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Coyoacán, Leon Trótsky, Diego Rivera, Frida Kahlo e o muralismo mexicano

Frida Kahlo (1907-1954) é seguramente um dos ícones mais conhecidos da cultura mexicana. No entanto, tal como a ponta de um iceberg, ela pertence a algo muito maior e que nem sempre se vê. Esse algo maior, que talvez tenha passado despercebido a quem a conhece apenas pelo filme americano Frida (2002), é todo o movimento artístico e político que teve lugar no México em princípio e meados do século XX.


Uma das expressões mais notáveis desse movimento foi o muralismo mexicano. Pra dar um pouquinho de contexto histórico, vale saber que o México tornou-se independente da Espanha em 1821. Daí seguiram-se governos elitistas locais, alternados entre liberais e conservadores, até o general mão-de-ferro Porfírio Díaz tomar o poder em 1876. Ele governaria pelos próximos 35 anos, até 1911, sob o lema — pasmem — Ordem e Progresso. Não é mera coincidência que a nascente república brasileira a essa época, também muito conservadora e militarista, tenha adotado esse mesmo lema positivista. Pra quem é curioso, esse lema é uma forma abreviada daquele do pensador positivista francês do séc XIX Auguste Comte, que dizia “O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim“. Que pena que tenham esquecido o amor.


Ao contrário do nosso Getúlio Vargas, que viria depois, Porfírio Diaz não tinha nada de “pai dos pobres”. Ele levou adiante um governo de forte industrialização, abertura a empresas dos EUA e Inglaterra, mas reproduzindo as altíssimas desigualdades sociais do México colônia: mais concentração de terras e dinheiro nas mãos da aristocracia tradicional mexicana, e repressão aos movimentos populares que surgiam de tempos em tempos. Enfim, foi um governo de modernização conservadora.


Até que em 1910 o povo não aguentou mais e explodiu a famosa Revolução Mexicana. Alguns dos seus líderes permanecem como ícones dos movimentos sociais até hoje, como Emiliano Zapata e Pancho Villa. Iniciou-se uma guerra civil que se estendeu até 1920. Foi uma cacofonia de demandas reprimidas de vários setores sociais, dos camponeses à igreja. Zapata, em particular, era líder dos campesinos do sul que haviam sido excluídos e humilhados pelas políticas pró-aristocracia de Porfírio Diaz, e agora reivindicavam seus direitos com a força das armas. (Ainda hoje, no estado mexicano de Chiapas, no sul, há um movimento campesino e indígena chamado Exército Zapatista de Liberação Nacional, que opera uma espécie de governo guerrilheiro paralelo).


Porfírio caiu (depois morreu em 1915), e fez-se uma nova Constituição Mexicana em 1917 que perdura até hoje, com reconhecimento formal da natureza mestiça do país, estado laico, fim dos privilégios legais à Igreja Católica, etc. Estabeleceu-se então um governo de linha socialista (embora não comunista), e é aí que Frida Kahlo e os muralistas entram em cena.  

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Pinturas revolucionárias de Diego Rivera, da década de 1920, no interior da Secretaria de Educação Pública, na Cidade do México. Foram feitas a convite do novo governo socialista. Permanecem até hoje.

Diego Rivera foi um dos maiores nomes do muralismo mexicano. Era também ao mesmo tempo marido e mentor de Frida Kahlo. Eles eram conhecidos como “o elefante e a pomba”. Ela, pequena, embora irascível; ele, 21 anos mais velho que ela, e enorme (pesava 150kg). Ele, de quebra, admitia brincando que parecia um sapo. Mas era um gênio. Seu nome completo era Diego María de la Concepción Juan Nepomuceno Estanislao de la Rivera y Barrientos Acosta y Rodríguez, portanto vulgo Diego Rivera. Ele pintou uma infinidade de murais com motivos revolucionários ou indígenas, muitos deles a pedido do novo governo socialista mexicano, e que podem ser vistos ainda hoje — embora o governo mexicano dessas últimas décadas esteja longe de ser socialista.


Não dá pra visitar a Cidade do México sem ver a Secretaria de Educação Pública e o Palácio Nacional, onde se encontram muitos desses murais dos anos 1920.

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O povo varrendo e passando a faca nos ricos e nos militares, que governavam o país até então.
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Os ricos com dinheiro no prato em vez de comida. Já o povo, atrás, conhecendo abundância.
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Figura de Emiliano Zapata e o lema da luta campesina: “Terra e Liberdade”.
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Levante do operariado. Percebam que Diego desenhou Frida Kahlo ali no meio, de vermelho.
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Paródia do hinduísmo e do budismo: vejam nas mãos a foice e o martelo, símbolos do comunismo (por representarem um o trabalhador rural, e o outro o trabalhador industrial), e a estrela na testa.
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Vida comunitária. Pintura ao redor das portas na Secretaria de Educação Pública. Fica um primor!
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Às vezes os murais de Diego Rivera são tão densos e detalhados que você pode ficar uma hora ali parado tentando atentar para cada detalhe.
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Ele às vezes inseria personagens específicos na pintura, como faziam os pintores renascentistas que inseriam pessoas ilustres da sua época. Aqui vejam Karl Marx lá em cima, barbudo, instruindo os guerrilheiros.
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Mural ilustrando a vida indígena no México antes da chegada dos espanhóis.
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Varanda com murais de Diego Rivera no Palácio Nacional, na Cidade do México.
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Posando com um dos murais.

