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Crônicas da vida numa pensão em Mérida, Yucatán, interior do México

Estamos em Mérida, capital do estado mexicano de Yucatán, no caribenho sul do país. Aqui eu passaria algumas semanas a trabalho — mas um trabalho sossegado, quase digno dos livros de Gabriel Garcia Márquez, tomando aquelas brisas vespertinas a soprar do Mar do Caribe, e conhecendo figuras que eram reais personagens.

Quem eu mais via na pensão onde me instalei em Mérida era Joel, o faz-tudo neto da senhora gerente. Joel nunca soube o meu nome. Se soube, nunca o usou. Joel é um rapaz baixinho, de cara arredondada, do tipo risonho pouco atento, que parece estar sempre metade aqui e metade em algum mundo divertido que o faz sorrir. Cabelo preto bagunçado, calças compridas e chinelão, com aquele andar relaxado de quem não quer muito da vida. Às vezes ele usa um chapéu-panamá que o deixa ligeiramente mais alto, com pose de organizador de bingo.

O seu irmão também serve de faz-tudo, mas não faz nada — só quando Joel não está. Esse irmão, com olhar ambicioso de quem amaria nunca ter que trabalhar na vida, fica longas horas ao video game (jogando Assassin’s Creed) e usando a internet. Eu nunca soube o seu nome.


A pensão era um verdadeiro rol de personagens. Acima de todos estava a avó, a mãe do dono, e por conseguinte — visto que estamos na América Latina, onde a “mãe de Deus” é ainda mais venerada que o próprio Todo-Poderoso — era ela quem detinha a palavra final. Era uma idosa bem posta, bem comportada. Não parecia megera, mas também nunca a vi sorrir.

Por cima da tela do meu computador, eu via a senhora idosa passar arrastando a mão sobre a mesa enquanto caminhava, pra ver se tinha poeira. Ela falava pouco, quase que só o essencial, e sempre gerenciando as empregadas ou botando Joel na linha. (“Que maneira de se falar, você precisa ter educação“, quando o pobre do Joel deixou escapar um palavrão). A senhora nunca me dirigiu a palavra depois de termos acertado as contas na minha chegada, nem nunca eu soube como ela se chamava. Só a ouvi ser chamada de avuela.


Outro figura era Armando, um malandro. Não do tipo malandro gringo, homem de negócios interesseiro. Não. Nem do tipo malandro da periferia de Salvador, que faz pose de gostoso enquanto assalta a língua portuguesa. Armando era do tipo malandro carioca do botequim, daqueles coroas ladinos que olham ao redor e chegam todo prosa, como quem não quer nada, e puxam conversa.

Armando era um coroa moreno de cabelos já brancos, do norte do México, que sentava com as pernas cruzadas, chapéu na cabeça, e olho num livro ou no celular até que passasse alguma moça de interesse (isso porque era casado e com filhos, dizia). Após me ver uns 10 dias seguidos na pensão, ele resolveu puxar conversa. Ainda bem que só o conheci perto no final.

A conversa de Armando, além de repleta de lugares-comuns tipo “os Estados Unidos são mais desenvolvidos”, era como uma masturbação social que nunca chegava ao gozo. A conversa dele não chegava a lugar nenhum, só ia, ia, devagar, em tom de quem tem todo o tempo do mundo, e você ali empatado querendo fazer outra coisa.  


Passei muitas tardes na varanda, resolvendo os meus e-mails de trabalho — às vezes até Armando chegar da rua e se instalar na minha mesa. Via também passar Oscar, esse sim um gringo malandro que vendia tour caro a turista bobo. Sua clientela favorita eram aqueles casais de meia idade que não pesquisam nada do lugar antes de viajar. Fazia uma propaganda danada, que nem sempre se realizava.

Oscar tomava banho quase sempre no mesmo horário que eu, então eu tinha a frequente infelicidade de vê-lo seminu, e tristeza da minha boa memória que terá trabalho em esquecer-se do seu dedinho do pé que era montado por cima do dedo do lado. (A minha memória é terrível pra esquecer-se desse tipo de detalhe bizarro). Esse só puxou conversa comigo uma vez, quando quis que eu traduzisse um e-mail embaralhado que uma brasileira lhe mandou em português de internet. 


