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Na Península de Yucatán, Terra dos Mayas: Visitando Chichén Itzá e região

Cá estou, na terra onde há 4.000 anos vive aqui o povo indígena Maya. Esta é a Península de Yucatán, sudeste do México, cerca dos países centro-americanos Guatemala e Belize. Em muitos aspectos, os Mayas foram a civilização pré-colombina mais avançada. Eram excelentes astrônomos, matemáticos (tinham o zero, que os romanos não tinham e que os europeus só aprenderiam depois, com os números arábicos que usamos até hoje), tinham um calendário complexo, e tinham escrita em hieróglifos, como os egípcios antigos, mas estes de cá nunca foram inteiramente decifrados.


Entretanto, caso você creia que os Mayas sumiram tal qual os antigos egípcios, está enganado. (Os egípcios de hoje são árabes e nada tem a ver com os egípcios antigos). Aqui no sul do México e na América Central mais de cinco milhões de pessoas são mayas, falam línguas mayas, e outros milhões são mestiços de sangue maya em maior ou menor grau. A cultura maya segue viva, ainda que surrada pelas imposições dos espanhóis no tempo de colônia e, depois, por governos que pouco têm lhes feito caso. Mas a cultura Maya está presente nos belíssimos monumentos de pedra remanescentes, assim como na gente, nas tradições, e nos saberes.


Os Mayas antigos viviam em cidades-estado, politicamente independentes mas compartilhando uma cultura comum, tal qual as cidades da Grécia Antiga. A mais famosa delas — ainda que não a mais bonita, a meu ver — é Chichén Itzá, a “Cidade do Poço dos Bruxos da Água”, datada de 600-800DC, era clássica da civilização maya. Ela foi recentemente eleita como uma das novas 7 Maravilhas do Mundo. Foi um passeio ao mesmo tempo encantador, engraçado, e indignante.

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Localização da Península de Yucatán.

Era de manhã na praça principal de Mérida, capital do Estado de Yucatán, quando veio a van de Manuel Jesús me pegar. Mérida é uma sossegada cidade de médio porte de interior, sem praia. Altamente histórica e bem conservada da época colonial, como mostrarei num dos próximos posts. 

Nós éramos umas 12 pessoas, em sua maioria casais mexicanos de meia idade — que logo me adotariam com aquela atitude dos tios e tias brasileiros, com direito a todas aquelas perguntas de reunião de família. Eu era o único estrangeiro. Manuel Jesús, funcionário da agência de turismo, seria o nosso guia e motorista hoje.


Manuel Jesús era um sujeito de seus 50 anos, simples, feito humilde pela vida — não sem antes ela ter-lhe soltado uns parafusos. Ele tinha um pouco a feição de Zacarias, o finado trapalhão, só que com cabelo de verdade, partido ao meio, preto e ondulado, e usava uns óculos escuros largos e espelhados tipo chefe de cartel. Mas apesar do ar, seus olhos miúdos eram humildes e estavam quase sempre no infinito. Metade da cabeça dele parecia estar sempre ocupada com alguma coisa não resolvida e que nos era inacessível. Ele jamais se destemperava. Às vezes soltava uma risada tímida, franca, e nos explicava as coisas com a mesma voz ritmada e solene de quem lê passagens da Bíblia.


A primeira parada do tour seria o pueblo mágico de Izamal, uma cidadezinha colonial toda pintada de amarelo ocre e branco. (“Pueblo mágico” é publicidade mexicana para dizer que o lugar é bonitinho). Nos instruiu Manuel Jesús que “A cidade costumava ser toda amarelo ocre, até 1993, com a visita do santo papa João Paulo II — que descanse em paz — quando pintaram partes de branco para fazer as cores da bandeira do Vaticano, amarela e branca“. Manuel Jesús não falhou uma só vez em inserir o “que descanse em paz” nas múltiplas vezes em que mencionou João Paulo II.


Os mexicanos, vocês talvez não saibam, são muito mais tradicionais que os brasileiros, sobretudo em seu catolicismo. Não são todos, mas aqui me parece muito comum um tradicionalismo religioso daquele nível do interior do Nordeste brasileiro. Vocês verão outros exemplos mais tarde.


Por ora, Izamal, onde nos detivemos por uma hora e pouco olhando artesanatos. É bastante arrumadinha.

