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Split, Croácia: Beleza e legado romano na Dalmácia

Você sabe o que é um dálmata, mas provavelmente nunca se perguntou de onde vem o nome. Pois bem, dálmata é algo ou alguém originário da Dalmácia, até raça de cachorro. O nome foi dado pelos romanos à província que hoje é o sul da Croácia. É o que fica a leste da Itália, do outro lado do Mar Adriático.

Mapa Dalmácia 01
Localização da Dalmácia.

Estes antigos domínios romanos guardam ainda edificações da antiguidade e talvez o melhor preservado palácio romano do mundo, o Palácio de Diocleciano, do século IV, aqui em Split. (E você aí imaginando que todas as ruínas romanas ficavam na Itália, hein?)

Split, como Dubrovnik e outras cidades da Dalmácia, são destinos que combinam História, um mix de culturas, e talvez a região costeira mais linda da Europa. Isto aqui se tornou um dos destinos mais populares dos europeus no verão. 

A Croácia é o membro mais novo da União Europeia (desde julho de 2013), não adotou ainda ao euro, e ainda é relativamente barata. Ainda que as praias não se comparem ao que estamos habituados no Brasil, o mar em si é absolutamente lindo, como também as cidades são bem preservadas. (Pra quem não sabe, é aqui nesta costa, em Dubrovnik, que são filmadas as cenas de King’s Landing, na série de fantasia medieval Game of Thrones). Falarei de Dubrovnik num post a seguir. Comecemos por Split, por onde entrei no país.

Mapa Dalmácia 02
Dalmácia em detalhe. Costa sul da Croácia.

Eu cheguei num voo vindo de Roma. A Croácia em geral guarda muitas semelhanças com a Itália, mas recebeu fortes influências centro-europeias (da época em que foi domínio dos reis húngaros e dos imperadores Habsburgo da Áustria), e tem aquele jeito reservado meio quieto dos eslavos, e a frequente lindeza dos seus olhos claros.


A cultura em geral aqui é uma mistura de influências, compartilhada também pelos países vizinhos, que também eram unidos na antiga Iugoslávia (cujo nome significa “eslávia do sul“, para distingui-los dos demais eslavos mais ao norte, como russos, poloneses ou tchecos).

Hoje são Eslovênia, Croácia, Sérvia, Bósnia, Montenegro, Kosovo, e Macedônia — uma cesta de países pequenos e parecidos! A religião talvez seja a principal diferença. Os croatas são em geral católicos; sérvios e montenegrinos são cristãos ortodoxos; e os bósnios são em sua maioria muçulmanos. Do contrário, todos falam praticamente a mesma língua, se parecem, e se originam mais ou menos da mesma matriz histórica e cultural. (Mas cuidado se for dizer isso a eles. Por nacionalismo, bósnios dizem que falam bósnio, croatas dizem que falam croata, e assim por diante, ainda que a diferença entre as línguas seja talvez menor que do entre o português falado por um gaúcho e um baiano. Coisas do nacionalismo e da história de conflitos entre vizinhos que eles aqui têm). 


A Croácia, por ser a mais próxima da Itália, herdou junto com o catolicismo romano, a pasta italiana, e muito da mesma arte e da arquitetura. Estas cidades, além da antiguidade romana, foram por séculos semi-independentes, entrepostos comerciais costeiros filiados à República de Veneza. Split começou como Spálathos, povoado grego, depois Spalato, da influência italiana, e por fim Split.

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Representação da época romana no centro histórico de Split.

Cheguei com fome. Fui atrás de algo para comer logo no aeroporto. Não espere grandes coisas aqui nesse campo. 

– “Quais os recheios desses salgados, por favor?“, perguntei em bom inglês, que eles aqui falam sem grande dificuldade.

– “Ham and cheese, bacon and cheese, salami and cheese…“, respondeu-me o cara atrás do balcão com aquele ar mecânico de pessoas já saturadas de repetirem a mesma coisa.

– “Alguma coisa sem carne?

– “Cheese“.


É, a diversidade gastronômica aqui não parece lá muito grande. Mas falaremos mais disso depois.

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Uma das minhas primeiras vistas de Split, quando cheguei.

Split é a segunda maior cidade da Croácia, atrás da capital Zagreb (aqui), mas o seu centro histórico, coração da cidade, é relativamente pequeno. Tudo pode ser feito à pé, e você se perde gostosamente pelas ruelas dessa cidade de pedra. Se for no verão, não faltará gente, e pode engarrafar um pouco. Mesmo assim dá sempre para encontrar aqueles recantos mais afastados, escondidos, e quietos. 

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Nas quietas ruelas de Split, pelas edificações em pedra.
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Muitas vezes há restaurantes com agradáveis mesinhas onde se sentar para um café, uma refeição, ou uma sobremesa.

