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Zagreb (Croácia) e o Museu dos Relacionamentos Partidos

Bem vindos a Zagreb, a capital croata. Uma cidade simples, mas bonita e rica em história. Ao contrário da costa da Croácia, que atualmente recebe enxames de jovens festeiros de toda a Europa e parece funcionar na base do turismo, a capital é autêntica: uma cidade de croatas e para os croatas. Isso significa preços mais baratos e maior contato com o povo local.


Para quem está perdido, a Croácia fica a leste da Itália. A costa praieira no sul lembra o lado italiano, mas aqui o norte do país lembra mais as suas origens centro-europeias como parte do Império Austríaco. A foto acima não deixa mentir, com seu ar semelhante à Alemanha, Áustria, Hungria e outros países da região central da Europa. Aqui em Zagreb encontrei uma bela cidade, e vi um dos museus mais originais que já visitei em todo mundo.

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Pra quem estiver geograficamente perdido, eis a Croácia em vermelho. À esquerda em laranja é a Itália.

Cheguei à Croácia de trem. Embora em 2013 ela tenha se tornado o 28° membro da União Europeia, ainda há controle de passaporte na fronteira, mas coisa rápida. Também ainda não adotou o euro. (Visite antes que isso aconteça, pois os preços invariavelmente sobem). Enquanto na costa turística tudo é caro, em Zagreb os preços são para os croatas — portanto, quase sempre mais baratos que na Eslovênia ou na Itália, que usam o euro.

Cheguei à noite, caminhando por três belas praças conjugadas que levam da estação central de trens até o coração do centro, a Praça Ban Josip Jelačiċ. Como é comum na Europa, andam o bonde elétrico (VLT) e os pedestres — nada de carros no miolo da cidade. 

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A Praça Ban Jelačiċ, o coração de Zagreb.

Estão vendo aquela estátua do cavaleiro? Costumava ficar voltada para o norte, na direção da Áustria. Não mais. Agora está para o sul. A explicação do porquê lhe ajudará a posicionar a Croácia na História.


Aquele é Josip Jelačiċ [lê-se Yelátitch], herói nacional da Croácia. Até 1848 estas terras eram parte do Reino da Hungria, que por sua vez integrava o Império Austríaco da dinastia dos Habsburgo. Em 1848, a Europa entrou em convulsão com uma série de movimentos nacionalistas e revoluções de independência. Napoleão, no princípio dos anos 1800, já havia disseminado a semente desses ideais nacionalistas em suas campanhas pela Europa, e os europeus também assistiam aos bem-sucedidos movimentos de independência nas Américas. E perguntavam-se: por que não livrar-se do jugo alheio aqui também na própria Europa?

Os húngaros trataram logo de buscar sua separação do Império Austríaco, e voltarem a ser independentes. A Croácia à época fazia parte dos domínios húngaros dentro do império. Jelačiċ, que era um nobre na Croácia, opôs-se ao movimento independentista húngaro. Em vez disso, ele aproveitou-se da situação e propôs apoio ao imperador austríaco, com algumas condições: plenos direitos civis aos croatas, abolição da servidão na região da Croácia, e sua separação do Reino da Hungria.

O imperador concedeu, e os húngaros ficaram p*****. Os húngaros acabaram então frustrados na tentativa de conseguir independência completa, mas ganharam maior autonomia. O império passou a chamar-se Austro-Húngaro em 1848, com a famosa “monarquia dupla” (o rei húngaro tomava conta dos seus assuntos internos, mas a Áustria continuava a definir a política externa). A Croácia também seguiu sendo parte do império, mas ganhou autonomia dos húngaros e a sua própria assembleia nacional (curiosamente chamada de Sabor). 


A estátua foi posta em 1866, após as convulsões, devidamente voltada para o norte, na direção da coroa austríaca. Teve gente que não gostou. Em 1918, com a Primeira Guerra, colapsa o Império Austro-Húngaro, e a Croácia junta-se aos sérvios e eslovenos para compor um novo país: a Iugoslávia. Em 1947, o governo comunista iugoslavo manda remover a estátua dizendo que era símbolo de servitude aos interesses estrangeiros. Em 1990, com a independência completa da Croácia, a estátua — que havia ficado guardada no porão de alguém — volta à cena, mas desta vez voltada ao sul.

