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Comidas, música e dança de Madagascar, em jantar com o presidente

Suazilândia, Madagascar, Senegal. Eu em excelente companhia africana.

O meu dia começou com a cerimônia mensal de hasteamento da bandeira de Madagascar no Ministério da Agricultura. Deram-nos todos — eu e uns 40 africanos — chapéus de palha, e ficamos ali como agricultores ouvindo o microfone do ministro falhar. Sujeito simpático, o ministro. Fala espanhol, inclusive. Mas na ocasião ele optou pela língua nacional, o malagássy (ou malgaxe). Seu tradutor era uma figura sui generis: um malgaxe moreno escuro de seus quase 40 anos, cabelo liso curtinho, lábios finos, nariz de batata, com a cara feia de algum gnomo saído do Senhor dos Anéis, sempre com expressão de ofendido (daqueles a quem você dá bom dia e ele pensa se responde ou não), trajado com um terno branco de mafioso italiano. Seu microfone também falhava, contrastando com o palavreado bonito e os “do fundo do seu coração” que ele repetia.


Esse tradutor ainda reapareceria, à noite, como mestre de cerimônia do nosso fatídico jantar com o presidente.  

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Olhem a pose de xerife.

Do ministério saímos para o Palácio da Rainha Ranavalona II, relatado no post anterior (aqui). Após ouvir a história da tradição malgaxe de circuncisar os meninos e comer a pele removida do pênis com banana, fomos ao almoço. Não digo que conheci tudo, mas durante esta breve estadia vi e provei uma série de coisas. 


Vejam, por exemplo, a mafé de zebu, um guisado de carne de boi zebu. (Parece nome de carta preta de Magic, ou de algum despacho). Esse boi é muito comum aqui. Há também o saka-saka, feito com folha de mandioca cozida, igual a uma maniçoba (quem é nordestino ou do norte do Brasil deve conhecer). Só que essa aqui era com peixe.


Encontrei também cocada cor-de-rosa. Perguntei se era misturado com goiaba. “O que é que dá essa cor rosa?“, perguntei a um dos garçons. “Corante“, me respondeu ele com a maior naturalidade. Inocente, eu. Vejam abaixo esses e outros.

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A cocada cor-de-rosa. Muito açúcar. Na Bahia a gente faz melhor.
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Mafé de Zebu, com o nome ali pra ninguém achar que eu inventei.
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Saka-Saka (maniçoba) de peixe.
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O Dovi do Zimbábue, uma receita africana de frango com pasta de amendoim.
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E algo mais familiar na sobremesa, um bolo fino com banana frita em cima. Nham!

Um dos alimentos símbolo de Madagascar — e das coisas que mais vão tentar te vender aqui — é baunilha. Embora ela seja nativa do México (cultivada há séculos pelos indígenas de lá), a baunilha de Madagascar é considerada a melhor do mundo. Vendem as vagens secas, umas tirinhas pretas. (Na verdade, “baunilha” vem do espanhol vainilla, que vem do latim vagina, que significa vagem. Eita.).


Não comprei nenhuma vagina de baunilha em Madagascar, mas tomei o sorvete. Como costuma ocorrer nos países em desenvolvimento, o melhor é normalmente exportado. O melhor sorvete de baunilha que já tomei foi numa sorveteria italiana — que dizia explicitamente usar baunilha de Madagascar. Já aqui em Madagascar ele não foi mau; foi melhor que sorvete de supermercado; mas não foi nada revolucionário. Talvez em algum outro lugar. Boa mesmo foi a quantidade.

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Nem entrava no copo. O outro sabor era manga, bonzinho também.

Por influência francesa, havia disponível também sorvete de tomate (!). Perdoem-me, mas nem a minha curiosidade etnográfica e meu amor por vocês foi capaz de me fazer pedir isso. Quem quiser experimentar, é só vir aqui. Eu digo com segurança que se trata de influência francesa. Na França é muito comum encontrar suco de tomate. (Ainda me lembro que, numa festa minha com gente de várias nacionalidades, uma amiga francesa trouxe suco de tomate com ostra, e ela foi a única que bebeu — era também a única francesa na festa). 


Outra influência francesa notável é o foie gras, servido ad nauseam nas refeições onde querem fazer a coisa parecer chique. (Pra quem não conhece, esse é o patê francês de fígado de ganso, uma das comidas mais cruéis que existem. Ele requer a alimentação forçada [com tubos goela abaixo] de gansos com uma dieta rica em gordura para engordar o fígado e deixá-lo enorme e “cremoso” — basicamente uma hepatite brutal. Para depois gente se achar chique passando aquilo no pão. O foie gras é proibido na Califórnia, Índia, Turquia, Itália, Alemanha, Reino Unido, e nos países nórdicos europeus. Ficou proibido a partir de 2014 na Cidade de São Paulo, e há projeto de lei visando proibi-lo no estado do Paraná). 


