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As flores de Shiraz e o lado poético da Pérsia

“Boa poesia faz o universo revelar um segredo”, dizia Hafez. Este homem do século XIV, nascido e falecido aqui em Shiraz, no sul do Irã, é por muitos considerado o maior poeta da história persa. Os iranianos aprendem seus versos e os usam como provérbios no dia-dia. É uma língua muito poética, em que muito é dito metaforicamente, como ocorre quando você conversa com aqueles idosos cheios de sabedoria popular.


Khwaja Shams-ud-Din Muhammad Hafez-e Shirazi (1325-1390) vai lhe surpreender. (Esses nomes persas e árabes são enormes porque eles agregam qualificativos. Não são nomes de família. É tipo “Juliana, a paulista, filha de Luíza, a conhecedora”. Hafez é a alcunha dada aos que sabem o Alcorão inteiro de cabeça.) Ele escreveu centenas de gazéis, nome dado a curtos poemas líricos na tradição poética islâmica. Mais de 500 estão agregados na sua maior obra, o Diwan. O lirismo da sua época difere radicalmente da abordagem seca e rígida do islamismo de hoje.

“Um dia, o sol admitiu:
Sou apenas uma sombra,
quisera poder mostrar-te a infinita incandescência
que lançou minha imagem brilhante.
Quisera poder mostrar-te, quando você se sentir só ou na escuridão,
a surpreendente luz do seu próprio ser.”

Assim Hafez falava da presença de Deus. E assim ele falava da vida:

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Desenho posterior, do século XVIII, do que era imaginado de Hafez à sua época.

‘Uma destas noites, um sábio me falou: “É preciso conheceres o segredo daquele que nos vende o vinho.”
E ainda: “Não leves nada a sério. O mundo carrega de enormes fardos aqueles que dobram a cerviz.”
Depois, estendeu-me uma taça onde o esplendor do céu se refletia tão vivamente que Zuhra se pôs a dançar:
“Filho, segue o meu conselho; não te inquietes com as noites deste mundo. Guarda as minhas palavras, elas são mais raras do que as pérolas”
“Aceita a vida como aceitas essa taça, de sorriso nos lábios, ainda que o coração esteja a sangrar. Não gemas como um alaúde; esconde as tuas chagas”
“Até o dia em que passares por trás do véu, nada compreenderás. Não podem ouvidos humanos ouvir a palavra do anjo”
“Na casa do amor, não te envaideças das tuas perguntas, nem da resposta.”
Vinho, ó Saki, mais vinho: as loucuras de Hafez foram compreendidas pelo Senhor da alegria, Aquele que perdoa, Aquele que esquece…’

Diferente, não? Creio que evoca até um ar meio boêmio, mas profundamente sincero. Se a boemia clássica ocidental é muito aquilo de curtir a vida e aproveitar o momento, essa do Islã medieval tem um pano de fundo espiritual, ancorado na crença firme num Deus todo-poderoso. É curioso notar metáforas de vinho e dança, coisas que hoje nem de longe associamos ao Islã. 


Hafez era adepto do Sufismo, uma vertente mística do Islã que aponta para a experiência direta com Deus, através do contato com a natureza, com os outros, e dos desafios da vida. É o extremo oposto do Wahabismo, a atual corrente dominante patrocinada pela Arábia Saudita, que estamos acostumados a ver nos tempos de hoje. O teólogo árabe al-Wahhab (1703-1792) foi um influente radical que via qualquer desvio de sua interpretação literal do Alcorão e da lei islâmica como uma heresia imperdoável. Começou então — e continua até hoje — um matrimônio entre dirigentes sauditas ricos e essa visão tacanha, ao pé da letra do Islã, que não permite que mulher dirija carro (na Arábia Saudita), que se cubram de preto para quase negarem suas existências públicas, etc. Ao meu ver, é como foi o “Cristianismo” da Europa, usado para manipular e coagir as massas, por uma Igreja associada à monarquia — como fazem hoje os reis sauditas sentados em suas reservas de petróleo enquanto o povo é deixado pobre e no obscurantismo.


Mas, na Idade Média, o mundo islâmico era muito mais desenvolvido e estava muito à frente da Europa. Avançados tanto nas ideias (matemática, medicina, astronomia, fundaram as primeiras universidades, etc.) quanto em tecnologias (instrumentos de navegação que depois seriam passados aos portugueses, cultivos agrícolas como o açúcar, o café e os cítricos, fabricação de vidro, perfumes etc.). Por exemplo, foi um certo persa chamado al-Khwarizmi (780-850 d.C.) que em grande medida desenvolveu a matemática dos algarismos que hoje conhecemos, a álgebra (al-jabr), e a ideia dos algoritmos, hoje muito usados muito na computação.