O banheiro da pensão, por sinal, era nível “canteiro de obras”. Você sequer tinha porta para os cubículos das privadas, só uma cortina plástica amarela linda. Você via os pezinhos das pessoas pra fora — ou às vezes não. Certa vez um chinês desgovernado abriu comigo dentro e ficou todo sem jeito. Era no mínimo indecente. 

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Olhem que luxo. Uma lindeza de banheiro.

Comecei a criar o hábito de passar boa parte do dia fora da pensão, trabalhando de alguma cafeteria que tivesse wi-fi, quando não estava fazendo entrevistas pra a minha pesquisa. Por sorte, havia uma cafeteria logo ao lado, aonde eu ia particularmente quando batia a vontade de ir ao banheiro. Às vezes eu chegava e, antes de fazer o pedido, ia direto ao banheiro. Se os garçons perceberam o costume, não sei, mas nunca disseram nada. 


À noite, eu ia à Plaza Grande de Mérida, logo em frente da pensão, ver o movimento e ouvir os trovadores tocarem canções tradicionais mexicanas. Você as conhece, mas não sabe. Bésame mucho (1940), que já teve mil versões, desde comercial da extinta margarina Cremucho até versões de Paul McCartney e Edith Piaf em inglês e francês, é originalmente mexicana, de Consuelo Velázquez (aqui pra quem não reconhece). Também é mexicana a “Aaai ai ai ai, tá chegando a hora…“, versão brasileira de 1942 da original mexicana, Cielito Lindo, de 1882 por Quirino Mendoza. Os mexicanos vão rir gostosamente na sua cara se você chegar dizendo que essa música é brasileira. 


Eu sentava-me à praça, cheia de gente, com velhinhos, casais de adolescentes, coroas conversadores entretidos uns com os outros, e vendedores de pipoca e algodão-doce. Sentava-me chupando picolé ou tomando algo, e ouvindo o violão das trovas. O México é às vezes mais tranquilo do que você imagina.

Abaixo Los Panchos cantando Cielito Lindo. Veja se a música não tem mesmo um quê bem mexicano.

A visão do México como um lugar hiper-perigoso, pior que o Brasil, e dominado pelo narcotráfico começa a ser questionada quando você visita o país. Há narcotráfico, sim, mas não é algo que você sempre perceba no dia-dia nas ruas. Nem isso impede as pessoas de viverem. Na verdade, especialmente cá no sul do México, a vida é bem tranquila.

Há, sim, as severas injustiças sociais que vemos também no Brasil (discriminação social de raça e com os mais pobres, governos que beneficiam os mais ricos, etc.). Mas em termos de segurança eu me senti mais à vontade aqui em Mérida do que em muita cidade brasileira. 

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Tranquilidade em Mérida.
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Jeitinho simples e bem colonial.
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Eu nas ruas da cidade.

À manhã seguinte, seria uma nova rodada de companhias à mesa farta do café da manhã da pensão. Sentávamos todos numa longa mesa na varanda, com ovos, mamão, manga, melão, abacaxi, leite, café, cereais, pão, purê de feijão preto e pimenta. Eita beleza! Era mesmo um café da manhã “muy completo“, como certa vez entreouvi a avela dizer a um novo hóspede que chegava.


A cada manhã, novos hóspedes a conhecer. Isso às vezes era bom, às vezes não. Numa dessas conheci Romina, uma italiana (na realidade, de San Marino) peixeira desbocada com quem saí depois. Tinha o aperto de mão mais forte que já recebi de uma mulher. Era uma baixinha bonitinha, que depois revelou-se lésbica.

Noutro dia foi a vez de conhecer uma coroa polonesa que não falava inglês e ficava mexendo comigo, me encontrando até na rua. Essa ficou vários dias na pensão, para o meu tormento. Às vezes, no meio da multidão em alguma festa popular na rua, alguém me bolia e, quando eu ia ver, era ela.

Abaixo, uma dancinha tradicional yucateca na praça, a que assisti numa tarde de domingo em Mérida.

