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Praias Romenas 2: Farofa, nudismo e rock n’ roll

Depois de alguns anos, estamos de volta à Romênia. Ah, terra de tão interessantes praias! Não tanto pela praia em si, que no Brasil temos melhor, mas pela muvuca. E cada uma tem uma muvuca à sua maneira.


Meu destino este ano foi a praia de Vama Veche [Véke], uma das mais badaladas e preferidas dos jovens alternativos na Romênia. Cheguei aqui após duas breve noites na cinzenta — porém interessante — capital romena, Bucareste. (Pra quem perdeu a minha incursão anterior a este país, vejam aqui).

Não é o clima que é cinzento em Bucareste, mas os prédios, quase todos herdados da época comunista (1947-1989), sobretudo da época governada pelo um tanto excêntrico Nicolae Ceausescu (executado na noite de Natal em 1989), que passou o rodo na cidade histórica, varreu as “mansões burguesas” e construiu prédios cinzentos todos iguais. Não consigo ficar em paz com essa faceta pouco criativa do comunismo. (Dentre as excentricidades do rapaz está uma Casa do Povo [Casa Poporului], residência de estado que hoje abriga a Câmara dos Deputados romena, e que é o segundo maior prédio administrativo do mundo, após o Pentágono — minha visita a ele pode ser lida aqui).

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Centro de Bucareste, a capital romena.

Seu Vlad, pai da minha amiga, faleceu nesse ínterim entre a minha visita anterior e esta. Desta vez conheci o Tio Adolf, o irmão mais novo (nascido em 1940, antes de o nome vir a se tornar impopular por causa de Hitler). Tio Adolf não falava inglês, mas isso não o impedia de dirigir-se a mim em romeno ainda que eu nada entendesse. O conheci na “casa de campo” da família da minha amiga, aonde fomos com a mãe dela. Uma casa dessas de cidade do interior, com quintal e árvores na frente. 


Lá presenciei a conversa de comadres entre as senhoras, que se sentavam a prosear da mesma maneira que me recordo da minha tia avó fazendo com suas contemporâneas há 20 anos atrás — todas à época já com seus 80 a 90 anos. Foi nostálgico. Isso é porque enquanto no Brasil houve mudanças sociais importantes a partir dos anos 1960, aqui na Romênia essas mudanças só entraram pra valer a partir dos anos 1990, depois da queda do comunismo. Então aqui a filha é moderninha, mas a mãe se parece muito com a avó, enquanto que no Brasil a mãe muitas vezes já é mais moderna.  


Tio Adolf, sentado num banquinho, às vezes intervinha, entre um gole e outro da sua pinga caseira, que ele se servia de uma garrafa plástica dessas de água mineral de 500ml. A pinga era provavelmente um destilado de ameixa, segundo a minha amiga.   


Na saída, ganhei um saco de abóboras do jardim, que acabei esquecendo de levar comigo na viagem. (Tô dizendo que o negócio aqui é às antigas). Seja como for, na manhã seguinte iríamos à praia. 

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Interior da casa de campo aonde fomos, parecendo cenário de Escrava Isaura ou alguma outra novela de época da Globo. Aqui presenciei a nostálgica conversa de comadres. Como manda o costume, elas não estavam à mesa, mas sentadas em cadeiras de braço; não de frente umas pras outras, mas uma ao lado da outra e de frente para o jardim da casa, como a minha avó de 95 anos ainda faz.

O trajeto de Bucareste a Vama Veche incluiu: um trem, uma van, e um táxi. De trem fomos até Constanza, uma cidade portuária onde no estacionamento fora da estação havia um sem-número de figuras suspeitas perguntando quem queria transporte para praias famosas da região, como Mamaia — aonde vão os mauricinhos e patricinhas da Romênia fazer ostentação. Negociamos passagem numa van com um tio arredondado de calção samba-canção, óculos escuros e chapéu de palha. Aqui a Romênia é cheia desses tipos. Estava agenciando o povo. Ao meu lado, uma romena bem apessoada com seus longos cabelos escuros e unhas enormes usava o smartphone enquanto segurava um cigarro com a outra mão, aquele ar de poderosa. Estávamos aguardando a van encher.


