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Bem vindos a Malta: Chegando e Ambientando-se

Malta está no imaginário de todos, uma referência que poucos brasileiros sabem de onde vem. Cruz de Malta, cachorro maltês, entre outros, e muita gente sequer sabe que Malta é um país independente, membro da União Europeia (desde 2004), e que fala o seu próprio idioma, o maltês. Onde fica? Ao sul da Itália, no caminho para a Líbia, caminho que muitos refugiados africanos hoje fazem em reverso, buscando vida melhor na Europa.

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Localização de Malta no sul da Europa.

Foi essa curiosidade que me trouxe aqui após deixar as praias da Romênia (aqui) neste verão. Conheceria um cantinho menos conhecido da Europa.


Já no aeroporto, hospitalidade maltesa. Nunca vi um controle de passaporte tão rápido. A moça do guichê da imigração, uma morena de olhos negros mouros e longas madeixas pretas, até falou comigo em português — havia morado dois anos na cidade do Porto, em Portugal. Todas as placas estão em maltês (uma língua pra lá de estranha, mistura de árabe, fenício, italiano, inglês e outras influências, a única língua semítica da Europa, da família do árabe e do hebraico, e escrita com letras latinas cheias de acentos estranhos — tipo um H com duas barras — que eu não faço ideia de como fazer no teclado). Mas tudo está também em inglês, que todo mundo aqui fala, já que foram colônia britânica até 1964.

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Língua maltesa. Às vezes me parece um árabe tentado ser escrito no alfabeto latino. Msida é o nome do bairro aonde eu fui no primeiro dia. (Ah, é claro, eu queria ver uma multa dessas pra quem joga lixo da janela do carro no Brasil).

Entrei no ônibus do aeroporto em direção a Valletta, mas pensei ter entrado por engano em algum portal que me teleportou à África. O ônibus era uma verdadeira arabaca — estão renovando a frota, mas há ainda muitos desses antigos —, sujo, cheio de terra, com embalagem de picolé pelo chão. Meus companheiros eram todos rapazes negros, com ares de refugiados do Benin — aquela atitude taciturna, distante e cismada de quem é marginalizado. Você vai cruzando o pequeno país e vendo que Malta se parece mesmo mais com um país em desenvolvimento do que com a imagem que você provavelmente faz da Europa. Afinal, estamos na porta dela, quase na África.

Alguns lugares parecem ficar marcados e ter a alma de certas horas do dia. Malta, pra mim, tem a cara e a alma de uma tarde quente de verão às duas horas, talvez por ter sido a hora em que eu cheguei. Não aquela tarde fresca, tão celebrada por Dorival Caymmi nas suas tardes em Itapuã, mas aquela tarde abafada, em que o sol está de rachar no asfalto, e as ruas vazias. Pra complementar, tudo em Malta tem aquelas cores da primeira foto: amarelo ocre, cor de areia, que colore o chão, as casas e toda a paisagem. Contrastando, só algumas plantas e o mar azul cobalto ao redor.


Malta tem uma ilha principal (Malta) e outras menores compondo o país. Essa ilha maior, ainda assim, é pequena e creio que sequer chega ao tamanho da Zona Sul do Rio de Janeiro. A população total do país (446 mil) sequer chega à da minha cidade, Feira de Santana. (Eu custei a assimilar que existem mais feirenses que malteses no mundo). 


A despeito da pequeneza, Malta divide suas várias partes como se fossem cidades, administrativamente diferentes — resultado da origem histórica como vilarejos separados na ilha. Na prática hoje, em termos de distância, é como se fossem bairros de uma grande cidade. Valletta é a capital, que é como um centro histórico e de governo. É também onde está o terminal de ônibus de onde você toma transporte para qualquer parte da ilha.

