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O Irã e o islamismo xiita: nada do que você imagina

Um quadro em Isfahan. Não, esse não é Jesus. Esse aí é Ali, “o leão de Allah”, primo e genro de Maomé. Ô, peraê, não disse que não podia fazer representação pictográfica na religião islâmica?

Você já deve ter ouvido falar na divisão entre sunitas e xiitas no Islã, sem compreender exatamente qual a diferença. Só sabe que “xiita” em português virou sinônimo de radical, intransigente, e supõe portanto que os muçulmanos xiitas são aqueles mais radicais. 

Errado. Completamente errado. Pegue esse pedaço de “conhecimento” ali e atire pela janela. O governo islamista do Irã é radical sim, conservador, e repressivo numa série de coisas, mas isso não decorre do fato de serem muçulmanos xiitas. A Arábia Saudita é notadamente sunita, e seu governo todavia é ainda mais radical e repressivo que o do Irã. Ou seja, ser sunita ou xiita não é a questão.

(Se você ainda achar que muçulmano e árabe são a mesma coisa, por favor aproveite a oportunidade e jogue fora essa ideia também. Árabe é etnia; muçulmano é quem segue a religião islâmica. Há árabes cristãos, e quase 3/4 dos muçulmanos do mundo não têm nenhum sangue árabe: são indianos, paquistaneses, malaios, ou do maior país muçulmano do mundo, a Indonésia, que não tem nada de árabe. Os iranianos, como eu já disse antes, são persas, não árabes).


Não quero me demorar neste post, mas eu não podia passar pelo Irã sem falar ao menos algo de sua tão expressa religião. Permitam-me um pouco. 

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Distribuição do Islã no mundo. Verde claro para sunita, verde escuro para xiita. [Correções apenas para os fatos de que (1) na Etiópia a maioria é cristã, apesar de existirem muçulmanos; (2) na Índia a grande maioria é hindu, embora uma minoria muçulmana de 15%, dado o gigantismo populacional indiano, seja quase do tamanho de toda a população brasileira; e (3) Omã, ali no sudeste da Península Arábica, não é sunita e nem xiita, mas ibadita, que é uma outra corrente.

Imagine aí que o mundo cristão fosse todo evangélico, protestante, de um tipo deveras conservador, rígido, e que de repente você, de fora, achasse um país cristão onde as pessoas fazem promessa pra Santo Antônio, rezam novena a Nossa Senhora, etc., como costuma ser no catolicismo popular. Imagine aí a surpresa que teria.


Há muitas denominações dentro do Islã, como há no cristianismo. Não é tudo igual — a gente é que é ignorante e não se dá conta. Elas compartilham uma mesma base (“Não há deus além de Deus, e Maomé é seu profeta“), mas há diferenças de crença, de hábitos, de rituais, do que é adequado aos olhos de Deus e do que não é, etc. Sunitas e xiitas são as denominações principais. Uns 80% dos 1.6 bilhão de muçulmanos no mundo são sunitas, espalhados sobretudo do Marrocos à Indonésia, e uns 15% (uns 200 milhões de pessoas) são xiitas, a maioria no Iraque e no Irã. 


O Iraque segue em polvorosa sobretudo devido a — além do dedo do Tio Sam lá melado de petróleo — conflitos entre uma maioria xiita e uma minoria sunita, à qual pertencia Saddam Hussein. Na Síria, o presidente Bashar Al-Assad é alauíta, e a população, amplamente sunita. O Iêmen está em briga porque xiitas e sunitas não se entendem. O Irã, xiita, e a Arábia Saudita, sunita, cada vez mais disputam influência regional, para quem se interessa por geopolítica. Semelhante aos conflitos entre católicos e protestantes que dominaram a Europa por séculos, e vistos até poucos anos atrás na Irlanda.


Em miúdos, qual a diferença?


A origem do cisma é política. Maomé morreu em 632 d.C.. Quem o sucederia? Primeiro foi o seu amigo Abu Bakr, considerado o primeiro califa (sucessor). Só que o Islã expandia-se rápida e vertiginosamente, conquistando territórios, e com isso as ambições individuais e disputas cresciam. Gente é gente em todo lugar. O quarto califa foi Ali, primo e genro de Maomé. Ele dizia que apenas aqueles do mesmo sangue de Maomé deveriam liderar. Outros diziam que a escolha de um líder era por mérito, não por consangüinidade. Mataram-no. Parte dos muçulmanos escolheu seguir seu filho Hussein como sucessor, mas depois mataram também a ele e a sua família (incluso aí o seu recém-nascido de seis meses, retratado flechado na imagem inicial do post). Pronto, a divisão estava consumada.   


A partir de então os dois grupos iriam desenvolver a religião de maneiras distintas ao longo dos séculos, interpretando o mesmo Alcorão de maneiras diferentes. Além do mais, você talvez não saiba, mas a grande maioria do que manda a chamada Lei Islâmica, a sharia, tão adorada pelos fundamentalistas, com regras para o dia-dia, que manda as mulheres vestirem-se assim e assado, etc., não vem diretamente do Alcorão, mas de hadiths, dizeres atribuídos ao profeta, e de regras instituídas depois. E essas variaram e variam até hoje. E aí, meus caros, o que nunca faltou foi espaço para fulano legislar em nome de Deus como lhe for oportuno — como a Igreja também fez e faz. 


Por exemplo, muito do machismo enraizado hoje no islã teve razões políticas na época da sucessão a Maomé. Aisha, a sua esposa favorita, após a morte de Maomé liderava guerreiros de cima do seu camelo. Só que, 24 anos após a morte do profeta, ela perdeu na chamada Batalha do Camelo (ano 656 d.C.). Aí o vencedor convenientemente lembrou uma série de coisas que Maomé supostamente havia dito contra as mulheres. Uns séculos depois, já somavam mais de 600 mil as frases que esses homens de arguta memória atribuíam ao profeta para fazer disso lei. Não preciso dizer mais nada.  


Basicamente, os sunitas consideram certos hadiths que os xiitas descartam, e vice-versa. Os xiitas, na prática, veneram santos como os católicos, fazem visita, peregrinação e doação às suas tumbas, fazem retratos de Ali e de Maomé, e não veem problema nenhum nisso. Os sunitas, por sua vez, rejeitam todas essas práticas, e dizem que os xiitas são hereges. Pronto, acho que você já entendeu o cerne da coisa.

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Outra representação de Ali, numa tapeçaria na cidade de Isfahan, cá no Irã. Ele é tido pelos xiitas como o segundo homem mais importante do Islã, depois de Maomé. Não é à toa que às vezes parece que de cada dois iranianos, um se chama Ali.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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