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Memórias de um albergue mouro

(Este é um daqueles posts que são em parte pra vocês e em parte pra mim mesmo, pra que quando eu ficar velho não me esqueça destes ocorridos.)


Este ano passei uma longa estadia, de várias semanas, no albergue Equity Point em Marrakech. Eu nunca havia assim “morado” num albergue. Parecia uma versão mourisca e contemporânea d‘O Cortiço, só que em estilo árabe, e onde os moradores mudavam a cada par de dias. 


Houve quem achasse que eu era funcionário, e até funcionário me pedindo ajuda pra saber onde ficava tal quarto. Afinal, o albergue era ele próprio um labirinto que parecia querer imitar, em miniatura, a medina. E eu passava boa parte do dia lá dentro, variando meu ponto de trabalho. Fiz no computador o meu trabalho de pesquisa (ou vocês acham que eu fico só vadiando por aí?), mas também me diverti horrores, e conheci pessoas maravilhosas. De quebra, ainda aprendi sobre a cultura marroquina e árabe-muçulmana em primeira-mão.

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Albergue Equity Point Marrakech. Não é o resort de luxo que parece, mas é animado e aconchegante.

Ainda me lembro do gosto do suco de laranja com pepino (e dos gases que ele me deu) numa dessas noites, cortesia da cozinheira. No terraço, um restaurante servia café da manhã e jantar. Às noites ele era o “point”, como você pode imaginar. A cozinheira da noite, Malika, era uma senhora pesada, que — como diria o Tio Abdul — enche uma cama (e, se bobear, quebra), e que este mês casou-se pela terceira vez. Ela me chama de “missiê” (versão dela pra monsieur), é pura simpatia, e quer que eu engorde. Aqui o padrão físico não obedece tanto aos ditames das revistas de moda ocidentais. Os homens e mulheres marroquinas gostam de carne. (E, sim, os homens chamam mesmo as mulheres de “gazela” como forma carinhosa. Gazelle, em francês, é aqui ouvido em verso e prosa.)


Não exagero quando digo que fazia quase que um amigo novo por dia. Sentava-me ao sol, na mesa do café da manhã no terraço, e me punha com uma xícara de café no que parecia ser uma versão matinal e moura de A Praça é Nossa, como que aguardando alguém aparecer. E aparecia. Conheci muitos europeus e estudantes latino-americanos fazendo intercâmbio na Europa, inclusive muitos brasileiros. Foi com uma turma de brasileiros que dei minhas primeiras voltas na medina de Marrakech. Sobretudo gente do Ciência sem Fronteiras.


Passei a jogar pra escanteio a invenção europeia do “fim de semana”. Para os muçulmanos o dia sagrado é a sexta-feira, quando se reúnem na mesquita ao meio-dia. Mas todos trabalham tanto antes quanto depois da congregação. No fim de semana as ruas e lojas estão repletas de gente, em pleno movimento. “Ah, e o descanso?“, talvez você me pergunte. Pra eles, não sei — acho que depende da profissão. No meu caso, eu preferia trabalhar 5 horas por dia, 7 dias por semana, com flexibilidade, do que me trancar a semana inteira só em trabalho e depois querer tirar o atraso no sábado e no domingo. Liberdades da minha profissão de pesquisador, e de quem trabalha pra si. 


Demorou um pouquinho para quebrar o gelo com a maioria das mulheres trabalhando no albergue. Os homens falam com você sem problema, mas a mulheres, não. No Marrocos as pessoas são calorosas, passionais, mas a segregação de gêneros dificulta um pouco. Isso se aplica sobretudo às mulheres acima dos 40, já maduras. Eu diria que há uma linha de corte: aquelas dessa faixa pra cima parecem ser mais tradicionais como foram as suas mães e avós, enquanto que as mais jovens tendem a ser bem mais abertas. Estas nem sempre usam o véu (ou o usam só às vezes), querem que o marido tenha uma só esposa (em vez das quatro que o Alcorão e a lei marroquina permitem), e parecem já um pouquinho mais semelhantes às ocidentais — embora haja diferenças.


