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Em Yazd (Irã): Malandragem à iraniana e arquitetura persa no deserto

Nunca antes havia eu escutado “I love you” três vezes numa mesma corrida de táxi. Muito menos do taxista. Este se chamava Ali (como provavelmente outros 10 milhões de iranianos), e essa deve ter sido a corrida de táxi mais divertida eu que já fiz na vida. Entrecortamos a cidade de Yazd, no interior do Irã, por quilômetros de ruelas e becos a todo vapor, sem pegar uma avenida, com Ali dirigindo com uma única mão no volante, a outra descansando pra o lado de fora da janela, e falando sem parar comigo em persa, e rindo. Não falava uma única frase inteira em inglês exceto aquela. E quanto mais rápido ele dirigia, mais ele ria, daqueles caras que riem quase sozinhos e que fazem você começar a se perguntar se não é doido. Ao menos esse não tentou me enganar.


Bem vindos a Yazd, coração do deserto iraniano, no miolo do país. Aqui neste post mostrarei bela arquitetura islâmica persa perdida neste ermo, e falarei um pouco da malandragem à iraniana que experimentei em primeira mão.

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Parada técnica à beira de estrada no caminho entre Shiraz a Yazd, no seco miolo do Irã.
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Moça aguardando a partida do ônibus.
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Outro ônibus chegando, na nossa verdejante paisagem.

Nos detivemos por uns 20 minutos nessa beira de estrada aí que você vê nas fotos. Um lugar desértico, poeirento, e que faz você lembrar as guerras no Iraque e o que se vê do Oriente Médio na mídia. 


Esse cafundó aí tinha um posto de gasolina vagabundo, uma lojinha vendendo lanches de mercearia em embalagens muito coloridas (salgadinho, refrigerante, etc.), e um par de banheiros que fazia você invocar o nome de Allah antes de entrar. Já a poeira, quando começava a juntar no horizonte e vir na sua direção, fazia você torcer a cara e soltar um palavrão. Lembro quando passou um caminhão e veio um turbilhão de poeira atrás, as mulheres todas usando seus véus para cobrir o rosto e encolhendo-se. Eu, tudo o que pude fazer foi me virar pra trás pra que pelo menos não entrasse no olho. O cabelo fica uma maravilha.


O calor não estava tanto, pois era abril (primavera), mas no verão a sensação térmica pode chegar a gostosos 50 graus. A terra é erma de um jeito que dá pena. E o pior: com a degradação ambiental contínua, tem cada vez menos água, e com a mudança climática global, mais aridez e calor. Estamos caminhando para um inferno à là Mad Max nestas partes do mundo.   

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A vista através do vidro fumê do ônibus. Esta paisagem estéril se estende por horas e horas de viagem. E o que você não vê nas imagens de televisão é a imundície de lixo que os motoristas atiram pelas janelas e que fica rolando por esse ermo. Todos aqueles pontos ali de cor diferente da areia são embalagens e outros dejetos jogados da estrada.

Claro, bate também sempre a pergunta: Imagina se o pneu furasse aqui? Mas não tivemos problemas. Os ônibus interurbanos no Irã são, sem ironia, dos melhores que eu já tomei no mundo, senão os melhores. São espaçosos, com tapete no chão, água e lanche inclusos, e poltronas bem largas, pois são apenas três (e não quatro) assentos em cada fileira. Você pode ir todo escarrapachado na cadeira, como eu fui. 


Seis horas depois, chegamos à rodoviária de Yazd, que fica afastada da cidade. Ao chegar você vê toda periferia, e parece que você está chegando na Faixa de Gaza.

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Vista da periferia de Yazd.

Olha que coisa linda. Vocês já devem estar se perguntando: E que raios você foi fazer aí, afinal? 


Yazd é famosa sobretudo pelo seu centro histórico medieval de ruelas e becos de adobe em cor de areia. No entanto, achei-o morto demais. Não havia viv’alma, nem grandes decorações, nem mercado, nem nada além de paredes e becos quietos. Vi melhor no Marrocos e no Catar. O que realmente me chamou a atenção aqui em Yazd foi a linda arquitetura persa das mesquitas e demais prédios da Idade Moderna (dos idos de 1500-1600 d.C., para ser exato), com seus ladrilhos trabalhados, arcos mouriscos e luzes em cor. Foi o que valeu a pena ver após me haver com os espertos daqui. 

