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Valletta, Caravaggio e a Ordem dos Cavaleiros Hospitalários em Malta

Valleta, a capital de Malta, funciona como seu bairro histórico e administrativo. São ruelas perpendiculares e paralelas onde só passa um carro, ou só pedestres. Toda ela é tombada como Patrimônio Mundial pela UNESCO desde 1980. São muitas igrejas, museus, e fortificações antigas, além do casario. Malta participou ativamente do Renascimento italiano, foi dos bastiões do estilo barroco, e inclusive hospedou Caravaggio uns anos — quando o pintor italiano andou se metendo com as mulheres erradas, fugiu pra cá, e entrou até pra a ordem dos cavaleiros da ilha (mais a seguir).


Tudo começou em 1530, com a chegada da Ordem dos Cavaleiros de São João na ilha de Malta — das muitas ordens de cavalaria que existiam desde a época das Cruzadas (1095-1300), a partir de quando organizar-se para combater os “infiéis” muçulmanos que haviam tomado Jerusalém tornou-se ato nobre e missão de vida para muitos. Nos idos de 1500 o poder a ser combatido já não eram os árabes, mas os turcos. Em 1453 o sultão turco otomano Mehmet II toma Constantinopla (aos 22 anos de idade). Mas ele queria mais. Gradualmente, os turcos iam expandindo sua força naval, exércitos, e tomando o sudeste europeu a ponto de ocupar a Sérvia, Hungria, Bulgária, Romênia, e de atacar até Viena na Áustria e a Itália. Eram como uma onda que chegava. Em 1522, os turcos expulsaram da ilha de Rodes, na atual Grécia, a Ordem dos Cavaleiros de São João, que vieram então buscar refúgio em Malta.  


Malta era parte do Reino de Nápoles e da Sicília, que eram parte da Coroa Espanhola (sim, você talvez esteja surpreso, mas por muitos séculos o sul da Itália foi governado por reis espanhóis). Carlos V, em 1530, era tanto rei da Espanha recém-unificada quanto Sacro-Imperador Romano-Germânico. Doou a ilha aos cavaleiros para que ajudassem a prevenir uma eventual invasão turca da Itália pelo sul.


Em 1566, os turcos atacam Malta. O sultão Suleiman, o Magnífico, envia 40 mil homens na esquadra otomana para tomar a ilha. Os malteses, no entanto, juntando cavaleiros e camponeses recrutados — 9 mil homens ao todo — conseguem resistir ao cerco por vários meses. À aproximação de tempestades de inverno, os turcos decidem bater em retirada depois de falhar em invadir a ilha, embora tenham causado grande destruição. O grão-mestre da ordem, o cavaleiro Jean de Vallette, decide então fundar uma nova capital: Valletta.

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Escudo de armas com a famosa cruz de Malta, com quadro braços iguais e oito pontas. As oito pontas significam as oito bem-aventuranças, descritas no evangelho segundo Mateus, que Jesus teria pregado no sermão da montanha. [(1) “Felizes os humildes de espírito, porque deles é o Reino dos Céus“; (2) “Felizes os mansos, porque herdarão a terra“; (3) “Felizes os aflitos, porque serão consolados“; (4) “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados“; (5) “Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia“; (6) “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus“; (7) “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados Filhos de Deus“; (8) “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus“]. Essa cruz foi símbolo dos Cavaleiros da Ordem de São João desde o séc XI. Embora a maioria não conheça sua simbologia, ela hoje segue presente, na bandeira de Malta e por muitas outras partes, até no Vasco, time do Rio.

Malta parece até hoje preservar o fervor católico da época dos cavaleiros. Não sei quantas Ave Maria ouvi o sino bater. Todo o ano há festas para esse santo ou aquele, pautando o calendário nacional. Em Valletta, as estátuas religiosas não se limitam às igrejas: estão nas próprias ruas também.


Cheguei de barco, tomando o ferry da vizinhança onde eu estava até Valletta, e bordejei pelas ruas quietas entre os prédios ocre, entrando aqui e ali. De longe parece mal-acabado, mas não é. 

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Vista do barco para Valletta. Percebam a cor do mar.
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Ruas em Valletta. (Só passa um carro; os outros estão estacionados).
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Ruas históricas em Valletta.
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Rua enfeitada e com imagens de santos. Como estes são muitos. (Aqueles pedestais coloridos não são realmente mármore; é madeira pintada — mas de longe engana).

Igrejas são o que mais há a ver, e ainda que você não seja religioso, vale a pena pela arte. Elas aqui em Malta têm lindas decorações barrocas e alguns dos quadros mais estimados da Europa.


