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Bled e a Eslovênia medieval

Bled é uma pitoresca cidadezinha da Eslovênia, com um castelo, um lago, e uma igrejinha numa ilhota do lago. É um dos mais populares destinos do país, e a apenas uma viagem curta (1h) da capital Ljubljana. Aqui visitei alguns cenários medievais bem idílicos, senti-me na Terra Média ou em Westeros, e de quebra ainda descobri a sabrage — a técnica de abrir champagne com um sabre — com um monge.


Ainda era começo de janeiro, portanto inverno na Europa. Tudo quieto, como transparece na foto acima. Pouco havia passado desde o réveillon, e Ljubljana continuava pacata. Na mesma rodoviária chinfrim onde eu havia tomado ônibus às Cavernas de Postojna no dia anterior (aqui), tomei hoje para Bled. O ônibus estava todo lacrado para evitar o frio invernal, com calefação no interior e aquele cheiro de estofado que já não vê o ar há algum tempo. Poucas pessoas iam comigo, umas 8, todos aparentemente eslovenos, quietos em seus cantos, e o único som era o rádio controlado pelo motorista. Continuava a aparente tradição retrô oitentista dos eslovenos que eu já havia experimentado na noite de réveillon (aqui).

Este abaixo foi um dos hits do motorista, caso você queira entrar na vibe.

Senti-me vetusto e remoto, não somente na geografia daquele lugar quieto, mas também no tempo, com aquela rádio saudosista.


Quando chegamos, a cidadezinha não estava mais viva que Ljubljana — nem menos cinzenta. Nos arredores da estação havia sinais de contemporaneidade: carros estacionados, asfalto, e sex shop. Mas conforme se caminhava adentro, esses elementos iam dando lugar a casas campestres mais simples e a mais árvores secas. Até uma trilha por onde se ia ao Castelo de Bled. Dava a impressão de que você estava entrando no quintal de alguém, não fosse a placa indicando Grad, castelo em esloveno.

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Ruas da cidadezinha de Bled, no interior da Eslovênia, e a entrada da trilha para o castelo, ali à esquerda.

O Castelo de Bled é o típico castelo no penhasco sobre a cidadezinha e o lago. Tem fosso, ponte de madeira, pátios e capela. As referências escritas a ele datam desde 1011, mas algumas partes são mais antigas, e quase todas foram sendo renovadas ao longo dos séculos. Pertenceu ao domínio dos Habsburgo da Áustria desde 1278 até o fim do império, em 1918.

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Vista do Castelo de Bled da margem do lago.

A trilha até o castelo vem por detrás, cortando uma floresta com um caminho de pedras. Era ainda de manhã e não havia mais ninguém. As brumas e o nublado davam um ar de atemporalidade: era como se o tempo não passasse, como se eu não soubesse o momento do dia em que estava, e isso não importasse. Você fica entregue aos sons da natureza e ao vento, sentindo-se ali como se estivesse em alguma obra de fantasia, ou retornado aos tempos medievais da Eslovênia, enquanto olha as árvores secas balançarem ao seu redor.

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Trilha para o Castelo de Bled na quieta floresta.

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Uma vez lá em cima, o cenário muda. Passam a haver caminhos de pedra feitos pelo homem como calçadas entrecortando as árvores. Um cachorro preto corria pra lá e pra cá. A vista lá do alto fica linda. Você enxerga toda a imensidão dos campos eslovenos, até onde as nuvens permitem a vista alcançar, o belo Lago Bled, e as montanhas dos Alpes ao norte. Mas pra ter as melhores visões é preciso terminar de subir e entrar no castelo.


A entrada é uma facada — talvez para te fazer sentir de volta à era medieval —, mas vale a pena pelos mirantes. O castelo em si não oferece muito além de si mesmo: há um pequeno museu de peças antigas mostrando um pouco da vestimenta camponesa de antigamente, um café, um restaurante… mas há a adega do Monge André, que ensina a fazer sabrage a um preço.


Subi. Entrei. Subi novamente. Atravessei a ponte de madeira e fui subindo o caminho curvo e íngreme que dava voltas nas muralhas até chegar aos pátios do castelo, de onde há vistas soberbas para o lago.

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Entrada para o Castelo de Bled.
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Pátios do castelo, hoje servindo como terraços para café.
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A vista para o Lago Bled, do alto do castelo.