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Ruelas do centro histórico em Yazd. (Vi muito mais interessante no Marrocos, devo dizer.)
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Pra contrastar com a foto anterior. Esta aqui é uma loja no centro novo de Yazd. Por alguma razão estranha, os iranianos gostam de pôr expressões faciais nos seus manequins.

Minha família vive aqui há 400 anos. A gente tem todos os registros“, disse-nos tranquilamente o jovem taxista que nos levou da rodoviária, quando lhe perguntei se ele era de Yazd. No centro tínhamos um hotel simples reservado (na verdade, é mais tipo uma pousada, mas aqui eles chamam de hotel pra dar mais status, como vocês verão depois).


”Da parte de todo mundo ou só do seu pai?“, perguntei eu com a minha sinceridade nordestina característica, que não tem muita cerimônia em perguntar da vida dos outros e que gosta de saber direito do “causo”.

“Só do meu pai“, respondeu ele. “Da parte da minha mãe a nossa família descende do profeta [Maomé]“, disse ele com a mesma tranquilidade, como se fosse a coisa mais corriqueira. Eu fiquei com aquela cara sem saber o que dizer, só tomando cuidado pra não rir. Ele estava sério e sereno. Verdade seja dita, diz a lenda que as pessoas com o sobrenome Sayed descendem de Maomé, mas há milhões deles, e mesmo nos países islâmicos não é todo mundo que realmente leva isso a sério.


”Então você é metade árabe?“, perguntou-lhe prontamente a minha amiga turca, perspicaz. 


”É… é.“, respondeu ele quase resignado, como quem lida com uma verdade inconveniente. Os iranianos, que são persas, e os árabes não se dão lá muito bem.  


Chegamos ao centro de Yazd, que já não parece tão terrível quanto aquela visão de Gaza. É um centro simples, parecendo mesmo cidade do interior, com lojas despretensiosas e pessoas pra lá e pra cá, como no interior do Brasil. Algumas avenidas bonitas, e muitas mulheres de xador preto, traje conservador. 

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Homem pondo a garotinha na moto pra saírem pela calçada e sem capacete. Numa das avenidas principais do centro.
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Comércio no centro de Yazd, e mulheres vestindo o xador.
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Lojinha no centro. Como essa havia muitas. Eu tenho dificuldades em ver as mulheres vestidas assim e não imaginar que a ideia por detrás seja negar toda a sua existência pública, como se não estivessem ali, como se quisessem torná-las invisíveis.
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Sapateiro idoso humilde fazendo o seu trabalho sentado na calçada.

Há uma aura geral de simplicidade e despretensão no lugar. No entanto, quando turismo e dinheiro entram em cena, eles acendem logo a malandragem no coração de alguns. Nestes países pobres, mais do que em outros, eu percebo que há uma diferença grande entre a simpatia genuína das pessoas da rua e a malandragem dos que estão acostumados a lidar com turistas, e que gostam de dar uma de espertos.


O taxista descendente de Maomé nos cobrou caro, mas havíamos combinado o preço de antemão, e não havia muita opção naquele ermo de rodoviária. Agora foi a vez do hotel pousada querer nos passar a perna. 


Chegamos ao local bonito que havíamos visto e reservado pela internet, e o recepcionista atrás do balcão catou os nossos nomes no livro de reserva. “Ah não, o de vocês não é aqui não. Vocês vão ficar no outro“, disse ele com um sorriso ligeiramente apologético. 


”Não lhe avisaram no e-mail de confirmação não?“, perguntou ele tentando se redimir. Não. Mas enfim, deixamos pra lá. O taxista ainda estava ali e nos levou à outra propriedade, muito menos atraente, noutra parte do centro. O taxista se recusou a nos levar a outro hotel, pois conhecia os donos deste e ficaria mal pra ele. Eu entendi, até certo ponto. 