Aí eu acho engraçado a historiografia convencional eurocêntrica retratar a Idade Média como um período atrasado, de “trevas”, como se o mundo fosse só a Europa, e depois falar do esplendor europeu do Renascimento, das revoluções científica e industrial — tudo financiado pela rapinagem do ouro e prata das Américas — como se fossem epifanias repentinas de Galileu, Newton, Copérnico e outros, e como se eles jamais tivessem se baseado em avanços anteriores desenvolvidos por não-europeus. É como se tivéssemos dado um pulo do gato, da Grécia Antiga para a Europa moderna, sem ninguém entre uma coisa e outra, e como se o desenvolvimento do conhecimento humano fosse uma atribuição exclusivamente europeia.


Enfim, é importante reconhecer os feitos dos outros povos. Adiantemos agora a fita. Alguns séculos depois, cá estou eu em Shiraz, visitando a tumba de Hafez e vendo o estado atual do Irã.

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Esse iraniano aí de mochila é brasileiro.

Carro nas ruelas, meninos morenos vestidos em suéteres de mangas compridas e calças compridas (ainda que não fizesse frio), como é hábito aqui no Oriente Médio, chutando uma bola pela rua. Um tio que vinha de moto na direção contrária a nós, espremido entre o carro velho do taxista e a parede da ruela, nos sorri com seus três dentes que existiam só do lado direito da boca, como que pedindo desculpa. Mais à frente, um tio moreno escuro alto com cabelo liso de índio e o maior nariz de batata que eu já vi na vida fumava um cigarro do canto da boca e, atento, nos olhava passar. Estamos nos becos da cidade antiga de Shiraz, onde me hospedei.

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Por estas ruelas trafegamos de carro.
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Falando em habilidade, eu desafio muitos motoristas aí a conseguirem estacionar assim tão rente à parede.

Shiraz é uma cidade de médio porte, de cerca de 1,5 milhão de habitantes (dos 78 milhões do Irã), mas que concentra muita história e beleza. Pra começar, a poucos quilômetros daqui estão as ruínas das lendárias Pasárgada e Persépolis, capitais da Pérsia antiga em diferentes momentos.

A própria Shiraz tem mais de 4 mil anos de história, e aqui perto encontraram a mais antiga amostra de vinho do mundo, de 7 mil anos atrás. Os persas já consumiam vinho antes dos gregos. Pouco dessa antiguidade restou, devido às muitas guerras ao longo dos séculos. O que permanece, todavia, é uma Shiraz notável por suas flores (sem mentira: desci do táxi e, ainda que não houvesse flores ali de junto, senti imediatamente o aroma de jasmim no ar, trazidos dos jardins, algo que jamais tinha me acontecido em cidade alguma), pela poesia e pelo vinho.


O vinho, no entanto, você aqui só vai achar se for no contrabando. Em todo o Irã a circulação de álcool é proibida por lei, já que o seu consumo é vetado pelo Islã. O Islã, contudo, agregou outras belezas à cidade, como o magnífico santuário Shah Cheragh e a Mesquita Nasir al-Mulk, ambos deslumbrantes. Comecemos pela tumba de Hafez, que fomos visitar já que no dia em que chegamos, após um breve bordejo pelo centro.

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Terminal de ônibus no centro de Shiraz. “Cadê o terminal?“. Tolinho, acostumado com muito conforto tipo teto e lugar pra sentar. O terminal aqui é aquela área ali onde os ônibus estão parados, e só.
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Naquela moto ali iam três adultos e a criança. Claro que ninguém com capacete. Visões corriqueiras aqui.

Tomamos transporte público para ir ter um lero com Hafez na sua tumba. Haviam-nos informado o número do ônibus, e enchi-me de orgulho quando consegui ler os numerais persas (ver o post anterior) escritos em tinta branca na lataria. Os ônibus aqui são tomáveis, ainda que precários como no interior do Brasil. Mas não há nem catraca e nem a figura do cobrador. Você paga ao motorista antes de descer. 


Só há um detalhe: aqui há uma divisória na metade do ônibus, homens entram pela porta da frente e vão na frente, mulheres entram pela porta do meio e vão atrás. A minha amiga, naturalmente, sem sabermos, entrou pela frente comigo. Dentro é que notamos. É tipo ônibus no interior do Brasil, em que quando você passa todo mundo olha pra você sem cerimônia.