Desci lá. O lugar parecia ponto de ônibus brasileiro. Mais tranquilo, mas com aquele solão, o povo aguardando na sombra, e quiosques vendendo frituras, balas, sucos artificiais coloridos na garrafa plástica e coisas baratas de camelô. Depois de procurar, achei um ônibus que me levasse a Pietà, a área onde eu ficaria albergado.

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Barraquinhas de ponto de ônibus vendendo “salgado”, doces e bobagens outras, e as pessoas refugiando-se do calor enquanto esperam seus ônibus — como no Brasil.
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As pessoas fugindo do sol no ponto, ao contrário do que ocorre no norte da Europa, onde as pessoas ficam “lagarteando”, buscando tomar cada raiozinho de sol possível.
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Msida, onde desembarquei.

Desci do ônibus para uma rua quieta à beira d´água, onde havia lanchas e iates estacionados. Apesar de ser meio de semana, tudo tinha um ar de quietude, só com uma pessoa aqui e outra ali, talvez por ser verão e época de férias. Me bati um pouco a pé. Perguntava pelo meu albergue; não sabiam. Como era tarde, resolvi almoçar. Sem muitas opções, entrei num restaurante com ar de lanchonete, desses com ventilador em pé, freezer deitado (desses de picolé), TV desligada, uma gaiola com um passarinho quieto, e uma mulher atrás do balcão, que perguntou o que eu ia querer.


Não havia realmente opções vegetarianas — a culinária maltesa parece bem carnívora, com iguarias de coelho e de carne de cavalo, comum aqui. O jeito foi comer peixe. Me veio um prato enorme de peixe à milanesa (que não tinha gosto de nada) com batatas fritas e salada de tomate e alface. Larguei as batatas — tão secas quanto Malta — e parte do peixe. E olhe que eu sou bom de boca, mas era demais. A mulher, com seu cabelo liso e preto preso acima da cabeça devido ao calor, era bem apessoada, mas tinha o ar daquelas mulheres de 40 anos que fumam e dizem desaforo se provocadas. Almocei assistindo a uma senhora pequena de short, tênis e óculos — com fenótipo de “Dona Fulaninha” — que limpava as mesas da lanchonete com um pano úmido.


”Comeu tudo?“, me perguntou a mulher mais jovem quando eu fui pagar. Disse a verdade, e ela ensaiou um sorriso de canto de boca — pois me pareceu crer que sorrir demais fosse “dar ousadia”. “É, era grande“, reconheceu ela. Perguntei pelo albergue e ela veio comigo até o lado de fora para me apontar a direção. Lá fui eu. Andei mais com o mochilão nas costas, o almoço no estômago, e debaixo do sol até achar a tal Rua Santa Monika e o albergue. As moradas eram todas portas que davam para aqueles prédios de três andares, todos eles cor de areia. 

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A minha rua em Pietà, Malta.

Numa dessas portas me atendeu Elaine, uma senhora de seus 70 anos (que eu depois descobri ter 80), que pausou e me olhou profundamente ao ouvir-me dizer o meu nome e anunciar que eu tinha uma reserva. “Pensei que seria uma moça“, finalmente disse ela, levando a mão à boca como quem diz “viuge”.


Elaine era simpática. Usava óculos com cordinha, pendurados no pescoço, às vezes acima da cabeça, às vezes em uso, quando necessário. Cabelos loiros arrumados pra cima, como artista de TV, e sobrancelhas inexistentes pintadas a lápis. Era uma senhora fashion — e conversadeira. Nos próximos 20 a 30 minutos fiquei sabendo que ela tinha filhas gêmeas, que a casa vizinha costumava ser do tio, que quando o tio morreu ela se mudou pra lá, que a ideia de abrir um albergue foi do genro, etc, etc. Pelo sotaque britânico, perguntei se ela era inglesa ou maltesa. “Maltesa, maltesa“, me respondeu ela franzindo a testa e abrindo um leve sorriso, como quem diz: “Inglesa? Tá louco?”