É quase um parque temático, só que verdadeiro. A influência romanesca está por toda parte, e o centro do centro são as ruínas do Palácio de Diocleciano. Esse imperador romano do século III era nativo aqui da Dalmácia, e mandou construir uma fortaleza aqui em Split para quando se aposentasse. (Sim, os imperadores romanos podiam transferir o poder antes de morrerem). Diocleciano governou de 284 d.C. até 305 d.C., quando se aposentou em 1 de maio, que — muito antes de vir a ser o Dia Internacional do Trabalho, no século XIX — era um antigo feriado europeu de celebração da primavera. 


Diocleciano venceu um número de batalhas nas fronteiras do império, mas perdeu a que mais cara lhe foi: contra o cristianismo. Diocleciano esteve à frente da maior perseguição aos primeiros cristãos no império romano. De 303 a 311 d.C., houve um número de leis (éditos) restringindo direitos aos cristãos, destruição de templos e, basicamente, execuções por métodos variados como queimar vivo. Nessa foram martirizados São Jorge, Santo Expedito e outros. Mas essa perseguição foi também a última, pois com Constantino poucos anos depois o império viria a abraçar o cristianismo como sua única religião oficial (em 324 d.C.).

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A Última Oração dos Mártires Cristãos (1883), do pintor francês Jean-Léon Gerôme, representado a perseguição às comunidades cristãs nos tempos romanos.

Diocleciano viveu no seu palácio aqui em Split de 305 a 311 d.C., quando morreu, aqui mesmo, aos 66 anos de idade.


Ocupante à parte, o palácio é lindo e ainda restam belas estruturas em mármore (arcadas, colunas) muito bem preservadas. Há também interiores, parcialmente no subterrâneo, bem preservados. 

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Estruturas em mármore ainda preservadas do Palácio de Diocleciano.
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Arcos romanos.
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Interiores do antigo palácio, hoje transformados em banquinhas de souvenirs.
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Pra que ninguém ache que os brasileiros são os únicos a descumprirem as regras.
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Fundações do palácio, que podem ser visitadas a um custo.
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Com cara de romano sobre as ruínas do palácio.

A maior novidade inserida neste complexo é a torre de arquitetura romanesca da catedral construída aqui no século VII, bem sobre o mausoléu de Diocleciano. (Não sei se foi uma revanche). Seja como for, a Catedral de São Domnius (não confundir com Domingos), em homenagem a um dos muitos santos cristãos executados durante a perseguição de 303-311 d.C. (ele, aqui na Dalmácia), é hoje a mais antiga catedral católica do mundo a permanecer em uso na sua estrutura original. 


É talvez o ponto mais marcante da cidade, e que serve também de orientação. Você pode subir se tiver pernas e paciência pra esperar a fila. A escada também é apertada (eu taquei a cabeça na pedra), mas a vista vale a pena.

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Torre da Catedral de São Domnius, erigida no século VII aqui nas imediações do antigo Palácio de Diocleciano.
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No alto através das colunas da torre.
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Se você tiver medo de altura, fique longe.
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Mas se não tiver, aproveite a linda vista da baía de Split.

Como você é capaz de imaginar, este é um ambiente pra lá de agradável. As manhãs são frescas e de sol. Não são como as do litoral do Brasil, onde 7h da manhã já está começando a fazer calor. Não. As daqui são menos úmidas, mais refrescantes.


A comida, ainda que não seja exatamente o ponto forte daqui, tem seus pontos positivos. Corra atrás dos quitutes eslavos de café da manhã feitos com frutas temperadas, como as aqui chamadas “frutas do bosque” (no Brasil conhecidas como “frutas vermelhas”, embora nem todas sejam vermelhas). Vá na feirinha aqui do centro e você as encontrará, juntamente com croatas simples e pobres. Às vezes são meio ranzinzas, mas lembre que eles viveram a guerra nos anos 1990. São também amáveis, muitas vezes.

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Feirinha livre em Split. Nestes países mais pobres da Europa do leste é que você muitas vezes encontra o melhor. Na Europa Ocidental a coisa já está muito industrializada, com aquele “sabor” de fruta de supermercado.
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Uma vendedora.
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Muitas senhoras vendendo na feira.
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Framboesas maravilhosas.

E o que não faltam são apresentações públicas (teatrais da época romana, música ao vivo…) e vida noturna. Basicamente, como outros lugares da costa da Dalmácia, no verão a vida aqui não pára nunca.


Do Calçadão Riva, à beira-mar, a todas as ruelas do interior, a estadia é pra lá de agradável. E o mar está logo ali, aguardando você para embarcar a uma das muitas ilhas da costa. Foi o que fiz, a seguir. Por ora fiquem com mais do visual de Split.

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Soldados romanos, com alguém representando Diocleciano e sua mulher, ali atrás.
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O fuzuê gostoso das ruas no centro de Split.
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O palácio e a torre à noite, à luz da lua cheia.
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A beira-mar, com o Calçadão Riva ali entre as palmeiras. Aqui em Split, no verão, a noite é sempre uma criança.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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