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Casablanca e a Mesquita Hassan II

Casablanca é a maior, mais rica, mais feia, mais suja e mais esculhambada cidade do Marrocos. Perdão, amigos marroquinos, mas vocês sabem que é verdade. A sensação é a de uma cidade onde os prédios pararam no tempo — ou melhor, continuaram decaindo. A estrutura parece ser toda de antes dos anos 1950 (portanto, da época do filme Casablanca, de 1942, embora ele não tenha sido rodado aqui). Só que imagine os efeitos do tempo, o crescimento populacional, as ondas de imigrantes pobres de outras partes do Marrocos e da África sub-Saariana em busca de trabalho, e você vai ter uma ideia do que Casablanca é hoje, esta cidade de 3 milhões de habitantes. Ah, já ia me esquecendo de dizer: Casablanca não é lá muito segura.


”E o que raios você foi fazer aí?“, talvez seja a pergunta. Bom, primeiro eu queria conhecer a cidade em primeira mão. Segundo, apesar dos pesares, ela tem um dos monumentos mais impressionantes que eu já vi na minha vida.


Chegamos de trem, na estação malacabada que não foge à regra do que eu disse acima. (Foi a estação de trem mais feia que eu vi em todo o Marrocos). Os relógios, como você pode ver, marcam dois horários diferentes — ambos errados.

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Taxista em frente à estação de trem Casa Voyageurs, em Casablanca.

Sabendo da má reputação de Casablanca, tratei de reservar um hotel que fosse perto da estação, pra facilitar a chegada e a saída com bagagem. E, de fato, bastava atravessar a praça e estávamos lá: um hotelzinho 3 estrelas que não era mau, mas sem personalidade. Muito diferente dos riads tradicionais de Fez ou Rabat. Aqui era aquela coisa convencional, com frigobar, televisão… e qual não foi a minha surpresa ao ver que o primeiro canal sintonizado estava passando O Clone.


Foi nostálgico assistir àquelas conversas de Albieri e Tio Ali  novamente — ainda que dubladas em francês. (Fiquei a me perguntar o que os marroquinos devem pensar. Imagine como seria se víssemos atores marroquinos passando-se por brasileiros, e a gente assistisse a isso dublado no Brasil).

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O Clone, passando na TV do quarto do hotel. Cenas nostálgicas das discussões entre o Tio Ali e Albieri sobre Allah, clonagem, e a vida.

Bem, ao contrário do que os relógios da estação marcavam, era começo de tarde, e ainda não havíamos almoçado. Procuramos alguma biboca ali na praça mesmo, antes de seguir ao centro para ver o que há. 


O entorno não era nada aconchegante; parecia os arredores de alguma rodoviária no Brasil. Mesmo assim, achamos algo, um bar/restaurante que ainda estava aberto e que nos serviu sopa com ovo. Quebrava o galho, para o momento. 

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A praça da estação, vista da janela do quarto do hotel. Vista assim é até bonitinha, embora o ambiente embaixo não seja dos mais convidativos.
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Sopa típica marroquina, a harira, com ovo dentro para dar sustança. Pra quem ficou curioso, essa sopa você encontra na maioria dos restaurantes pelo Marrocos. Já ouvi dizer que, aqui, “saber fazer uma harira” é tipo a prova básica de que uma moça sabe cozinhar. Leva um bocado de ingredientes, de tomate a grão-de-bico.

Bucho cheio, tomamos o bonde para o centro. Casablanca, apesar de decaída, tem um moderno sistema de bondes elétricos que deixa o transporte público de qualquer metrópole brasileira no chinelo. Começou em 2012, e estão ampliando. É um pequeno — mas importante — toque de século XXI numa cidade que parece ter ficado congelada no tempo colonial.


Chegando ao centro, você encontra todos aqueles prédios coloniais franceses de antes da independência (1956). Art-déco [Arte decô] é o nome que se dá pra aquela arquitetura de varandas ornamentadas, e formas geométricas ousadas (para a época), como na foto do antigo Cinema Rialto acima. (Esse cinema, a propósito, ainda funciona, e parece que parou no tempo. Não cheguei a assistir filme nele, mas o hall parece dos anos 50). O grande porém é o estado acabado de tudo. Só uma coisa não lhe desapontará: a cidade é branca mesmo — ainda que aquele branco sujo, precisando de uma limpeza.