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Criança diante da esfinge, e a estátua de Josip Jelačiċ ao fundo, na praça principal de Zagreb.
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Meu caminho pelas praças iluminadas de Zagreb até o meu albergue.
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Passando pela praça principal à noite.

Cheguei ao meu albergue, não longe dessa praça principal, e encontrei Ana, uma simpática croata branca, alta, de cabelos compridos negros cacheados e que namorava um brasileiro. Estavam se arranjando, ele em São Paulo. Ensaiou algumas palavras em português enquanto me cedia uma toalha de banho. Enquanto isso, o tunts-tunts rolava solto no bar ao lado.


O que não faltam são festas em Zagreb, mas eu estava em modo mais reflexivo que festivo, e contente em zanzar sozinho pela cidade. Além do mais, é quase impossível sentar-se às mesas de algum bar sem fumar — ativa ou passivamente. Os europeus, sobretudo aqui nestas bandas do continente, parecem ter enorme dificuldade em conceber socialização sem beber e fumar. 


Ainda havia barraquinhas de Natal, pois era janeiro. Minha primeira tentativa foi um negócio chamado fritule, que eu — burro, ou talvez fosse a falta de glicose no cérebro — li como se fosse algo de fruta. Ledo engano; era fritura. Não passava de uma bola de massa frita no óleo, com açúcar por cima. Crendiospáde. Mas a Croácia ainda me presentearia com doces melhores.

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Bela decoração de Natal no centro de Zagreb, com as cores da bandeira croata. Ali, uma barraquinha vendendo fritule.

No dia seguinte, fiz um tour a pé sozinho, já que a Croácia — por alguma ganância disfarçada de ordem — proíbe os tours gratuitos feito por voluntários e só permite os seus licenciados, e pagos. Recusei-me a pagar o equivalente a 10 euros [30 reais] pelo que normalmente sai quase de graça nos outros países da Europa (“quase” porque, mesmo nos tais tours gratuitos, o guia espera receber uma pequena gorjeta, ainda que não seja obrigatório).


A caminhada foi agradável e bastante cênica. Zagreb tem uma parte alta, mais histórica, e uma parte baixa, que é o grosso da cidade e onde o dia-dia acontece. A parte alta é uma fofura, bem bonitinha e preservada, apesar de um incêndio em 1731 e um terremoto em 1880 terem destruído muito das casas mais antigas. 


Sobe-se lá por ladeiras ou por um plano-inclinado barato. Num dos caminhos você passa por um túnel que era um antigo portão da cidade, hoje um altar na rua. Uma imagem da Virgem Maria sobreviveu ao fogo de 1731 e até hoje permanece como local de peregrinação. Os croatas, como são bastante católicos, mantêm o local sempre em atividade. É curioso estar caminhando pela rua e, de repente, ver velas acesas, altar, e pessoas orando no túnel.

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Ao lado da área de velas, placas com mensagens de agradecimento. “Hvala” é obrigado em croata.
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Na cidade alta, parte mais histórica de Zagreb.
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A simpática Rua Tkalciceva, a mais movimentada da cidade alta, com casario tradicional e recheada de bares.
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Bela vista do alto para a cidade baixa de Zagreb, junto ao plano inclinado.

Já a cidade baixa é mais mundana. É onde o dia-dia acontece. Há uma mistura de casario da época austríaca e prédios feios da época comunista iugoslava, aqueles monstros cor de cimento que se encontram por todo o leste europeu. Afora eles, sobretudo no centro, as ruas são simples mas bem conservadas.

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Cidade baixa de Zagreb. Arquitetura da era imperial.

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Grandes calçadões por onde normalmente só passam pedestres e bondes elétricos.
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Partes mais humildes fora do centro. Prédios da época da Iugoslávia comunista.
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Estátua de Nikola Tesla (1856-1943), dos primeiros e mais renomados engenheiros elétricos do mundo. Trabalhou com Thomas Edison. Voltou a ganhar fama por ter sido tomado como o patrono dos carros elétricos. Leiam sobre ele. Era sérvio, mas nascido na Croácia. Há aqui na Croácia até mesmo o Dia Nacional de Nikola Tesla (10 de julho).

