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Era uma vez em Madagascar: Antananarivo e região

Madagascar, eis a ilha de verdade, cujo nome muitos conhecem apenas pelos filmes de animação. Há quem a chame de “o oitavo continente“, já que 90% da fauna e flora desta ilha (do tamanho de Minas Gerais) é endêmica e, portanto, só existe aqui. Já outros são mais poéticos, e chamam Madagascar de a “ilha do amor”, como aquela clássica música do Olodum — que sempre ensinou mais de História e cultura da África ao Brasil que o nosso ensino escolar eurocêntrico (relembre aqui). 


A natureza aqui pode muito bem ser fruto do amor de Deus, mas a miséria social é obra clara da falta de amor dos homens. Madagascar é pobre, pobre, pobre de marré-de-ci, sugada até hoje pelos franceses, de quem foram colônia até 1960. Para se ter uma ideia, metade de toda a população aqui sofre desnutrição, e só 10% tem acesso a eletricidade. Ainda assim, são das pessoas mais simpáticas que já encontrei mundo afora. Os campeões em simpatia na África até agora, ao meu ver. Na verdade, eles gostam de dizer: “Aqui  entre nós:  Madagascar não é África“. 


Você talvez não saiba, mas os malgaxes (o povo de Madagascar) não são negros, não falam nenhuma língua africana, e culturalmente são muito diferentes do continente ao qual as placas tectônicas e a geografia política os agregaram. Nesta viagem eu descobri um pouquinho dessas diferenças — e algumas das histórias mais embasbacantes que já ouvi. Quem estiver afoito pode abaixar a barra de rolagem, mas quem quiser a história inteira, tem primeiro o prólogo de como eu cheguei até aqui, pois eu quase não chego.


PRÓLOGO

No aeroporto de Amsterdã, eu me preparava para tomar meu voo noturno até a África. Chegaria a Nairóbi, no Quênia, para conexão pela manhã, e de lá outro avião a  Antananarivo, a capital de Madagascar. Só que não; a cia aérea (Kenya Airways, que foi pra a minha lista suja) fez overbooking e a funcionária, em ar todo apologético, veio me dizer que não havia assento pra mim, que eu aguardasse até a última hora pra ver se achariam um, ou não. Atravessei controle de passaporte, segurança, tudo, e fui até o portão de embarque, onde esperaria até saber. Deixei o meu cartão de embarque com a mulher, e assentei-me. Foi quando conheci Chris, o carteiro inglês.


Não, não imagine um gentleman. Chris tinha meia-idade e cabelo grisalho, mas fazia mais o tipo inglês “peão medieval”, daqueles que aparecem arrumando encrenca em taverna de Game of Thrones, Senhor dos Aneis ou produções parecidas. Chris já não tinha metade dos dentes, e o restante estava meio estragado. Você facilmente o imaginaria acompanhado de uma caneca de bebida. Falava aquele inglês britânico da roça (como visto nessas séries), cheio de gírias e com uns palavrões aqui e ali. Ele estava sentado ao meu lado e me abordou de repente com um pacotinho de pastilhas, como quem anuncia um assalto e aponta uma arma — à là as aberturas de filme de James Bond. Quando recusei, ele fez uma breve cara de ofendido. A próxima investida dele seria irrecusável. 


”Eu sou Chris, by the way“, me disse ele virando-se novamente e estendendo a mão de repente. Gosto desses sujeitos, embora não gostasse que ele — como característico do arquétipo de taverneiro —  falasse cuspindo. E como falava. 


 “I love that bitch“, me dizia ele com visível candura sobre a sua noiva, apesar do linguajar. Iria se casar domingo. Contou-me que havia estado na África pela última vez nos anos 90, e agora embarcaria a Nairóbi para encontrar a noiva. Segundo ele, ela era mais jovem, tinha duas filhas, e ele iria lá para “facilitar as coisas” na embaixada do Reino Unido. “Ela não se importa com os meus dentes ou a minha idade, sabe? Quero dizer, ela quer que eu conserte os dentes, mas gosta de mim mesmo assim. Ela não está interessada no que eu tenho.” Sei, sei. “Tô doido pra chegar lá. Nairóbi vai tremer!“, dizia ele batendo e esfregando as mãos enquanto ria alto. 


