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Conhecendo Gênova, Itália, com um jantar em família

Gênova, uma das famosas cidades-estado das Idades Média e Moderna, e terra natal de grandes navegadores como Cristóvão Colombo. É hoje a sexta maior cidade da Itália, e como sempre uma cidade cosmopolita. Hoje você vê muitos trabalhadores indianos e africanos na área do porto, e põe-se a imaginar os mercadores árabes e espanhóis que outrora andaram por aqui.


Esta era pra ser uma viagem de um só dia, um bate-e-volta a partir de Milão. Só que eu fui e não voltei. Uma grande amiga minha mora perto da cidade, na comuna de Albisola, província de Savona, aqui perto. E a mãe dela — tremendamente simpática, fazendo valer o estereótipo da mamma italiana — caiu na besteira de me convidar pra jantar. Não só aceitei como ainda fiquei pra dormir e só fui-me embora no outro dia. (Cuidado com esses convites comigo, porque eu aceito).


Mas nem só de pão vive o homem, então antes de passarmos à janta, deixem-me contar um pouco da cidade. Chegamos no trem de Milão eram umas 10 e pouca, eu e Filiz, a minha amiga turca e companheira de viagem. Sara, a amiga italiana, foi nos aguardar na estação, trazida de carro pela mãe e pelo namorado da mãe, Mario, um senhor sexagenário caracteristicamente italiano, não do tipo gordinho bigodudo, mas do tipo elegante, com um pulôver justo, sorriso farto e cabelo prateado bem penteado. O convite do “por que não fica pra jantar com a gente?” viria depois, por telefone. Por ora, fomos eu, Sara e Filiz tomar um café antes de visitar a cidade.


Há algumas coisas interessantes que se ver em Gênova, embora não seja uma blockbuster cheia de atrações como Roma e não tenha a fama turística de uma Veneza. A vantagem é que você esbarra em relativamente poucos outros turistas na rua.

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Vista geral desta manhã de inverno em Gênova, nos arredores da estação central de trem.
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Ruas no centro de Gênova, embora esta ainda não seja a região do porto, a mais antiga.

Nossa primeira parada (após o café) foi o Castello D’Albertis, uma mansão do século XIX convertida em museu. Tem excelentes vistas para a cidade, e a coleção pessoal do distinto capitão Enrico Alberto D’Albertis. Eu me dei conta de que é super comum aqui na Europa ter esses casarões, com coleções de tudo que a pessoa tinha (enfeites, livros antigos, mapas), transformados em museu. A ideia é mostrar como vivia a aristocracia da época. Este cá, chamado de Museo delle Culture del Mondo, tem uma “sala turca”, uma “sala oriental”, etc. Claro que é só um tira-gosto de o que são essas culturas. Mas vale a pena no mínimo pela casa em si e pelas vistas para o porto.

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Escadaria da mansão.
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Arranjos internos na arquitetura.
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Sala de leitura. Quando eu crescer quero ter uma assim.
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Sala com motivos orientais.
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Vista de Gênova. Lá no fundo à direita você tem os Alpes.

A caminhada entre esse museu e o porto era por ruelas, becos, e muitas escadarias à beira de casas e apartamentos com vovós aparecendo na janela. Aquele ar de vizinhança. Na foto abaixo eu estou iluminado demais, mas dá pra vocês verem os arredores a que me refiro.

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Saindo dali, fomos almoçar na região do porto. (Como toda boa viagem, esta foi pontuada pelas refeições do dia). A região do porto de Gênova é a mais tradicional, com igrejas antigas e bequinhos por onde Colombo deve ter circulado. À época, eram repletos de bordeis e de todo tipo de serviços que marinheiros costumam requisitar. Hoje, o que não faltam são lojinhas de artigos populares (roupa barata, celular…) voltados à comunidade imigrante. É uma área bem “povo”. Não espere sofisticação nesta parte de Gênova. 


