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Em Pompeia, Itália

O Último Dia de Pompeia (1830), quadro do pintor russo Karl Bryullov. Encontra-se no Museu Nacional Russo, em São Petersburgo.

Quase todo mundo já ouviu falar de Pompeia, a cidade da Roma Antiga que foi arruinada por uma erupção vulcânica. Dia 24 de agosto do ano 79 d.C., seus 11 mil habitantes viram um armageddon de proporções bíblicas. Tremores de terra eram (e são) comuns no sul da Itália. Havia ocorrido um forte e anunciador terremoto no ano 62 d.C., e outro mais leve em 64 d.C. — durante o qual dizem que o Imperador Nero fazia a sua primeira atuação pública num teatro, e não se deteve (era um artista). Curiosamente, dia 23 de agosto, véspera da fatídica erupção, os romanos celebravam a vulcanália, o festival anual em honra ao deus Vulcano (o Hefestos dos gregos), deus do fogo. Devem ter feito alguma coisa muito mal feita nessa celebração, ou a ânsia de passar dessa pra uma melhor foi muito grande.


O vulcão Vesúvio explodiu liberando a energia térmica de mais de 100 mil vezes a bomba de Hiroshima. A explosão liberou primeiro uma coluna de fumaça (tóxica) que viria a cobrir e escurecer toda a região, seguida de derramamento de lava e lançamento de rochas e gases em altíssimas temperaturas (o que se chamam “nuvens piroclásticas”). Uma onda de calor de 250 graus nas imediações foi, acredita-se hoje, a principal causa de morte. A erupção durou dois dias.


Plínio, o Jovem — sobrinho de Plínio, o Velho — assistiu à distância o episódio e descreveu o que viu à escuridão da noite. (Não vou matar o imbatível charme do latim com uma tradução).

Vesuvio monte pluribus locis latissimae flammae altaque incendia relucebant, quorum fulgor et claritas tenebris noctis excitabatur (Epistulae VI.16). 

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Pompeia hoje, com o Vesúvio lá atrás.

Estamos hoje a duas horas de Nápoles, no sul da Itália. Um ticket barato na Ferrovia Circumvesuviana lhe traz até aqui. É um trem suburbano que não fica longe dos das metrópoles brasileiras, meio acabadão, e disseram-me que atrasa com frequência, mas funciona. Recomendo tomá-lo cedo, pois como a foto dá a entender, isto aqui lota de turistas. Não é admitido entrar com alimentos, mas dá para comprar num mini-shopping no interior (tudo uma facada).


O grande tchan de Pompeia é que o material vulcânico cobriu toda a cidade, preservando-a da deterioração pelas intempéries. Peças de maior valia foram levadas para o Museu Nacional de Arqueologia em Nápoles, que recomendo visitar (ver post de lá). O grande lance aqui, e que ao meu ver difere Pompeia da maioria das outras ruínas greco-romanas por aí afora, é que aqui você vê melhor o urbanismo romano, uma cidade inteira, e não apenas um templo aqui ou um anfiteatro ali.


Recomendo juntar-se a um dos tours com guia vendidos à entrada, a menos que você seja arqueólogo ou aficcionado, do contrário pode perder detalhes interessantes. Eu fui parar no grupo de uma guia baixinha meio redonda e animada, dotada da irreverência típica dos italianos do sul.

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Plataforma de trem na estação Napoli Garibaldi, de onde tomei a Circumvesuviana até Pompeia.
Napoli imigracao
A Itália com as suas tensões decorrentes da imigração crescente e da discriminação contra africanos. Aqui no sul você vê isso com clareza no dia-dia.
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Uma rua de Pompeia. Entre estas pedras maiores havia espaço para as rodas das carruagens, ao mesmo tempo os pedestres podiam atravessar a rua pisando nelas, evitando lama ou sujeira se necessário.
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Numa esquina.

Pompeia tinha cerca de 11 mil habitantes, um sistema de distribuição de água, e um comércio importante. Era uma cidade portuária onde mercadorias chegavam e seguiam para Roma pela Via Ápia, talvez a mais famosa estrada da Roma Antiga, que ligava Roma ao sudeste italiano (ao salto da bota) e que passava aqui perto.


”Só que eles usavam canos de chumbo para distribuir água“, comentou a guia. “Ia todo mundo morrer de contaminação por metais pesados se o Vesúvio não os tivesse matado antes“.


Cidade portuária, comércio… e qual é o primeiro comércio que marujo procura quando chega na cidade? Bordel. Não havia escassez deles em Pompeia, e estavam bem sinalizados.

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Acima da sombrinha da nossa guia, ali um sinal claro indicando o tipo de atividade comercial que ocorria naquele estabelecimento.

Como nem todo marujo falava latim e o estabelecimento se dispunha a atender todos os clientes, punham gravuras nas paredes com as várias posições. Era só escolher e apontar qual você ia querer, igual no McDonald’s. A mais escolhida era o McLanche Feliz“.

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Uma das gravuras na parede. Havia outras mais desafiadoras, é claro.
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Interior do bordel com as várias opções.

Mas o que você provavelmente ouviu falar, famoso aqui de Pompeia, é que é possível ver pessoas petrificadas ainda nas posições em que estavam à ocasião da erupção. É verdade, mas elas não estão por aí cidade afora, estão expostas em pontos específicos. (Não, não há ninguém petrificado no bordel).


A cidade foi redescoberta em 1599, quando o sul da Itália era domínio da coroa espanhola. As escavações foram se dando paulatinamente desde então. Além de pessoas, foram descobertos restos de alimentos, vestimentas, e uma série de evidências da vida à época — tudo petrificado.

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Corpos, ou o que restou deles, nas posições em que ficaram.

Pompeia pessoa petrificada

Você pode passar umas boas 4-5h circulando pela cidade em ruínas, vendo casas de gente rica, latrinas públicas, o anfiteatro, templos, entre outros. Há quem recomende passar o dia inteiro, mas acho meio cansativo. Prepare-se para andar, pois as ruas às vezes se estendem por alguns quilômetros. É fascinante.

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Ladrilhos no chão, na casa de um mercador rico. Era típico ter assim um átrio à entrada.
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Aos fundos, uma espécie de pátio coberto com varandas cobertas no arredor. É fácil sentir-se à época, com os trajes que usavam, bebendo vinho e conversando latim por aí.
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Detalhes bem preservados.
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Exterior, com arcadas e colunadas ainda intactas.
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Latrinas públicas.
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E, é claro, um anfiteatro.

Visita essencial aos fãs de História. E não se preocupem demais com o Vesúvio, embora ele seja um vulcão ativo — e considerado o mais perigoso de toda a Europa continental. Há hoje um observatório acompanhando atividades sísmicas e magmáticas na região, e sistemas de alerta e evacuação se necessário for. Mas como nunca se sabe, se houver algo, pelo menos faça um relato como Plínio.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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