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Ruas de Izamal.
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A estética amarelo e branca por toda parte, em ruas muito tranquilas.
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O mesmo ar das cidadezinhas do interior do Brasil. Só que aqui, me parece, mais tranquilas e seguras. O Estado de Yucatán é o mais seguro de todo o México, dizem. De fato, a sensação é de real sossego.
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Encontrei uma mexicana vestida com os trajes tradicionais da região.
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Entrada para a igreja local, que tem o maior átrio do mundo, o pátio por detrás daqueles arcos.
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Criançada alegre deixando-se fotografar.

Dali seguimos à primeira das ruínas mayas, uma bastante antiga. Ali mesmo, no centro de Izamal, está uma pirâmide de degraus de mais de 2000 anos, não restaurada. Datada de 400-600 a.C., a pirâmide era à antiga divindade maya de Kinich Kakmó, o deus do sol. Tal qual os antigos egípcios, os mayas antigos tinham divindades zoomorfizadas, isto é, que mesclavam formas animais e humanas. Este tinha cabeça de arara e uma flama em cada mão.  

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Ruínas da pirâmide maya de Kinich Kakmó, de cerca de 2500 anos.

A subida é íngreme e nada mole, ainda mais com os degraus quebrados. Manuel Jesús aguardou-nos sentado numa pedra debaixo de uma árvore. Ao final, paramos rapidamente para merendar antes de retornar à van. Foi então que eu experimentei picolé de arroz doce (detalhes aqui). A esta altura Manuel Jesús também pegou um outro. E numa das cenas mais bizarras que eu veria neste dia, ele “limpava” as sobrancelhas e a frente do cabelo com o palito do picolé chupado.

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Meu picolé de arroz doce. (Não, aquela arabaca velha não é a nossa van).

No almoço, eu experimentaria sopa de lima, a mais famosa entrada da culinária yucateca. É um caldo temperado com ervas e limão. Não é azeda demais. Frequentemente põem frango dentro (o povo aqui come frango como a gente bebe água). O prato principal foi qualquer coisa inexpressiva — mas não incluía frango. Já na saidinha foi o digestivo licor maya, xtabentún, vermelho feito a partir de flores. Na verdade, me parecia água aromatizada. Acho que rolou um batismo maya ali.

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Xtabentún, para experimentar quando vier a Yucatán. É um licor digestivo maya feito a partir de flores.

Os mayas hoje são em geral a classe trabalhadora pobre do sul do México. Da mesma forma que, por razões históricas, no Brasil os pobres são mais negros, aqui no México os pobres são mais indígenas. Você percebe facilmente as feições. 


Na rua, especialmente aqui no sul do país, o que você mais vê são os rostinhos redondos, olhos ligeiramente puxados, estatura baixa, cabelo preto liso. Muito diferente do que mostra a mídia mexicana, sobretudo as telenovelas, onde a mocinha sempre tem ares de Branca de Neve e os mexicanos são retratados como tão caucasianos que nem na Espanha isso seria representativo. Tripla injustiça: não bastassem a histórica e o descaso das autoridades de hoje, os mayas atuais são tratados como seres invisíveis, como se não existissem, a ponto de os meus colegas de passeio, mexicanos do norte, ficarem se perguntando “aonde terão ido os mayas”.

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Esta é uma capa de revista de turismo (Jan 2015) aqui do Estado de Yucatán. Nas ruas da capital do estado, Mérida, eu lhe dou uma hora pra você achar nas ruas alguém com essas caras e você terá dificuldade. Isso pra não falar da zona rural.
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A cara do povo em Yucatán — e em grande parte do México. Acho que nunca estive num lugar onde a discrepância fosse tão grande, entre a imagem vendida e a real.

No momento mais emotivo que eu veria de Manuel Jesús, ele nos contou, com ligeira indignação, que os mayas atualmente não têm permissão para realizar seus rituais livremente nas ruínas. As maiores ruínas hoje são administradas pelo Estado, para arqueologia e turismo. Por exemplo, contou-nos que se um maya vier acender fogueira pra fazer seus rituais, virá alguém pô-los pra fora com um balde d’água. “Isso não está certo. É como se você estivesse no meio de um batismo e chegasse alguém pra interromper“, comentou o guia, desta vez fazendo-se presente por inteiro.


Esse é o caso de Chichén Itzá, a mais famosa de todas as ruínas mayas. À tarde finalmente chegamos lá. Ela é toda uma cidade, não apenas a pirâmide. Esta, de 24m de altura, é onde ficava o ápice da cidade, o Templo de Kukulkan, com mais 6m (aquela casinha lá em cima). 

