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Saindo do Saara: Estrada, policiais corruptos, e um pouquinho dos modos árabes

Eram cinco e pouca da manhã e o sol ainda não havia raiado, aquele breu estrelado que antecede o amanhecer, quando saí do acampamento no deserto e avistei uma das integrantes do grupo descarregando o tajine de legumes da noite anterior na areia. Eu tirava água do joelho e, de canto de olho, ainda a vi cambalear na areia e quase pisar na própria bosta. Foi o começo de um dia memorável.


Havíamos todos dormido em tendas num acampamento em pleno Deserto do Saara, no Marrocos. Um frio do diacho à noite, e areia por toda parte, inclusive no colchonete. A tenda era alta, fixa, você podia ficar em pé dentro, e havia uns oito colchonetes para as pessoas dormirem alinhadas como salsichas num pacote. O breu era total, e só com a luz do celular você conseguia enxergar algo. A noite foi vestido com tudo que eu tinha e com tudo nos bolsos, já que eu não queria largar as minhas coisas ali na areia e ter que procurar no escuro depois. Sabíamos que o despertar seria ainda de madrugada, pois a meta era ver o nascer do sol no caminho de volta. Mas rezava a lenda que os guias não acordariam ninguém, e que quem ficasse dormindo, ficava. Ninguém sabia dar informação exata. Foi uma dormida maravilhosa.


Levantei eram umas cinco e quinze, tudo escuro e algum movimento de pessoas pra lá e pra cá fora da tenda. Foi quando caminhei pra fora do acampamento e flagrei a cena acima descrita. Segurei-me pra não rir, fechei as calças rápido antes de ser visto e saí dali.


Ainda tínhamos uma hora e meia de camelo até Merzouga, onde havíamos deixado as bagagens e onde tomaríamos café (um café vagabundo, aguado, servido com pão baguete e uma manteiga branca sem sal). De lá a maior parte do grupo voltaria a Marrakech (10h de estrada), mas não eu. Pra mim o destino seria Fez, mais ao norte, a segunda maior cidade do Marrocos (após Casablanca) e a que serviu de cenário para a casa do Tio Ali e outras partes de O Clone.

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O nascer do sol no Deserto do Saara.
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Onde deixamos os camelos, pela manhã. Ali de manto azul é um dos guias.
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Despedindo-me das espanholas antes de partir para Fez.

Todos as agências turísticas em Marrakech dizem que é super tranquilo ir de Merzouga a Fez, só que não. Há uma rodoviária em Rissani, uma cidade próxima do deserto, e confesso que não descobri exatamente qual a verdade da coisa, mas ao que averiguei só há um ônibus decente, e que viaja de noite. Os ônibus comuns, do tipo pinga-pinga, levam — segundo me disseram — 12 a 13 horas pra chegar a Fez. Mustafá, o nosso motorista bipolar, nos disse que conhecia um taxista e que de táxi eram só seis horas. Claro que você fica com a pulga atrás da orelha, só que todas as opções eram cheias de pulga.


Eu já tinha reserva em Fez, numa pousada, e a dona já havia me escrito por e-mail: “Avise-nos quando chegar ao Portão Azul, e o nosso guardião Abdel Salam irá buscá-lo“. Parecia enigma de jogo de aventura, só que real. Eu mal podia esperar para encontrar o tal Abdel Salam.


E, falando em aventura, resolvi pegar o táxi. Mal sabia eu o que nos aguardava.

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O táxi.

Mustafá deixou-nos num espaço aberto à beira da pista antes de seguir de volta a Marrakech com os outros. Havia vários táxis, uns oito taxistas falando uns com os outros em árabe, e alguns turistas europeus de outros grupos, que pareciam também prestes a tomar a estrada.


Ali à frente, no banco da carona no nosso táxi ia Tien, uma moça chinesa com seu iPhone cor de rosa. Eu fui no banco de trás. (Esse pano aí no banco do motorista tinha mesmo o cheiro que você imagina que ele tem — aquele cheiro encardido, de interior de carro velho que não é lavado há anos). Não demorou a um deles se identificar como o taxista que nos levaria. O homem não falava quase inglês algum, então meu francês veio a calhar, já que essa funciona como segunda língua aqui no Marrocos. Mas a chinesa, que não falava francês, não ficou lá muito satisfeita. Zarpamos assim mesmo, paramos em algum lugar pra pegar um papel, e depois de algumas conversas em árabe no celular nós paramos novamente, desta vez para trocar de motorista.


Chegou o Seu Abdoul. Seu Abdoul era uma versão árabe de Compadre Washington. Moreno escuro ligeiramente pesado, o bigodinho, sorriso farto, só que com o cabelo raspado curto. Este falava inglês. Disse logo, animado, que quem mandava ali no carro era a gente. A chinesa, sendo chinesa, foi logo exercendo sua nova autoridade e disse pra ele pôr música árabe. “Claro!”, respondeu ele, pondo Dire Straits.


Abaixo é uma palhinha do táxi de Seu Abdoul ao som de Sultans of Swing.

