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Ljubljana, Eslovênia: Da birita de mel à Ponte do Dragão

Poucos brasileiros sabem localizar a Eslovênia no mapa, e menos ainda a incluem em seus roteiros de viagem. Um erro. Ljubljana [lê-se Liubliana], a capital eslovena, é uma das cidadezinhas mais charmosas da Europa. Não tem o glamour ou a fama de Paris ou Viena, mas tem bem menos turistas — e, por isso, oferece uma experiência bem mais autêntica, na qual você pode interagir com as pessoas, sentir tranquilamente os locais, e sossegar. Uma pequena joia que está aos poucos caindo no gosto dos demais europeus.


Eu vim até cá para o réveillon, como já relatei (aqui). Mas fiquei devendo a minha experiência pela cidade.


Havia passado o Natal, e Ljubljana não foge à regra quanto às encantadoras feirinhas natalinas de artesanato e comidas/bebidas típicas que tomam conta das praças da Europa Central à época. Aqui, muita coisa em madeira, salsichas fritas (influência austríaco-alemã), e o álcool típico da Eslovênia: uma birita feita com mel chamada medica (não, não é médica; lê-se medítsa).

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Feirinha de Natal em Ljubljana.
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Simpáticos eslovenos vendendo medica na feirinha.

O álcool não é feito de cana e nem de grãos, mas de fruta, como a palinka húngara. São destilados que às vezes depois são misturados a outra coisa — neste caso, mel. Fica bem doce. Eu não sou de beber, mas gostei. Tem uma textura meio densa por causa do mel. Experimentei um também misturado com mel e pimenta malagueta. Loucura. Parece que a sua língua vai cair.


Pelo caminho também se encontram muito as castanhas portuguesas assadas. Embora nós as chamemos assim, elas são comuns por toda a Europa no inverno. Uma delícia.

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Castanhas portuguesas assadas.

Circulei por esses lugares experimentando de quase tudo. Por influência alemã, há também o vinho quente com especiarias (o que chamam de quentão no sul do Brasil). Como fiz esta viagem sozinho, as horas se passavam comigo zanzando pela cidade, observando aqui e ali, e interagindo com as pessoas quando possível.


Foi numa dessa que me detive no Le Petit Café, na Praça da Revolução Francesa (Trg Francoske Revolucije). O café tinha um ambiente agradável, interior muito bem decorado com recortes de jornais franceses antigos, quadros impressionistas, flores, e ainda uma arvorezinha de Natal. Só que, preferindo o ar fresco ao calor do aquecedor, eu ia me sentar ao lado de fora. Mas aí — daquelas coisas — apareceu de repente aquela bela eslovena a sentar-se bem à mesa adiante de mim,  o que melhorou a visão. O que são recortes de jornais franceses e quadros de Van Gogh, afinal? De repente o interior estava caloroso e aconchegante, ao invés de quente. 

Segui tomando o meu café, e não demorou a chegar o seu colega de escola de música. Os papeis em cima da mesa os denunciava. O menino com cara de bobo e a menina graciosa — cena tão típica, e real. Ele visivelmente mais interessado nela do que ela nele, e eu ali espiando a reprise daquele filme tantas vezes já visto, e do qual acho que também já fiz parte. Mas vai ver eu estava enganado. A conversa era em esloveno, e ao terminar o meu omelete, segui à cidade. 

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Le Petit Café.


Ljubljana tem um belo castelo, aonde se sobe por um “plano inclinado” e de onde se tem uma bela vista da cidade. Vale a pena. Embora as masmorras do castelo sejam pequenas e ele não impressione tanto quanto outros castelos da Europa, há um interessante museu sobre a história da Eslovênia, uma capela, e a vista. 

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Vista da torre do castelo de Ljubljana. O pátio do castelo e, mais adiante, a cidade.
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Ljubljana vista do alto.
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No Castelo de Ljubljana, com a cidade atrás.
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Dos antigos muros do castelo.

Mas é do chão que você realmente se apercebe do charme da cidade. As ruas são belas e pacatas, com o casario da era moderna dos séculos XVIII e XIX, época ainda do domínio dos Habsburgo da Áustria. Foi em homenagem ao imperador austríaco Francisco José I (Franz Joseph I, 1848-1916) que erigiram a famosa Ponte do Dragão em Ljubljana — que alguns hoje apelidam de “a sogra“, devido às criaturas. Data de 1901, feita sob o nome de Ponte do Jubileu do Imperador Francisco José I. Ganhou o nome atual só em 1919, com o fim da Primeira Guerra e a independência destas terras — que viraram então parte da Iugoslávia, até a separação da Eslovênia em 1991. Hoje virou símbolo da cidade.

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Há quatro dessas estátuas na Ponte do Dragão, em Ljubljana.
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A Ponte do Dragão à noite.
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“A sogra”, como dizem alguns eslovenos.

A ponte é sobre o Rio Ljublianica [lê-se Liublianítsa], que agrega ainda mais charme à cidade. As fotos não me deixam mentir. Como na maioria das cidades europeias, muita coisa pedestrianizada (ou seja, vedada a carros).

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Já num outro café, pus-me a conversar com o garçom. Era também o dono, eu descobri. Queixava-se da falta de neve neste inverno, o que era ruim para os cultivos — pois a neve resguarda as raízes das plantas e as protege do ar seco. Resultado da mudança climática global. Talvez pelo pensamento crítico em mente, avistei numa outra mesa um senhor que era a cara do Slavoj Žižek [lê-se como se fosse Jijék em português, pois o Z com chapéu invertido tem som de J nas línguas eslavas]. Pra quem não conhece, Slavoj Žižek é um dos maiores pensadores críticos da atualidade. Como ele é esloveno, pensei que fosse ele. Chega tomei um susto e quase fui buscar um autógrafo. Mas não era. O garçom riu. 


Depois de alguns dias tranquilos e agradáveis em Ljubljana, era quase hora quase de encerrar esta viagem. Porém, ainda me faltava um destino nesta breve jornada pela antiga Iugoslávia: Zagreb, a capital croata.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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