A van nos levaria até Mangália, um hub local de praias, já quase na fronteira com a Bulgária, a sul da Romênia. Como no Brasil, os carros vindo na direção oposta da estrada sinalizavam com a luz para avisar que havia polícia à frente. O nosso tio prontamente jogou o cinto por cima do ombro, para fingir que estava usando caso a polícia visse. À beira da pista e por todo o caminho o que não faltavam eram tias segurando cartolinas escrito Cazare (acomodação pra alugar), ou mesmo sacudindo chaves como se tivessem acabado de ganhar a casa própria no Baú da Felicidade.

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O nosso tio, agenciador.
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Em Mangália. Ali a bem apessoada companheira de transporte. Mas esse povo aqui na Europa, sobretudo na Europa do Leste, fuma feito umas chaminés.

Mais um táxi e finalmente chegamos a Vama Veche, esse pequeno povoado de quase só uma rua, a que leva da praia à pista. Mas não pense numa tranquila aldeia de pescadores. Assim talvez o era, mas já há décadas Vama Veche foi “colonizada” por roqueiros e alternativos em geral, e nestes últimos anos tem se tornado um pouco da moda nos verões romenos.


Nossa acomodação era bem ali, na esquina da rua com a pista, um belo prédio moderno de três andares e com varanda. Chez Alex, era o nome da pousada. (Para os menos versados em francês, “Chez” significa tipo “na casa de”). Alex era tão fino que tinha o nome da pousada escrito também em chinês — isto é, deduzi que aqueles ideogramas eram o nome da pousada.

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Ali, onde está virando o caminhão. Nossa pousada era aquela branca, junto do sombreiro colorido.
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Em detalhe. Lugar de primeira linha.
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A nossa aconchegante varanda. Estas portas davam para os quartos. Havia três andares disto. Nesta mesa víamos os donos às vezes fumando e jogando baralho.

Quando chegamos, não havia ninguém na recepção — uma saleta com cara de repartição pública abandonada. Uma moça logo apareceu (pelo lado de fora) e foi chamar quem eu acredito que seja Alex, um tio de óculos e de calção, meio pipio das vistas, com aquela barriga caída cobre-pinto e Ryder no pé. Obviamente não havia café da manhã, nada incluso, mas ao menos os banheiros eram privados. Seu Alex portanto subiu conosco a escada, carregando na mão um rolo de papel higiênico para nós. 


(Mais tarde, quanto eu estava lendo à brisa na varanda, veria o tio voltar, trazendo os recém-chegados ocupantes do quarto ao lado, com um novo rolo de papel higiênico que ele brandia para mostrar o interior do quarto e a vista para o mar).

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A minha vista para o mar, e a rua.

A rotina dos nossos dias era simples: tomar café da manhã num dos bares da rua, ficar na praia até o sol esquentar, almoçar em algum lugar, sossegar com um livro à tarde (no meu caso), e retornar à praia ao entardecer. A noite incluía ficar por ali também. 


Vama Veche é tida entre os romenos como uma praia rock n’ roll, mas há um elemento meio roça também. Sim, você tem bares de death metal com caveira, crucifixo e tudo preto; mas há também a peixada do Seu Chico, usando chapéu de palha junto da chapa; cachorros pegando picula na areia pra lá e pra cá; crianças soltando pipa; e famílias (muitas vezes todas nuas) montando a grelha pro churrasquinho de frango ao lado do trailer branco estacionado na areia. E o mar ali quebrando.


