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Dubrovnik (Croácia), uma das mais belas cidades da Europa

Parece computação gráfica, mas é real.

A cidade da antiga república independente de Ragusa hoje se chama Dubrovnik, cidade croata na costa do Mar Adriático. Aqui se filmam episódios da série Game of Thrones (as cenas da capital fictícia de King’s Landing). Mas mesmo se você não assiste à série, verá por que a cidade é utilizada como cenário de fantasia medievalesca.


Dubrovnik é uma cidade linda, épica. Atrai turistas como formigas, sobretudo no verão, e ao chegar aqui você entende o porquê. Antes de vir eu estava meio intimidado, tanto pelos preços altos (nível Paris, Amsterdã) quanto pelo enxame de gente que sabia que encontraria. Mas valeu muito a pena.


Se a costa da Croácia toda no verão se transforma num clube a céu aberto em cenário histórico (como eu indiquei em Veraneio nas Ilhas da Croácia), Dubrovnik é o seu circus maximus, a cidade de maior atração.

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Localização, pra todo mundo se orientar. Dubrovnik fica lá no rabinho sul da Croácia, quase no fim do país. Melhor vir de avião.

Nós, no entanto, chegamos de carro, após um dia de viagem inesquecível desde Sarajevo e atravessando as montanhas e rios do interior da Bósnia (aqui).


Chegamos à noite. Tínhamos o endereço exato, mas esquecemos que o Google Mapa não mostra relevo. Prepare-se: Dubrovnik é cheia de sobes e desces. Subimos com bagagem até o que parecia perto, na casa do Seu Ljubo [Liúbo].


A porta abriu-se automaticamente e sem resposta após chamarmos no interfone. Dentro, um jardim agradável, com bancos onde se sentar, e plantas altas que ramavam pra cima antes da casa propriamente dita, uma de dois andares. Não víamos ninguém, até uma voz masculina cansada vir do alto: “Eu estou vendo todo mundo. A porta fica aberta. Pode ir.” Surreal, como se Deus nos houvesse dito.


Logo chegou Ljubo, um senhor alto (de seus 1.85m), magro feito uma vara, de seus 50 e poucos anos, cabelo grisalho e ar cansado. Tinha com uma voz grave de fumante, olhava pra você como se estivesse cansado da vida, e falava devagar. Você falava algo a ele e tinha sempre uma pausa de uns 3 segundos até que ele respondesse, no seu passo. Cheguei a pensar que ele tivesse tomado umas, até perceber que ele era sempre assim.


Ficaríamos em sua casa. A coisa mais comum na Croácia é aluguel de quartos — muito mais opções e em conta que os hotéis. Ele vivia no andar de cima (de onde nos havia falado, da sua varanda de onde tudo vê), e alugava os quartos no andar de baixo. Apertados, mas a localização era boa: às portas da muralha da cidade antiga.


Em Dubrovnik, localização é fundamental. Acomodações dentro da muralha custam um tiro, mas são muito práticas. Ficar longe, precisando de transporte público, é menos prático, até porque fica socado de gente. Melhor é ficar ali perto, nas cercanias, a distância que dê pra ir e voltar a pé.

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Vista de costas para a entrada da casa do Seu Ljubo, já do lado de dentro no jardim.
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Vista para a casa propriamente dita. Sua voz veio lá do alto, acima das rameiras.

Eu sei, a casa parece assombrada, mas era acolhedora uma vez que se conhecesse o Seu Ljubo. Esse jardim era pra lá de aconchegante, ótimo de se sentar com as plantas ao redor numa noite de verão.


Minha amiga perguntou se a água da torneira aqui era potável (na maior parte da Europa é, mas não em todos os países). Cinco segundos depois, ele, com suas calças compridas e chinelão velho no pé, faz um gesto lerdo com a mão mostrando as pernas. “Eu bebo, e estou aqui”. Pouco inspirador, mas tomamos aquilo como um sim.  

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Durante o dia a mesma entrada já não parece tão soturna.
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Vista que tivemos ao café da manhã, no dia seguinte.
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E, virando-se para o outro lado, esta.