Aquela do domo grande não é a catedral, é a Igreja de Nossa Senhora do Monte Carmelo, vulgo NS do Carmo. É bonita, mas — ao meu ver — não se compara à Catedral de São João, modesta por fora, um esplendor por dentro.


Na Catedral de São João é preciso pagar para entrar, mas vale a pena. Há enfeites barrocos dourados por toda parte, e impressionantes quadros originais de Caravaggio. Está aqui, inclusive, o único quadro que ele assinou. Caravaggio era meio malandro, jogador, e brigão. Certa vez, em 1606, se meteu numa briga (longe de ser a primeira) com um cafetão de Roma, Ranuccio Tomassoni — alguns dizem que por dívida, outros que Caravaggio se envolveu com a sua mulher, Lavínia — e o matou a faca. Teve que sair fugido, primeiro a Nápoles e depois a Malta.   


Caravaggio, na verdade, não se chamava Caravaggio. Seu nome era Michelangelo Merisi — Caravaggio foi o vilarejo onde ele cresceu (nasceu em Milão), daí “Michelangelo de Caravaggio”, e por fim apenas “Caravaggio”. Pintava rápido, em coisa de duas semanas, e daí passava um mês à toa por aí, segundo dizem. Já em 1597 teve de abandonar a região de Milão “por causa de umas brigas”, e seguir para Roma. Em 1603 chegou até a ser preso brevemente. Seus malfeitos variavam, desde jogar pedras num guarda    romano (em 1605, já após sair da cadeia) até atirar uma bandeja de alcachofras num garçom.


Ele chocava a sociedade da época porque, ao contrário da arte sacra medieval com seus halos santos e visões de esplendor, Caravaggio pintava de forma extremamente realista — e começou também a inserir mendigos, ladrões e prostitutas como figurantes de cenas bíblicas em seus quadros.   

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São Jerônimo transcrevendo a Bíblia (1607). Quadro de Caravaggio original na Catedral de São João, em Malta. Além de sua técnica de claro-escuro, percebam o realismo tanto físico quanto emocional no quadro.

Quando Caravaggio chegou a Malta, foi recebido como convidado de honra, integrado à ordem e condecorado como “Cavaleiro da Justiça” — até descobrirem o que ele havia feito, e ele arrumar mais confusão. Enquanto isso, ele pintava. Assinou A Decapitação de São João Batista, sua maior obra (em tamanho), como F. Michelangelo — F de Frater, irmão Michelangelo.


Só que em 1608, dois anos após chegar, brigou com um dos “irmãos” e foi preso, na própria ilha. Um mês depois, escapou da prisão e conseguiu fugir para a Sicília. Foi abjurado da ordem in absentia, sendo dessecrado e a partir de então perseguido. Queria chegar ao papa, quem podia-lhe perdoar os crimes, mas não chegou até lá. Morreu no caminho, após envolver-se em mais brigas. Diz-se que morreu envenenado, após estudos recentes indicarem a presença de chumbo em seus restos mortais. Entrou para a História tanto do Renascimento quanto da arte, e também de Malta.

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A Negação de Pedro (1610), um dos últimos quadros de Caravaggio, pintado após fugir de Malta. Retrata a passagem bíblica em que, na noite em que Jesus é capturado após a Última Ceia, os guardas romanos interpelam Pedro na rua e lhe perguntam se ele não conhecia Jesus. Ele nega. Segundo a crença, na ceia Jesus lhe disse que Pedro o negaria três vezes antes do galo cantar na manhã seguinte. Diz-se que, após a terceira vez, o galo de fato cantou, e ele chorou dando-se conta, episódio conhecido como o Arrependimento de Pedro.
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Igreja de Nossa Senhor do Carmo, em Valletta.
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Altar principal da Catedral de São João.
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Interiores barrocos revestidos de ouro.

Voltemos à era presente. Todo o piso da igreja por onde você caminha são lápides, com inscrição de notórios cavaleiros mortos nos séculos anteriores. Avistei inclusive — não nas lápides, na multidão de turistas — Véronique, a mulher com quem eu dividia quarto no albergue (ver aqui a postagem anterior). Estava de vestido, sandália e chapéu, daqueles mesmos de francesa do século XIX. Saudei rapidamente, vi as pinturas por demorados momentos, e saí. Era hora de almoçar. 


Aos poucos, os calçadões iam enchendo-se de gente, como ocorre por qualquer parte da Europa durante o verão. Entrei nuns becos da época de Jean de Vallette e achei uma simpática cafeteria italiana, das quais há várias em Malta — afinal, a Itália está a pulo daqui e a influência é forte. Na verdade, como grande parte dos malteses fala também italiano, é fácil confundi-los — embora, na minha percepção, os malteses sejam um tanto mais recatados.

