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O Acre existe, e eu vim conhecer

Essa foto acima foi da varanda da minha morada em Rio Branco, num entardecer. 

Numa das tardes em que saí de lá e fui à cidade, sentei-me a uma tacacazeira, quando de repente apareceram as tias. Procuravam uma mesa. Não havendo mesa alguma vaga, propus que se sentassem comigo. Sendo tias, comunicativas, com aquelas caras de que já gostam de conversar, sentaram.


— “Só a gente mesmo pra tomar tacacá num calor desse, né?“, perguntou-me uma das duas tias, risonha, enquanto enxugava o suor da cara com os guardanapos de papel da mesa — e me tomando por acriano.


— “É! Precisa coragem mesmo!“, respondi eu, meu sorriso cúmplice dizendo mais que as palavras.


Logo chegaram as generosas cuias de tacacá. Pra quem não conhece, o tacacá é um prato típico da Amazônia brasileira. Patente do Pará ao Acre. Trata-se de um caldo quente feito com tucupi (um sumo extraído da mandioca), temperos, goma de mandioca, camarão seco, e folhas de jambu. (Vê aí quanta coisa você possivelmente não conhece). As folhas de jambu são especiais, pois elas têm o poder de deixar sua boca dormente e a língua formigando. É um barato.


A minha reação ao tacacá será melhor descrita a seguir através das fotos. Ele é tipicamente servido por uma tacacazeira, a equivalente amazônica da baiana do acarajé. Só que sem indumentária típica — só mesmo os braços grossos de mexer caldeirão. Tomar tacacá aqui é um programa de fim de tarde, quando ainda está aquele sol e as gotas de suor da sua testa podem imitar a maçã de Newton e juntar-se à sopa. Eita delícia.

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“Tacacá do Toinho”, mas na verdade a regente da coisa é a tia ali.
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Meu tacacá, já à noitinha. Aqui no Acre usa-se o garfo para catar os sólidos. No Pará usam-se palitinhos.
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Pré-contato. Ali no frasco é um molho de pimenta. As reações a seguir foram capturadas sequencialmente pela amiga minha que estava com a câmera.

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Barato do jambu na boca.

Essa cuia que vocês veem foi o pequeno. As pessoas aqui tomam verdadeiras bacias de tacacá. O grande tem uns 50% a mais de diâmetro. Esse eu acabei dividindo com uma amiga.


A primeira reação aos não-iniciados é a Tocata e Fuga, seguida por Allegro non molto, e depois um Crescendo do gosto forte um tanto acre do caldo, do sal do camarão seco, e do barato do jambu na boca. Dizem que é um gosto adquirido (ou seja, daqueles que você aprende a gostar — ou não). Não me apaixonei, mas eu não podia vir à Amazônia sem experimentar.  


Mas nem só de tacacá vive o homem, nem mesmo os amazônicos. 

O Acre é desconhecido da grande maioria dos brasileiros, mas lhes digo que é um lugar maravilhoso, pelo pouco que vi. Não pude ir à floresta, mas o entorno de Rio Branco já é rico em verde. E o povo, nestes 10 dias desde que cheguei aqui, já ganhou o meu coração. Os acrianos (é, se escreve assim mesmo) falam uma melodia semelhante à dos nordestinos, às vezes arrastada, mas sem a pronúncia de “titio” dos pernambucanos. Parece mais os sotaques da Bahia, do Ceará ou do Maranhão. São extremamente amistosos e comunicativos, como no interior do Nordeste. Ouvi a história de um Suíço que esteve aqui, ouviu estranhos tratando-se por “minha linda” e “meu amor”, e disse que se fizesse isso na Suíça seria processado por assédio.


Basta ir uma vez à lanchonete e você já conhecerá quase todo mundo pelo nome, e eles também te tratarão pelo nome, se você der o seu. Facilmente você pede coisas que não estão no cardápio ou eles te fazem um especial. Personalização ao extremo, na maior simplicidade e amabilidade.

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Numa lanchonete em Rio Branco. “Educação e bons modos fazem bem, deixam seu dia melhor e aqui te dão desconto!”

Eu quando cheguei a Rio Branco era meia-noite. O tráfego aéreo no Acre atualmente está todo nesse horário. Mas as instruções eram claras: pedir ao táxi que virasse à esquerda no segundo ramal (estrada de chão para os acrianos) após o motel na pista, até chegar à casa de uma amiga da amiga de um amigo meu. Uma casa afastada do centro, com os prós e contras de estar mais imerso na natureza.


Cheguei sem problemas, abaixo pela ladeira enlameada que eu só veria direito no dia seguinte. Uma bela casa de madeira, de seringueiro, circundada de verde. Pela manhã, formigas faziam-se onipresentes em todos os meus bens alimentares, desde as garrafinhas de leite de côco que estavam na mochila (pra fazer moqueca) quanto no bolso da calça onde eu havia guardado uma inocente bala. Era como estar em algum filme de horror do Hitchcock, enfiando a mão no bolso e tirando-a recoberta de formigas. Das botas saíam revoadas de mosquitos como se fossem aves de arribação após ali pernoitarem. Aranhas caranguejeiras no jardim, e mais da presente biodiversidade amazônica. 


Mas não se assustem. Você aprende a conviver, como convivem milhões de pessoas aqui e mundo afora. Nosso urbanismo é que cria essa bio-fobia tão comum hoje em dia. Não que eu goste de mosquitos, mas dá pra evitá-los com telas, mosquiteiros, ou ar condicionado. Além do mais, havia o lado mais amistoso da biodiversidade (esta não muito amazônica): a simpática cadela Bolota e uma pequena e manhosa gata sem nome. Além deles, Ivi e Guilherme, meus hospitaleiros anfitriões. Eis a nossa humilde residência (também retratada na primeira foto).