Mas circularíamos por ali mais à noite. Por ora fomos almoçar no cais, experimentar o famoso pesto de manjericão e a original focaccia, ambos nativos aqui da Ligúria, região de Gênova. Afora os onipresentes cigarros dos italianos às mesas ao lado (já que estávamos sentados do lado de fora para aproveitar o sol), o almoço foi um prazer. 


O pesto genovês, hiper-conhecido Europa afora e na América do Norte, estranhamente é quase desconhecido no Brasil, o que eu não esperaria de um país com tantos descendentes de italianos. Certamente os restaurantes italianos mais tradicionais o tem, e quem sabe uma hora ele cai no gosto nacional. O pesto, em miúdos, é um molho verde feito com manjericão fresco, azeite de oliva, alho, e queijo parmesão. Serve-se com qualquer massa. Neste caso, eu comi com nhoque.

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Meu prato de nhoque ao pesto. Nem sempre o molho é tão homogeneizado assim; às vezes você vê os pedacinhos de manjericão no azeite.

Prato bom, embora Sara tenha provado e imediatamente acusado, sentindo-se ultrajada, que tinham posto provolone na receita. Fez um “não” com a cabeça ainda mesmo antes de terminar de engolir. (Os italianos são bem tradicionais pra o lado de comida. Pra você entender a extensão disso, saiba que esse é o tipo de coisa que eles comentarão uns com os outros depois: “Fulana, você acredita que o pesto de Mairon no almoço veio com provolone?”, ao que a outra italiana torcerá o nariz). Mas apesar do rejeitado provolone, o prato estava gostoso.


Só que como eu sou um buona forchetta (a expressão italiana para “bom de garfo”) e não queria passar sem experimentar a focaccia original, pedi um segundo prato. Você, se já comeu focaccia, muito provavelmente foi aquele pão grosso com coisa em cima (queijo, azeitona…). Saiba que a focaccia original é bem diferente: é fina e recheada dentro por um tipo especial de queijo branco. Olha que dilícia. 

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Focaccia original genovesa com queijo.

Ali mesmo no porto nós víamos pesadas mammas italianas camponesas vendendo queijo em barraquinhas, com outros produtos da zona rural. A Itália é muito tradicional nisso, e não à toa é o berço do movimento Slow Food, que prega alimentos de qualidade, guardando as tradições e receitas, e apreciados numa boa mesa — sem pressa — e em boa companhia. A antítese do fast food americano. (Há uma filial do movimento no Brasil, pra quem se interessar).

Antes de passar ao jantar em famiglia italiana, tivemos ainda uma tardinha no Galata Museo del Mare (bem ali no porto) e pelas ruas antigas, para ver algumas igrejas. (Na Itália, o que mais se têm pra ver são museus, galerias e igrejas, e é também onde a arte está).


O Museo Galata fala das navegações, de quem Gênova era nos séculos passados, e se você for vidrado em aspectos técnicos de navegação (os instrumentos de orientação, arquitetura dos navios, etc), precisa ver este museu. Não é tanto o meu caso — prefiro a parte política — então acabei mais passeando do que me detendo demais. Seja como for, há uma bela vista para a cidade do último andar, que pegamos ao pôr-do-sol. 

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Senhora italiana trazendo produtos da campagna (a zona rural) para vender. Muitos queijos e chouriços.
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Galata Museo del Mare, no porto de Gênova.
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Retrato de família rural italiana no princípio do século XX. Tirada deles já imigrados no Rio Grande do Sul.
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Vista para o porto de Gênova ao pôr do sol.
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Vista de Gênova ao anoitecer.

Ali por aquelas ruas, com uma boa batida de perna você vê as partes remanescentes da antiga muralha da cidade e muitas das igrejas principais. Como sempre, as igrejas italianas dão um banho de arte, não só na arquitetura como também nos interiores. O luxo dos interiores, hoje como no passado, contrasta com a simplicidade — e uma certa esculhambação — das ruas ao lado de fora.