A cobra fumou foi quando, já no outro, uma moça na recepção nos conduziu não a um quarto como havíamos visto nas fotos do site da internet, mas a uma câmara subterrânea com ares de casamata de guerra e que ela chamava de quarto. A minha amiga turca pirou e rodou a baiana, apesar de o baiano ser eu, e nós ali quase fizemos uma segunda revolução iraniana. Khomeini da tumba deve ter sentido o afã. A funcionária engoliu um seco, pediu calma, e disse que esperássemos que ela ia chamar pra o gerente. 


Eu neste ponto preciso pausar para explicar um aspecto importante na cultura social iraniana. Os iranianos, ao contrário dos turcos e dos árabes, não são briguentos. Ao contrário, eles são polidos às vezes até demais — cerimoniosos, matutos, e por não terem a cultura de dizer as coisas “na cara”, podem ser notáveis mentirosos. 


Há um importante conceito persa chamado tarof, que se refere às várias normas de civilidade na sociedade iraniana (dar lugar aos idosos, abrir a porta e deixar passar primeiro aqueles que tem mais autoridade que você, etc.). São as normas de educação daqui. Só que a coisa vai bem mais além que no Brasil, e pode incluir uma série de fingimentos, tipo ofertas que você por educação não deve aceitar. (“Eu pago a conta toda“, “Imagina, eu que pago“, “Por favor, eu insisto“.) A coisa vai longe. Diz a lenda que, se você for convidado à casa de um iraniano e elogiar muito uma peça de decoração, a educação mandará o dono oferecer aquilo a você, e o mesmo tarof requer que você agradeça a gentileza mas jamais aceite a oferta. E fica esse jogo florido pra lá e pra cá em tudo.


Em certa medida isso agrega um tempero às relações sociais, mas às vezes é demais pro meu gosto. Trabalhei certa vez com um professor iraniano na Holanda e era irritante quando soava ele falso, imodesto ou exagerado. Certa vez ele me apresentou aos seus alunos de mestrado: “Mairon é um pesquisador excepcional, que deu uma brilhante aula aqui no ano passado, escreveu um ex-ce-len-te capítulo pra o nosso livro…“, e a rasgação seguia. Os alunos holandeses me olhavam como se eu estivesse prestes a transformar água em vinho. A minha orientadora indiana à época dizia que ele era “açucarado” demais. Nos cobria de elogios, mas não hesitava em manipular as coisas a seu favor pra obter o que queria por detrás daquela pantomima toda.  


Evidente que nem todos os iranianos são manipuladores. Mas aqui é mais ou menos assim que as relações se dão, e nesse jogo sofisticado você precisa saber distinguir gentilezas de pseudo-gentilezas. Ou chuta o pau do diacho da barraca.


Esperamos meia hora pelo tal gerente, eu e a minha amiga, confabulando, vendo como negociaríamos, e avaliando outras opções que tínhamos (basicamente nenhuma além de sair à deriva pela rua com bagagem, quase ao anoitecer, pra ver se acharíamos algo melhor). Depois de um tempo, finalmente apareceu a margarida. Aliás, chamá-lo de margarida é puro tarof, pois ele era um senhor rechonchudo de cabelos brancos e terno preto, com aquele ar de parlamentar safado, tipo os deputados sexagenários que vemos no aeroporto de Brasília. Pôs-se a falar conosco da porta da recepção, que dava para um jardim interno rebaixado onde estávamos. Comecei me identificando, pra ele saber de qual eu estava falando.  


— “Eu sou Mairon.”

—”Eu sou o gerente.” 

(Quase taquei uma pedra no véio)

— “Nós reservamos um quarto para duas pessoas. O que a moça nos mostrou não é o que nós reservamos. Aquilo ali é um dormitório, numa acomodação que não tem absolutamente nada, nem janela. Ou mudamos o quarto, ou mudamos o preço.

— “Ok, ok, não tem problema, disse ele com ar conciliador. Vocês ficam de graça. Pronto. São meus convidados. O importante é vocês ficarem satisfeitos.”


Tarof em ação. O véio nos jogou um verde, e a cortesia iraniana nos mandaria rejeitar a possibilidade de ficarmos sem pagar. Só que nós não somos iranianos. 


— “Sério? Então a gente pode ficar as duas noites sem pagar?

