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Visitando Sarajevo, Bósnia (Parte 1): Chegada de trem, histórico, e a arrepiante Galeria 11/07/95

Sarajevo é uma cidade muito mais bonita e charmosa do que você provavelmente imagina. Sim, ela tem uma história recente sangrenta, cujas marcas permanecem pra todo mundo ver na pobreza, nos olhares às vezes arredios das pessoas mais velhas (sobreviventes), e em prédios e paredes cravejados de balas na rua. Se você, como eu, não tem o hábito de andar por cenários reais de guerra, Sarajevo lhe chamará a atenção.


Mas Sarajevo também me chamou muito a atenção — e sem eu esperar — por um lado histórico mais antigo, bem conservado, e muito menos conhecido, do tempo quando a Bósnia era parte do Império Turco Otomano (1450-1878, quase meio milênio!). Essa época deixou aqui um dos centros históricos mais distintos e charmosos de toda a Europa. Sarajevo é, a meu ver, a capital europeia mais subestimada de todas.


Fiz uma distinta viagem de trem para chegar até aqui. De Mostar você pode tomar um ônibus, que é mais prático e sai em mais horários, ou o trem, que sai apenas à noite ou de manhãzinha, mas que é muito mais cênico pelas vistas. Vale a pena levantar cedo pra ir à estação. Vejam se não tenho razão.

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Paisagens no interior da Bósnia, entre Mostar e a capital, Sarajevo.
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Minha vista da janela do trem.
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Foto tirada do finzinho do trem, quando cruzávamos uns túneis pelas montanhas. Estes são os chamados Alpes Dináricos, uma cordilheira europeia menos famosa porém linda. Desce por todo o lado leste do Mar Adriático, oposto à Itália. Desde a Eslovênia no norte até a Albânia no sul. Uma Googlada e você os vê o mapa.

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Mas como nem tudo são flores, e o país continua pobre, o trem era velho. Doação sueca. Vagões demodê, acho que dos anos 70, daqueles que a gente vê em filme antigo do 007. Poderiam ser charmosos se não estivessem acabados, com seus revestimentos de madeira cheirando a lugar fechado. Aliás, o cheiro de velho do trem durou pouco, pois logo começaram a fumar.


O próprio condutor fumava no seu compartimento, então não havia a quem reclamar. E o banheiro era um espetáculo à parte, digno de uma visita. Pra completar, alguns jovens bósnios bêbados faziam algazarra. Ah! E, é claro, como estávamos numa arabaca velha, o trem quebrou. Ficamos 1h parados no meio do caminho.

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Doação sueca. Só não dizem de quando era o trem.
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Mas o interior não era mau. O problema foi só o odor de cigarro, e ter quebrado no caminho.
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A charmosa janela do banheiro, com o rolo de papel ali estrategicamente preso.

Chegamos à estação de Sarajevo por volta do meio-dia, e logo houve confusão à vista. Os ânimos na Europa do Leste às vezes são meio agitados, sobretudo aqui nesta ex-Iugoslávia. Caminhamos pela estação de trem mal-acabada e pichada, com ar de prédio abandonado, até o pátio exterior onde tomaríamos um bonde até o centro.


Foi aí que os jovens bêbados que estavam no trem quiseram entrar no bonde e o motorista não deixou. Partiram para as vias de fato. O mais exaltado dos rapazes gritou na cara do motorista e tomou um safanão na cara que o pôs pra catar fichas. Ainda chutou o exterior do bonde enquanto ele partia, mas sem resultado.


Diante desta pândega, esperamos o próximo bonde. Ainda fomos abordados por uma pedinte, com ar de dificuldades mentais e uma cicatriz feia de traqueostomia (na garganta). Queria dinheiro para tomar um ônibus e viajar ao interior. (Dois dias depois a veríamos por ali novamente).

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Na estação de trem em Sarajevo. Cheiro de prédio sem-sal e mal-acabado da época comunista.
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Belos interiores nos caminhos para as plataformas de trem na estação.
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Interior do bonde. Apesar de velho e feio, pelo menos leva você aos lugares.

Sarajevo lhe transporta às duas épocas que aqui co-existem: o passado recente, da Guerra dos Bálcãs dos anos 1990, em que a Iugoslávia se despedaçou, e o passado mais antigo (1450-1900), de séculos de presença turca e que ainda marcam aqui as áreas históricas. Comecemos pela parte que você conhece melhor, a da guerra recente. Acompanhem-me, porque é um pouco complexo.


