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Turim: O Santo Sudário e as ruas de uma Itália quase alpina

Na foto acima, a sem-teto pede uma moeda para o seu cão. Claro, não é o cachorro quem vai gastar o dinheiro. Mas os italianos parecem mais inclinados a ceder algo se o animal for visto como o necessitado, embora a senhora ali enrolada certamente precise ainda mais. A cena não é rara. Me pareceu relativamente comum na Itália.


Estamos em Torino (chamada Turim em português) já bem no norte da Itália. Em algumas longas avenidas você facilmente vê ao fundo os Alpes cobertos de neve. O frio e todo o ambiente é quase alpino, e lembra mais a Áustria do que os campos quentes da Toscana ou as terras secas da Sicília lá ao sul.


É quase Ano Novo, portanto inverno. Passei o Natal em Veneza com a minha amiga turca Filiz e alguns amigos de lá, e começamos a percorrer este norte da Itália. Depois de passar um tempinho em Milão e ter uma bonanza de jantar em família na região de Gênova, chegamos agora a Turim de trem. Não me recordo que dia da semana era — é fácil perder a noção disso em viagem —, mas as ruas estavam vazias e quietas, exceto por algumas praças e ruas principais. No clima de inverno, a natureza toda parecia hibernar, e com ela, as pessoas.


Não tínhamos grandes ambições turísticas em Turim. A cidade não oferece taaanto assim em termos de atrações, embora tenha a sua personalidade regional própria e algumas coisas interessantes a serem vistas. A ideia era passar o dia “vendo o que que há” e retornar à pousada em Milão no fim do dia. (Como aqui tudo é perto, em uma hora ou duas você facilmente pula de uma cidade à outra.) Turim é também bastante fácil de navegar a pé. Eu queria ver o que fosse possível acerca do afamado Santo Sudário, e Filiz queria ver o Museo Nazionale del Cinema, então lá fomos nós.

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As imensas avenidas de Turim, bem vazias neste dia de inverno.
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Com a minha cara de bobo, na Piazza Castello.

O Santo Sudário, pra quem ouve falar mas não sabe o que é, consiste no pano de linho manchado de sangue que, segundo a crença, foi a mortalha que cobriu o corpo de Jesus crucificado. Sua autenticidade é objeto de um eterno debate, mas a figura condiz com a de alguém que de fato teria sofrido ferimentos de crucificação. Ela é, inclusive, mais realista que as crenças medievais: há, por exemplo, ferimentos nos pulsos e não nas palmas das mãos, onde se acreditava que o Cristo tinha sido pregado (hoje se sabe que tal coisa seria impossível, pois as mãos teriam arrebentado). 


Sabe-se que o linho é no mínimo medieval. Os céticos dizem que ele é uma peça dessa época, pintada. Já os crentes sugerem que o tecido foi remendado ao longo do tempo, e que portanto há partes mais antigas que outras (o que explicaria a presença de partes medievais no tecido).

Há uma infinidade de testes e contra-testes que nem sempre dão datas com exatidão. Às vezes é mais fácil dizer “Esse fóssil tem 40 mil anos” do que precisar século ou década. Isso ainda é dificultado por contaminação bacteriana existente no tecido e as possíveis ou prováveis “restaurações” por que o tecido teria passado durante a Idade Média. Se for uma obra de arte, parece bem feita. A questão segue em debate. Há novos testes sendo feitos de quando em vez, quando o Vaticano permite. Ao contrário do que você talvez pense, a Igreja Católica não tem posição oficial sobre o tema.

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Fotografia do sudário. No negativo, à direita, os contrastes realçados tornam mais nítida a imagem.

A peça encontra-se na Catedral de Turim desde o século XIV. Antes disso, a coisa é nebulosa. Crê-se que ele estava na França. Houve quem dissesse, à época, que o sudário havia inclusive sido feito por um artista de lá, e que o teria confessado — se é que se pode crer nas confissões medievais sob tortura. Por outro lado, antes daquilo, até os idos de 1200, os Bizantinos diziam que eles é que tinham a tal mortalha de Jesus, que teria desaparecido quando Constantinopla foi saqueada pelos cruzados europeus em 1204. 


O que se sabe com maior segurança que é a família nobre dos Saboia, que governava o sudeste da França e a região do Piemonte (aqui no noroeste da Itália, onde está Torino), tinha posse desse sudário nos idos de 1390. Essa família depois viria a se tornar a Família Real Italiana entre a unificação do país em 1861 e a queda da monarquia para o fascismo em 1922. Oficialmente, os Saboia (que ainda existem) doaram-no ao Vaticano em 1983. 


O original permanece na Catedral de Turim, e só é exibido muito raramente. (Achou que ele ficava assim aberto ao público, tolinho?). Em 2010, sua exposição juntou 50 mil pessoas — mais do que todo o público que foi ao Rio de Janeiro para a Conferência Rio+20 em 2012. Em 2013, ele foi exposto novamente com o Papa Francisco numa celebração de Páscoa, e o papa foi cuidadoso em suas palavras, dizendo que aquela imagem nos convidava a pensar em Jesus, mas sem ser conclusivo.


Sendo assim, meu amigo interessado, não ache que vai a Turim e ele estará lá aberto à sua visita (a menos que você seja o papa). Contudo, entretanto, todavia, há muitas cópias suficientemente fidedignas para quem quiser só dar uma olhada — e não fazer alguma análise do tecido.