Mérida tem muitas atrações de rua. Tinha um “quarta-feira na praça” à noite que bombava.

Bombavam também os meus ouvidos, já que o palco ficava bem à porta da pensão. Mas como estou habituado a dormir com barulho, não via problema. Era legal, embora às vezes cometessem crimes contra a humanidade, tipo tocar versões caribenhas dançantes, com letras em espanhol nada-a-ver, de clássicos do rock como Stairway to HeavenSweet Child O’ Mine e outros. 

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Quarta-feira na praça, ali com um sósia de Moraes Moreira.

O melhor personagem da pensão eu ainda não mencionei: um velhinho canadense, que dizia ter 79 anos mas parecia ter 100. Ele tinha um ar já meio cadavérico, inclusive o sorrisão de caveira, quase sempre congelado na sua face. Tinha uns olhões também. Andava devagarinho, a passos curtos, o que era particularmente notável quando ele passava de toalha pela varanda rumo ao banheiro. (Depois fazia o caminho inverso todo molhado). 


”A cirrose salvou a minha vida“, dizia ele. Segundo nos contou, ele bebia até não aguentar mais, até que aos 65 anos de idade a cirrose o atacou, e teve que parar. Era aposentado e viajava sozinho pra passar o inverno canadense no México. Adorava falar mal do [agora ex] primeiro-ministro canadense conservador Stephen Harper, e nos contava um rol de histórias fazendo caras, bocas e dando gritos. Tinha uma veia para o teatro. Gostava de dizer que os jovens de hoje sem os seus aparatos tecnológicos ficam igual a filhote de cachorro quando não acha a mãe (puppy anxiety, ou “ansiedade de filhote”, ele dizia, e imitava). 

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À esquerda, a varanda onde tudo acontecia.

Naquela mesa branca que você vê ali no centro da foto é que certa vez estava sentado eu, e quase morri. De repente, um vaso de planta cai da lage e espatifa-se no chão a 1m de mim. Do alto, sorri pra mim o pedreiro caolho de bigode que lá estava trabalhando — praticamente um figurante de algum episódio de Chapolin.

Quando eu não ficava na praça à noite, ia a algum restaurante. A comida mexicana tem seus encantos (ver aqui). Volta e meia havia também música de viola ao vivo, então ainda melhor. 

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Num restaurante, com uma moça yucateca vestida à maneira tradicional.

Caso estejam estranhando a roupa de frio, saibam que o começo do ano é inverno no hemisfério norte, e — apesar da sua imagem árida e quente — o México esfria bastante. Apesar disso, nada a ser comparado com EUA e Canadá, então uma infinidade de turistas vêm pra cá.

De quebra, Mérida além de bonitinha tem importância histórica pra quem quiser ver. Ela é uma das mais antigas cidades do México. Foi fundada em 1542, antes mesmo que Salvador ou qualquer outra capital brasileira. Aqui ficava a cidade maya de T’hó, que foi desmontada pelos espanhóis e os blocos de pedra usados para levantar a catedral, mansões pros conquistadores, e outros prédios. A catedral de Mérida é tida como a mais antiga de todas na América continental — perde apenas para a catedral de Santo Domingo, capital da República Dominicana, no Caribe.

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Catedral de San Ildefonso de Yucatán, de 1562, estilo renascentista franciscano. A mais antiga da América continental.
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Interior da catedral. Bastante simples.
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A catedral iluminada, à noite.

Por fim, a personagem que eu não conheci: Irene. Acho que era uma das empregadas da pensão, a quem Joel e os outros apelavam incessantemente. Irene era como uma lenda mística, uma entidade a quem todos chamavam mas que eu nunca via. Ou, se eu via, não sabia que a estava vendo, tipo o inefável. Irene pra mim era uma experiência quase numinosa. 


E assim iam se passando os meus dias em Mérida. Foi a partir daqui que fiz os meus vários passeios às ruínas mayas como Chichén Itzá e Uxmal. Quando parti, Joel foi o único de quem me despedi. Segui eu rumo à Cidade do México, e ele seguia cantarolando aguardando outros hóspedes — quem sabe você.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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