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O Zoroastrismo, as Torres do Silêncio e o Templo do Fogo em Yazd

Esse aí sou eu em frente ao Templo do Fogo (Atashgah) de Yazd, Irã, no dia em que conheci Zaratustra.

Assim falou Zaratustra (1885) é o título do mais famoso livro do filósofo alemão Nietzsche. A filosofia do livro — que, em grande medida, sintetiza o pensamento de Nietzsche — no entanto é o total oposto do que pregou o verdadeiro Zaratustra (chamado Zoroastro pelos gregos). Esse filósofo da Pérsia Antiga, que dizem ter vivido em algum momento entre 1000-600 a.C., foi o primeiro a articular os conceitos de Bem e Mal como algo metafísico, que rege o universo, e criar assim a ideia de moralidade, de tudo na vida como uma questão de certo ou errado.


Nietzsche tinha pavor a essa forma de pensar tão arraigada na cultura ocidental. Ele sempre se mostrou muito mais afim ao ideal do guerreiro germânico, das antigas lendas nórdicas, do homem corajoso e audacioso, em vez da pessoa “boazinha”, humilde, comportada na vida para ser compensada no céu. Ele promovia o “super-homem”, em lugar da ovelha no rebanho. (Nietszche era, diga-se de passagem, profundamente machista). Dizem que os soldados alemães ganharam cópias de Assim falou Zaratustra durante a Primeira Guerra Mundial, para inspirar-se.


E qual a ideia em citar Zaratustra, se Nietzsche pregava o oposto? A ideia foi, exatamente, ir na raiz, na origem, para desfazer a forma de pensar que Nietzsche abominava e propor a nova, que ele defendia. Pra quem não leu, o livro é uma espécie de sátira onde há um personagem chamado Zaratustra que também sobe à montanha (como dizem que ocorreu com o Zaratustra original) mas, em vez de voltar com ensinamentos religiosos, o personagem volta dizendo que “Deus está morto” e instruindo as pessoas a serem mais bravias, audaciosas, etc e tal — enfim, a serem do jeito que Nietzsche pensava que as pessoas deveriam ser. 


As ideias de Zaratustra foram, Nietzsche sabia, de influência determinante para o pensamento ocidental — mais até do que as de muitos filósofos gregos mais estudados. O Zoroastrismo, como foi chamada a religião baseada nos ensinamentos de Zaratustra, foi a religião do Império Persa por muitos séculos, e claramente deu muitas das bases do judaísmo, do cristianismo e do islã.

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Esta foto é das ruínas da antiga Persépolis (ver este outro post aqui). Percebam ali na coluna da direita o símbolo alado, o mesmo que você vê atrás de mim na entrada do templo na primeira foto. Essa figura alada, que é como um guardião, é o símbolo mais conhecido do Zoroastrismo. (Os fãs de Cavaleiros do Zodíaco vão lembrar ter visto esse símbolo no Muro da Lamentações na fase de Hades.)

Num passado muito antigo, o Oriente Médio era politeísta com uma série de divindades associadas à água, ao sol, à fertilidade, ao céu e a outros elementos. Ishtar, Anahita, Mitra (cujo festival deu origem à data do Natal), Ahura Mazda, Ahriman são alguns exemplos. Essas figuras viriam a influenciar fortemente toda a cultura religiosa indo-europeia, do hinduísmo às religiões greco-romanas e, depois, o cristianismo. Por exemplo, Dyaus Pita era considerado o pai celestial, “Pai do Céu”, que tem a mesma origem simbólica e etimológica do “Zeus” dos gregos, do “Júpiter” dos romanos, e do “Deus” cristão que acabou também associado à figura paterna e do céu (a ponto de nas línguas latinas usarmos a mesma palavra tanto para o céu físico quanto para o céu paraíso). O contraponto do Pai Celestial era a Mãe Terra, que acabou meio esquecida.   

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Representação de Zaratustra.

Zaratustra transformou a cosmologia de sua época n’algo dualista, distinguindo basicamente entre o Bem e o Mal, e pôs ênfase na atitude individual, apontando a responsabilidade de cada um em escolher as suas ações, se alinhadas com o bem, a ordem e a verdade, ou com o mal, o caos e a mentira. Mani, um outro iraniano nascido muito depois (no século III d.C.), ratificou ainda mais esse dualismo, daí o termo “maniqueísta”. Zaratustra, portanto, foi talvez o primeiro de todos a falar num monoteísmo ético, em viver de acordo com as leis do “Senhor” (Ahura Mazda, que significa “Senhor Sábio”), na ideia de que você será julgado com base nas suas ações, e a enfatizar o livre-arbítrio como característica chave na prática religiosa. 

Do zoroastrismo vêm um bocado de coisas da cultura ocidental, como identificar 4 elementos da natureza (diferente dos chineses, que dividem em 5), as ideias de céu e inferno como lugares de inteiro Bem ou inteiro Mal pra onde se vai a depender de suas ações, etc. Santo Agostinho, em especial, que no século V estabeleceu muitas das bases do pensamento da Igreja cristã, havia sido maniqueísta praticante antes de se converter ao cristianismo, e demonstrou muito claramente esse sabor nas suas ideias que depois se tornariam dogmas da Igreja.


