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Bolonha: Arte sacra, nereidas lactantes, e muito “food porn”

Cheguei em Bolonha para o meu quarto de solteiro num hotelzinho perto da estação de trem. Quarto de padre, só com uma cama e uma escrivaninha. Um belo banheiro, e uma televisão que eu sabia que não iria usar. Eram meados de um domingo de inverno, ruas frias e quietas nesta capital da Emília-Romanha. Eu tinha aqui até a tarde do dia seguinte, o suficiente pra ver o centro histórico, as principais obras de arte sacra da cidade (pois na Itália as principais atrações turísticas são quase sempre obras de arte sacra), e experimentar da culinária romagnola. Eu estava com fome e o primeiro objetivo era, justamente, achar onde almoçar.


Comecemos, portanto, com o food porn. Essa expressão em inglês é usada para designar essas fotos de comida que provocam, que são quase sedutoras, e mostradas para assanhar a pessoa — como o pornô.

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Eis a que me refiro. Food porn do meu creme mascarpone com calda natural de frutas vermelhas por cima.

Por sorte, um colega bolonhês havia me dado recomendações de aonde ir, e não fiquei à mercê das armadilhas pra turista. (Se bem que Bolonha, embora seja muito popular entre os italianos, parece ter pouca atração sobre os estrangeiros).

O lugar aonde fui chama-se Osteria dell’Orsa, ou “Taverna da Ursa”. Como muitas das melhores cantinas italianas, esta fica escondida numa ruela por onde poucos turistas passam. E, se passarem, não se impressionarão com a fachada simples. Dentro, o estilo é o de refeitório, com longas mesas de madeira que você compartilha com quem chegar. Sentei-me a uma mesa ainda vazia, e pus-me a escolher os meus primeiro e segundo pratos. (Se você ainda não sabe sobre o primo piatto e o secondo piatto, leia aqui). Comecei pedindo um belo ravióli ao molho de tomate,  e quis também experimentar uma piadina, também chamada de piada. Trata-se de algo típico aqui da Emília-Romanha: uma massa de pão fina, dobrada por cima de um recheio no meio.


Havia a piada simples e a complicada (é sério). A simples vinha com rúcula e queijo squacquerone, típico daqui. Eu sei, o nome não tem nada de simples, e eu precisei rever como se escrevia. Ele se refere ao fato de esse queijo ser meio líquido, aquoso. Na verdade, é quase um creme de leite salgado com um leve sabor de queijo. A piada complicada é a mesma coisa, só que com presunto cru (prosciutto crudo) por cima, o que de fato complicaria para mim, vegetariano. Fui na simples.

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Piadina simples e complicada, as tradicionais que levam o queijo squacquerone.
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Meu primo piatto: Ravioli com molho de tomate e quejo. Simples e delicioso.
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A piadina simples, com rúcula e o queijo squacquerone.

Comi o ravióli, mas antes de chegar a piadina chegaram as minhas companheiras de mesa. Um quinteto de moçoilas — frangotas, diria a minha mãe — francesas de seus 16 anos. Todas pareciam ter saído da capa de alguma Marie Claire versão teen, trajadas à moda dos anos 20, algumas com lenços em volta da cabeça estilo Coco Chanel. Olharam vívidas quanto chegou o meu secondo piatto, nos olhos a ansiedade de meninas de 16 anos. Mas fingiram — à francesa — não estar olhando quando eu me virei. Sorri, pela piada italiana e pela graça francesa. 


Dei cabo do squacquerone, e na sobremesa veio o outro “one”, o mascarpone, creme geralmente usado em sobremesas e que os italianos também chamam de queijo. Uma dilícia. 


Satisfeito, segui para ver a cidade. O coração do centro é a Piazza Maggiore, com sua bela fonte de Poseidon (Netuno) e as damas do mar, as nereidas da mitologia clássica. A obra aqui, do século XVI, tem o clássico deus dos mares com seu tridente, imponente. Ao redor, a água jorra dos peitos de nereidas lactantes.

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Piazza Maggiore de Bolonha, com a estátua de Netuno (Poseidon)
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Detalhe das nereidas lactantes, de onde jorra a água da fonte.

Essa é só uma palhinha das esculturas em Bolonha. As que mais me impressionaram foram as de terracota na Igreja de Santa Maria della Vita. Nunca antes eu havia visto esculturas com tamanha riqueza de expressão emocional. São sete esculturas em tamanho real compondo uma cena, feita pelo artista Niccolò dall’Arca no século XV. A cena, como se podia esperar deste lugar e época, é bíblica. Chama-se Compianto, e mostra as reações diante do Cristo morto. 

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Da esquerda para a direita: José de Arimateia, Maria Salomé, Maria (mãe), o apóstolo João, Maria de Cleófas, e Maria Madalena.
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Maria de Cleófas e Maria Madalena mais de perto.