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Ô vida dura. A comida croata, como comentei anteriormente, não é exatamente um espetáculo, mas quebra o galho. O pão é bom. Há uns quitutes de café da manhã, e pode-se achar um bom café também. (Durante o dia, prepare-se para comer muita pizza, massa e peixe grelhado. Coisas meio genéricas.)


A comida servirá para abastecê-lo para as andanças o dia inteiro pela cidade. Tudo no centro histórico se faz a pé, como você deve imaginar. E como alertei, há muitos sobes e desces, então prepare-se para suar. Mas se prepare também para deleitar-se com o lugar. Não é como em outras cidades europeias onde você tem uma lista de “atrações” a ver e sai de uma pra a outra. Aqui a tônica é saborear o lugar, vagueando pelas suas igrejas, muralhas, torres, jardins, apotecários antigos, ou simplesmente pelas suas ruelas, sentido-se transportado para outra época. Ou melhor, para outro universo.

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Jardim externos, à beira das muralhas. Nesse jardim filmaram cenas de Game of Thrones.
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Praça ainda no exterior das muralhas, com as hordas de turistas que ajuntavam-se a partir do final da manhã, uma vez despertos das folias da noite anterior.
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As ruas no interior da muralha aqui são assim, todas com pedra lisa no piso, e exclusivas pra pedestre.
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Aos lados, alguns becos charmosos assim.
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E outros assim.
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Ou praças assim.

Dubrovnik é uma perdição, em todos os significados da palavra. Dá vontade de caminhar e ver cada rua, cada ruela, e explorar cada recanto da cidade. Você encontra pequenos jardins escondidos, e também áreas quietas onde pode isolar-se temporariamente da multidão.


Não deixe também de entrar nos museus e outros sítios históricos em que puder. Há interiores muito bonitos. Visitei um mosteiro franciscano com a farmácia mais antiga da Europa, mantida até hoje com nomes em latim, igrejas várias, e prédios outros. Os preços são altos, mas vale a pena. (Só os souvenirs é que te farão pensar duas vezes, pois às vezes são caros demais pra pouca coisa.)

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Interior de um aconchegante mosteiro franciscano onde também funciona a mais antiga farmácia da Europa, um apotecário aberto em 1317 e ainda em funcionamento aqui. (Não era permitido tirar foto da farmácia em si, mas havia de tudo, desde remédios modernos a infusões antigas com nomes em latim.)
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Marco no Pharmacopolium Ragusinus, em referência ao antigo nome da cidade, Ragusa.
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Interior do Palácio do Reitor, hoje um museu. Foi, entre o século XIV e 1808 a sede administrativa da República de Ragusa.
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A catedral de Dubrovnik vista de fora.
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Um altar simples no interior.
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Imagem com inscrições em latim. (Os cristãos que tiverem uma mínima noção da língua reconhecerão a mensagem.)

A República de Ragusa foi, por séculos na Idade Média e Idade Moderna, uma cidade-estado praticamente independente. Teve Veneza como sua suserana por um tempo (1205-1358), ganhou autonomia, mas mais tarde (em 1458) teve que negociar novo tratado de suserania, desta vez com o Império Turco Otomano. Virou um protetorado, pagava tributo todo ano aos turcos, mas tinha relativa independência. Era governada por um reitor, eleito periodicamente das famílias poderosas, e havia conselhos administrativos e judiciários. Usava o latim e, mais tarde, um dialeto local chamado de língua dálmata, semelhante ao italiano. A coisa só acabou mesmo com a invasão napoleônica em 1808.


Daí começou o quid pro quo (vulgo quiprocó), o toma-lá-dá-cá político pra ver quem governaria a república após a queda de Napoleão em 1815. Ragusa passou primeiro para o Reino da Dalmácia (ver sobre a Dalmácia aqui), como parte do Império Austríaco (“Austro-Húngaro” a partir de 1868, ainda que permanecendo sob a família dos Habsburgo). Com a queda desse império ao final da Primeira Guerra Mundial em 1918, Ragusa veio a se tornar parte da nova Iugoslávia, já que a maioria da população na região era de origem eslava. Renomearam a cidade formalmente como Dubrovnik, que é como eles já a chamavam.


