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Bósnia e Herzegovina: Bem vindos à linda cidade de Mostar

A Bósnia é um país complicado. Mas vos digo: é um país lindo, de natureza deslumbrante, cultura impressionante do sudeste europeu que você pouco conhece, e é talvez o país mais subestimado de toda a Europa.


Bósnia e Herzegovina é um país só, da famosa capital Sarajevo. “Bósnia” e “Herzegovina” eram regiões administrativas medievais (principados, ducados), habitadas sobretudo por povos eslavos, administrados pelo Império Bizantino e, mais tarde, pelos Turcos Otomanos (1463-1878). Não será sua surpresa, portanto, vir saber que a maioria dos bósnios são muçulmanos. Desafiarão seus estereótipos de achar que todo muçulmano tem cara de árabe, pois aqui eles são loiríssimos de olhos azuis e, no caso das mulheres, véu na cabeça. Herzegovina hoje é a região oeste do país, daí o nome composto. Chamarei só de Bósnia, para facilitar (e também porque os próprios Bósnios assim o fazem).

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Estrada desde Split, na costa da Croácia, adentro, rumo à cidade de Mostar, na Bósnia.

Para quem estiver geograficamente deslocado, recomendo ver os mapas no meu post sobre Split, na Croácia (Split: Ruínas romanas na costa da Croácia).


Uma viagem de ônibus de — em tese — 5h o leva de Split até Mostar, cidadezinha linda no oeste da Bósnia. É a maior cidade da região da Herzegovina.


Há quem tenha me relatado experiências diferentes, mas a minha foi de mofar 7h no ônibus, duas delas parado (ou engatinhando) num engarrafamento pra cruzar a fronteira. Desde que a Croácia se juntou à União Europeia (em julho de 2013), mesmo que ela ainda não faça parte da Zona Schengen de fronteiras abertas, os controles de fronteira se tornaram mais rígidos. Leve água e lanche, pois não tem pausa para o almoço.

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Fronteira da Croácia com a Bósnia, vista pela janela do ônibus. Eles usam tanto o alfabeto cirílico, como os sérvios e os russos, quanto o alfabeto latino, como os croatas e a Europa Ocidental.

Após cruzar a fronteira, tudo é tranquilo. A moeda local, o marco bósnio, é das mais desvalorizadas do continente, e as coisas em geral são baratas — exceto quando claramente voltadas para o mercado turista. No caminho até Mostar passamos por Medjugorje, uma cidadezinha destino de peregrinação católica. (A Bósnia é uma mistura de religiões, mas falaremos mais disso depois). Em Medjugorje diz-se ter havido uma aparição de Nossa Senhora, em 1981, tal qual Fátima. A cidadezinha é extremamente simples, com a precariedade e humildade características do interior da Bósnia. Pra quem está habituado a pensar em Europa e imaginar França, Alemanha e outros países ricos, esta Europa pobre de cá o fará repensar à luz da diversidade socioeconômica do continente europeu.


Paramos apenas na rodoviária para deixar alguns animados peregrinos croatas católicos que vinham para subir a Colina da Aparição, onde há hoje uma cruz e uma estátua da virgem. Na praça principal, uma catedral simples. Quem sabe um dia eu subo. Por ora, seguimos viagem.

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Na simples rodoviária em Mostar.

Cheguei com fome. Azul de fome. Por sorte, a influência turca durante os quase 500 anos de colonização otomana legou à Bósnia uma culinária muito mais diversa que a de seus vizinhos (ver a minha crítica aqui: Veraneio nas Ilhas da Croácia). Minha amiga turca, que me acompanhava, soube identificar os quitutes na padaria e as comidas nos restaurantes como se estivesse em casa.


Catei-me logo um borek na padaria em frente à rodoviária, um pão macio recheado com queijo branco, batatas apimentadas, ou espinafre — há múltiplos tipos.

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Meu bem-vindo borek, um pão macio assado com queijo branco dentro. Originário turco, mas há muito incorporado na cultura bósnia.

Dali da rodoviária a caminhada até o centro histórico de Mostar, onde tínhamos uma reserva, já lhe mostra os dois grandes lados que verá na Bósnia: o histórico antigo e o histórico recente. De um lado, o charme impressionante do casario otomano, das seculares calçadas de pedra (como no Pelourinho), e as mesquitas que hoje se misturam às igrejas. Do outro, casas modernas cravejadas de bala e caindo aos pedaços, resultado da Guerra dos Bálcãs entre sérvios e seus vizinhos nos anos 1990, que levou à dissolução da extinta Iugoslávia.

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Casas no centro de Mostar, ainda com marcas da guerra dos anos 90.
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Muitos prédios são novos ou foram restaurados, mas mesmo assim percebe-se em geral que se trata de um país simples e pobre.
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Prédios não renovados, que ainda mostram cruamente as marcas da guerra.

Mas essa parte da Bósnia é a mais conhecida. É, na verdade, a única que eu imaginava encontrar. Qualquer estudante de História, ou que tenha acompanhado as notícias da guerra na Iugoslávia nos anos 1990, sabe o que esperar encontrar aqui.


O que muita gente não sabe — e eu próprio não imaginava encontrar — foi esse outro lado lindo, o histórico mais antigo, da influência turca. Estamos acostumados a pensar em Europa e imaginar só a Europa mais conhecida, da França, da Itália e da Europa Ocidental em geral. E esquecemo-nos dessa Europa de lá, do leste, e que tampouco pode ser generalizada numa coisa só. Há muitas Europas. Esta daqui, do sudeste, dos Bálcãs, vai impressioná-lo de tal maneira que você não imagina. E além dela, a natureza, ainda de um jeito conservado que você não imagina mais encontrar na industrializada Europa.