”E você?“, virou ele de repente. Todos os seus movimentos eram súbitos. “Eu estou esperando a mulher com o meu cartão de embarque“, respondi olhando para o relógio. “Sua esposa?“, perguntou ele. “Não, a moça da cia aérea“. Era hora, o portão já estava quase fechando, e Chris levantou-se para desaparecer em meio aos demais passageiros embarcando. 


— “Se eu ouvir falar que teve terremoto no Quênia…“, disse eu, jocoso.

— “Pode me culpar! Hehehe!“, respondeu ele alto misturando-se aos demais passageiros, e desaparecendo. Nunca mais o vi.


Eu fui dos últimos a embarcar. A funcionária finalmente me conseguiu um assento (daqueles piores, que não são nem janela e nem corredor; mas a essa altura já estava contente só de embarcar). 


Rumo a Nairóbi, onde chegaríamos de manhãzinha.

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Desembarque no Aeroporto de Nairóbi, no Quênia. “Muito lindo”, como as pessoas gostam de dizer hoje em dia. Aqueles funcionários com as plaquinhas são para orientar os passageiros a onde ir.

O Aeroporto de Nairóbi, embora esteja longe de ser dos piores na África, é uma esculhambação. Os africanos (como os indianos, chineses, árabes… todos esses mais que os brasileiros) parecem ter uma alergia profunda a fila. Prontamente vira o pega-pra-capar do bolo de gente ao balcão. E nem sempre os balconistas têm a audácia necessária pra pôr ordem, embora aqui eu precise reconhecer que os funcionários da Kenya Airways tiveram. 


Uma das coisas que mais me irritam na África é a postura arrogante dos ricos. (É como no Brasil, só que pior porque a desigualdade e o tradicionalismo são maiores). Fulano vestiu um paletó, calçou um sapato oleado, já acha que pode furar fila, falar aos funcionários (garçons, recepcionistas e outros) como se fossem servos, etc. Um bonito de paletó quis furar a fila bem na minha frente e ainda reclamou quando a mulher o mandou voltar pro final.


O relógio do aeroporto marcava a hora errada (tipo 40 minutos de atraso, o ideal pra enganar se você não estiver atento), mas localizei o meu portão e fui tomar café da manhã numa bodega — a única do terminal. Nada mau: um sanduíche de queijo e salgados com café. (NOTA: Os funcionários desses estabelecimentos na África e parte da Ásia tendem a ser lentos de um jeito que no Brasil eu nunca vi. A moça aqui da lanchonete tinha que preencher toda uma notinha à mão antes de aceitar o pagamento. Jamais compre algo ou utilize um serviço desses aqui quando estiver com pressa, ou perderá seu voo. Está avisado.) Mas a moça era atenciosa e amigável, o que não é sempre o caso. Alguns são distantes como se você nem estivesse ali.  


Pondo de forma simplista, aqui na África há logo dois grupos de pessoas que ficam visíveis. Uma é essa classe trabalhadora mais simples — abatida, reticente, ou como diz um amigo meu de Uganda, “com cara de quem está com medo de atravessar a rua“, pouco enérgica ou motivada, muitas vezes apática, ainda que com um leve brilho nos olhos de que ali ainda há esperança ou otimismo lá no fundo, apesar da realidade limitada. O segundo grupo são os que se acham os reis da cocada preta em seus paletós, e que chegam em outros países querendo botar banca também, em cima de funcionários de hotel e outros. Acostumaram-se a práticas sociais classistas. Afora o vampirismo dos países ricos, é essa elite inútil que atrasa os países pobres e segura as coisas do jeito que estão. 


Mas vamos a Madagascar. Tomei meu Embraer, e lá cheguei.


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O Aeroporto de Antananarivo, em Madagascar. Acho que até o aeroporto de Feira de Santana é maior.
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A saída do aeroporto, repleta de taxistas esperando noa botija.

Antananarivo (mais conhecida como “Tana“) tem 2 a 3 milhões dos 22 milhões de malgaxes do país. É uma cidade inteira com a cara da periferia do Rio de Janeiro ou de Salvador: ruas estreitas, infraestrutura precária, lixo acumulado, vendinhas de frutas junto a barraquinhas vendendo chip para celular na rua, esgoto a céu aberto, crianças ocasionais brincando na lama, etc. Só no meu traslado do aeroporto ao hotel eu avistei duas meninas urinando e uma senhora escondendo-se atrás de um caçambão de lixo e suspendendo a saia. 