Sim, eu esqueci de mencionar que parte da praia é de nudismo. Não vi nada que preste, vou logo dizendo. Quase todos os pelados são homens, crianças ou senhoras (algumas, inclusive, você se arrepende de ter visto e teme que possam lhe assaltar os pensamentos à noite — tratei logo de tirar os meus óculos). 

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Motoqueiro chegando com um cachorro na mochila. Percebam ali ao lado alguém nu se abaixando para pegar algo.
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Em frente a um bar de metal muito louco, com uma vibe horrível, embora eu goste de metal.
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Não muito longe dali, a peixada do tio na chapa.
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… os trailers dos nudistas acampando…
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… e coisas difíceis de explicar…

A comida aqui era daquelas coisas comuns: pizza, sanduíche, macarrão com molho, etc. Alguns até nem eram ruins, embora não especial. Especial só uma refeição especialmente horrível que eu fiz num buffet à beira da praia, e retratado abaixo. Por outro lado, em certas barraquinhas havia crepes de nutella com frutas muito saborosos.

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Séria candidata a pior refeição feita este ano. Isso no meio é torta de espaguete, duro de assado e sem gosto. Ali ao lado feijão sem tempero, e do outro salada de beterraba de conserva — daquelas que vêm que o gosto forte de vinagre. Nem lembro quanto paguei por esse abacaxi.
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Uma das barraquinhas de crepe. (Favor notar a duvidosa ilustração com as frutas ali acima).

E nesta curiosa localidade passei quatro dias, muito semelhantes uns aos outros. A água do mar em si não era má, embora tivesse bastante alga. Os dias eram tranquilos e divertidos com as loucuras desse cenário. Lembro-me que certa vez sentei-me numa pedra para descansar a janta e ler o meu livro de História do Irã, mas uma suspendida de vista e, à minha esquerda, via a moça dançando Fear of the Dark do Iron Maiden (a dança eu deixo por conta de vocês imaginar, mas incluía um bom sacolejo de madeixas); à direita, um ménage à trois canino na areia. E a vida em Vama Veche seguia. 


As noites, por outro lado, eram menos interessantes. Primeiro que a cama quase me derruba, e tive que logo trocar com a minha amiga. Segundo que fazia um calor de forno e o prédio era de cimento, ao que você imagina que era agradabilíssimo após uma tarde de sol em cima dele. E terceiro que, como era fim de semana, havia sempre eventos. Sabe o que é pior do que música de boate no restaurante vizinho quando você quer dormir? Uma sessão de uma hora com alguém contando piadas ao microfone. Em romeno. (Não sei se ter entendido as piadas teria sido melhor ou pior).


Por sorte o filho da mãe parou antes da meia-noite, embora o batidão no bar em frente tenha continuado até as 5 da manhã. Os embalos de sexta, sábado e domingo à noite. 

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Pedras onde me sentei numa tarde para ler, e observar.
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Esse aí exagerou nos embalos.

Dali eu voltaria a Bucareste, onde ainda passaria mais uma noite. Nessa noite, fui com um grupo de amigos num bar bem legal chamado Éden, no meio do mato, por assim dizer, por detrás de um casarão antigo. Coincidência ou não, acabei esbarrando num camarada que havia ficado no mesmo albergue que eu em Marrakech alguns meses atrás. Surreal como às vezes o mundo é pequeno.

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O casarão abandonado. Esse é dos que não foram destruídos por Ceausescu.
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Os fundos. Bar Éden, em Bucareste. Lugar extremamente agradável. (Só não pode chover).

Da Romênia eu seguiria para Malta neste verão. Mais um país a conhecer. Deixo vocês com as fotos de Vama Veche, para lembrarem, visitarem e viverem a muvuca.

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Não, a dama de vermelho não é salva-vidas, tolinho. Senão ia ter marmanjo se afogando por minuto.
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Nascer do sol, visto da lage da nossa humilde residência.
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Espreguiçadeiras alugáveis na praia.
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Ou algo mais chique, se você preferir.
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Ê vida.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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