A culinária croata não me impressionou tanto (pareceu-me uma mistura de influências austríaca e italiana, com coisas genéricas tipo bife, salada, peixe assado…), mas os doces, aí sim, a gente começa a conversar. Cheguei até a ir, no dia seguinte, a cidadezinha só porque era o local clássico de uma certa torta (e, bem, eu já havia visto o grosso de Zagreb no primeiro dia). As patisserias croatas são bastante atraentes, como as fotos abaixo vão mostrar. Novamente, é forte a influência da Europa Central. Receitas da época do império, e de que quase todos partilhavam.

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Que bela vista. Guloseimas que você pode comer em Zagreb.
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Essa é a Kremshnita, que me fez ir até o vilarejo de Samobor, experimentá-la num local onde me recomendaram. Parece-se com um pudim de leite aerado. (Se bater um vento na sua mesa, desmancha e leva).
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Na bucólica cidadezinha de Samobor, nas cercanias de Zagreb.
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Pra você treinar o seu croata. Percebam como as coisas aqui são simples. Aí comprei deliciosas geleias caseiras.

Foi voltando de Samobor que visitei um dos museus mais interessantes que já vi, se não o mais, e que marcou a minha estadia em Zagreb. O Museum of Broken Relationships, ou Museu dos Relacionamentos “Quebrados”, ou Partidos. Tocou-me pela sua humanidade e originalidade. Eu iria embora de Zagreb já na manhã seguinte, num trem às 06:50, mas ainda tinha um fim de tarde e uma noite. Cheguei pra visitar o museu era de noitinha, perto do plano-inclinado, na parte alta da cidade. (Enquanto os museus convencionais fecham às 5, esse fica até mais tarde, as 10 da noite).


O conceito do museu é simples: objetos de valor afetivo doados por pessoas de todo o mundo, junto com uma história do relacionamento por detrás deles. Alguns são mais dramáticos, outros engraçados, uns tristes, quase todos tocantes. Vou traduzir alguns pra vocês.

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Um Relógio de Prata (Setembro 2002 a Maio 2005; Bloomington, Indiana, EUA). 

A primeira vez que o meu ex disse que me amava, ele tirou o meu relógio e puxou o pino pra fora para marcar a hora em que havia dito. Depois disso eu nunca mais tive coragem de empurrar o pino de volta pro lugar ou usar o relógio novamente. Mas se eu tivesse sabido que ele realmente só iria me fazer perder tempo, teria posto o pino de volta e ido embora em vez de esperar anos demais para recomeçar a minha vida.

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1.000.000 de liras turcas (2000; Bursa, Turquia).

Era a noite de formatura dela do colegial. Nessa época a gente ainda não estava saindo. Ela estava com amigos no salão de dança, e eu escutando uma fita de rock no carro, estacionado em frente ao salão. Ela me enviou uma mensagem de texto: “Queria que eu estivesse com você”. Eu ainda me lembro dela com aqueles sapatos chiques e desconfortáveis nas mãos, e um All Stars nos pés. Essa nota de 1.000.000 de liras é metade da conta que eu paguei do nosso jantar no fim da noite. Enquanto eu tentava pagar tudo, ela insistia para pagar a metade. Quando eu a levei pra casa, ela me deu um pequeno beijo, deixou o dinheiro no banco do carro, e correu pra casa. Eu peguei o dinheiro, dobrei, guardei na carteira, e por anos a vir essa nota sempre me lembraria dela. Eu depois tentei devolver, mas nunca consegui. A existência dessa nota com o número de série K 330311972 nos daria paz ao longo dos anos. O dinheiro já saiu de circulação. Não tem valor material nenhum. Mas pra mim é uma das memórias mais valiosas que tenho dela.

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Danica & Tree (Final de Maio 2007 – Final de Junho 2007; Berlim, Alemanha).

Notas básicas: Eles se conheceram num domingo de chuva, ambos estavam sós no Cinema Kulturbrauerei (filme de Joe Strummer, “O Futuro não está Escrito”). Após o filme ele veio até ela e disse: “Darf ich dich begleiden?”. Ela não entendeu o alemão dele, mas o chamou para tomar algo mesmo assim. Ela fez anjos descerem do céu para o aniversário dele, sério. 

