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Visitando a Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, México

Era domingo de manhã cedo, e a massa já passava em procissão pelas ruas do centro da Cidade do México. Peregrinação à Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, o santuário cristão mais visitado em todo o mundo. São em média 20 milhões de pessoas por ano, acima dos 10-12 milhões que visitam Nossa Senhora Aparecida, no Brasil, e dos 5 milhões que vão à Basílica de São Pedro, no Vaticano. (Fora do cristianismo, há apenas dois santuários ainda mais visitados: o templo hindu Vishwanath em Varanasi, na Índia, aonde vão em média 22 milhões de pessoas ao ano, e que eu visitei nesta ocasião; e o templo japonês xintoísta Senso-Ji, em Tóquio, aonde vão 30 milhões a cada ano, também já por mim visitado aqui).


Uma visita ao México é incompleta sem uma ida à Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe. Ela é a cara do México, e é emblemática da simplicidade do povo mexicano e do cristianismo popular latino-americano. É também, é claro, vitrine do ouro tradicional católico enquanto o povo passa fome e do conservadorismo da Igreja. Mas é também retrato e palco da humildade e da franqueza de coração desse povo. Marx chamou a religião de “ópio” não como uma crítica, como costuma ser erroneamente interpretado fora de contexto, mas como um refúgio onde as pessoas podem encontrar a paz e o acalanto que lhes são negados na sociedade, que oprime e exclui. São mais de 50 milhões de mexicanos — quase metade da população do país — vivendo abaixo da linha da pobreza. O problema, portanto, não está na religião, mas nas desigualdades sociais e econômicas que fazem com que haja tantos excluídos.  


Digo abertamente, no entanto, que em lugar nenhum do mundo vi até hoje coração maior e maior calor humano que dentre os pobres da América Latina. Parece clichê, mas digo com sinceridade.


Os mexicanos em geral são muito amistosos, mas os mais pobres me pareceram sê-lo ainda mais. Ninguém me foi tão amável em minha estadia aqui quando os vendedores de rua, com quem eu puxava papo de repente. Como no Brasil, aqui no México há diferença entre os distintos senhores e senhoras endinheirados, que se crêem melhores que os outros, e o “povão”. Estes últimos tendem a ser pessoas abertas e muito “dadas”, como a gente mais simples no Brasil. 


Quando falo dessas diferenças sociais aos meus amigos europeus eles ficam confusos, sem entender essa coisa de pobre se comportar de um jeito e rico de outro, como se fossem duas culturas separadas. Mas é. Vocês como brasileiros vão entender, e quando vierem aqui ao México também não deixarão de notar.


Outra curiosidade é a importância fundamental da figura materna na sociedade mexicana (e latino-americana como um todo), ilustrada aqui por NS de Guadalupe. Talvez você não saiba, mas em outras culturas (ex. nos Estados Unidos) é comum se fazer considerações ou até brincadeira sobre a mãe alheia. Vá fazer isso a um latino-americano e você pode perder os dentes. Para constatar essa hiper-sensibilidade, basta reparar em como escutar alguém dizer “tua mãe” já soa como ofensa. Você já olha torto pra ouvir o que a pessoa vai falar. Aqui no México, alguns guias de viagem instruem os turistas estrangeiros a jamais dizerem “tú madre” em qualquer circunstância, pra evitar briga. É uma característica latino-americana. 

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Senhor orando num altar a NS de Guadalupe na catedral da Cidade do México.

Aqui diz a lenda que, em 9 de dezembro de 1531, o índio Cuauhtlatoazin (depois batizado como Juan Diego, para facilitar eu digitar) fazia o seu caminho de casa perto da colina Tepeyac, próximo à cidade de Tenochtitlán, quando deparou-se com uma aparição. A mulher morena envolta num manto dizia ser a “Mãe de Deus”, e o instruiu a ir solicitar ao bispo que construísse uma capela ali para aliviar as dores do povo. O bispo, no entanto, não acreditou na história de Juan Diego, a quem a Virgem voltou a aparecer. “Sou um homem sem importância“, teria dito ele à Virgem, sugerindo-lhe que escolhesse outro mensageiro. Ela disse que não, que tinha de ser ele. 


Juan Diego voltou então a insistir com o bispo, que pediu-lhe uma prova. À altura do dia 12 de dezembro, a Virgem apareceu mais uma vez a Juan Diego e disse-lhe que coletasse flores na colina e lhe trouxesse. Ele as coletou em seu manto e trouxe-as à Virgem, que as arranjou de uma certa forma. Juan Diego as envolveu novamente no manto e retornou ao bispo. Despejando-as no chão ao pé do bispo, viram marcada uma mancha gravada no manto — a imagem até hoje imortalizada de Nossa Senhora de Guadalupe, uma Maria de feições indígenas aqui também apelidada de La Vírgen Morena.   


Supostamente, o manto original de Juan Diego continua lá exposto na basílica — e eu vi. Se é uma obra de arte ou realmente um milagre, fica a critério de vocês escolher o que pensa. O indiscutível é que assim surgiu o culto à Santa María Guadalupe, da língua indígena náhuatl coatlallope, ou “aquela que esmaga a serpente”. (Na tradição católica, Maria é co-redentora dos homens e aquela que pisa na serpente, símbolo do mal na simbologia bíblica). 

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A colina Tepeyac hoje, lugar da capela original — que o bispo afinal mandou construir — e local de peregrinação ainda hoje.
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Templo erigido mais tarde (1685-1709) à Nossa Senhora de Guadalupe, ainda nos tempos do México colonial.
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Interior da igreja colonial.
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Templo principal atual, redondo e com várias portas. Foi feito nos anos 1970 para acomodar melhor a quantidade de fiéis.
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Área onde está exposto o que se diz ser o manto de Juan Diego com a imagem original de Nossa Senhora de Guadalupe. A esteira rolante é pra que ninguém fique parado admirando a imagem e impeça os outros de ver.
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A imagem original de NS de Guadalupe lá no alto.

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Desde então o 12 de dezembro tornou-se dia santo, e daí feriado nacional, Dia de Nossa Senhora de Guadalupe. (Desnecessário dizer que há dezenas de milhares de mulheres no México com esse nome, sobretudo as nascidas nesse dia — às vezes apelidadas de “Lupe”).


Fecho esta viagem ao México com esta visita icônica. Foi sem dúvida um país que eu fiquei muito satisfeito de inserir em meu currículo. Como diz uma amiga minha suíça que mudou-se para o México: “É difícil encontrar outro país tão rico em termos de cultura, história, e gastronomia ao mesmo tempo“. Há outros, mas o México é de fato um peso pesado. Um dia eu ainda volto.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Visitando a Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, México

  1. Sem esquecer o aspecto simbólico-catequético imprimido pelos espanhóis quando da hiperdulia a Guadalupe. Em Tepeyac anteriormente havia cultos à Tonãntzin (“nossa mãe venerável”), uma das deusas-mães asteca, e posteriormente o termo náhuatl passou a se referir então a N. Sra. Por último, ela pisar a cabeça da serpente (coatlallope) poderia ser lido como uma metáfora da vitória do Catolicismo sobre a religião asteca, pois a serpente aludiria ao esperado Quetzacoatl (a Serpente Emplumada).

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