Estou dizendo que há semelhanças teológicas importantes, mas não que seja tudo a mesma coisa. Uma clara diferença ritualística é que os zoroastras não enterravam os seus mortos. Eles os deixavam nas chamadas Torres do Silêncio, onde os corpos seriam comidos pelos abutres. Eu visitei uma tal torre em Yazd. Diz-se que até 40 anos atrás era possível ver pedaços de corpos deixados por zoroastras ainda praticantes aqui, mas nos anos 1970 isso ficou proibido. 

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Lá no alto, para onde as pessoas estão caminhando.
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No centro, no alto da torre, um buraco onde os corpos mortos eram deixados. Os defuntos eram vistos como algo impuro e que atrai demônios, daí deixa-los longe de tudo, ao sol e às aves.

O calor é de fato alto sob esse céu de chumbo, e o lugar como um todo exala uma impessoalidade antiga e quieta. Você só ouve, mesmo, o vento. 


Os zoroastras também reverenciam o fogo, embora não o adorem como deus em si. É como um elemento sagrado, e eles tradicionalmente o conservam queimando por séculos e séculos em seus templos. A classificação do templo depende da “qualidade” do fogo que ele contém. A coisa é complexa: na visão dos zoroastras há muitos tipos de fogo, a depender de como ele foi gerado, das preces feitas na hora, do tipo de madeira, etc. Os fogos zoroastras mais sagrados — e, portanto, os templos mais importantes — são os atash behram (“fogo da vitória”), feitos da junção de 16 tipos de fogo, inclusos aí o fogo gerado por um raio, o fogo da lareira de um agricultor, o fogo da casa de um sacerdote, etc., num longo ritual de purificação executado por 32 sacerdotes. 


Yazd tem o único atash behram do Irã. São 9 ao todo no mundo. Todos os outros 8 estão na Índia, para onde muitas comunidades persas fugiram de perseguição islâmica na Idade Média. A maioria dos zoroastras praticantes hoje encontram-se lá. 


Este templo em Yazd foi concluído em 1940, mas o fogo que aqui queima foi trazido de outros lugares, e diz-se que está queimando desde o ano 470 a.C.. 


Ele está devidamente protegido por detrás de um vidro grosso, então dá apenas pra ver. Não dá pra se aquecer e nem acender nada nele. Só os zoroastras têm acesso, até porque precisam alimentar o fogo com madeira todos os dias. 

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Entrada do templo.
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Tirando foto do fogo que, crê-se, queima há quase 2500 anos. (Desculpem que o vidro do templo não seja anti-reflexo.)

Não tenha dúvidas de que foi do zoroastrismo que veio a inspiração para os magos vermelhos dos livros das Crônicas de Gelo e Fogo e do seriado Game of Thrones. Na realidade, o próprio termo “mago” refere-se originalmente aos sacerdotes zoroastras, que eram vistos como entendedores do sobrenatural e mestres na astrologia. Daí o termo “reis magos” para aqueles sábios do oriente que teriam avistado a estrela e vindo de encontro ao nascimento de Jesus (Evangelho segundo Mateus).


A visita ao Templo do Fogo é simples e, verdade seja dita, não há muito pra ver. Ainda assim, estar ali diante daquele fogo que pode mesmo estar queimando há tanto tempo é interessante. A sensação é a de estar diante de algo antigo e merecedor de respeito.

São visitas simples, tanto a deste templo quanto a da torre do silêncio, mas uma vinda a Yazd não é completa sem vê-los. Por mais que hoje o Irã seja predominantemente islâmico, sua história é incompleta sem se falar no zoroastrismo e na influência que o persa Zaratustra teve para a construção da mentalidade ocidental. 


A quem ficou interessado nos princípios, o templo tinha exposta uma lista de 9 fundamentos da religião zoroastra. Deixo ela com vocês aí abaixo. Só fiz traduzir do inglês. Percebam que alguns termos persas podem não ter uma tradução exata. Ao lerem, lembrem-se de que se trata de algo ainda mais antigo que a própria Bíblia. Para Zaratustra, no entanto, isso não importa, pois sua ideia era justamente a de que esses princípios universais não mudam jamais.

Fundamentos do Zoroastrismo 

  1. Crença na existência de Deus, criador da vida, único, sábio e grandioso. E manifesto em todo lugar.
  2. Crença no profeta Zaratustra, o primeiro verdadeiro mensageiro do mundo a falar de religião como consciência. 
  3. Crença no outro mundo, Vahishtem Mayniyu (paraíso) e Vachishtem Mayniyu (inferno). 
  4. Crença na lei governante de asha (o princípio da verdade e a lei do universo) nos mundos. 
  5. Crença na essência do homem e da humanidade: Deus criou o homem puro e lhe deu razão e consciência. Ao homem também foi dada total liberdade de escolha. Todos, de quaisquer gênero ou raça, são iguais. 
  6. Crença no Amshaspandan (sete princípios divinos): Ahura Mazda (monoteísmo), vohooman (sabedoria), ardibehesht (verdade), shahrivar (compostura), sepandarmazd (bondade e ter palavra), khordad (adquirir conhecimento), amordad (imortalidade), e o aprendizado e prática destes sete princípios divinos. 
  7. Crença na caridade e generosidade para com os pobres. Zoroastras em quaisquer posições econômica e espiritual têm o dever de ajudar os outros. 
  8. Crença no caráter sagrado dos quatro elementos: água, ar, terra e fogo, e comprometimento integral com a proteção da natureza. 
  9. Crença no farashkard: vitória sobre a ignorância através do conhecimento.

 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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