Eu achei a arte de Diego Rivera fascinante, não apenas pela beleza e pelo nível de detalhamento e riqueza, mas também pela sua crítica social e política, e por retratar tão bem a realidade mexicana de sua época (não mudou muito de lá pra cá, diga-se de passagem). Precisávamos de um pintor desses no Brasil.

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Frida Kahlo e Diego Rivera em 1932.

Frida Kahlo, embora envolvida em todo esse movimento, não era exatamente muralista. Sua especialidade eram seus auto-retratos. Pintava-os muitas vezes com enfeites surreais ao redor, o que fazia perguntarem-lhe se ela pintava seus sonhos. “Eu nunca pintei sonhos”, respondeu ela certa vez, “eu só pintei a minha realidade”. Frida sofreu um acidente quando era adolescente e quebrou a um sem-fim de ossos, além de ter tido o útero perfurado, o que nunca lhe permitiu ser mãe. Quando engravidou, teve aborto espontâneo. Assim sempre viveu uma vida assaltada por suas frustrações e por emoções fortes. Esse tema da maternidade não realizada também é recorrente em suas obras.

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Auto-retrato de Frida Kahlo, com um colar de espinhos.
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Não me peçam pra dar uma legenda a este quadro. Sei lá o que é isso! Surrealismo puro. (Mas, se a gente olhar um pouco, dá pra perceber ao menos que há o dia de um lado e a noite do outro. O resto fica aí por sua imaginação).

A influência indígena fica evidente em pinturas como essa última, como também no uso de cores tão vivas — costume das culturas pré-hispânicas, que também pintavam seus muros.


Frida e Diego viveram numa parte da Cidade do México chamada Coyoacán, onde ela também nasceu. (Caso o sobrenome Kahlo lhe pareça estranho, é húngaro, de seu avô paterno). Coyoacán é ainda hoje uma parte muito mimosa da capital mexicana. Tem um ar de colônia, de vilarejo, com a igreja no meio, bancos e jardins na praça, e casas coloniais. Hoje, é claro, tornou-se turístico, mas não perdeu o seu espírito completamente.


Lá está ainda hoje a casa onde viveram Frida e Diego, hoje transformada em museu. “A casa azul” guarda recordações dos dois e segue decorada da maneira que estava à época em que eles viviam aqui. A obsessão de Frida pela maternidade não realizada fica mais uma vez visível em alguns quadros que decoravam o ambiente.

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Quarto de Diego Rivera e Frida Kahlo, preservado do jeito que era.
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Jardim no interior da “casa azul”. Sim, é grande.
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Frente da casa, hoje museu.

Mas nos anos 1930 Coyoacán recebeu mais um morador ilustre: Leon Trótsky, um dos mentores da Revolução Russa de 1917, que depois da morte de Lênin passou a ser perseguido por Stálin (rivalidades internas) e que agora havia sido abjurado do partido soviético e forçado a fugir em exílio. Depois de alguns anos na Turquia, na França e na Noruega, de onde foi sendo seguidamente expulso depois de breves períodos, ele veio finalmente ao México (em 1936), onde seus amigos Diego Rivera e Frida Kahlo intervieram junto ao governo mexicano para acolhê-lo.


Trótsky viveu um tempo na Casa Azul com Frida e Diego antes de mudar-se para uma residência própria em 1939, onde viria a ser assassinado a mando de Stálin em 1940. A casa hoje também é museu, e segue guardada do jeito que era quando ele vivia lá.   

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Leon Trótsky e Diego Rivera.
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Sala da casa onde viveu Trótsky no México.
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Graffiti na esquina da rua onde fica a casa de Trótsky, hoje museu, em Coyoacán.

Frida morreria em 1954 aos 47 anos, vítima de embolia pulmonar causada por pneumonia — se suspeita que tenha sido, na verdade, overdose de analgésicos. Diego ainda viveria três anos mais, até falecer de parada cardíaca em 1957, na Cidade do México. As cinzas de Frida seguem na Casa Azul, aqui em Coyoacán. 


Com tantos personagens ilustres, Coyoacán é uma visita obrigatória cá na Cidade do México. Deixo vocês com mais imagens de lá, e com a música Burn it blue (“queime-a azul”), cantada por Caetano Veloso e a magnífica cantora mexicana Lila Downs, para o encerramento do filme Frida. Uma referência indireta à casa azul, do jeito dramático que caracterizou Frida. 

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No bairro de Coyoacán, na Cidade do México.
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Num fim de tarde.
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Muita gente na praça central de Coyoacán. As praças no México ainda são locais de reunião social (ao contrário do Brasil, onde hoje são as insossas praças de alimentação de shopping).
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Interior da igreja de Coyoacán.
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E Viva México!
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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