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Malta: Um dia em pleno Gozo e na Laguna Azul de Comino

Todos entramos em Antônia para chegar a Gozo. Chegar lá pode ser meio turbulento, cheio de sacolejos, movimento, mas ao chegar a sensação é de grande tranquilidade. Gozo é extremamente agradável.


Calma, antes que pensem que eu comecei a escrever contos pornô em vez de crônicas de viagem. Gozo é a segunda maior ilha do arquipélago de Malta, associada à mítica ilha de Ogygia (não confundir com orgia) onde a ninfa Calypso teria seduzido e mantido Odisseu cativo por alguns anos em sua Odisséia pra casa (ele foi liberado depois). Hoje vivem aqui 37 mil gozitanos — como se chamam os habitantes daqui, orgulhosos da sua identidade distinta da dos malteses da ilha principal. Gozo é puro sossego.

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Que tal? Brochura turística chamando para a “Ilha da Alegria”. Sugestivo.

Antônia foi o barco que nos levou da ilha de Malta até lá. Éramos eu e mais uns 40 passageiros, sacolejando no mar. O que era uma turma de jovens ingleses e italianos posers e risonhos no começo, transformou-se numa turba vomitante após 1h de sacolejo. Como que pra ironizar com todos nós — juro — a rádio ligada no barco tocava “I like to move it, move it…“. 

Agora imagine essa turma aqui pelejando pra não vomitar conforme o barco sacudia no caminho. (Muitos falharam).

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Eu consegui resistir onde essa molecada falhou, e cheguei até Gozo inteiro, mas “foi barril”, como se diz lá na Bahia pra dizer que foi dureza.


Enfim, Gozo. A ilha, embora evoque a ideia de excitação, é na verdade um lugar bastante tranquilo. Há algumas poucas cidadezinhas, uma zona rural sossegada, e uma costa estonteante, semi-deserta. 


A primeira parada do meu tour foi a Janela Azul, uma magnífica formação rochosa à beira-mar — a que está mostrada na brochura. Na foto, é bonita; ao vivo, você fica bobo, fotografando incontáveis vezes, e admirando enquanto toma gotículas de água no rosto conforme as ondas quebram nas rochas.

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A Janela Azul, em Gozo. Um verdadeiro gozo mesmo. Os tons de azul no mar parecem até trabalho de Photoshop, mas não são. Eles ao vivo são ainda mais impressionantes.
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A orgásmica costa de Gozo.
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Vista para a Janela Azul ao longe. (Pra quem assiste Game of Thrones, a cena do casamento entre Daenerys e Khal Drogo na primeira temporada foi filmada aqui).

Dá vontade de entrar no mar, mas essa parte seria depois, na Laguna Azul de Comino (aqui tudo é azul, por razões óbvias). Passada esta primeira visita, tivemos tempo livre na cidade principal da ilha, Victoria. Era antes e às vezes ainda chamada de Rabat, mas com a chegada dos Cruzados na ilha nos idos de 1500, tentaram substituir os nomes árabes medievais por nomes latinos. Apesar da troca, a cidade ainda tem muito da cara das medinas árabes, misturado com um quê dos becos da Itália mediterrânea ou da Grécia.

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Ruelas de Victoria, em Gozo. Em meio aos becos tranquilos, algumas bugigangas pra turista comprar.

Não há nada muito específico a fazer; há uma fortaleza em Victoria, mas pouco interessante (a não ser pela vista do alto). Acabei simplesmente circulando pelos corredores vazios e tranquilos da cidade. A sensação é muitíssimo agradável — se você gosta de sossego, é claro. Eu não gosto sempre, mas às vezes acho bom.

O notável é que, diferentemente do que se vê na Itália, na Grécia ou no mundo árabe do norte da África, estas antigas cidades aqui de Malta têm um ar de ruínas, de lugar pertencente ao passado, de onde os habitantes se foram. Há ainda algumas vovós e outros moradores, mas pouco se vê. Na prática, você circula pra lá e pra cá sozinho, como num video game; às vezes vê florezinhas à janela, às vezes escuta uma risada de algum outro turista numa rua próxima, e no geral fica ali a sós com as casas sempre nessa cor ocre de areia, tomando o vento que às vezes sopra por entre elas. Como as construções são de tijolo e não de concreto, o ambiente é bastante fresco. Eu voltaria a ter essa sensação em Malta, ao visitar as partes mais antigas (pré-Cruzados) da ilha.

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Você circula e caminha como se fosse a única pessoa restante no mundo. É uma sensação interessante.
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A praça principal de Victoria, com barracas vendendo bugigangas e alguns cafés simpáticos. Era agradável alternar entre o breve burburinho da praça e a quietude das ruelas.

Me deliciei circulando — meu Gozo 360 graus. Quase me perdi, mas me achei. O tempo passou rápido. Agarrei dois sanduíches (daqueles prensados, com pesto, tomate e mozzarella, à moda italiana) e segui para o ônibus que já nos recolhia para seguir com o tour. A nossa próxima parada seria Comino, a terceira — das três únicas — ilhas habitadas do arquipélago maltês. (Tomamos o barco de novo; ainda bem que não almocei muito).


Dizer que Comino é habitada é quase um exagero. O número de habitantes, literalmente, não enche uma mão — diz-se que há apenas quatro, num hotel que lá existe (o Comino Hotel). Na real, a ilha é uma reserva natural, um santuário de aves rodeado pelo lindo mar. Há algumas ruínas de fortalezas antigas, da época dos Cavaleiros Hospitalários da Ordem de Malta (ver aqui), mas hoje usadas só como cenário de filme. Aqui foram filmadas, por exemplo, partes de Tróia (2004) e de O Conde de Monte Cristo (2002).  


As cores são, mais uma vez, estonteantes. Vou deixar que as fotos falem por si.

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Comino.

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Quer vida melhor?

Tivemos 1h pra curtir o lugar, o que pra mim foi o suficiente, embora — é claro — pudesse ficar mais. Na verdade, quase perco a hora do barco. Deixei meus pertences sob os cuidados de uma australiana quando fui nadar, e na volta fiquei de papo. Nunca vi dentes tão brancos (embora eu não tenha fetiche de dentista). Quando olhei o relógio, já estava exatamente na hora da partida, e tive que literalmente correr, ziguezagueando turistas até chegar ao barco. Fui o último a regressar a Antônia.


Eu teria ainda o meu último dia em Malta antes de partir à Itália, bella Itália.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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