Perguntamos a alguém se daria problema a minha amiga ir na frente comigo e os demais homens, e um cara que falava inglês nos disse que pra nós estrangeiros, não. Pra mim, o mais estranho foi ver famílias entrarem, o pai ficar na frente, a mãe ir pro fundo, e a criança pequena ficar com um deles e meio sem entender porque um foi pra um lado e outro pro outro. Algumas no fundo estavam obviamente olhando e comentando que a minha amiga havia ido na frente, com os homens, e de outras vezes ela preferiu ir no fundo com as demais mulheres, creio que pra ficar mais à vontade. É estranho. 


O ônibus custa 2.000 riais (a moeda iraniana), 20 centavos de real. Só que eu me esqueci de pagar. Desci, fui embora e saí caminhando, e foi engraçado o ônibus me alcançar depois na rua e o motorista de lá me gritar atrás do honroso pagamento. Mas ele estava tranquilo, eu fiz aquela cara de “Ô! É mesmo!” e os outros homens deram risada.

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Diante da tumba de Hafez, ali atrás. Os muçulmanos, ainda mais aqui no Irã, adoram fazer de tumbas monumentos a visitar. Esta aqui está circundada de belos jardins, espaços agradáveis, lojinha, restaurante, etc. Havia turistas, mas a maior parte das pessoas eram famílias de iranianos que vieram passear.
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A criançada brincando na tumba de Hafez. Acho que ele não ligaria.
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Pessoas conversando.
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Belos jardins e colunatas ao redor.

Como havia ali um restaurante, aproveitamos para jantar. O prato foi sopa, algo onipresente aqui no Irã. Curiosamente, embora vegetarianismo seja incomum aqui, as sopas sempre eram todas vegetarianas, para o meu deleite. Temperos, feijão, folhas levemente acres, iogurte às vezes. De sobremesa, sorvete de baunilha, que não estava mau. O troco veio parte em dinheiro, parte em chiclete de banana, tipo em mercearia de antigamente.

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Eu nem chupei o chiclete. A minha amiga se apropriou. E olha aí a conta. Tem que aprender a ler pra não ser enganado. Nunca antes havia eu sentido tão “na cara” a importância da alfabetização.
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As sopas, pra quem estiver curioso.

Vamos aos demais monumentos da cidade. Nós começamos o dia seguinte com a Fortaleza de Karim Khan, rei que em 1762 fez de Shiraz a capital do Irã. Shiraz foi a capital imediatamente antes de Teerã. Esse rei também construiu os bazares cobertos que existem até hoje. Seus herdeiros, contudo, foram destronados depois pela Dinastia Qajar, que em 1796 mudou a capital para Teerã.

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A Fortaleza de Karim Khan, do século XVIII, no centro mais novo de Shiraz, em meio a ruas amplas e jardins.
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Jardins ao redor, no centro de Shiraz.
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O interior da fortaleza. É simples, e segue o padrão geral aqui no Irã (e, até certo ponto, dos países árabes também), de ter fontes de água e jardins de laranjeiras que aromatizam o ambiente.
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Num dos muitos corredores do bazar coberto de Shiraz.
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Casa de especiarias e temperos.

O difícil, como de outras vezes aqui no Irã, foi achar um lugar onde comer. Você esperaria que esse bazar fosse cheio de bodegas onde se fazer uma refeição, mas não. Não sei por que. Acabamos por comer num dos pouquíssimos restaurantes que achamos, mas um arroz maravilhoso, com berinjelas e tomates no caldo temperado. Os iranianos dizem que o arroz deles é mais saboroso porque, além de serem variedades distintas das que comemos no Ocidente, eles aqui cultivam por detrás das colinas, com o vento assim e a chuva assado etc etc… aí entra o charme iraniano aumentando a explicação. Só sei que é gostoso.


Dali procuramos visitar a famosa Mesquita Nasir al-Mulk, cheia de vitrais coloridos. Só que nos perdemos no caminho. O jeito foi começar a pedir informação. Imagine aí minha cara de persa tentando pronunciar Nasir al-Mulk sem sotaque quando eu perguntava. Logo perguntavam de onde eu era, com uma cara curiosa. Quando eu dizia Brasil, aí era uma festa. Só uma vez é que eu me passei por turco numa mesquita.


