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A Origem do Chocolate: Experimentando o original indígena no México

Essas são sementes de cacau, das quais se faz o xocolatl, também conhecido como chocolate.

Antes de ganhar o mundo, o chocolate já era sensação entre as civilizações indígenas da Mesoamérica (da América Central ao México). Embora ele seja nativo da Amazônia, foi aqui que se desenvolveu como tal. Há evidências de uso desde 1900 a.C., sempre como uma bebida. Os astecas, de quem os espanhóis aprenderam, o chamavam xocolatl, ou “água amarga”. A razão é que os índios não usavam açúcar, e tampouco o diluíam com leite. Ao contrário, o usavam bem concentrado: juntavam as sementes moídas a água e adicionavam especiarias, sobretudo chili (pimenta), algo que os europeus também não conheciam.


Eu provei o chocolate à maneira dos mayas, e é brabo. Você toma como uma bebida quente num copinho de cerâmica. (Os astecas o tomavam frio). Tem um gosto ligeiramente amargo, de chocolate concentrado, mais o sabor das ervas que eles misturam (tipo ervas finas de tempero) e a pimenta pegando. (Perceba que é a pimenta mesmo, não é molho de pimenta de supermercado).

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Chocolate à maneira maya. Ali na superfície é o óleo natural das sementes de cacau, que são 50% lipídios (!).

É interessante, mas não vou negar que fiz o que os espanhóis fizeram: adicionei açúcar e canela (esta é da Ásia, e os índios não conheciam). Aí sim, ficou maravilhoso. Não senti nenhuma falta do leite. A pimenta, no fim das contas, foi bem vinda pra dar aquela emoção.


Os Mayas o chamam Chocoh Ha’. Tal qual os demais indígenas da região, eles têm o chocolate como uma dádiva dos deuses, uma bebida para cerimônias e ocasiões especiais. 

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Pintura maya antiga na qual um homem de autoridade, talvez governante ou sacerdote, diz ao homem comum que não vá com muita sede ao pote. Aqueles desenhos em marrom ali entre um e o outro são hieróglifos mayas, a sua escrita.
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Representação atual de cerimônia maya a que assisti, feita por mayas, em língua maya. Ali é possível ver o fruto do cacau tomando um incenso. (Pra incensar eles queimaram pedaços de madeiras aromáticas).

Em alguns casos, a pessoa embriagava-se com chocolate antes de ser sacrificada. O sacrifício, lembremos, era para os indígenas da Mesoamérica como uma honra aos deuses. Irrigar a terra com sangue humano, de modo simbólico, era a maior oferenda a ser feita. Com o alto teor de teobromina no chocolate concentrado, a pessoa entrava em transe. 


Mas o chocolate era também apreciado como afrodisíaco, sem tais exageros sacrificiais. Em 1519, o grupo do conquistador espanhol Hernán Cortés descreveu Montezuma, imperador asteca, consumindo chocolate. Fica aí para a imaginação, e pra quem quiser usar chocolate com esses fins.

“De tempos em tempos elas serviam a ele, em taças de puro ouro, uma certa bebida feita de cacau. Dizia-se que dava ao indivíduo poder sobre as mulheres, mas isso eu jamais vi. Eu as vi trazerem mais de cinquenta vasilhas com cacau, e ele tomar uma parte, as mulheres servido-lhe com grande reverência.” — Crônicas de Bernal Díaz de Castillo. 

Verdadeiro chocolate
Vai um chocolate nativo afrodisíaco?

O chocolate logo espalhou-se pela Europa como a segunda bebida exótica preferida da nobreza, atrás do café (ver mais sobre este aqui). Isso, no entanto, teve algumas consequências nefastas, pois logo milhões de índios morreriam de doenças europeias; e os europeus, por sua vez, fariam grandes plantações de cacau nas Américas e também na África, movidas a trabalho escravo negro para alimentar os mercados chiques da nobre Europa. Até então o chocolate era apreciado como bebida; só no século XIX é que suíços como Henri Nestlé e Rodolphe Lindt inventariam processos industriais para fazer o chocolate sólido, em tablete, comum desde então.   


De lá pra cá o processo de produção do chocolate mudou um pouco, mas não muito. Hoje, quase metade do cacau que abastece o mundo é plantado na Costa do Marfim — e a África Ocidental como um todo responde por quase dois terços da produção mundial. No entanto, continuam pobres. A sofisticação, a agregação de valor e o dinheiro grande continuam em bolsos europeus. 


Neste vídeo abaixo, cultivadores de cacau na Costa do Marfim experimentam chocolate pela primeira vez na vida. Eles dizem não fazer a mínima ideia de o que é que se faz com as sementes que eles vendem. As legendas estão em inglês, áudio em holandês, francês e línguas locais africanas. Vale a pena, mesmo se não entender tudo, pra você ver que o que eles não entendem é muito mais sintomático das desigualdades mundiais que persistem hoje.

 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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