A visita que eu recomendo aos interessados — e a mim foi recomendada numa das igrejas Turim — é a que está numa igrejinha muito despretensiosa chamada Chiesa di San Lorenzo, onde há uma cópia na parede. Dá pra você ver, tirar foto e o que quiser. A igreja é modesta por fora, mas bem charmosa por dentro.

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A Chiesa di San Lorenzo (à direita), em Torino.
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O interior da igreja, com as típicas colunas de mármore róseo italianas, e um estilo neoclássico renascentista de arcadas redondas e colunas com capitéis (o alto da coluna) bem pomposos.
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A cópia exposta do Santo Sudário. Ali se vêem duas imagens do corpo, com as cabeças no centro, um virado pra lá e o outro pra cá.

Turim tem mais que o sudário, todavia.

Aos poucos as ruas principais e praças se enchiam, sobretudo à tarde e à noitinha. (Na Europa, de forma geral, eu às vezes tenho a impressão de que as pessoas detestam a manhã). 

Fomos almoçar para ter infelizmente a refeição mais pífia que eu tive na Itália. Eu deveria ter levado a sério quando Filiz olhou pelo vidro do restaurante e comentou “Olha, tem asiáticos lá dentro”. Mas a fome foi mais forte. Nada contra asiáticos, mas contra os restaurantes italianos frequentados por turistas sem muita noção de comida italiana. Adoro ir a restaurantes asiáticos aonde os asiáticos vão, assim como melhores são os restaurantes italianos aonde os próprios italianos vão. Não era o caso aqui. Este foi o pior tipo de restaurante, o que eu mais abomino: aqueles que não são baratos, enfeitam a comida toda e se esquecem do tempero. Não tinha gosto de nada — ou, quando tinha, não era bom.

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Essa foi a entrada. A única coisa que tinha gosto aí era o limão.
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Este foi o primo piatto, o de massa. Foi o único que estava aceitavelmente bom, embora eu deteste essa cafonice travestida de requinte de ter um prato enorme com um tiquinho de comida.
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E este foi o secondo piatto, o principal. O brócoli tinha gosto de brócoli fervido e o peixe no meio não tinha gosto de nada.
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As sobremesas me mataram, que eu até larguei (coisa que só faço uma vez a cada ano bissexto). A torta estava com a massa dura e o recheio de maçã passava longe. Aquela amarela na forminha era puro açúcar. E a outra, com ar de fritura, tinha um gosto amargo de gordura e rum. Pra não achar que é frescura minha, Filiz também provou e ficou só numa mordida.

E foram-se meus 25 euros nesse raio de menu fechado. Mas não culpemos Torino. Depois ela nos recompensaria com belas guloseimas ao anoitecer. É, como eu digo, questão de saber onde comer, fundamental aqui na Itália. Essas lições foram aprendidas a duras penas.


Demos mais algumas voltas e fomos ver o Museo Nazionale del Cinema. Parece interessante, está muito bem cotado na internet, mas de antemão já lhe digo que é o museu nacional do cinema. Ou seja, trata quase que exclusivamente das produções italianas. Eu, admito, conheço pouco. Como a fila pra entrar estava enorme (já na rua), resolvemos deixar pra lá e demos só uma olhada geral. Afora o museu, há um cinema propriamente dito, no decô dos idos de 1950.

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Interior do cinema do museu em Turim, no decô dos tempos de James Dean.
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Espetáculos de rua no centro.

À noitinha, nós seguimos à Cremeria Ghigo tomar um maravilhoso chocolate quente  Denso até não poder mais. Delicioso.

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Um verdadeiro chocolate quente e um café con panna (creme), em Turim.

Turim tem as bebidas de chocolate mais tradicionais de toda a Itália. Afora o chocolate quente em si, há o bicerin, uma mistura de café expresso com chocolate quente, e também o liquore al cioccolato. Apropriados ao clima frio da cidade, e cada um melhor do que o outro. O café com creme também vale muito à pena, pois não é aquele creme americano vagabundo industrializado saído de lata feito creme de barbear. Não; esse aqui é creme caseiro, substancioso — e maravilhoso como você pode imaginar.


A atendente do bar rodopiava feito pião, e o movimento intenso da cafeteria era intenso.

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A Cremeria Ghigo em Turim. Vale muito a pena.

Era quase a hora do nosso trem de volta a Milão, e iniciamos o percurso de volta à estação.

No caminho, passamos na Rua Antonio Gramsci para tirar uma foto. Não poderíamos sair daqui sem essa. Gramsci, pra quem não conhece, foi um dos maiores pensadores políticos italianos. Ele nasceu na Sardenha, mas educou-se aqui em Turim. Dentre as suas várias contribuições, ele descreveu como a sociedade civil contribui para que as classes dominantes se mantenham no poder. Não é só questão de coerção e força, elaborou ele, mas de hegemonia cultural que as pessoas aceitam e consentem, sem perceberem.

Gramsci foi preso pelo regime fascista na Itália em 1926, de onde escreveu asuas mais famosas obras, os Cadernos do Cárcere, onde elabora suas ideias.

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Mas no meio da foto, o celular tocou. Era ligação da pousada lá de Milão. Mustafá, o nosso hospitaleiro anfitrião — suspeito eu, originalmente do norte da África — estava preocupado, pois não aparecíamos já havia dois dias (estávamos em Gênova, onde pernoitamos, como relatei). Tranquilizei-o e disse-lhe que estaríamos de volta bem em breve.


Retornamos a Milão. Filiz zarparia da Itália, e eu continuaria o restante da viagem por conta. O Ano Novo vinha aí e eu ainda tinha cidades a ver. Bolonha seria a próxima.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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