Na recepção, Zacarias era um sósia de Marcelinho Carioca que não perdia uma chance de jogar charme em cima das hóspedes. Tinha um ar descarado, e comigo era de poucas palavras, pois parecia estar sempre “à caça”. Mohammed era mais tranquilo, descolado. E, à noite, juntavam-se ao restaurante Khalima [Ha-li-ma] e Ilham [Il-ham], duas jovens simpatissíssimas. Khalima estava para casar-se com o primo e se mudar para a França. Já Ilham eu dizia que só não levava comigo para o Brasil porque senão Seu Ahmed, o pai, ia mandar me buscar pra tirar satisfações à maneira árabe.


Quando perguntada se era OK casar-se com primo, Khalima fez cara de interrogação. “É meu primo, não meu irmão”, retrucou ela. Ao que parece por aqui é normal. Já o casar-se com várias mulheres, também pode. Em tese, aqui no Marrocos é preciso uma autorização das esposas já existentes, consentindo na agregação de mais uma. Contudo, na prática, a história é outra. Espie:


Estávamos vendo o álbum de fotos do casamento de Malika, a cozinheira, onde ela aparecia com todos os quatro vestidos coloridos que usou, alternadamente, na festança. O marido era já um senhor, e Deus me ajudou e eu não perguntei se aquele era o pai dela. Ela estava se tornando a segunda esposa do cara. (Ela própria já tinha se casado duas vezes antes, mas acho que um morreu e do outro ela se divorciou — divórcio no Islã é algo corriqueiro, já que o casamento é um contrato e não um sacramento). Eu perguntei se a primeira mulher tinha ido ao casamento, assistir ao marido casar-se novamente. Ilham me respondeu: “A primeira mulher não sabe ainda não“. “Oxe, não disse que precisava de autorização?“, retruquei eu. “É, mas se você pagar, aí não precisa“, me respondeu Ilham com aquele ar conhecedor. “A outra mora no interior. Ele passa um tempo lá com ela, e outro cá com Malika“, completou ela com um sorriso meio cínico e divertido. As jovens de hoje, como eu disse, não querem saber mais dessa coisa de casar-se com velhos e nem de compartilhar marido com outras — ao menos aqui no Marrocos. 


As jovens marroquinas são perceptivelmente mais liberais, mas parecem continuar religiosas e dedicadas à família, enquanto que na Europa é super comum entre os jovens ser agnóstico ou ateu, e que as mulheres estejam cada vez mais preocupadas com suas carreiras e menos em formar família. Embora haja aquelas marroquinas que querem copiar o ocidente, num geral me pareceu que elas estão se liberalizando à sua própria maneira.


Não demorou, é claro, para Malika e Khalima começarem a botar pilha que Ilham e eu formaríamos um belo par. “Habiba, missiê?“, me perguntava Malika com um olhar descarado, querendo saber se eu estava solteiro. Quando soube que sim, aí pronto. Minha participação na coisa toda não era muito diferente do que vocês podem imaginar: eu ria, dizia que não podia casar assim de repente, e que não estava tão certo de que queria entrar pro Islã. “Nããão, não precisa não se você não quiser“, dizia Khalima. (Duvido que Seu Ahmed tivesse a mesma opinião). Numa das vezes, como que pra me persuadir, Malika atrás do balcão do restaurante me chamou rindo: “Missiê, missiê!“. Eu estava à frente, papeando, quando a vi pegar uma banana e me mostrar: “Você vai no médico, e ó“, e fez com a mão como se cortasse a ponta. Ah é, eu tinha me esquecido da circumcisão. Que maravilha. 

Marrakech 7-01
Essa foto foi após a minha mãe chegar ao Marrocos. Khalima é a de preto, e Ilham a de laranja. Malika é a de branco, como você pode supor. Atrás uma canadense que havia acabado de chegar, e de vermelho Vera, uma portuguesa.