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Pirâmide de Kukulkan, em Chichén Itzá.

São 91 degraus em cada escadaria — há quatro, uma em cada lado da pirâmide. A pirâmide foi construída de tal modo que, nos equinócios (primeiro dia) de outono e primavera, o sol vai exatamente na diagonal da pirâmide, deixando uma face completamente ensolarada e outra completamente na sombra. Além disso, cria-se um efeito em que a luz aparece como o corpo de uma serpente ao longo da pirâmide. É a representação do deus “serpente emplumada”, que os mayas antigos chamavam de Kukulkan, e que para os astecas era Quetzalcoatl.


Os astros eram associados aos deuses, daí essas correspondências entre templos e movimentos siderais. Os mayas no primeiro milênio depois de Cristo previam os movimentos do sol, da lua, de vênus e das estrelas com grande precisão, inclusive eclipses. Eles tinham três calendários que se interconectavam: um era de 260 dias para fins religiosos; outro, de 365 dias, era o comum, com 18 meses de 20 dias cada um. Isso dava 360 dias, aos quais se somavam 5 dias de azar em que não se trabalhava. O terceiro calendário era o famoso, que media grandes ciclos de centenas de anos e cujo último ciclo se findou em 2012 — daí todo aquele papo de “fim do mundo”, pura má-interpretação. A cosmologia maya é cíclica, como o movimento dos astros, e não inclui nenhum fim à là armageddon ou apocalipse como faz a visão judaico-cristã.   

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Outras ruínas, de prédios civis, aqui em Chichén Itzá.

Aqui em Chichén Itzá estão também o poço dos tais bruxos da água, que deu nome à cidade, e um campo de um jogo de bola comum à época e que lembra o quadribol, de Harry Potter. 


O poço, ainda presente, é uma fossa redonda de 60m de diâmetro que é uma abertura aos lençóis frenéticos que percorrem toda a Península de Yucatán. Os antigos mayas usavam-na como fonte de água doce e também para fazer oferendas, que permaneceram séculos lá no fundo até serem resgatadas por arqueólogos.

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“Poço dos bruxos da água”, em Chichén Itzá.

Já o jogo de bola (juego de pelota) era interessante. A bola era feita de borracha, cuja árvore é nativa aqui das Américas. Havia dois times de sete indivíduos, um capitão em cada. Não se conhecem todas as regras do jogo, mas sabe-se que o objeto era fazer a bola passar pelo aro no campo adversário. O jogo sempre terminava de 1 x 0. Não tinha empate; o jogo seguia até alguém marcar; continuava no dia seguinte se necessário. Ao término, um dos capitães era sacrificado. Era literalmente um jogo de vida ou morte. Porém os estudiosos não sabem se o sacrificado era o capitão vencedor ou o perdedor, já que ser sacrificado aos deuses era visto como uma honra. (Haaaaja coração! Imagem Galvão Bueno narrando um jogo disso?)

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O campo onde se dava o jogo, uma equipe à direita e a outra à esquerda. Do alto assistiam os espectadores.
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Dali assistiam alguns notáveis da sociedade.
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O aro por onde era preciso passar a bola. Percebam também a muralha de pedra.

Circulando, veio uma velhinha vender coisas. Vendia panos, visivelmente feitos à máquina e comprados de algum atacadão. Era miúda, de um tamanho que eu acho jamais ter visto numa pessoa que não fosse anã — e ela não era, pois os anões o são devido a problemas genéticos e têm certas características comuns, como a cabeça desproporcionalmente grande. Ela não parecia falar espanhol, pois não conversava. 

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Achei indignante, obsceno, vergonhoso que uma sociedade permita a uma senhora daquela idade, de aspecto tão vulnerável, viver em mendicância enquanto turistas pagam ao Estado para visitar aquilo que o seu povo construiu. Comprei um pano por pura solidariedade e nem pedi o troco de volta.


Mais adiante, um dos tios me interpelaria, fascinado com a antiga arquitetura: 


— “Êêê Mairon!“, me alcançou ele. “Que tal? Impressionante, hein? Aonde terão ido, os mayas?“, perguntou em tom profundo.


— “A lugar nenhum“, respondi eu, de repente seco. “Estão bem aqui. Acabei de tirar uma foto com um deles“.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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