Antes de mostrar algumas fotos, deixem-me só dizer que você se surpreenderá em saber que a origem do nome da cidade vem do português, e não do espanhol. Já por séculos havia aqui uma cidade medieval chamada Anfa, que com o tempo se tornou reduto de piratas. Os portugueses, que nos idos de 1400 começaram a fazer entrepostos comerciais por aqui, acabaram por atacar e destruir a cidade em 1468, e em 1515 construíram aí uma fortaleza, apelidada de Casa Branca. Séculos depois, com os espanhóis colonizando a parte norte do Marrocos — onde, por sinal, eles ainda mantem as cidades de Ceuta e Melilla, em solo africano, como oficialmente parte da Espanha — é que o nome Casablanca se tornou mais comum. 


Os marroquinos hoje em dia, entretanto, se referem à cidade mais pelo apelido de “Casa”, com a pronúncia próxima à portuguesa [Caza].

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Prédios do início do século XX no centro de Casablanca.
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Os antigos prédios coloniais, hoje sujos e precisando de cuidados.
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O contraste são os bondes elétricos modernos.

Casablanca tem uma medina, mas minúscula e pouco atrativa. Quase não há artesanatos; só produtos da China. Enquanto que em Marrakech, Fez ou Rabat as medinas guardam um ar um pouco bucólico, de uma vida mais simples em estruturas antigas, aqui ela parece simplesmente uma parte mais apertada de o que é o centrão da cidade — que por sua vez lembra aqueles bairros de periferia das metrópoles brasileiras. Só que eu pessoalmente achei ela mais suja que qualquer cidade brasileira aonde eu já tenha ido. Na verdade, eu nunca tinha visto tanta sujeita — exceto na Índia.

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A medina de Casablanca.
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Ruas no centrão.
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Umas ruas que pareciam entrada de favela.
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Os lugares por onde se andam no centro são assim.
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…e assim.

Ok, eu não estava transitando nessas ruas por masoquismo e nem por pura curiosidade. Pelo contrário, você sente no ar um clima tenso, desagradável. Só que esse acontecia de ser o caminho para o maior monumento da cidade, a Mesquita Hassan II, e que faz vale a sua visita (rápida) a Casablanca. 


A Mesquita Hassan II é a maior mesquita da África e a mais alta de todo o mundo. Seu minarete tem 210 metros, de onde à noite um laser verde sai em direção a Mecca. Há alguns jardins, uma imensa área aberta, e diversas fontes ornamentadas do lado de fora. Dentro, há espaço para 25 mil pessoas, que têm dali uma vista para o mar — a mesquita fica à beira do Oceano Atlântico, quase sobre a água.


Ela foi inaugurada em 1993, e leva o nome do rei da época, o pai do atual. (Hassan II foi rei entre 1961 e 1999, quando deu lugar a Mohammed VI). O custo foi de cerca de 1.7 bilhão de reais (pouco mais do que a reforma do Maracanã pra a copa). Há muito a ser dito sobre um investimento desses num país como o Marrocos, mas que a mesquita é estupenda, não resta dúvida.

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A Mesquita Hassan II vista ainda de longe.
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Mesquita Hassan II. Perceba a miudeza das pessoas embaixo.
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Fontes no pátio externo.
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Mais fontes.
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Imensos corredores em mármores branco e verde.
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E as pessoas caminhando para a oração da sexta-feira (o dia de orar com a comunidade, como é o domingo para os cristãos)

Quem é muçulmano entra sem custo, mas quem não for só pode visitar nos horários fixos de visita, com um tour disponível em várias línguas. O ingresso custa coisa de seus 30 reais — é caro, mas eu não vim até aqui pra agora não entrar. (E caso alguém esteja se perguntando se eu não podia me passar por muçulmano, no meu caso é possível que sim, embora eu não saiba nada de árabe e nem de como eles rezam. E, se descobrissem, eu não acho que eles achariam engraçado).


Como era sexta-feira, as orações se estendem por mais tempo, pois é o dia de congregação com a comunidade. Então tomamos um belo chá de espera enquanto assistíamos a centenas de pessoas que iam gradualmente enchendo a mesquita. Não parava de vir gente; uma quantidade imensa, sobretudo se você estiver habituado à quantidade pequena de pessoas na maior parte das igrejas no ocidente hoje em dia. 


Se você quiser ter uma palhinha de 1 minuto da chegada de pessoas ao som do muezim, veja abaixo o vídeo que gravei.

Como era preciso esperar, matamos um pouquinho de tempo num bar não muito distante da mesquita. Como já comentei antes, os bares aqui no Marrocos normalmente não servem álcool, mas sim chá e café, este servido num copinho de vidro parecendo pinga. Acho que a minha mãe, sentada à minha mesa, era a única mulher no bar inteiro. Ficamos enrolando com uns copinhos de café com leite e papo pro ar, até vermos a massa saindo da mesquita, e vimos que já era hora.