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Barranco abaixo, o caminho de casa.
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Bolota ali na varanda, e uma cadeira de balanço do vovô seringueiro. Descanse em paz, Chico Mendes.

Aqui é preciso habituar-se também ao suor. Basta sair à rua, andar um pouquinho, e você estará encharcado como se tivesse jogado uma partida de futebol. Depois seca no ar condicionado da primeira repartição onde você entrar. 


Se você não se encharcar de suor, se encharcará com as chuvas torrenciais à moda equatorial. (Agora mesmo, enquanto vos escrevo, cai um toró há quatro horas e que não dá sinais de que vai passar. Ainda estou sem querer pensar muito em como vou chegar ao ponto de ônibus e nem no sebo que deve estar a minha rua). Clima amazônico pra você; só que aqui, ao contrário do Pará, a chuva não parece ter horário certo. (Inserção posterior: A rua estava mesmo um sebo. As minhas botas ficaram enlameadas como as do Texas Ranger, e descendo de noite eu vi a hora de tomar um tombo gostoso e escorregar ladeira abaixo). 

Foi dessa casa que fiz minhas incursões ao centro de Rio Branco. Lá tenho realizado meu trabalho de campo (entrevistas e análise das políticas acrianas de conservação florestal e desenvolvimento sustentável, que são referência internacional), e, é claro, aproveitei pra conhecer um pouco das coisas do Acre.


A cidade não é grande (360 mil pessoas) e nem particularmente estonteante, mas é mais arrumadinha que a maioria das cidades brasileiras, e tem áreas bonitas. O Rio Acre, que corta Rio Branco, é mega-barrento e nada atrativo. Por outro lado, Rio Branco tem belas praças, parques, uma biblioteca pública super moderna (com wi-fi gratuito), e áreas agradáveis — embora não seja lá uma cidade muito badalada. As pessoas aqui reclamam de que não têm muito onde gastar o dinheiro. (Não sei se por isso, mas as coisas aqui não são muito baratas. Uma cuia de tacacá sai de RS$ 10-15, e um suco R$ 5 ou 6, enquanto que lá em Feira de Santana eu pago R$ 3).

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O nada atraente rio Acre, que corta Rio Branco. Algumas casinhas antigas ali do outro lado.
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O Palácio Rio Branco, a sede do governo do estado.

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Catedral de Nossa Senhora de Nazaré.
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O interior da catedral.
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O Mercado Velho, de estrutura semelhante aos encontrados Nordeste afora vendendo artesanato e comidas típicas.

Você pode sair da catedral e ir atrás de uma baixaria no Mercado Velho. Baixaria é algo típico do Acre: um misturão de cuscuz, ovos e carne moída, comido aqui muito no café da manhã.


Eu, como não como carne, dispensei a baixaria. Preferi um açaí, também típico. O ledo engano foi achar que o açaí aqui é servido como no lado de lá do Brasil. Aqui “açaí cremoso” é ele misturado com leite condensado e creme de leite. É gostoso, mas bastante doce. “Pelo menos esse é feito com a polpa de verdade”, retrucou uma amiga local. “Aquele negócio lá parece uma raspadinha. O que menos tem é açaí. É mais banana e xarope de guaraná“. Esculhambou logo. Acho que ambos têm seu lugar, mas são bem diferentes. Se vier aqui, saiba o que vai encontrar.

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Banana e granola por cima como no açaí vendido Brasil afora, mas não se engane: o que vai por baixo é bastante diferente. E aqui foi também leite em pó por cima.

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Meu beiju com ovo de de manhã, aqui vendido como tapioca, e um delicioso suco de cupuaçu numa agradável birosca do centro de Rio Branco.

Tapioca aqui é igual pão, servida ao café da manhã nas mais diversas combinações, como em muito do norte-nordeste do Brasil. Fiz uma rotina de fazer as refeições na rua, no meio do povo. Muito mais legal. Em uma semana já tenho uns 3 points de café da manhã. O meu favorito atualmente é o de Dona Maria e Santiago, que deve ser o filho ou sobrinho. Todo mundo conversa com todo mundo como se já se conhecessem de longa data. Não tem coisa melhor do que chegar lá já com um “E aí, Mairon, como é que tá você hoje, rapaz?“, daqueles em que a pessoa presta atenção e pára pra ouvir a resposta, não o falado só por educação. 


Meus anfitriões viajaram, e agora estamos somente eu, cão e gato na casa. Vê-los juntos me seguindo pra lá e pra cá me faz sentir como em algum conto, daqueles onde você é a única pessoa, com os bichos. Como em Alice, ou nessas histórias  americanas de fazenda. 

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Comendo pupunha, um fruto de palmeira. Tem gosto de inhame, só que um pouco oleoso. A foto foi tirada ainda com os anfitriões na casa.

Vida bem tranquila, me tem parecido. Bem comunidade. Pouco pretensiosa. Solidariedade ainda não muito maculada pelo individualismo. Ontem choveu outra vez e eu ganhei carona de uma senhora que eu nunca tinha visto na vida.


Como neste sábado já vou embora, hoje de manhã resolvi avisar no meu point de café. 

— “Se eu não aparecer, é porque tô viajando!”

— ” Valeu, Mairon! Quando chegar de viagem, aparece aí, hein!”, respondeu Santiago.

— “Pode deixar.”

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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