Os italianos não gostaram nem um pouco. Muitos que falavam italiano emigraram. Sobretudo à época fascista, a partir de 1922 quando Mussolini chega ao poder na Itália, tornava-se forte o ideário da chamada “Itália irredenta”, de cobiça por territórios que um dia haviam sido domínios de italianos e onde ainda havia minorias latinas. Expliquei um pouco disso em Trieste: Uma Breve Passagem pela Itália Irredenta. Basicamente, então, a Itália tratou logo de atacar Dubrovnik durante a Segunda Guerra Mundial para tomá-la. Segurou-a por um tempo, mas depois com a derrota do Eixo Alemanha-Itália-Japão na guerra, a cidade voltou aos croatas. Surgiu a República Socialista da Iugoslávia, e desde 1991 a Croácia é um país independente.

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A independência da Croácia custou vidas. Esta é uma foto de 1991, daquela mesma rua principal que hoje é linda e repleta de turistas. A cidade foi bombardeada a canhão durante a guerra de independência contra os sérvios (ainda na malfadada Iugoslávia), que não queriam deixar os croatas se separarem.

Voltando ao presente.

Afora bordejar e imergir na cidade, fiz aqui três coisas que recomendo muitíssimo: 

  1. 
Tomar o bondinho que leva ao topo das colinas que cercam a cidade, de onde você pode ter uma vista aérea de Dubrovnik. 
  2. Subir as escadas e fazer o circuito de cerca de duas horas a pé por cima das muralhas ao redor da cidade (se tiver pernas, mas a vista recompensa).
  3. Tomar um dos vários passeios de barco, de onde você também terá belas vistas, desta vez desde o mar.
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Lindas vistas lá do alto.
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Do alto da muralha que circunda a cidade, com o sol na cara.
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Vista para a cidade desde o alto da muralha.
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O povaréu lá embaixo.
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Vista também para a varanda dos moradores. Grande parte são idosos que já moravam aí antes de a cidade se tornar destino turístico pop.
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Vista do centro fortificado de Dubrovnik desde o mar.
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Se fizer o passeio de barco no final da tarde, terá este lindo pôr-do-sol como bônus.

Dubrovnik não é ainda uma cidade de fama estabelecida como Florença ou Veneza — eu mesmo nunca tinha ouvido falar nela até poucos anos atrás —, mas acho que já os convenci de que ela merece ser visitada. 


Uns três dias são suficientes, eu diria. Depois de muito bordejar, nós ainda tínhamos um destino final: Montenegro. Queríamos, eu e minha amiga, ir à linda baía de Kotor, no país vizinho. Se você notou, Dubrovnik fica no finzinho sul da Croácia, e Montenegro está a um pulo daqui. Porém, como as relações comerciais e diplomáticas entre os dois países são frias (devido ainda à guerra dos anos 1990), não há serviço de ferry entre cá e lá. Uma pena, pois seria absurdamente lindo, com esse mar e essa costa. 


O resultado foi pegar um ônibus que em 2h de viagem chega lá. Pertinho. Esse passeio final desta viagem eu conto a seguir. Por ora, fiquem com mais fotos do centro de Dubrovnik.

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Entardecer na muralha, com vista tanto para as casas e para o mar, com esta bela palmeira mediterrânea.
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A rua principal de Dubrovnik após o cair da noite.
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A festa e o movimento seguem noite adentro, sobretudo no verão.

Como eu disse, no verão a costa da Croácia se torna um palco de entretenimento em cenário histórico, e Dubrovnik é o seu circus maximus

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Dubrovnik (Croácia), uma das mais belas cidades da Europa

  1. Avemaria, painho… o que dizer dessa beleza que está diante dos nossos olhos extasiados? sem palavras!… so sentimento de deslumbramento diante dessa esplendorosa visão do céu!…. Linda cidadezinha. Parece irreal, que mar azul, que por de sol, que belo céu, que ruas lindas, limpas deslumbrantes. Que flores, que natureza, que belas construções, o maravilhoso jardim interno no majestoso patio!…. as muralhas vetustas, as paisagens maravilhosas. Tudo leva ao encantamento. Adorrrei conhecer essas paragens que com certeza ignorava que existiam e eram tão belas. liiiinda Dubrovinik, belissima Croácia. Parabéns grande viajante, por mais essa postagem. Feliz de quem pode ver, curtir, contar e compartilhar tamanhas experiencias. Uaaaauu.

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