Toda a coleção musical do Seu Abdoul parecia ser dos anos 60 e 70, com Bob Dylan e outros sucessos da época. Juntando-se a isso o carro velho, que também parecia ser dos anos 70, senti-me viajando pelo Arizona ou algum outro estado árido dos Estados Unidos àquela época. Até que eu logo me lembraria que, não, ali era o Marrocos. Um guarda nos mandou encostar o carro.


Paramos à sombra de uma árvore na beira da pista, e primeiro foi aquela troca de sorrisos. Um guarda à paisana, com uma jaqueta verde-limão, abaixou-se para falar com Seu Abdoul pela janela e conferir os papeis. Outro guarda, este uniformizado, continuava a monitorar o tráfego. Nosso colega de verde-limão pareceu pedir algum outro documento, que Seu Abdoul pegou no porta-luva, e depois decidiu que queria também ver a mala do carro.


Comecei a conversar com Tien, que virou-se para o banco de trás com uma cara de “haja paciência”. Tudo bem até daí a alguns minutos ela, que estava de frente para o que se passava lá atrás, me perguntar: “Eles estão brigando?“. Virei pra ver e lá estavam Seu Abdoul e o guarda discutindo, Seu Abdoul com dedo em riste e já tremendo de nervoso. O árabe já é uma língua raspada, em briga então faz parecer que estão rogando as piores maldições possíveis.


O guarda veio então a nós com um sorriso ladino enquanto Seu Abdoul falava nervoso no celular. Nos perguntou aonde iríamos, e disse que tudo estava em ordem e iria se resolver logo. Quando ele foi falar com seu colega, Seu Abdoul veio a nós já com suor na testa e dizendo que o guarda estava inventando problema onde não existia, e que todos os documentos estavam em ordem. Estava eu ali preso na óbvia situação do pedido de propina, pra você aí que acha que corrupção só existe no Brasil. Bastava olhar na cara do guarda pra saber o que se passava.


Voltaram a conversar, e Seu Abdoul esbravejava feito um siri na lata. Deu vários chutes no carro, na árvore, e rodopiava feito um pião. Deu um murro com tanta força no parabrisa que trincou o vidro do próprio carro — eu lá dentro. Resolvi que era melhor sair.

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Masha’Allah!, o equivalente árabe para os nosso exclamativos de origem religiosa (Jesus! Nossa senhora! Deus do céu!).

A coisa agravou, mas meio que começou a se resolver, quando chegaram os outros taxistas. Seu Abdoul convocou a trupe toda pelo telefone, e começaram a fazer pressão no guarda, que ia recuando enquanto faziam a rodinha nele. Às vezes ele dizia uma coisa, Seu Abdoul se enfurecia e todo mundo precisava segurar antes que ele metesse a mão no guarda e fosse preso.


”Esses homens daqui brigam parecendo mulher“, deu logo a nota a minha mãe, que estava nesta viagem e ficou assistindo à cena do carro (caso você tenha se perguntado de quem é aquela mão ali atrás na foto). “Lá no Brasil se um homem der um piti desses, vão dizer que é descontrolado. Aqui parece ser normal“. E ao longo do meu um mês e meio no Marrocos, me pareceu ser normal mesmo. O comportamento dos árabes é extremamente passional.


No meio da briga, de repente, pareciam entrar em acordo e começavam a se beijar no rosto, como é comum entre os homens no mundo árabe. Pra ser exato, Seu Abdoul pegava o guarda pelo queixo e beijava, como que por agradecimento, de um lado e do outro. A chinesa não se aguentava de tanto rir. Uma hora inteira já havia se passado e nós ainda ali. O guarda, quando viu que tinha perdido, ainda tentou nos convencer a chamar outro taxista, sugerindo que Seu Abdoul não estava em condições. Mas eu saquei a estratégia dele de “Se eu vou deixar de ganhar, você também vai”, e não comi o H — disse que ia com Seu Abdoul mesmo e não tinha problema. Ainda soltei um “Yalla! Yalla!” (Vamos, vamos!) pra os dois que conversavam ao longe como se estivessem negociando algum plano secreto, e finalmente fomos embora (sem desembolsar propina). Aleluia.


Sair dali foi um alívio. Seu Abdoul parecia que tinha parido um filho, e suava aquele suor de quem comeu um acarajé com muita pimenta. Disse que estava tudo em ordem, mas que precisaríamos passar numa oficina pra consertar o parabrisa, antes que fôssemos parados novamente por isso. “São só 10 minutos“, disse ele. Fomos num fundo de quintal. Fiz aquela cara de “não te creio” quando vi que o “conserto” foi pôr um segundo parabrisa colado com fita por cima do que estava trincado. (Por isso que são só 10 minutos).