Vera, a portuguesa (que possivelmente está me lendo), era também uma figura. Estava trabalhando no albergue como voluntária pra não ter que pagar a estadia, e tentando conhecer o Marrocos. A cada dia me aparecia com uma, desde um “Prdi-me na chuva“, ensopada ao chegar da medina, a histórias de que fulano estava “afiambrando-se” com beltrana, até uma vez em que se meteu com umas marroquinas que conheceu na internet e acabou indo parar numa produção de filme pornô. 


Ficava indignada com o lado mais conservador da cultura árabe, e com o psiu psiu dos marroquinos na rua. Certa vez foi chamada de Shakira na rua. Estava meio desconsolada nas primeiras semanas, cogitando voltar pra Portugal, mas acabou se habituando. Fizemos um parabéns surpresa para o seu aniversário no albergue, e pela primeira vez na vida ouvi “Parabéns pra você” em árabe.


No vídeo não dá pra ver nada, já que cantamos no escuro, mas se você quiser ouvir, é só apertar o play.

A voz dominante que você ouve no vídeo é de Marina, uma paraense que foi recrutada na hora para gravar o vídeo (já que eu estava ocupado com o “bolo”) e que acabou virando minha amiga. Também houve o aniversário de Daniela, uma mexicana conhecida na mesa do café da manhã; Teógene, de Petrolina, que deu um toque sertanejo ao restaurante ao chegar com seu sotaque e chapéu de couro, e que dizia já reconhecer “a flautinha de Seu Zé” nas músicas árabes de Ilham; Matylda, a polonesa que me empurrou na piscina; e muitos outros — cada um, único. 


O difícil era se despedir de cada um deles após poucos dias, então era sempre preciso conhecer gente nova que ia chegando. Bom que o contato com muitos continua, e o albergue entrou para a história. 


EPÍLOGO


Foi para aí que voltamos depois que minha mãe se juntou a mim e fomos a Ouarzazate, a vilarejos berberes em oásis, ao Deserto do Saara, Fez, Rabat e Casablanca. Uma volta no Marrocos, iniciada e terminada em Marrakech. Nosso trem de Casablanca veio picado de gente — era um fim de semana prolongado, e não sabíamos.  


Fomos convidados para almoçar na casa de Ilham. “Como sua mãe está aí, não tem problema; se fosse você sozinho, ficaria estranho“, me disse ela, alertando-me para os costumes daqui. A casa era simples, como muitas no Brasil. Uma portinha na rua dava para a uma escada de cimento que levava ao breve apartamento onde ela morava com a irmã, e sempre havia parentes ou amigos por perto — como ocorre em muitas partes do Brasil. O cheiro de comida vindo da cozinha tomava conta da casa, e a atividade se concentrava na sala de televisão — TV por satélite aqui é gratuita, e você tem mais de 600 canais de todo o mundo muçulmano, da Índia ao Senegal. Parecia que eu estava no interior do Nordeste; o calor era igual, a única diferença é que havia um alcorão no lugar de alguma bíblia ou imagem de santo.

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Malika animada, dançando com a música da televisão.

A generosidade também era nordestina. Tivemos um mega-cuscuz, doces, bolo, chá, café e tudo o mais. Poucas vezes na vida eu comi tanto. Quando você pensava que acabou, vinha mais. (Quando eu comparo com a pobreza que é a comida na América do Norte ou no norte da Europa, eu só faço sacodir a cabeça).

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O nosso belo cuscuz. Todo mundo comia do mesmo prato. Alguns iam de mão mesmo.

Foi um daqueles almoços que duram até o final da tarde. À noite, folia no albergue; e no dia seguinte ainda tivemos um outro almoço desses antes de zarpar para o aeroporto. Lembro que só foi me dar fome de novo perto da meia-noite.


Despedi-me de todos como se estivesse prestes a deixar aquele universo e passar para outro, na Europa, onde uma vida paralela havia sido deixada em stand by e me aguardava para continuar. Foi 1,5 mês bem intenso, humano, e cheio de descobertas aqui no Marrocos. Ainda volto a Marrakech, e quem sabe continuo essa vida que deixei aqui.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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