Uma nota breve pra quem pensa em visitar Madagascar ou veio até aqui em busca de informação sobre a logística da imigração: Brasileiros recebem visto na chegada, sem qualquer burocracia prévia, e foi dos processos mais rápidos e eficientes que já vi. Enquanto você espera a sua bagagem (é tudo no mesmo saguão), eles põem os carimbos no seu passaporte e lhe devolvem ele antes mesmo de a sua mala chegar. Tudo em coisa de 5 a 10 minutos, e sem custo. Noções de francês ajudam muito na sua estadia, mas aqui na imigração você não precisa conversar com ninguém. Devido à epidemia recente do vírus ebola, só me perguntaram se eu havia estado na África Ocidental, e com uma maquininha iam detectando se as pessoas estavam com febre. 

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As ruas de “Tana”. Os carros frequentemente são aqueles calhambeques velhos que você vê ali.
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Áreas mais afastadas do centro.

E que mal pergunte, que raios você foi fazer aí?“. Congresso sobre desenvolvimento rural sustentável, segurança alimentar, e adaptação às mudanças climáticas. Madagascar já é pobre e, como o restante da África, é quem mais está sofrendo com a mudança climática global (secas, alteração no padrão de chuvas, tufões no Oceano Índico, etc.). Tive, portanto, traslado até um bom hotel (Ibis) — um dos poucos prédios da cidade. Enquanto que em boa parte da África há as estradas para os carros hi-lux da minoria empoderada, em Madagascar parece que todo mundo é pobre ou, no máximo, classe média. Até os ministros de estado que eu tive a chance de conhecer me pareceram pessoas simples. 


Foi para encontrar-me com eles que andei num carro, pela primeira vez na vida, com escolta policial. Não pela insegurança, mas para abrir caminho no tráfego. 

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Eu com um colega nigeriano e uma malgaxe no jantar com os ministros.

Não, não, a tia não é asiática, os ancestrais distantes dela é que são. Ela na verdade tem a cara típica dos malgaxes. O que você talvez não soubesse é que a ilha foi povoada por povos austronésios (da Indonésia, Polinésia…), e não por africanos. Imigrantes negros só vieram mais recentemente. A língua malgaxe também é da família daquelas bandas de lá do Pacífico. E, já tendo morado na Indonésia, lhes digo que o jeito de ser deles aqui também é muito parecido: o ar um tanto pacato, a risada fácil, além de uma alimentação baseada sobretudo em arroz, como na Ásia. (Apesar da desnutrição crônica, cada malgaxe médio come 1kg de arroz em 2,5 dias, me informaram aqui.) 


Caso a ficha da diferença entre Madagascar e a África continental ainda não tenha caído, veja aqui um vídeo curto da música tradicional deles, mais parecida com um cancioneiro latino-americano do que com a percussão e os ritmos típicos africanos. (Às vezes eu me sentia como se estivesse na plateia do programa Viola minha Viola de Inezita Barroso).

Neste jantar, acho que o meu traje do Sul da Ásia fez os anfitriões me confundirem com o Prêmio Nobel da Paz de 2014. Não o indiano, mas a menina paquistanesa Malala. Essa abaixo era a plaquinha no meu lugar de sentar (havia “Brazil” escrito à mão do outro lado). 

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Não estranhem o “Raobelina”. Em Madagascar, as mulheres frequentemente têm esses nomes de proteína ou de remédio. Algumas que eu conheci pessoalmente incluem: Lovanirina, Olitina, Onilinina, entre outras. (Não, não havia nem Aspirina nem Anilina). 


Logo de entrada, recebemos suco de graviola com refill livre. Uma maravilha. Havia também um suco de frutas com bastante mamão. Já a janta em si não foi tão feliz pra mim; eles aqui comem muita carne, e na África quase nunca se lembram que algum convidado possa ser vegetariano. Me lasquei, e fiquei no arroz com salada e pimenta. Pelo menos havia umas saladas exóticas, com mamão verde etc.

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Meu prato no jantar. O chamado “arroz vermelho” de Madagascar, salada crua de mamão verde à direita, manga abaixo, e coisas mais habituais. Um molho de pimenta verde chamado de piripiri incendiava o prato.

No dia seguinte, fomos visitar um pouco da cidade. Antananarivo tem quase que só um ponto turístico: o Palácio da Rainha Ranavalona II, do século XIX. Foi projetado em 1869 pelo arquiteto francês James Cameron (não confundir com o diretor de Titanic e Avatar). Mas cheguei tarde: em 1995 puseram fogo na estrutura e só sobraram as paredes. Ainda assim, a visita vale a pena pela vista que se tem da cidade, lá do alto. 