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Interior da casa de Elaine, onde me hospedei. Havia escadas para três andares acima, neste mesmo tom.

Subi para o quarto. O calor era mordaz, e não havia ar condicionado. Depois de subir os três andares de escadas (pois o meu quarto sempre é no topo) com a mochila de viagem nas costas e precisar ir ao banheiro, nada melhor do que — perdoem-me os detalhes — sentar-se numa privada onde também batia o sol da tarde. Aquele sol de verão de 4 horas bem em você ali. A minha garrafa d’água havia se esgotado, e fui pegar da torneira — o que na Europa geralmente é normal e seguro, mas a água era salobra feito água dessalinizada, e parecia dar até pra sentir o gostinho de sal no final. De quebra, mesmo a água da torneira fria vinha quente. Olhando-me no espelho, queimado da praia da Romênia, suado, com sede e a barba por fazer, senti-me quase um palestino. Às 6h da tarde, o sino da igreja badalava a Ave Maria.


Dei um bordejo por ali mesmo para ver com que se parece a vida em Malta longe das áreas turísticas. Os bancos das ruas estavam repletos de senhoras proseando e senhores com fenótipo de aposentado — aquelas bermudas, sandálias de tio, camisas listradas, e cabelos brancos penteados. 


Afora eles, veem-se sempre os rapazes negros imigrantes, entre si. Elaine me contou que são quase todos refugiados, homens que pegam o que se poderiam chamar de navios negreiros modernos. Muitos morrem no caminho. Grande parte não sabe aonde vai parar, muitos ficam em Malta, achando que chegariam até a Itália. A Líbia serve de porto de partida, embora a maior parte venha da África Subsaariana, negra. Muitos escapam de guerras civis e/ou deixam suas famílias para trás. É por isso que quase só há homens; difícil é ver uma mulher. Em raros casos, há casais mistos, com mulheres maltesas e crianças “cappuccino”, como diz uma amiga minha.


Como jantar, comi um par de pastizzi, das poucas coisas notáveis na culinária maltesa. É um saboroso salgado de massa folhada com uma massa de ervilhas dentro. Pela proximidade com a Itália há também massas em geral — e sorvete, italiano, maravilhoso, só que menos caro que na Itália. 

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Ruas em Msida. Por favor atentem para o belo nome da rua onde eu estava e tentem pronunciar.

Às 22h eu estava na solitude do meu quarto, luzes apagadas, quando ouvi passos subindo a escada e a voz de Elaine chegando. “Eu costumava morar aqui“, dizia ela com aquele tom que os idosos têm quando lhe contam algo que acham interessante. 


”Esta é Verônica“, me anunciou ela ao abrir a porta, acender a luz, e entrar acompanhada de uma mulher. “Véronique“, logo corrigiu a moça, uma francesa com ar de seus 40 anos (que depois eu descobri ter 52 — tô ruim pra dizer idade aqui em Malta). 


Se você que acha que se trata de uma francesa provocante, femme fatale, que ia me dar mole, não podia estar mais longe da realidade. Véronique é uma mulher alta (seus quase 1,80m), magra, de óculos, e com aqueles olhos que ficam pra lá e pra cá e não sabem pra onde olhar. Em resumo, um ar meio de doida. Depois de Elaine nos deixar, começamos a conversar e perguntei o que ela fazia.


— “Trabalho em clínica psiquiátrica“, me respondeu ela num inglês carregado de sotaque francês.

— “Você é psiquiatra?“, perguntei eu.

— “Não“.

Vish, é paciente.

— “Cuido da parte administrativa“. 


Trocamos para o francês, que a deixou bem mais falante. Trocamos ainda algumas ideias antes de dormir. Às 8 da manhã no dia seguinte o sino tocava a Ave Maria, e era hora de eu tomar o meu rumo em direção a Valletta. 

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Jardins em Valletta.

Continua em Valletta, Caravaggio e a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários em Malta.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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