Contrastando com a pretensa “chiqueza” da elite, desejosa de parecer-se com os antigos colonizadores, está a pobreza obscena da maioria da população. Isso é típico na África. O caminho que tomamos até o jantar com o presidente passou por lugares dos mais pobres que eu já vi na vida. Se a capital, Antananarivo, se parece com a periferia das metrópoles brasileiras, a periferia de Antananarivo se parece com o que há de mais pobre no Brasil — ou pior.

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Lixo, galinhas e pessoas nos trilhos. Como zumbis em em algum cenário pós-apocalíptico como em The Walking Dead. Mas estes estão bem vivos.
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Beira de estrada.
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Eu nem preciso falar sobre a pobreza. Você é capaz de imaginar as condições de vida dessas pessoas.

Sendo justo com Madagascar, o país me pareceu menos desigual que a média africana. Pareceu-me haver uma classe média pequena, mas pouquíssima gente rica. Os donos das coisas aqui são quase sempre estrangeiros. Até o presidente me pareceu um sujeito sem muita pompa. A residência oficial onde jantamos tinha piscina e salão de festas, mas nada além do que há em milhares de casas de classe alta no Brasil — relativamente pouco se você pensar que é o presidente.   


Eram umas 6 da tarde quando chegamos ao local. Um grande salão cortado por um tapete vermelho nos acomodou, umas 150 pessoas. No tapete vermelho, só o presidente pisaria. Era engraçado os mais volumosos pulando o tapete. De um lado do salão, os malgaxes, com garrafas de vinho à mesa. Do outro, nós estrangeiros, com água e fanta. Bateu 8h e nada havia ainda sido servido — estômagos em polvorosa, e as pessoas bebendo fanta quente para ver se ajudava.


Ao chegar o presidente (atrasado), deram início à cerimônia. Era um jantar solene, com muitos prêmios a apresentar e gente demais pra falar enquanto perecíamos de inanição. Ao microfone, o tradutor do terno branco empolgava-se como se estivesse apresentando o show de calouros. Você querendo comida, e ele animado: “Agora vamos assistir às danças de cada uma das 22 províncias de Madagascar!!“, e você leva a mão à testa. Ele gradualmente adquiria um tom de animador de auditório. Gritava. E falava perto demais do microfone. Nem parecia mais o sujeito de ar ofendido da solenidade da manhã. (Acho que houve algum catalisador alcoólico atuando).


Quando a comida chegou, foi uma avalanche. Meus disciplinados amigos italianos teriam tido um treco: veio vinho, junto com uísque no meio da refeição, cuscuz, peixe, foie gras, bife, queijo, camarão cru e o **ralho a quatro.


O tradutor seguia cada vez mais animado, agora gritando para que as pessoas fizessem a “dança do crocodilo”. A música ia mudando, e uma amiga de Lesoto próxima a mim começou a fazer aquela dança de quem está recebendo o santo, chacoalhando o corpo no ritmo. Vocês certamente imaginam que eu fui lá e dancei todos os ritmos da Bahia.


Trouxeram-nos então pão, e alguém perguntou quando é que viria a sobremesa. “Sobremesa? Depois do prato principal“, respondeu um garçom para uma outra amiga minha estupefata com aquela cara de “What?!“. Depois de quase nos matarem de fome, agora queriam nos empanturrar. 


Só que, depois de um dia longo, as pessoas estavam cansadas, e às 10 da noite e com trabalhos na manhã seguinte, a maior parte das pessoas não pensava em noitar. Veio uma tigela imensa de arroz à nossa mesa, e começava o burburinho sobre como voltar ao hotel.


”Nããão! Não vão embora!!!“, gritava o tradutor ao microfone. “Está só começando!!!“. Não vi a cor da sobremesa. Quando vi chegar uma vasilha enorme de mafé de zebu à mesa, saí pela culatra.  A música ainda tocava, mas o salão ia se esvaziando e eu só ouvia o tradutor berrar lá dentro. No outro dia, voltou ao ar ofendido de sempre. Se o ofendemos ou não, não sei, mas o jantar foi uma pândega.  


A estadia em Madagascar ainda continuaria, e termina com o próximo post, final. Deixo vocês por ora com as fotos e vídeos do jantar. 

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O intocável tapete vermelho presidencial cortando o salão.
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No evento com meu amigo Mao. (Não, como você pode ver, ele não é chinês).
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Após a passagem do presidente, alguns começaram a pisar no tapete. Aqui com umas amigas suázis (em vermelho) e uma de Lesoto.

Neste vídeo abaixo, um pouquinho da música do instrumento nacional de Madagascar, o valiha, que é um tubo de bambu rodeado por cordas, e que soa próximo de uma harpa. 

E neste outro uma das danças folclóricas do país, muito mais próxima das danças polinésias do Oceano Pacífico (ex. Samoa) que das danças da África continental, refletindo mesmo a origem do seu primeiro povoamento. Madagascar não era habitada por humanos até os idos do ano 490 d.C., quando recebeu populações vindas da Indonésia. É de lá que vêm as suas raízes culturais mais profundas, não da África em si. 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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