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Bem vindos à Eslovênia: Réveillon em Ljubljana

31 de dezembro. Em vinte minutos o ônibus me trouxe de Trieste na Itália até Sežana, na Eslovênia. A natureza é idêntica, mas a atmosfera humana muda completamente. Os eslavos em geral são muito mais discretos que os italianos, e isso de certa forma reflete no ambiente. Além disso, as pessoas nos antigos países comunistas têm uma postura mais humilde, sobretudo os de mais idade, e isso se percebe na vestimenta simples e até na linguagem corporal. 


As ruas são muito mais quietas, e tudo parecia dominado por uma serenidade invernal. Não vi alvoroços de grupos de jovens onde cada um tentava aparecer mais. E, apesar de todo o meu apreço pelas italianas, ao meu ver a beleza feminina sobe um ponto aqui no lado esloveno da fronteira.


Fosse este um ambiente árido e quente, Sežana seria a típica cidadezinha perdida do velho oeste. Apenas algumas casas e a estação de trem. Mas como é inverno e é a Eslovênia, um país ex-comunista que integrava a Iugoslávia e que se fez independente em 1991, o que temos são árvores desfolhadas e uma mistura de arquitetura austríaca (da época em que isto cá era domínio dos Habsburgo) e de prédios de cimento da época do Marechal Tito (governante comunista da antiga Iugoslávia de 1953-1980). 


Mas isto aqui era uma passagem rápida. Duas horas de trem ainda me separavam da capital, Ljubljana. (Lê-se Liubliana; o J tem som de I. Já o ž tem som de J, então Sežana se lê como se fosse Sejana em português. Parece confuso, mas você se habitua rápido). Ljubljana é que era o meu destino para esta noite de réveillon.

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Prédios de cimento ao estilo arquitetônico comunista e algumas casas tradicionais.
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Pátio de espera na estação de trens de Sežana.
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Local aonde o meu trem chegou em Ljubljana.

Meu trem ia até a estação central, mas saltei antes, num parque, numa estação menor que era mais próxima do meu albergue: o Sax Hostel. Esse nome era terrível pra se pedir informação. Facilmente as pessoas entenderiam “Sex Hostel”, e olhariam pra você como se estivesse buscando turismo sexual com as europeias do leste, então cuidei na pronúncia (sax, à là britânica, e não à americana). 


Me pus ali com o mapa próximo àquelas árvores que você vê. Na ausência do sol, eu estava sem saber que lado era o leste e que lado era o oeste, e pra onde eu deveria caminhar. Ao que então uma simpática eslovena loura passeando com seu cachorro se ofereceu a me ajudar. (Parecia cena de filme). Eles aqui falam muito bem inglês, sobretudo os mais jovens. Me apontou a direção do centro — pra onde eu deveria caminhar —, agradeci, nos desejamos Feliz Ano Novo, e cada um seguiu seu caminho. (Queria o quê, que eu perguntasse se ela já tinha planos pra hoje à noite?).


A caminhada até o centro foi por ruas molhadas, frias e vazias. Um relógio digital no alto de um prédio marcava, em vermelho, a data (31/12) e os 4 graus de temperatura. Por sorte foi uma caminhada relativamente curta. Ljubljana, ainda que seja a capital, é relativamente pequena, e em 30 minutos você atravessa o centro a pé. 

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Ruas frias e quietas na véspera de Ano Novo em Ljubljana.
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Pequena praça em Ljubljana, e o relógio digital vermelho lá no alto ao fundo. Boris Kidrič [Kidrítch] aqui foi um dos líderes do movimento de resistência à ocupação nazista da Eslovênia, durante a Segunda Guerra.
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Amplas avenidas, com a mistura da arquitetura tradicional de influência austríaca e, à esquerda, os prédios moderno da era comunista.
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Chegando ao centro histórico…
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Centro histórico de Ljubljana, muito bonitinho. As pessoas foram também começando a se fazer presentes.

Eu precisava atravessar o centro histórico para chegar ao Sax Hostel, então aproveitei para ver o que podia enquanto ainda havia sol. Ljubljana é uma pequena joia. Deve ser também muito bonitinha no verão. Como era inverno e final de dezembro, tínhamos ainda as feirinhas de produtos de Natal típicas da Europa Central (Alemanha, Áustria, Polônia, Hungria…). Entrarei mais em detalhes quando falar da cidade. Por ora só o visual por onde passei.

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Caminhei por essa rua aí, margeando as barraquinhas de Natal e já vendo as coisas. De artesanatos em madeira até comidas e bebidas típicas — e, claro, algumas bobagens Made in China aqui e ali. O Sax Hostel ficava do outro lado do centro, ainda a uns 15 minutos dali. 


Afastando-se ali do centro, as ruas iam ficando quietas novamente, e um chuvisco começou a cair. Apressei o passo. Olhando o meu mapa de quando em vez, alcancei o Sax Hostel, uma casa desolada, grafitada, com cara de bar de caminhoneiro, mas muito aconchegante. De fato, o albergue são os fundos de um bar, um bar de jazz, daí o nome do lugar. 

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O Sax Hostel.