No perímetro, um guia nos acompanhou no entorno do palácio e foi nos explicando da história e da sociedade malgaxe. 


Em miúdos, Madagascar era uma coleção de reinos e tribos independentes até o século XIX. O principal reino era o de Imerina, aqui no centro da ilha. Já nos idos de 1890, a França — após disputa com a Inglaterra — conseguiu subjugar a ilha militarmente e fez de toda Madagascar um protetorado francês. A Rainha Ranavalona II foi a última a governar. Continuou sob os franceses, mas em 1897 foi acusada de estar por trás de uma rebelião (suprimida) e foi exilada na Argélia.

Os franceses instituíram aqui o sistema da corveia medieval, isto é, faziam os malgaxes pagarem impostos através de trabalho não-remunerado nas plantações dos franceses. A história colonial durou até 1960, com a vitória malgaxe na Guerra de Independência. O pai daquela senhora que vocês viram comigo na foto ali acima ficou oito anos preso nas mãos dos franceses. Até hoje o país sofre com a rapinagem estrangeira e vulnerabilidade econômica. Quebrou com a crise financeira de 2008/2009, o que levou a um golpe de estado, e só em 2014 é que um novo presidente democraticamente eleito tomou posse. 

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Uma bela vista de Antananarivo, de onde não se percebe a pobreza ou a poluição daquele lago.
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O que restou do Palácio da Rainha Ranavalona II, já parcialmente restaurado.
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Ruínas no que eram os jardins do palácio.
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Escultura da Rainha Ranavalona II, a última de Madagascar. (Vejam ali atrás também cactos com tronco de madeira, que eles conseguem desenvolver quando há água suficiente no ambiente).

“Rainha gostosa, comentou um dos africanos que fazia o tour comigo. (Verdade seja dita, é um contraste imenso com as típicas imagens das rainhas europeias, de senhoras flácidas, pálidas e cobertas de pano). Ali ao lado o guia também nos mostrou uma a cabana de madeira que era a reconstituição do Palácio do Rei, cujo original foi incendiado. “Só tem piromaníaco aqui, hein?“, disse alguém.

Não podia tirar foto no interior, mas não havia basicamente nada além do chão de terra batida. O  rapaz explicava que um canto da cabana — digo, do palácio — era especial para orações, embaixo da cama suspensa do rei. No momento estava molhado com cara de que alguém havia urinado ali. Às vezes a precariedade era tanta que você ficava até sem jeito.

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A reconstituição do palácio do rei. Não é que rei e rainha dormissem em palácios diferentes; é que eles são de épocas diferentes.
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Tradicionalmente, era proibido dar as costas para o rei, então todos deviam sair caminhando de costas. Eu vi a hora de muitos tomarem umas belas quedas ali naqueles degraus.

São muitas as características sociais curiosas que descobri aqui (e.g. o verde é a cor da pureza, não o branco; muita gente vê ovos como símbolo de negatividade, pelo formato igual ao número zero, e foi o primeiro hotel de luxo onde vi ovos não serem servidos no café da manhã). Mas a mais curiosa de todas foi a seguinte. 


Os malgaxes em geral são cristãos, mas aquele cristianismo misturado com tradições locais, como em muito do Brasil. Só que, como os judeus, muçulmanos e outros, os homens malgaxes são todos circuncisados (isto é, têm a pele da cabeça do pênis removida quando crianças). Mas aqui isso não ocorre ao nascer, e sim após os dois anos de idade, quando o garotinho está pronto para ser formalmente incorporado à família. Para isso, o seu avô paterno deve comer a pele removida do pênis do neto com banana, como sinal de aceite. Isso matou qualquer possibilidade de eu jamais constituir família em Madagascar.


”O seu avô paterno deve comer a pele removida do pênis do neto com banana, como sinal de aceite.”

Achei que estavam zoando, mas confirmei com várias pessoas que é isso mesmo. Só não consegui muita clareza acerca de se a pele é comida crua ou cozida. Se não comer, o menino não pode herdar nada e nem ser enterrado na tumba da família. Orra…


Por ora eu vou deixar vocês para o post não ficar enorme. Mas não pensem que as histórias acabaram. Ainda há outras mirabolantes a vir.

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Crianças me pedindo dinheiro na rua.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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