia uma versão berbere (e mais bigoduda) de Eddie Murphy, e suava como se tivesse tomado banho. Nos assentou nuns banquinhos preparados da sua showroom, e um rapaz moreno de pouco cabelo e turbante azul ia trazendo as peças. Sentadas quietas, duas mulheres teavam algodão numa máquina rústica para mostrar como se fazia.

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Sala onde nos mostraram os tapetes. Havia fios de lã e de algodão, alguns já tingidos ali acima do tear.
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O sósia de Eddie Murphy nos explicava sobre os tapetes…
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… enquanto seu assistente nos servia chá de menta, apelidado de “uísque berbere” (mas este não estava batizado).
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Mulher berbere trabalha o chumaço de algodão, transformando-o em fios grossos que serão usados para fazer os tapetes.

Eis o show. Percebam os motivos geométricos de que falei, e como é diferente dos motivos florísticos das artes árabes.

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Esse vermelho ali em cima eu comprei, junto com o amarelo e preto mais à esquerda.

Você deve estar se perguntando sobre os preços. Ao contrário da Turquia, onde os tapetes que encontrei eram absurdamente caros (ex. 5 mil reais), aqui já se podia pensar no caso. Aqueles grandes da maioria das fotos tinham preço inicial de seus 1500 reais, mas é sempre fundamental barganhar. No Marrocos ninguém nunca lhe dará inicialmente o preço pelo qual vai vender. Sempre começam com o preço lá em cima, e veem até aonde você consegue baixar. Daí vai a sua habilidade como negociante. Aqueles dois juntos me saíram coisa de 300 e poucos reais.


Para atrair o turista europeu que sabe (e não gosta) do machismo das sociedades árabes, os marroquinos frequentemente organizam estas produções de artesanato em cooperativas de mulheres. Pra inglês ver, o vendedor disse que eu deveria pagar à mulher que tinha ficado ali quieta todo o tempo, e não a ele. O que fazem no fim das contas, eu não sei; eu sei que o sorriso de alegria na face da senhora quando estava pra receber os euros foi genuíno e radiante, e me bastou.


Munido de meus tapetes, retornei ao grupo. Dali saimos ao final da manhã. Ainda passamos por uns rochedos enormes que faziam-nos sentir minúsculos, e onde viviam umas cabras. A seguir, paramos para almoçar à beira do nada, já onde as pedras começavam a finalmente dar lugar à areia. Estava chegando o majestoso Saara.

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Rochedos por onde passamos.
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Com as cabras no córrego.
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A paisagem. Você tenta não imaginar como seria se o pneu furasse ali.
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Onde paramos para almoçar.
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Na pausa para o almoço, e pronto para a expedição no deserto.

Que venha a areia.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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