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Remanescente das muralhas da cidade.
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Vias estreiras na região do porto de Gênova.
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Algumas vias laterais nada charmosas.
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Interior da Cattedrale di San Lorenzo, consagrada no ano 1118. Foi sendo construída ao longo dos séculos e sobreviveu aos bombardeios da 2a Guerra. O interior é todo em mármores branco e negro, cores símbolo da nobreza genovesa.
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A Cattedrale di San Lorenzo vista de fora.
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Presépio no interior de uma outra igreja, a Chiesa del Gesu e dei Santi Ambroglio e Andrea.
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Praça movimentada e árvore de natal decorada, à noite. Para não dizer que a beleza de Gênova está só no interior das igrejas.

Noite caída, era chegada a hora de jantar. Retornamos à estação para tomar um trem a Albisola, comuna natal da minha amiga. O papo estava tão bom que perdemos a parada, fomos parar em Savona e tivemos de voltar um trecho. Mas nada grave. A fartura nos esperava. Fomos recebidos pela mãe de Sara, Mario, e por uma presente senhora canina de 17 anos, branquinha e pequena. 


Como eu comentei no meu post anterior sobre a comida na Itália, a refeição aqui se dá em fases, em sequência. Ou seja, nem tudo está já na mesa pra você apanhar o que quer. Primeiro chegou a salada, vários pratos: tomate com ervas finas, berinjela no azeite, repolho cortado com pedacinhos de queijo, e uma fritata. Como sabiam que eu era vegetariano, o vinho veio branco, já que o tinto normalmente acompanha carnes. Não sou fascinado por vinhos mas não vi porque não fazer as honras da casa.

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Olha que prato bonito para uma salada de entrada.

A esta altura a mãe de Sara já estava se divertindo com as minhas fotografias. Contei-lhe que era para os relatos e para a posteridade. Enquanto o prato principal não vinha, servíamo-nos dessas entradas e Mario ia me perguntando de futebol e Fórmula 1. Meu italiano quebrava o galho. 


Não demorou a chegar o prato principal. Ainda na cidade, por telefone, eu havia sido perguntado se comia marisco. Resolver fazer uma concessão, até pra facilitar. Foi aí que veio o polvo. (Inocente, achou que era camarão?). Polvo cozido com batatas no azeite de oliva. Como eu digo, fique aí achando que restaurante italiano te prepara para vir comer na Itália sem ser surpreendido. 


Eu continuo não muito amigo de polvo. (Ou talvez eu devesse dizer o contrário, que sou, sim, amigo deles, já que os prefiro vivos). A textura borrachosa me dá uma certa agonia, mas o tempero estava bom. Fiquei mais nas batatas. 

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Polvo cozido com batatas no azeite. As rodelinhas são os tentáculos cortados.

Se você acha que a refeição acabou, está iludido. Tivemos, a seguir, o prato de queijos. Experimentamos uns quatro ou cinco, à vontade. Alguns iam bem com umas geleias e compotas que nos eram trazidas (de ameixas, damascos, e outras frutas da região). Podíamos também comê-las com pão ou com biscoitinhos.


Aí veio a sobremesa: panetone. Se você provar o daqui, nunca mais vai querer saber daquilo que passa por panetone nos supermercados brasileiros. A diferença vai por conta da massa, deliciosa por si só e que parecia ter um toque de limão. O nosso aqui no Brasil teria sido chamado de chocotone (quando eu disse o nome, os italianos riram), pois era com cobertura de chocolate em vez de frutas cristalizadas.   


Depois de nos empanturrarmos do delicioso panetone, veio o digestivo: um licor de chocolate, bem grosso, típico de Turim. Ma che dolce vita! 😉

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As geleias caseiras, e os queijos ali atrás.
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Sara cortando o panetone.
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Nossos anfitriões italianos, e o licor de chocolate ali nos copinhos.

Nem sei mais que horas eram quando acabamos. Só sei que não dormi muito. No dia seguinte, Mario me presenteou com um vidro da compota de ameixa, e eles nos levaram à estação. Naquele dia, o dono da pousada em Milão me ligaria no celular perguntando onde a gente se meteu, se estávamos perdidos. Não exatamente. Mas isso foi mais tarde, em Turim, que nos aguardava para aquele dia.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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