Adorei o realismo emocional das expressões. É diferente da maioria das esculturas, que costumam ser impassíveis e com cara de estátua. Já estas são bastante humanas. Mesmo já tendo andado por 52 países, eu nunca havia visto esculturas assim. Se vier a Bolonha, não deixe de ver.


Saindo dali, fui à Basílica de Santo Stéfano. É um antigo complexo de várias capelas, com um convento também. É relativamente simples, cheio de arcadas românicas que parecem inspirar toda a arquitetura da cidade. Afora uma pichação ou outra sobre o capitalismo ou as medidas de austeridade da União Europeia, o centro de Bolonha está bem preservado e merece uma bela caminhada pelos seus calçadões e calçadas cobertas, margeadas pelos arcos redondos. Só tome cuidado porque os italianos adoram cães mas são pouco dados à limpeza dos dejetos, e você, inocente transeunte, tem alta chance de pisar numa bosta cremosa enquanto se maravilha com a arquitetura dos prédios. (Não pisei em nenhuma, mas às vezes parecia que estava jogando Campo Minado).

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Claustro do Convento de Santo Stéfano,
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Praça de Santo Stéfano, em frente à entrada da basílica, no cair da noite.
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Ruas menores. Bolonha é toda nestes tons de vermelho e amarelo foscos.
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Calçadas cobertas.

Foi no segundo dia que eu subi 100 metros de escada e que conheci as obras do “Picasso do Senegal”. Numa dessas arcadas, um africano vendia quadros pequenos expostos num estande simples. Batemos um papo e ele contou que vendia quadros de um amigo, artista de sua terra: “Ibnou, il Picasso del Senegal“, que mora na Itália. O estilo lembra mesmo o do pintor espanhol, só que adaptado a paisagens africanas. Comprei cinco por dez euros. Quando você for lá em casa eu te mostro. 

Já a subida de escada foi após o almoço. Como eu teria um trem para pegar à tarde, almocei cedo, logo ao meio-dia. Era a hora que abria a Trattoria del Rosso, outro lugar que meu colega bolonhês recomendou. Mais um repleto de italianos — não ouvi nenhuma outra língua. Mas talvez tenha sido porque havia uma típica senhora comentando tudo em voz alta, num sonoro italiano.


Chegue 40 minutos após a abertura (12h) e terá que esperar, pois rápido lotou de gente, mesmo sendo segunda-feira. Pedi um menu fechado com tortelloni na manteiga (primeiro prato) e lasanha de berinjela com queijo (segundo prato). Meu filho, você pira na manteiguinha. De sobremesa, novamente o mascarpone, mas desta vez com chocolate. Novamente ótimo.


O problema foi o vinho. As opções de bebida não são muitas na Itália. Se você não estiver a fim de vinho, tem que ficar no refrigerante ou suco de caixa. Como eu já estava de saco cheio dos dois, pedi uma jarrinha do “vinho da casa”. Pra quê, rapaz. Eu muito raramente bebo, então depois da segunda taça a minha cabeça já estava dando voltas, e eu que tinha 498 degraus de torre pra subir. (Eu sei. Ótimo planejamento. Mas que se dane, eu teria quatro horas de trem até Trieste depois para descansar). 

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Tortelloni (que é maior que o tortellini) na manteiga com ricota e ervas. Ma donna!! (E o vinho ali…)
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Mais food porn pra você: a minha lasanha de berinjela com queijo. (Pior é que eu aqui enquanto escrevo é que estou vendo isto e ficando com fome).
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A Torre de Asinelli, que precisava ser subida. É a da direita, a maior.

Aí você pode me perguntar: E precisava subir a torre? Precisava. Como é que eu venho a Bolonha e, estando de junto da torre, não vou subir? Claro que vou subir. São 100m de altura, com degraus de madeira fazendo voltas. E mais voltas, e mais voltas.


A Torre Asinelli (97m) e a Torre Garisenda (47m) fazem parte da fortificação medieval da cidade, e datam de 1109. Dante as conheceu, e chega a mencionar a segunda em seu Inferno (Canto 31). Eram muitas as torres medievais em Bologna, mas restam apenas 20, pois incêndios, guerras e raios deram cabo das demais. 


Bem, lá fui eu. Leva tempo para se chegar ao topo, mas “devagar e sempre” você chega. Lá de cima é possível ver quase toda a cidade. Daí você passa do inferno de Dante ao céu.

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Vista de Bolonha do topo da Torre Asinelli (a cerca de 100m de altura).

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No alto, pegando fôlego.

E descer? Bem, para descer todo santo ajuda. Ainda mais numa cidade religiosa como Bolonha. Aos pouquinhos fui encontrando o meu caminho e chegando ao chão. De lá, era passar no hotel, pegar a mochila e mais um trem, rumo a Trieste, a última cidade italiana já na fronteira com a Eslovênia, onde eu passaria o Ano Novo e entraria 2014.

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Ruas de Bolonha ao anoitecer.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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