Eles trocaram muitas maçãs nesse curto período. Estava chovendo massivamente o tempo todo. Ela gostava de sentar-se na varanda dele enrolada apenas numa colcha, comendo pão, maçãs e mel, e escrevendo-lhe cartas enquanto ele estava no trabalho. Tree começou a esconder-se de Danica um dia depois de eles terem a noite mais singela juntos, quando nenhum dos dois conseguia acreditar que haviam realmente se encontrado. As razões permanecem desconhecidas. Danica não tem tanta certeza de que eles realmente se encontraram. Ela de algum modo acha que o melhor é livrar-se destes três objetos: 

  1. O bilhete que ele deixou na porta da casa dela, em Ruckerstrasse.
  2. A maçã dada por um anjo ao outro, em Landwerk Kanal, Kreutzberg, perto do Deutsches Techniches Museum, em 2 de junho de 2007. 
  3. O canivete que ele trouxe pra ela de presente de Moscou, em julho de 2007 (após a separação).  

E mais três objetos insubstanciais — três desejos que não se realizaram:

  1. Ele prometeu levá-la a um lago especial aonde eles voltariam no inverno, quando o lago estaria congelado.
  2. Ele prometeu que eles dormiriam num telhado.
  3. Ela sonhou que ele lhe telefonaria no seu aniversário.
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(Não me perguntem se a maçã é ainda a original que a moça deixou pra o museu).

Um Retrovisor. (1983-1987; Zagreb, Croácia).

Certa noite o carro dele estava estacionado na frente da casa “errada”. Ele pagou por aquela negligência com o retrovisor. Depois eu lamentei, já que o carro não tinha culpa. Os limpadores de pára-brisas também tiveram o deles, mas eram feitos de material mais sólido e por isso permaneceram no carro. No dia seguinte, quando o “cavalheiro” chegou em casa, ele me contou uma história estranha de como uns hooligans lhe arrancaram o retrovisor do carro e entortaram os limpadores de pára-brisas. Foi tão engraçado que eu quase confessei. Mas, como ele nunca me confessou onde realmente havia passado a noite, eu também não disse nada. Foi o começo do fim do nosso relacionamento.

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Novenas (Orações). (Manila, Filipinas).

Eu rezei estas novenas todos os dias em que o meu noivo esteve no hospital por algumas semanas antes de falecer. Eu guardei isso por alguns anos, mas agora quero compartilhar com o mundo. Ele não sobreviveu ao acidente de carro, mas essas orações o mantiveram vivo naquele momento… Elas me mantiveram viva. Algum tempo já se passou. A vida continuou, e eu fui abençoada com uma bela e amorosa família. Eu sei que ele agora está feliz com o Senhor. Eu o libertei…

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E há muitos outros, de diversos tipos, em geral todos carregados de bastante sentimento. Se você tiver empatia, é difícil não sair sensibilizado, pensando nas suas próprias histórias, naquilo que você teria pra doar. Uma experiência memorável e fascinante, ainda que, em geral, triste. (Doações de todo o mundo são aceitas, então se você achar que tem alguma…).


Eu fui o último visitante a sair do museu. Não porque tenha ficado excessivamente sensibilizado, mas porque fiquei de papo com a moça do balcão, Marija [lê-se Máriia, a versão local de Maria], uma simpática croata loira de cabelos curtos, óculos, e conversa rápida. A conversa estava boa, e por que acabar? Dali saímos pra jantar alguma coisa.


A moça tinha um noivo australiano (eu sei, é longe, mas eu não tinha a intenção de colocá-la no rol das broken relationships). Mas a conversa rendeu. Senti-me como naquele filme Antes do Amanhecer (1995), em que um cara e uma moça se conhecem e viram a noite conversando pelas ruas de Viena. Fomos postos pra fora do italiano aonde fomos jantar, e dali seguimos para um drink na Tkalciceva, aquela rua simpática que mostrei antes na cidade alta. Como já era bastante tarde, a quantidade de fumantes era menor, e era possível respirar. Pela rua ficamos até quase não haver viv’alma.


Ela não me deixou tirar foto dela, mas tive notícia de que já se mudou pra morar com o noivo na Austrália — então vocês não a verão mais lá, se forem ao museu. Mas lembrem-se da história, se visitarem.


Quando cheguei ao albergue após as 3h da manhã, era hora de comer bolo com a turma da recepção. Quem é que ia mais pegar trem às 06:50h? Resolvi dormir e deixar pra o próximo que sairia para Ljubljana às 12:35.


Às 11:45 da manhã, o rádio me expulsava com Hit the road, Jack.  Só que a continuação da música (and don’t you come back no more no more…) eu sabia que não iria cumprir. A Croácia certamente me veria novamente. 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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