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Vista apreciada, fotos tiradas, sentei-me em busca de um cappuccino. Mas me deixaram esperando demais, e eu resolvi ir conferir a adega do Monge André. Eu havia lido sobre ele, e quando alcancei a adega — ali mesmo dentro do castelo — havia um casal tomando a aula de sabrage. Ao contrário do que você provavelmente pensa, abrir o champagne com o sabre não significa cortar o pescoço da garrafa num golpe. A abertura é feita com o lado cego da lâmina, numa pancada de baixo pra cima que arrebenta inteiro o pescoço. (Não, eu não quis pagar 50 reais para aprender a fazer isso. Nem sabre eu tenho em casa, e não acho que funcione com o facão. Mas cheguei a ver).


A prática surgiu, conta a lenda, durante as campanhas napoleônicas. O sabre era a espada leve típica da época das cavalarias, e — segundo dizem — a arma favorita de Napoleão. Virou hábito, assim, que seus soldados os usassem pra abrir o champanhe nas celebrações. Napoleão dizia que o champanhe é sempre necessário após a batalha: seja para celebrar, seja para afogar as mágoas de uma derrota.

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O monge André acompanha o enchimento de uma garrafa com vinho do barril.

Encerradas essas distrações no alto do castelo, desci para ver o lago mais de perto. Da margem se pode tomar um barco caro (12 euros ida e volta) ou remar até a ilhota, onde há uma igreja, uma cafeteria, e a sensação de se estar numa ilha no lago. Esta última era a mais preciosa.


A descida ziguezagueia na floresta numa bela escadaria de madeira. Muita gente subia e me perguntava se faltava muito para terminar. Um casal passava por mim já boiando enquanto seu cachorro subia animado.


A visão continuava pitoresca, e lá embaixo havia uma paz imensa em estar sozinho diante de um lago tão belo. Todo o movimento era o dançar das árvores ao vento e o dos patos cortando a água. Se você ainda não teve essa experiência de quietude invernal na natureza, busque-a. É das experiências mais íntimas que a Terra oferece.

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À beira do lago, após a descida do castelo.

Mas breve o meu silêncio seria cortado por algo mais humano. Eu ia caminhando à margem do lago quando de repente ouvi notas de Sultans of Swing. Vinham de um abrigo de madeira ao longe. Me aproximei.

Três moças iam se aproximando do abrigo de madeira ao mesmo tempo que eu. Era um abrigo de canoas, com um rádio tocando. Eu não tinha pretensão alguma de remar sozinho naquela água gelada. Já tive experiência de virar canoa uma vez e meia (depois eu explico), e não foi legal (quer dizer, foi legal depois, pois viraram histórias, mas na hora é um inconveniente). As três italianas, no entanto, pareciam dispostas. Mas não estavam muito corajosas. Me diziam que nunca haviam canoado e perguntavam se era fácil, etc. Eu disse que poderia ser legal, mas mostrei que estava ventando no lago e que, se não sentassem direito na canoa, podiam virar. Houve aquela cara de incerteza quando apareceu o alugador de canoas. “Nããão, é bem tranquilo! Não há problema nenhum“, chegou ele com aquela conversa de quem quer ganhar dinheiro. 


”Espero que vocês sejam boas sultanas do swing”, me despedi. Resolvi seguir meu caminho antes de criar confusão com o cara. Mais adiante (o lago é grande!) achei um lugar onde comer e outro onde tomar um barco para a ilhota. A comida foi algo tão ordinário que eu sequer lembro o que foi. Apesar da natureza pitoresca, Bled está começando a ficar mais turístico e a vender essas coisas que se acham em qualquer lugar, como sanduíche ou pizza. Tomei então um barco pra 12 pessoas acompanhado de uma família australiana em que o pai era irmão gêmeo de Chuck Norris, só que mais velho. 


Quando nosso barco chegou à ilha, qual foi a minha surpresa ao rever as italianas, ofegantes e salpicadas. Pelo menos ninguém virou. Se divertiram. (Eu também, estando bem sequinho). Os australianos se dispersaram. Há barcos retornando com frequência, então o risco de ficar preso na ilha é pequeno. Há uma igrejinha e uma bela cafeteria com loja de souvenirs. A cafeteria com vistas para o lago é o paraíso para qualquer escritor.

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Cafeteria na ilhota do Lago Bled.

Tomei um chocolate quente, comi uma fatia de bolo, e me pus a caminhar no arredor. Quase fico.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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