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Rio Neretva, cortando Mostar. O ambiente é maravilhoso.
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Centro histórico de Mostar. Sim, lembra mais um bazar turco do que o que você imagina de uma cidade europeia.

Mostar, o nome da cidade, vem de Most, “ponte” nas línguas eslavas, em referência ao ponto principal da cidade. Aqui era um entreposto medieval de comércio e travessia, onde uma ponte cruzava o Rio Neretva ligando o interior dos Bálcãs, na atual Bósnia, à costa do Mar Adriático, na atual Croácia.


Os turcos otomanos, após conquistarem a cidade em 1468, substituíram em 1566 a antiga ponte de madeira por uma de pedra, às ordens do sultão Suleiman, o magnífico. É uma ponte de pedra curva. Foi um feito de engenharia à época. A original, infelizmente, foi destruída na guerra dos anos 90, mas anos depois reconstruiu-se uma idêntica, replicando os métodos antigos, e a cidade voltou a ter o coração do seu charme.


Hoje, desnecessário dizer, a ponte de Mostar é a atração principal da cidade.

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Vista da ponte principal no centro histórico de Mostar, sobre o Rio Neretva.
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Vista de baixo. Uma galera desce aqui às rochas para ver o burburinho lá em cima à distância, e ouvir as águas do rio passarem.

O centro histórico se estende um pouco para os dois lados da ponte. Não é grande; em um dia você vê tudo. Mas é bastante agradável, como você pode imaginar. Há lojas com artesanatos interessantes (embora parte deles trazidos da Turquia), mesquitas seculares a serem visitadas, um museu na torre de guarda num dos lados da ponte contando como ela foi originalmente construída e depois reconstruída em 2003/2004, e restaurantes com comida boa e bela vista.

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Lojas no centro histórico.
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Pátio externo de uma mesquita.
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Interior de uma mesquita. Em geral são simples, com espaços abertos amplos e tapetes no chão para as orações que os muçulmanos fazem ajoelhados.
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Finalmente comida diversificada! Depois da penúria na Croácia, aqui só neste prato havia: arroz temperado com tomates e pimentão, feijão no caldo, legumes e espinafre refogados, e purê de batata. Havia carnes diversas também.
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A cara aí é só pra a foto, pois essa limonada estava azeda pra cacete.

Ficamos numa das pousadas mais agradáveis em que já fiquei na vida. Uma coroa rebuliçosa e com aquele espírito ativo de “dona da situação” era a gerente da coisa.

A sua assistente era Alma, uma jovem que inesquecivelmente virou-se pra mim um dia pra dizer “Você não come de frango? Nossa, como você vive. Frango é tão bom!“, com o sorriso cabeça-de-vento que você pode deduzir pelo teor da frase. Mas era simpática e animada, como você pode imaginar.

Seus pais morreram na guerra e ela foi criada, desde pequena nos anos 90, pelos avós. Hoje tinha certa dificuldade em manter emprego, mas a chefona dona da pousada a tentava disciplinar. “Se você não for forte e lutar na vida, ela lhe carrega“, me afirmou certa vez no carro, sem tirar os olhos da rua enquanto fazia uma curva, ao nos dar uma carona na manhã seguinte.

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Café da manhã na pousada, com as influências turcas de se comer legumes de manhã. Havia, claro também café…
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… e uns mini-borek deliciosos, de queijo à direita, e de doce de framboesas e amoras à esquerda, numa mistura bem balcânica de culinárias turca e centro-europeia (com suas frutas de clima temperado).
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Matemáticos, regozijai. Anotações para a (re)construção da ponte de Mostar. Tudo calculado para tentar refazer a precisão da versão original, que mesmo feita em 1566, jamais caiu. (Ao contrário das obras de engenharia de hoje, onde asfalto desmancha na primeira chuva.)

O mais curioso de Mostar é talvez ouvir os sinos das igrejas baterem e, logo depois, o cantar das mesquitas chamando os muçulmanos à prece. Nunca antes eu havia visto as duas coisas quase que ao mesmo tempo na mesma cidade. Faz você crer um pouco na viabilidade de uma sociedade mais diversa, ainda que aqui na Bósnia o passado seja de conflitos.


No cemitério, você vê muçulmanos, cristãos ortodoxos e cristãos católicos todos enterrados lado a lado — quase todos registrando anos de morte na década de 90.

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Cemitério no centro da cidade, com a lua cheia ao fundo.

Sim, uma das noites em Mostar foi de lua cheia, e a vista da cidade fica espetacular. Na manhã seguinte, após duas noites aqui, a dona da pousada nos daria uma carona até a estação ferroviária, de onde um trem antigo leva à capital Sarajevo, o nosso próximo destino.


Deixo vocês com mais vistas de Mostar à noite. 

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Uma das várias mesquitas da cidade, com a lua cheia escondendo-se por detrás do minarete.
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Restaurantes à noite no centro histórico.
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Ruas movimentadas, com a bandeira da Bósnia ali enfeitando, em azul e amarelo
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E, é claro, a ponte. Vista com a lua cheia emergindo ali à esquerda.

Até Sarajevo!

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “Bósnia e Herzegovina: Bem vindos à linda cidade de Mostar

  1. Estou gostando muito dos seus relatos sobre os países dos Balcãs. Fiquei com vontade de conhecer esses detsinos mais “exóticos”. Você viajou em qual mês?

    1. Fico contente em saber, Viviane! Eu viajei em julho, e gostei muito. Tempo bom, o calor não estava demasiado, vegetação exuberante e movimento pelas ruas. Nesses países, ao contrário do que ocorre nas cidades europeias mais badaladas que ficam cheíssimas de turistas na alta estação, não achei que houvesse turistas demais. Então recomendo a época.

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