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Piso de lápides por toda parte na Catedral de São João. Você vai andando em cima.
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Fachada de outra das muitas igrejas em Valletta.
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Bequinhos simpáticos, da época dos cavaleiros.
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Cafeteria onde almocei um fino sanduíche italiano. A moça em destaque é maltesa, a outra ao lado, italiana. (Eu perguntei). A italiana comentou rindo que ficava p*** quando perguntavam se ela era a mãe da outra.
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Cafezinho expresso no final, curto e forte, à moda italiana. Estão servidos?

Sou do tipo que gosta de ficar fazendo cera nesses lugares de atendentes simpáticas e clientes que conversam com quem não conhecem. Mas havia ainda coisas a ver, e resolvi circular. 


Pra escapar do sol, fui a um dos vários museus sobre os Cavaleiros da Ordem de Malta, como passaram a ser conhecidos os Cavaleiros da Ordem de São João depois de se instalarem aqui. Esses são também os mesmos Cavaleiros Hospitalários, que juntos com os Templários formavam as principais ordens cristãs a combaterem na Terra Santa durante as Cruzadas. Os Hospitalários ficaram conhecidos assim pela sua tradição de cuidar dos doentes. Contribuíram bastante para o que viriam a tornar-se os “hospitais” da era moderna.   

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Neste hall, hoje espaço de exposições, ficava a Sacra Infermeria onde eram cuidados os doentes.
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Representação do cuidado com os doentes.
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Nossos Senhores os Doentes. Em memória de todos aqueles bravos e humildes servos dos doentes, que sacrificaram suas vidas em nome de Cristo. E de todos os senhores que foram servidos neste prédio – a Sacra Infermeria da Ordem de São João”.

Aqui havia enfermarias, farmácias, um apotecário, cirurgiões, e toda sorte de espaços hospitalários. Mikiel’Ang Grima era um desses cirurgiões, que diziam realizar — no século XVIII — cirurgias de remoção de pedras na bexiga em dois minutos. Como outros da Ordem, escreveu e publicou dos estudos mais notáveis em traumatologia (cuidado de pancadas, lesões) dos idos de 1700.


Os Cavaleiros Hospitalários governaram Malta até 1798, quando Napoleão invadiu. Após as Guerras Napoleônicas, Malta se transformou em colônia britânica até 1964. Por sorte, a influência britânica se limitou à língua e outras coisas, mas não à culinária. Portanto, saindo do museu, fui em busca de um belo sorvete italiano.


Eu via as pessoas passando na rua com casquinhas com uma cara boa, e perguntei onde era. Só que me dei mal, pois acabei indo na sorveteria errada. Me indicaram que era logo na rua ao lado, umas quatro ou cinco lojas à esquerda. “Tem uma ótima, onde sorvete de banana é de banana mesmo, o de chocolate é de chocolate mesmo…“, me disse a moça sorrindo. Não sei se eu contei errado ou a pessoa, mas findei-me num restaurante de sorvete pífio. (Eu devia ter comparado, mas vacilei). 


Fui tomando o meu abacaxi por vários minutos enquanto esperava o troco, até que finalmente voltou uma pessoa diferente da que havia me servido. “Tá gostoso o sorvete??“, perguntou um tiozão com aquele ar de quem não admite negativa. “Está ótimo“, menti. “Sou eu que faço“, disse ele com orgulho e até apontando para o peito. Me deu até dó dele.


Compaixão à parte, eu precisava de sorvete decente, então caminhei mais um pouco e finalmente achei Amorino, com quem eu ainda teria reencontros — meses depois, na França. (Perdoem-me, me dei conta que a gana foi tanta que sequer fotografei, mas em tempo mostrarei foto dos nossos outro encontro).


Cortei o cabelo, e sentei-me pelos bancos de praça tomando vento no cocuruto. Afora a arte humana, talvez o mais bonito em Valletta sejam os jardins com vista para o mar. Deixo vocês com as vistas desse lado mais rústico de Malta.

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(A Ordem se restabeleceu em 1834 em Roma, onde está sediada desde então. Embora não tenha território, legalmente a Ordem segue sendo uma entidade internacional soberana. Ela é hoje uma organização humanitária com dezenas de milhares de membros, voluntários, e profissionais de saúde afiliados. Em 2013, o papa Bento XVI participou da celebração dos 900 anos da ordem. Quem quiser saber mais sobre a Ordem nos dias de hoje, leia aqui).

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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