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Bonn, cidade de Beethoven e capital da antiga Alemanha Ocidental

Bonn. Foi onde passei boa parte deste mês de junho. Mal voltei a morar na Holanda e já tive duas semanas de compromissos na Alemanha. Pra quem não sabe, Bonn foi onde nasceu Beethoven. Vou aproveitar também para dizer algumas coisas que gosto e que não gosto na Alemanha.

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Aí acima é a estátua do dito cujo, acima referido, no centro histórico de Bonn. As cidades alemãs, como em quase toda a Europa, têm uma estação central de trens no coração da cidade e um centro com calçadões só para pedestres e bicicletas. Ali atrás, amarelo, é o prédio dos correios, e logo ali perto há a catedral. São os desenhos das cidades da Idade Média, feitas para pessoas e não para carros, e que hoje em dia voltam a ser modernos.


Nas fotos está nublado, mas rachava um sol de começo de tarde ao fim da primavera quando eu cheguei de trem. Aqui na Alemanha nunca é muito quente (para quem está acostumado ao Brasil), mas debaixo do sol com duas mochilas, o cabra sua. Por sorte, o trajeto entre a estação e o hotel era curto, ali mesmo no centro histórico. (Para quem não está familiarizado com as cidades europeias, aqui os centros históricos não são lugares isolados, a là Pelourinho, onde só vai turista; aqui eles são o centro mesmo, com lojas modernas, etc.).

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Lojas modernas em meio à estrutura antiga da cidade.

O hotel estava diante de mim do outro lado da rua, e eu já ia atravessando quando vi dois policiais logo atrás de mim. Aqui na Alemanha, em tese, você toma multa se atravessar fora da faixa (imagina isso no Brasil). E como aqui as coisas “em tese” costumam ser na prática também, resolvi não arriscar a manobra na cara dos policiais, e fui até a esquina fazer a volta. Aqui os pedestres esperam o semáforo mesmo que não esteja vindo carro nenhum.


Deixei as mochilas no hotel e saí para comer e bordejar na única tarde que teria realmente livre nesta estadia. Quis ir à Casa de Beethoven, mas o estômago primeiro.


Na Alemanha eu adoro a comida até o meio-dia, e detesto depois. Eu explico: as padarias são excelentes, há dezenas de tipos de pães, quitutes, frutas, etc. Já o almoço e o jantar são frequentemente carne assada com batata, chucrute, aspargos fervidos, e outras coisas sem muito tempero. (Você se lembra de já ter visto em algum lugar do mundo “Restaurante Alemão”? Provavelmente não, e não é sem razão). As salsichas estão por toda parte, no prato ou naqueles cachorros-quentes sem molho, em que a salsicha vem seca e é maior do que o pão. Há uma centena de tipos de salsicha, desde de fígado, de sangue e até de cérebro. Sendo vegetariano, aqui definitivamente não é o meu paraíso culinário.

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Moçoila animada comprando cachorro-quente no centro. (Aquelas coisas penduradas são pra você esguichar ketchup e mostarda).

Sendo assim, minha solução na Alemanha é quase sempre buscar algum restaurante asiático, seja chinês ou indiano. Achei um chinês com ambiente de boteco, onde se reúnem aqueles indivíduos com ares de criminosos, perto da estação. Era tipo um balcão de bar, com a turma lá atrás cortando legumes e cozinhando, aqueles chineses de avental branco igual em filme de artes marciais quando tem cena na cozinha. Baratérrimo. Pedi um curry de tofu com arroz e veio quase um hectare de horta no meu prato.

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Coisa maravilhosa. Da perspectiva da foto pode não parecer, mas o prato era enorme. (A fanta vinha de brinde).

Saindo dali, passei de um ambiente de boteco a algo mais clássico, na casa de Beethoven. Fizeram um pequeno museu na casa onde ele nasceu e cresceu, nos idos das décadas de 1770 e 1780. O piso de madeira continua a ranger e lhes garanto que nunca foi trocado. Não há lá muuuuito sobre as composições dele; são mais cartas da época, coisas da família, e notas várias sobre os distintos senhores da aristocracia alemã que decidiram fazer e financiar o museu. Recomendo meio sem recomendar. Por sorte, há um piano no térreo e quando eu ia saindo uma moça começou a tocar, e aí sim deu alma ao lugar.