O véio sacou que o tarof não estava funcionando, e resolveu alterar a estratégia. O brilho nos seus olhos sabidos começava a mudar.

— “Na saída vocês pagam a quantia que quiserem, de acordo com a satisfação de vocês.” 


Jogo arriscado. Ele poderia facilmente cobrar o preço que havia sido inicialmente combinado por e-mail e argumentar que nós aceitamos ficar no quarto que nos foi fornecido.


— “Ou então nós trocamos vocês de quarto. Pronto. Se não gostaram daquele, eu tenho outro. É tudo novo, recém reformado“. E ele nos conduziu a um outro quarto que era idêntico ao anterior.

— “Isso aqui é um dormitório. A gente lhe paga 10 dólares por noite e nada mais“, disse eu já perdendo a paciência.

— “Dormitório?”, reagiu ele ligeiramente ofendido. “Isto aqui é um ho-tel. O governo nos registrou como ho-tel!

Porque esse fiscal do governo deve ser da mesma laia que você, me deu vontade de dizer. Ele podia chamar de hotel o quanto quisesse, mas estava longe de ser igual ao mostrado no site, e ele próprio admitiu que esta acomodação era inferior à primeira aonde fomos. 


A negociação continuou, eu o chamei de trapaceiro na frente dos outros hóspedes (devo ter violado todos os princípios da boa-educação iraniana), e no final conseguimos mudar o preço. Ficamos no quarto chinfrim, a casamata de guerra, mas pelo menos saiu barato, um terço do preço original. O que incomoda é ter que ficar a toda hora brigando pra não ser enrolado. 

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A casamata subterrânea feita quarto. A única coisa bonita era o tapete. A TV quase deu pipoco quando eu pus na tomada, e o frigobar era de enfeite.

Mas eu falei da bela arquitetura islâmica persa, e vê-la foi o ponto bonito da estadia em Yazd. Visitamos mesquitas e jardins, com seus minaretes em luzes, vitrais coloridos, belos ladrilhos, e até uma cafeteria com fonte e córrego dentro, à maneira dos antigos palácios islâmicos.

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Água corrente do lado de dentro da cafeteria. Super agradável.
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Aquela torre é um “apanhador de ventos”, que batem no alto, entram e ventilam o interior. Nos jardins Dowlat Abad, onde também fica a cafeteria mostrada.
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Portas de vitrais persas coloridos, ainda naquele prédio do jardim.
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E este é o teto, que deve provocar orgasmos em geômetras e matemáticos.
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Eu com a “Mesquita da Sexta-Feira” iluminada ao fundo.
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A Mesquita da Sexta-Feira de frente. (A sexta é o dia sagrado para os muçulmanos, o dia da congregação, e em muitos casos, como no Irã, o dia de folga na semana, enquanto que o domingo é um dia de trabalho normal).
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No interior.
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Impressionante decoração.
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Muitos ladrilhos bem trabalhados.
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O chamado Amir Chakhmagh, um complexo do século XV com mesquita, banhos públicos etc., no centro de Yazd.
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Na praça principal da cidade.

A princípio deixei Yazd com um gosto amargo na boca, das malandragens com que tive que lidar. Mas, olhando agora e relembrando, acho até que valeu. 


Valeu também por ter visitado sítios estranhos que eu jamais havia visto noutro lugar do mundo, da religião que Zaratustra (Zoroastro) fundou aqui nestas terras há milênios, e praticada ainda hoje. Yazd é o centro do zoroastrismo no Irã. Mas essa conversa fica para a próxima. 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 thoughts on “Em Yazd (Irã): Malandragem à iraniana e arquitetura persa no deserto

  1. Mais uma deliciosa viagem, levada pelas mãos e verve do Mairon.
    Não pensei q ainda vuajaria tanto pelo mundo…e até por lugares q eu nem sabia q existiam. Aprendendo e me divertindo ( muito!) , Estou sempre a “de malas prontas” , a espera da próxima aventura….

  2. Excelente seus posts.
    A contextualização histórica que vc dá a todos eles enriquece muito a leitura e nos faz mergulhar nas suas experiências.
    Parabéns.

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