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Rabat e Mdina: Roubando figos rumo às origens árabes de Malta

Eu comecei a estranhar quando esbarrei em várias das 10 palavras — ou menos — que eu conheço em árabe. Dar (casa), medina (mercado), rabat (lugar fortificado), entre outras.

Malta é extremamente católica — a ponto de, dizem as más línguas, a igreja até hoje se meter nos afazeres do governo. As igrejas badalam a Ave Maria várias vezes ao dia, e imagens de santos estão por toda parte nas cidades, inclusive ao lado de fora das casas, nas ruas. Perguntei sobre o idioma, e me diziam ser oriundo do fenício. Há uma pobreza imensa de referências à História do arquipélago antes da chegada dos Cavaleiros da Ordem de São João (os Cavaleiros Hospitalários) aqui em 1530. Os museus sobre eles, inclusive, estão repletos de menções a “infiéis”, algo que, ainda que comum à época, me soou estranhamente em desacordo com o “politicamente correto” tão comum na Europa, que remodela até como os museus abordam o passado. Quando sugeri a Elaine — a minha idosa anfitriã (aqui) — que as palavras e nomes dos lugares soavam árabe, ela franziu o cenho e disse que não. Só que estavam todos redondamente enganados. 


Fui estudar um pouco o assunto, ainda na ilha. Descobri que os árabes deram das contribuições mais significativas à História da ilha e ao país, ainda que isso pouco seja reconhecido no senso de identidade própria dos malteses: a língua, oriunda do árabe, e cultivos agrícolas (algodão, figos, limão, laranja), além de técnicas de irrigação praticadas em Malta até hoje.


Os árabes aqui chegaram no ano 870 d.C., tomando Malta dos domínios bizantinos. Sua capital foi Mdina, que pode ser visitada ainda hoje — embora tenha sofrido muitas modificações ao longo dos séculos. 

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Entrada para a cidade medieval de Mdina, com direito a ponte e fosso.

Mas antes de eu tratar de Mdina, deixem-me contar como cheguei. 


Ao retornar de Gozo (aqui), reencontrei Véronique, a minha colega de quarto francesa, lendo seu guia de viagens na cama. Ela me contou que teve um dia bastante agradável em Mdina e de lá até Dingli, uns penhascos no sul da ilha. Caminhou, segundo ela, por áreas rurais bem tranquilas, apanhando figos do quintal dos outros no caminho. Resolvi experimentar o plano.


”Mas faz bastante calor. É bom levar um chapéu e uma garrafa d’água“, me recomendou Véronique.


Ela não se lembrou de que estava diante de um brasileiro, ainda por cima nordestino. Ela não sabia que em Feira de Santana aquilo seria considerado um fresco dia de primavera. 


Tomei um ônibus para Rabat, outra cidade antiga que fica em frente a Mdina — literalmente a um atravessar de rua. A diferença é que Rabat é habitada, e Mdina quase não é. Diz-se que hoje a maior parte das casas pertence a famílias ricas que moram fora. 

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Ruas em Rabat, com imagens de santos decorando.
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Onde o ônibus para Rabat me deixou. Influência britânica visível, já que Malta foi colônia deles até 1964.
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Ruas quietas de Rabat. Mas aí mora gente.

Quem já foi ao mundo árabe notará as semelhanças na estrutura dessas medinas antigas:  becos e ruelas para pedestres, casas simples e altas, de portas já para a rua. Mas no mundo árabe esses corredores estariam cheios de vida, com crianças correndo, velhinhos sentados, gente passando, um comércio vivo e uma dinâmica social muito ativa, de forte espírito comunitário. Já na Rabat e na Mdina aqui de Malta isso já se foi há muito. 

Veja a comparação abaixo com a medina de Fez, no Marrocos, ou com a capital homônima daquele país, Rabat.

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Meninada saindo da escola, na parte antiga de Fez, Marrocos.
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A Rabat marroquina. Muito semelhante na arquitetura, completamente distinta na parte social e humana. (Quem não viu o post sobre ela, veja aqui)

Essas Rabat e Mdina de Malta são como cascas vazias, de onde a alma se foi. Você passeia por cidades quase fantasmas, muitas vezes na companhia só de outros turistas. Vale a pena pela beleza estética e para rememorar, imaginar como era, mas saiba que encontrará muito pouca vitalidade humana ainda presente aqui, e do tipo pouco autêntico.

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Restaurante para turistas nos becos de Mdina, em Malta.
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Praça principal com a catedral de Mdina, que foi cristianizada ainda na Idade Média, quando Malta passou às mãos dos genoveses, franceses, e finalmente ao Reino de Aragão (atual Catalunha, na região de Barcelona, na atual Espanha) em 1283.

Da mesma forma que em 1492 os reinos de Castela e Aragão — base do que viria a se tornar a Espanha depois — forçaram os judeus em seus domínios a converterem-se ao cristianismo (ou irem embora), o mesmo ocorreu aos muçulmanos em Malta. Ainda que os europeus tenham tomado Malta dos seus governantes árabes em 1225, o povão continuou arabizado e muçulmano. Isso perdurou por séculos, até eles serem forçados a se tornarem cristãos em finais do século XV. Assim, a religião islâmica aqui não perdurou, mas a língua e muitos dos hábitos, sim. Gradualmente a ilha foi se latinizando e tornando-se cristã católica, fazendo a sobreposição e mistura que a gente vê aqui hoje.