Fui recebido lá por Léa e Rosie. Léa era uma coroa de cabelo loiro curto e ar bastante ativo. Rosie era uma grande e sossegada terrier castanha. Fui instalado no dormitório Miles Davis — havia também o Louis Armstrong e outros, cada quarto com o nome de um mito do blues ou do jazz. Não havia ninguém, embora uma das seis camas estivesse claramente ocupada por alguém que devia estar na cidade. Era hora de… ? Comer.


Não era tarde (suas 7 da noite), mas como era réveillon, os restaurantes fechariam cedo (sim, aqui funciona assim). Um primeiro, vegetariano, aonde fui já estava fechando. Acabei entrando numa pizzaria ainda decorada para o Natal e tocando Tina Turner. Tinha um ar retrô, toda de tijolinhos como se o restaurante inteiro fosse uma grande churrasqueira. Pedi uma pizza inteira pra mim, não lembro o sabor, mas lembro que as músicas dos anos 80 continuavam, agora com Madonna – Like a Virgin. Senti-me prestes a celebrar o réveillon de 1985.


A comida na Eslovênia é uma grande mistura das culinárias italiana e centro-europeia (de forte influência da Áustria e da Alemanha, com seus bolos, carnes, etc). Mas fiquei contente que há mais opções de bebida (ex. sucos produzidos aqui) que na Itália, onde supõem que você sempre vai querer vinho. Mas eu falarei mais da gastronomia daqui depois; por ora foi somente uma pizza simples.

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Léa e Rosie.

Segui pra dar um bordejo no centro, agora sem a mochila nas costas e com mais calma. Vi as várias barraquinhas, experimentei algumas coisas (mais detalhes virão), e andei ali por debaixo do chuvisco na calada da noite. É pequeno, como eu havia dito. Entrei rapidamente na igreja no centro e vi um mar de gente, no que parecia ser uma missa de réveillon. Haveria shows de rua, mas esses só começariam mais tarde, e ainda eram umas 21h.


Resolvi que iria ao albergue para uma power nap — uma soneca empoderadora, daquelas de que você acorda revigorado — pra levantar mais tarde e ver a música e os fogos à meia-noite. Tirei minha roupa de rua, botei o calção, aboletei-me gostoso na cama e, não deu cinco minutos, fui interrompido. 


Chegaram ao quarto Léa e duas moças, uma animada gordinha emo com franja cobrindo um dos olhos e uma outra, um tanto mais velha (nos seus 30 e poucos), com ar consternado. Seriam as minhas colegas de quarto e de réveillon.


Levantei-me e pus-me a postos. Quando apresentei-me como brasileiro, a gordinha logo iluminou o rosto dizendo que lia Paulo Coelho, como grande parte dos jovens na Europa. (Você fique aí achando que do Brasil só se conhece samba e futebol; Paulo Coelho é incrivelmente popular aqui na Europa).  Um dos livros dele, inclusive, dos poucos que eu li, se passa aqui em Ljubljana: Verônica Decide Morrer. Coincidência ou não, a moça consternada aqui também se chamava Verônica. A gordinha era Nádia.


Conversamos, e Verônica me explicou num ar de enterro — que junto com seu rosto pálido, cabelo comprido escuro e casaco preto faziam-na parecer uma personagem de filme de vampiro — que seu celular não estava funcionando. Quando ela foi ao banheiro, comentei com Nádia que esperava que Verônica não decidisse morrer por causa disso.  Ela riu. Resisti e não fiz a piada à própria Verônica.


Saímos os três. Troquei a minha power nap por outro bordejo no centro, agora acompanhado, e lá encontraríamos mais uns amigos delas. A música estava finalmente começando, e o lugar ficando mais animado. Tomamos quentão nas barracas e comemos mais pizza, desta vez de um fast-food de balcão onde eles faziam na hora e você via os pizzaiolos balançando a massa em seus braços suados.


As minhas colegas de passeio eram eslovenas, mas do interior da Áustria. (Ou seja, eram etnicamente eslovenas, mas nascidas e criadas na Áustria, e com passaporte austríaco). Descreveram-se como austro-eslovenas. Logo achamos os outros, apesar do celular quebrado. As ruas estão longe de ter o mesmo agito de qualquer festa popular no Brasil, mas também não é o marasmo que você talvez imagine — ainda que esteja um frio da gota. Sinta a atmosfera aí no vídeo que fiz.

Caso você não saiba, na Eslovênia se fala esloveno, uma língua eslava próxima do que se fala na Sérvia e na Croácia. Mas parte do vídeo talvez tenha lhe soado familiar, hehe. Se eu não tivesse filmado, iriam dizer que eu inventei. 


Como as garotas não pareciam tão interessadas nos fogos e eu sim, nos despedimos brevemente e eu segui para a beira do rio, com vista para o castelo. Cruzei a multidão e cheguei a tempo a uma das pontes. Era a entrada de 2014. Até aqui um ano de muitas viagens, novidades e reviravoltas. Deixo vocês com o vídeo dos fogos, e volto na próxima postagem para falar mais de Ljubljana e da Eslovênia.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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