O tour dura cerca de 1 hora, e a guia nos levou pra ver as salas de ablusões (pois os muçulmanos precisam lavar bem os braços e pés antes de orar), os banhos termais no subsolo (separados por gênero), e o grande salão principal. É um imenso vão atapetado, com decorações mas sem bancos ou mobília, já que os muçulmanos rezam de joelhos. Homens e mulheres rezam separados (as mulheres num segundo andar nas laterais, e os homens no salão em si). Não me escapou à atenção quando a guia disse que a capacidade estimada de 25 mil pessoas eram para 20 mil homens e 5 mil mulheres. Mas isso corre por conta do patriarcalismo da sociedade árabe. Sem mais delongas, eis o interior.

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Interior da Mesquita Hassan II.
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O piso é todo decorado em mármores de várias cores, parte dele coberta por tapetes. Em mesquitas sempre se tiram os sapatos antes de entrar, pra não trazer as sujeiras da rua.
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Um segundo andar lateral onde ficam as mulheres. Segundo a tradição, é para um gênero não tirar a atenção do outro.
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Escadaria circular, com paredes ornamentadas com mármore.

A riqueza de detalhes é impressionante. É como o que era feito com as catedrais na Europa nos séculos passados (chamavam-se os melhores artistas, usavam-se os melhores materiais), só que atual. É curioso para nós do ocidente, onde não se investe mais tanto em mega-templos religiosos — à exceção das igrejas pentecostais, mas essas só têm tamanho e carecem de arte.


Como eu disse, uma das edificações mais impressionantes que eu já vi na minha vida.


Quando saímos de lá já era de tardinha, e estávamos com fome. Voltar ao centro de Casablanca não era uma opção muito atraente, até mesmo porque ele é pouco recomendado à noite (por questões de segurança, como o centro de qualquer metrópole brasileira). Sendo assim, pegamos um táxi. O que você talvez não saiba é que aqui o táxi que você pega não é só seu. Ele pode pegar outras pessoas no caminho, se houver espaço no carro, e o taxímetro calcula até três corridas simultâneas. Se você não estiver preparado, é capaz de achar que está sendo sequestrado, hehe. 


Nosso destino foi o shopping da cidade, o Morocco Mall. É bonito e grande, mas no dia me pareceu um tanto vazio, especialmente para um final de sexta-feira. Pra variar um pouquinho o paladar, comemos comida tailandesa, e olhamos algumas lojas antes de ir.

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Grande aquário no meio do Morocco Mall.

Depender de táxi de novo para voltar ao hotel é que foi o chato. Não tanto pelo custo, que aqui não é alto, mas por ter que aguentar taxista tentando lhe fazer de idiota. Quando veem que você não fala árabe, já lhe tomam por turista otário e tudo sobre de preço. (Pelo que uma amiga de Marrakech me falou, marroquinos de outras cidades também sofrem isso, como ocorre conosco no Brasil quando pegamos táxi em cidade desconhecida). 


O primeiro taxista queria ir sem taxímetro, num preço fixo que eu achei exagerado. O segundo ligou o taxímetro, mas acabou sendo pior. Deu uma volta enorme na cidade, e ainda veio com aquela conversa: “Tem colegas meus que são trapaceiros. Gostam de jogar o preço lá em cima, sem saber que, se você quisesse, podia parar em qualquer policial e ele perderia a licença, porque é ilegal. O negócio é usar taxímetro: o valor que der, tem que pagar“. Vocês já podem imaginar a minha cara. De quebra, ele ainda queria me passar a perna na Bandeira 2, que como já passava das 8 da noite estava ligada. “Olha aqui“, apontou ele pro relógio no visor no carro marcando 20:03. “Depois das 8 da noite são 50% a mais“. E ficou explicando isso de diversas maneiras, como se eu fosse imbecil e já não tivesse pecebido que a Bandeira 2 estava ligada. Ele achou que eu ia pagar ainda 50% a mais, em cima do que estava marcando. Fiz questão de dar o dinheiro exato pra que não houvesse firula com o troco, e ele fez aquela cara de aparente normalidade — meia hora depois, no hotel.


Enfim, salvos. Era só mais esta noite em Casablanca, e amanhã já havia o trem final para Marrakech. Lá eu teria ainda uma noite antes de partir do Marrocos, este país que, depois de um mês e meio, já tinha virado a minha segunda casa. Mas era hora de me despedir. No próximo post, o encerramento desta estadia no Marrocos. 

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Na estação de trens de Casablanca, aguardando o trem de volta para Marrakech. A estadia no Marrocos estava chegando ao fim.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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