Tomamos a estrada novamente, e seguimos coisa de duas horas antes de parar para almoçar numa birosca à beira da pista. Era uma cidadezinha dessas que a estrada corta ao meio; um asfalto até bom, e lanchonetes dos lados. Seu Abdoul disse que ia resolver umas coisas enquanto comíamos, e almoçamos com a ideia do “E se ele não voltar?” na cabeça. Não sabíamos nem o nome do lugar onde estávamos (e eu até hoje não sei).


Ficamos entregues ao simpático dono da birosca, que ao que eu me lembro só tinha uns três dentes na frente, espalhados sozinhos aqui e ali. E ria a se acabar. Havia uma espécie de buffet simples por detrás de um vidro no balcão, e não havia tabela de preço, então a cada hora que você perguntava ele lhe devolvia uma piada (“São mil euros!“), e gargalhava com os (três) dentes de fora. A chinesa quase entrou em colapso, até que fechamos por uns sanduíches — dos mais toscos que eu já comi na vida. O cara simplesmente pegava um pão desses baguete e tacava o buffet dentro: arroz, salada, e um ovo mexido. Não tinha gosto de absolutamente nada — nem de sal. Comi dois por falta de opção melhor.

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Cidadezinha onde paramos para almoçar. Até arrumadinha. O lugar onde comemos foi aquele ali à esquerda, metade parede e metade lona vermelha.
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Vista lateral do interior da birosca onde almoçamos. As cadeiras ficavam do lado de fora, como em lanchonete.
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O meu “delicioso” sanduíche, enrolado num papel.

Fomos de penetra no banheiro de um restaurante outro e nos pusemos a aguardar Seu Abdoul, que depois de um tempo apareceu com o parabrisa agora consertado de verdade. Embora ainda se vissem na cara dele sequelas do estresse da manhã, ele parecia mais tranquilo, e seguimos viagem ao som de Bob Marley — acho que a discografia inteira. Me fez já antecipar um futuro “Mairon na Jamaica”.


Estávamos atrasados. Já tínhamos ao todo umas cinco horas de estrada e percorrido pouco mais da metade do caminho. A chinesa, sempre chinesa, perguntou se ele não poderia fazer um desconto devido a todo aquele inconveniente da manhã. Ele entendeu mas fez que não entendeu e, olhando-me pelo retrovisor, me pediu em francês que eu esclarecesse o que é que ela estava pedindo. Eu, vendo que ele já estava ofendido com a pergunta, tive que usar toda a minha diplomacia libriana pra traduzir e explicar. Ele respondeu calmo mas indignado, dizendo que já tinha passado o perrengue pela manhã e ainda gasto dinheiro consertando o parabrisa. Sei que ele não falou mais inglês, ficou puto com a chinesa e quase não se dirigiu mais a ela.


Eu precisava sacar dinheiro, e Seu Abdoul parou onde havia outros taxistas que ele conhecia. Já eram meados da tarde, e ele reclamava de dor de cabeça. A pressão arterial dele deve ter ido no céu de Allah com aquilo tudo. Propôs então que nós trocássemos de carro, e um outro motorista, Ahmed, nos levaria o restante do caminho. “São só mais duas horas daqui até lá“. Mentira. Mas quantas vezes a gente não diz ao amigo “são só 10 minutinhos” mesmo sabendo que vai levar pelo menos o dobro?


Ahmed não falava inglês, e nem francês. Era um senhor simples, alto, magro, de gorro cinza na cabeça e que mantinha um olho na estrada e o outro nas pernas grossas da chinesa. Chegamos para cruzar novamente a Cordilheira do Atlas, e a paisagem mudou radicalmente. De repente tínhamos neve onde até há pouco era só cacto e terra seca. Encontramos rebanhos de ovelhas, cães, e às vezes até parecia que estávamos nos Alpes.

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Na pista, com um cachorro que nos olhava. Havia vários soltos pela região.
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A chinesa correndo pra chegar no rebanho de ovelhas, com quem ela quis tirar foto.
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A vista do banco de trás do táxi, Ahmed ali e vistas alpinas do lado de fora.

Já eram umas 6h da tarde quando chegamos a Fez. Por sorte eu sabia o nome em árabe da praça onde ficaríamos, e pude dizê-lo a Ahmed. A chinesa se contentou em ficar lá também, e me emprestou o iPhone pra eu dar um toque na pousada e dizer que Abdel Salam já podia vir nos apanhar. Era hora de descobrir Fez.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

5 thoughts on “Saindo do Saara: Estrada, policiais corruptos, e um pouquinho dos modos árabes

  1. Amo de paixão os seus relatos de viagem!!! Sinto que pego carona com você pelos lugares onde a minha falta de coragem não permite chegar. Amo viajar, sozinha e por conta própria,.. Mas não ultrapasso o limite confortável da Europa…
    Parabéns, Mairon!!! Continue a viajar muito e a nos brindar com seus preciosos relatos!!! Bjs

  2. Olá Mairon!
    Acabei de ler seu post e não consigo parar de rir. Vc é tão autêntico e divertido que com certeza tem uma preciosa herança genética! Que tal publicar um livro de crônicas? Olha, seus seguidores iam adorar!!! Parabéns!

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