Em 1991, a Eslovênia e a Croácia se separaram da então República Federal Socialista da Iugoslávia. Em fevereiro de 1992, a região da Bósnia e Herzegovina — habitada tanto por sérvios cristãos ortodoxos, quanto croatas católicos, quanto bosniaks (como são chamados os bósnios muçulmanos) — quis seguir o mesmo caminho e passou um referendo a favor da independência. Os bósnios sérvios, no entanto, haviam boicotado o referendo e não aceitaram o resultado. Decidiram que fundariam o seu próprio país, a República Srpska, aliada à Sérvia. (A Sérvia então era a região principal da Iugoslávia e quem de fato mandava — sua capital e a capital da Iugoslávia eram a mesma, Belgrado. Da mesma forma que a Rússia era quem mandava na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, desde Moscou). 


À frente da Sérvia estava o famoso e mal-fadado presidente Slobodan Mlosevic. Morreu em 2006 durante julgamento pela Corte Internacional de Haia (na Holanda) por crimes de guerra. À frente da República Srpska, liderando os sérvios da Bósnia, estava o comandante Ratko Mladic, outro acusado, e que foi capturado e extraditado para Haia em 2011. Este aguarda julgamento.


Os episódios mais marcantes da guerra foram o Cerco de Sarajevo e o Massacre de Srebrenica. O exército da República Srpska lançou tanques contra Sarajevo e aqui manteve um cerco armado de mais de 1.000 dias (1992-1996). Aulas foram interrompidas, alguns trabalhos seguiram, mas as pessoas viviam trancadas, ou sob a mira de franco-atiradores nas ruas, e sob bombardeios ocasionais. No campo, o terror instalou-se com visitas de militares a vilarejos rurais. Começou a limpeza étnica para ganhar território aos sérvios, e seu ápice foi Srebrenica. Nesta cidade do leste da Bósnia, 8 mil homens bosniaks foram executados, e mais de 20 mil mulheres, crianças e velhos deportados dali, em julho de 1995.


A ONU prestou um belo papel de não fazer nada a respeito. Ela havia declarado Srebrenica uma “área segura”, sob sua proteção na forma de uma divisão 300 soldados holandeses. Esses soldados, no entanto, retiraram-se da área em julho de 1995 apesar de apelos da população local, e passivamente abriram caminho para o massacre.


Você não pode vir a Sarajevo e não visitar a Galeria 11/07/95, um museu que conta detalhes e expõe fotos e vídeos da época. Prepare os ânimos, mas é uma visita importante.

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Foto das ruas de Sarajevo sob o cerco. Parece imagem da Segunda Guerra Mundial, mas foi há pouco, em 1995.
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Fotos da época expostas na Galeria 11/07/95. “United Nothing” em vez de United Nations, a ONU. Ao lado, uma piada num muro na época: “Sem dentes…? Bigode…? Cheira a merda…? Garota Bósnia!
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Nesse vídeo exibido no museu se vê a dinâmica da vida de crianças, adolescentes e adultos durante o cerco a Sarajevo, nos anos 90. Cada história mais trágica e sádica que a outra, incluindo estupros, e uma garota que conta como soldados sérvios invadiram a sua casa e assaram o seu irmão-bebê no forno pra ele parar de chorar. Tentam um colorido também, mostrando como certas atividades sociais não pararam, e como os cidadãos fizeram até um concurso de Miss Sarajevo durante o cerco para tentar levantar os ânimos, mas é pauleira. É difícil não sair revoltado com até onde a crueldade humana pode chegar.
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O museu Galeria 11/07/95, data do massacre de Srebrenica, com muitas fotos de vítimas.

A República Srpka ainda existe, e continua autônoma. A guerra acabou mas a Bósnia, na prática, segue tendo duas regiões administrativas quase independentes: o governo da Bósnia, e o governo paralelo da República Srpska, que administra as regiões habitadas por sérvios.


Sarajevo hoje é uma cidade pobre, com muita infraestrutura deteriorada, e uma periferia soturna onde figuram prédios pichados e ainda com buracos de bala. Mesmo os shoppings têm aquele ar de shopping popular abandonado de centro de cidade, e com gente fumando na praça de alimentação.


As minas terrestres também permanecem, milhares delas, na zona rural por onde hoje podem estar trafegando os refugiados sírios que buscam caminho até a Alemanha. A vida é pauleira.


Quero falar do lado belo de Sarajevo, mas este fica para o próximo post. (Continua em Visitando Sarajevo, Bósnia (Parte 2): A linda herança turca e os charmes da cidade)

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Sarajevo no verão. Rua com casas acabadas, mas veja as colinas verdes lá no fundo. Há um lado de bonito de Sarajevo, que relatarei depois.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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