Teve um vendedor na rua que foi tão efusivo quando soube que eu era brasileiro que ele ficou vermelho de alegria, como a quem faltavam palavras (em inglês) para expressar, e puxou os dois indicadores das mãos um contra o outro como se fossem ganchos, pra dizer que Brasil e Irã “são assim ó”. Cara animadíssimo. 


(Lembrai-vos todo dia que uma nação é o seu povo, e não o governo que está no poder temporariamente. Ser crítico do autoritarismo do Estado iraniano não impede de ter amizade pelo povo do Irã).

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Interior da mesquita Nasir al-Mulk. É pequena, mas muito bonita.
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Se você vier no início da manhã, poderá ver o sol irromper pelo vidro e jorrar colorido sobre o tapete.

O rapaz efusivo ainda nos deu uma dica: visitar a mansão e jardins de Naranjestan, ali perto. Altamente recomendado. Quando visitamos havia uma turma de meninos da escola primária, então foi uma fuzarca. A mansão, além de um belo jardim, tem belíssimos interiores laqueados em decoração tradicional persa.

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Jardins da Mansão Naranjestan, em Shiraz.
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Interiores belamente decorados.
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A meninada correndo atrás de foto.

Esses meninos, num dado momento, estavam todos tomando um sorvete branco, que me apeteceu. Fiquei intrigado e resolvi procurar.


Descobri a barraca onde eles haviam conseguido o sorvete e fui comprar um pra mim. Não havia porções exatas (1 bola, 2 bolas), era um pratinho. Comprei. No maior espírito de menino, reclamei que no deles o cara botou mais. Ele, resignado, concordou e adicionou mais sorvete ao meu pote.


Arrependi-me. Não me lembro da última vez que tomei um sorvete tão ruim. O negócio pegajoso era açúcar puro. Dizem que é de leite. Sorvete tradicional de Shiraz. Boa bucha.

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O foco da foto está na mansão porque esse sorvete não merece.

Na saída, como que pra me embrulhar ainda mais o estômago, passamos por açougues que tinham cabeças de camelo expostas à porta. Sério. Quiçá para avisar que havia carne fresca. Achei tão repugnante que nem foto tirei.


Vamos agora completar Shiraz com o que de mais bonito vi na cidade: o Santuário Shah Cheragh. Lá ficam as tumbas de dois santos do Islã (eu falei, eles aqui gostam de visitar tumba), mas verdade seja dita, não há nada de mórbido no local. Trata-se de um grande espaço, murado, com um largo pátio interno de chafarizes e laranjeiras exalando aroma, circundado de belíssima arquitetura. 


Aqui as mulheres precisam agregar mais uma camada de roupa, um xador (manto que cobre o corpo e expõe só o rosto), que eles emprestam à entrada (a minha amiga reclamou que o que deram a ela estava sem lavar). O lugar fica aberto 24h e é lindo de visitar tanto de dia quanto de noite, com as luzes acesas. Do alto, alto-falantes lançam a cantoria de alguém recitando versos sagrados do Alcorão em certos momentos do dia. É um espaço muito agradável. 


Não deu pra tirar foto (pois era proibido), mas os interiores são revestidos de pequenos espelhos que refletem a luz verde das lâmpadas. O chão é todo coberto de tapete. Mulheres pra um lado, homens pro outro. Aqui e ali, vi homens acomodados no chão estudando livros religiosos ou orando.

Pareceu um “centro do saber” (islâmico, é óbvio), ou algo do tipo. E ali, por detrás de grades, as grandes tumbas cerradas a vidro, como mausoléus onde as pessoas encostavam a cabeça e beijavam em oração. Pra o lado de dentro do cercadinho você podia enfiar dinheiro, como que em doação para o santo. Após orarem, vi as pessoas habitualmente caminharem de costas para trás, como que para não dar as costas ao mausoléu. Lugar esplendoroso, dos mais bonitos que vi no Irã.

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Shah Cheragh. O aroma das flores de laranjeira vai longe.
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Um lugar plácido.

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Numa noite dessas, terminamos indo tomar chocolate quente numa barraquinha de um casal iraniano jovem encantado por café, após visitar os Jardins Eram, dos mais belos da cidade. Deixo vocês por ora com as fotos de lá.

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Nos Jardins Eram, em Shiraz.
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Flores no fim de tarde, com muitas famílias a passear.
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Nos jardins.

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No próximo post, a ida às ruínas de Persépolis e Pasárgada, um mergulho na Pérsia antiga.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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