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Casa de um mercador da ilha, hoje museu em Mdina. Me encantam estes passadios com pedras, janelas e plantas.

Lembro-me até hoje de certa vez, na Rabat do Marrocos, quando caminhava por um desses becos e de repente senti um forte cheiro de figo maduro. Só que não havia plantas ao redor. Aí olhei pra cima,  e vi uma frondosa figueira cujos galhos superavam o muro ao lado. O aroma era delicioso, e dava vontade de ser alto (seria necessário ter uns 4m de altura) e agarrar uns pra comer.


Em Malta, aquilo foi possível. Os árabes trouxeram figos cá para a ilha e elas até hoje são frutas comuns aqui. Foram a maior delícia da longa caminhada que eu chamaria de “programa de índio” se eu não já não tivesse trabalhado com índios e soubesse que eles são mais espertos que isso. Chamarei de “programa de francês” então, já que me foi recomendado por uma francesa. (Muito cuidado com essas recomendações de pessoas de culturas diferentes, que gostam de passeios diferentes).


Saindo de Rabat, o passeio consistia basicamente numa caminhada de vários quilômetros à beira de uma pista asfaltada, debaixo de um sol de três horas da tarde. (Eu havia dito antes que resisto ao calor, mas não quer dizer que eu aprecie esses suplícios gratuitos de caminhar no asfalto debaixo de sol quente). Graças a Allah — e aos agricultores dali — havia figo no meio do caminho. Como eu comprei uns damascos frescos antes de sair de Rabat, neste dia almocei o que virou salada de frutas no meu estômago.

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A caminhada. O meu “programa de francês”.

Achei que melhorava depois, por isso continuei, mas que nada. Eu era a única viv’alma perambulando debaixo do sol, e a cada meia hora passava um carro donde as pessoas me olhavam com ar estranho, de como quem diz: “Aonde vai esse maluco aí sozinho à beira da pista?”. Lembrei-me que Véronique trabalha com doido em clínica psiquiátrica e senti-me um deles, de repente.


No caminho também encontrei uvas verdes, mas essas estavam impossivelmente azedas. Achei amoras, o que foi bom, pois me empanturrei, com um olho no pé e outro nas casas dos donos, pra ver se vinha alguém, mas só quem me viram foram os cachorros, devidamente retidos do lado de trás dessas muretas de pedra. Encantei-me, inclusive, ao aprender que os figos maduros abrem-se sozinhos, e expõem seu interior rubro para que os pássaros o vejam e comam. Quem comeu, no entanto, fui eu. Segui assim até encontrar Xuxa.


Calma, antes que pensem que eu fiquei doido. Xuxa era, estranhamente, a parada de ônibus que encontrei. Tirei uma foto pra não acharem que foi miragem após ter comido fruta quente do pé.  

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Ponto de ônibus numa das poucas sombras que encontrei no caminho. Não me perguntem por que esta parada tem esse nome.
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A vista que eu aguardava, no sul de Malta.

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Sentei-me numa pedra ali um tempo, só que não havia horizonte: era nebuloso, onde céu e mar se confundiam em meio às nuvens, como a foto mostra. Parecia que você estava na Terra do Nunca ou em algum cenário de fábula, e que dali das nuvens no mar você logo começaria a avistar navios piratas aproximando-se.


Sabendo da visitação de alguns raros turistas, dois malteses — e um animado cachorro — ficavam ali a uma venda improvisada no fundo de um carro. Brinquei com o cachorro, cujo nome eu esqueci, até o meu ônibus de volta chegar. Demorou pouco, ou talvez eu estivesse com a paciência bem-exercitada após essa caminhada.


Chegando de volta ao albergue, encontrei Véronique já conversando um pouco — num inglês arrastado — com um rapaz italiano que seria o terceiro ocupante do nosso quarto. Elaine estava lá com eles, entretida. “As minhas filhas também já foram ao Brasil“, declarou ela em tom revelador quando eu adentrei, “na época que vocês tiveram aquele tsunami“. Oi?


— “No Brasil, não. Nunca tivemos tsunami por lá, não. Deve ter sido na época do que teve na Ásia, em 2004“, respondi eu, diplomático.  


— “Não, não foi aquele não. Foi um que teve no Brasil. Talvez você não tenha visto nas notícias na época“, retrucou Elaine em tom informador.


Vi que não havia esperanças. Quem já discutiu com idoso sabe que essas conversas dificilmente vão pra frente.


— “É, deve ter sido numa época em que eu estava fora do país“, declarei.


Ainda batemos um papo, e contei depois a Véronique da minha epopéia. Ela achou ótimo. Improvisamos um macarrão com molho para jantar ali mesmo, mais algumas frutas que eu ainda tinha, e no dia seguinte pela manhã nos despedimos. Estava eu mais uma vez rumo a um aeroporto. Lá, no hall cerca dos portões de embarque, um rapaz tocava num piano o tema d’O Poderoso Chefão, um prenúncio do que me aguardaria quando o meu avião pousasse: Nápoles, no sul da Itália. Comigo embarcaram, inclusive, umas italianas que haviam sacolejado comigo em Antônia rumo a Gozo, mas elas não me reconheceram. Muito me aguardava.

Arrivederci, Malta.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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