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Frente da casa onde nasceu Beethoven em 1770.
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Detalhe da placa.
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O interior da casa não podia ser fotografado, somente o jardim.

Beethoven ficou mas não nasceu surdo. Ele viveu até os vinte e poucos anos em Bonn, quando mudou-se para Viena (Áustria) para trabalhar como músico, compondo e fazendo apresentações. Aos 26 anos, já em Viena, começou a perder a audição. Curiosamente, foi depois daí que ele compôs suas mais famosas sinfonias. Compôs Fur Elise aos 40 anos, supostamente para a Baronesa Therese Malfatti, de quem gostava mas com quem não conseguiu se casar por não ser da nobreza. Porém, sua paixão ao que tudo indica foi a condessa húngara Josephine Brunsvik, sua aluna de música, com quem trocou cartas de amor por anos, mas com quem também não conseguiu se casar devido à hierarquia social. Começou a beber, também a evitar conversas devido à perda da audição, e morreu com cirrose hepática aos 56 anos, em Viena, em 1827 durante uma trovoada.


Abaixo é a Sonata da Luz da Lua, uma das minhas favoritas. Essa ele compôs quando já estava com a audição debilitada.

Bom, enquanto a sonata toca, talvez valha a pena mostrar a catedral, uma bela e enorme igreja no centro de Bonn, com um claustro em anexo.

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Catedral de Bonn.
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Interior da catedral.
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Claustro, essa área com quatro corredores e um jardim no meio, típica de mosteiros. (Era a vida enclausurada, fechada ali, dos frades e freiras, daí o nome claustrofobia).

Bom, todo o resgate histórico me deu fome, e eu fui me garantir na parte da culinária alemã que eu gosto — como falei, os quitutes, pães e bolos. Não demorei a achar uma padaria ali no centro, operada por umas alemãs simpáticas. (Aqui na Alemanha fuja das senhoras; no atendimento as coroas são meio brucutus e as jovens são muito mais cordiais). Olhem que maravilha — não a moça, que não quis sair direito na foto, mas o belo bolo de framboesas frescas.  

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Padaria na Alemanha. Uma diversidade imensa de tipos de pães, bolos e quitutes.
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Meu bolo de framboesas.

Bom, e pra quem viu no título, Bonn foi também a capital (não oficialmente, mas na prática) da extinta Alemanha Ocidental. Após a Segunda Guerra e o início da guerra fria, a Alemanha foi dividida em duas: a República Democrática da Alemanha (a oriental, que pouco tinha de democrática) sob a esfera soviética comunista, e a República Federativa da Alemanha, sob a esfera do ocidente. Berlim seguiu sendo a capital de ambas, com o muro cortando-a ao meio. Mas na prática todos os escritórios de governo da Alemanha Ocidental vieram para Bonn, que é mais a oeste, e só retornaram a Berlim nos anos 90, depois da queda do muro e da reunião das duas alemanhas. Ainda hoje há muitos ministérios que estão lá e cá, e mais de um terço dos servidores públicos do governo federal alemão trabalham em Bonn, e não em Berlim.


Agora caso alguém esteja se perguntando o que afinal de contas eu vim fazer aqui por duas semanas, a resposta é: participar de um evento da Convenção da ONU para a Mudança Climática. O secretariado fica aqui em Bonn, e todo mês de junho as delegações dos países vêm aqui negociar. Atualmente estão tentando definir o novo acordo internacional de redução de emissões de gases do efeito estufa (que causam a mudança climática). Quem negocia são os governos, mas há muita gente de universidades e ONGs acompanhando, entre eles eu.  

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Aí sou eu escarrapachado no bar do hotel onde ocorreu o evento. Depois de duas semanas de negociações eu já não aguentava mais ouvir falar de clima, carbono… Ainda bem que começou a copa, pra permitir uma higiene mental.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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