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Santiago do Chile: Cerros, charme, tango e “café con piernas”

Santiago é uma cidade agradável, que me lembra uma versão meio montanhosa de Curitiba, e com pontos histórico-culturais importantes a conhecer. Tem aquele jeito do Sul do Brasil na atmosfera e no jeito latino-porém-recatado das pessoas (se comparados aos colombianos ou aos nordestinos, por exemplo).

Aqui há o célebre Palacio de La Moneda, onde o presidente chileno Salvador Allende viveu as suas últimas horas durante o golpe do General Pinochet em 1973. Há um estupendo museu sobre os direitos humanos. Há coisas de Pablo Neruda e Gabriela Mistral (dois prêmios Nobel de literatura) com que se familiarizar. Há lindas colinas (cerros) de onde se têm belas vistas da cidade. Há tango, e há um monte de coisas, boas e más, que vou comentar. Parece ser uma cidade boa de morar; mas, antes de se decidir por isso, venha cá conhecê-la por pelo menos uns 3 dias.

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Há umas coisas divertidas também. Há muitas “picas” pela cidade, e esta é uma das mais populares, na Calle San Antonio. No Chile, uma pica é uma espécie de restaurante simples para tira-gostos e pratos rápidos, sem formalidades grandes.  Esta de Clinton está muito bem cotada, mas não experimentei.

Cheguei a Santiago saído da Bahia em pleno outubro, numa primavera que aqui é mais fresquinha e amena que na minha terra de origem (casacos para a noite). Fiquei num agradável albergue não muito longe do centro, onde tudo se faz a pé. As ruas em geral são agradáveis e tranquilas. Para o mais, há um eficaz sistema de metrô — o mais extenso da América do Sul (103Km), maior que o de São Paulo (74Km, embora Santiago seja bem menor) e o dobro do de Buenos Aires (51Km).


Ali mesmo no centro está a maior parte dos pontos de interesse. No entanto, antes de mostrá-los, é útil falar da sua significação histórica.

Nunca lhe contaram, mas Santiago tem uma história muito interessante. Sua fundação foi pelo conquistador espanhol Pedro de Valdivia, em 1541.

Pedro era um malandro. Chegou ao Peru na expedição liderada por Francisco Pizarro que conquistou os incas. Deixou a esposa na Espanha para vir aventurar-se nas Américas, e no Peru acabou conhecendo Inés de Suárez, uma jovem viúva que seria a senhora do seu coração. Inés tinha um quê de valente, e era a única mulher permitida nas expedições. Juntos, eles se aventuraram a explorar as terras ao sul do Peru, espremidas entre as montanhas dos Andes e o mar, e que os indígenas já chamavam de Chili, mas até então pouco conhecidas pelos espanhóis. Inés protagoniza um dos livros de Isabel Allende, o romance histórico Inés del alma mía (2006).


Diego de Almagro, um explorador anterior (que dizem ter sido o primeiro espanhol a pôr os pés no Chile), havia vindo por uma trilha inca na Cordilheira dos Andes, mas perdeu muitos homens no caminho e voltou. Pedro de Valdívia então decidiu tomar outra rota e seguir pela costa, onde — caso você tenha esquecido — fica o Deserto do Atacama, o deserto mais seco do mundo. Perdeu novamente muitos homens, mas atravessaram. Há hoje uma cidade fantasma no meio do deserto chamada “Pedro de Valdivia” no norte do Chile, mas esta não foi ele que fundou. Ele, Inés e seu bando seguiram até mais ao sul a fundar Santiago, às margens do Rio Mapocho. Pedro de Valdívia provinha do oeste espanhol, da chamada região da Extremadura, e resolveu batizar a nova cidade de Santiago de la Nueva Extremadura.

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Fundación de Santiago (1889), quadro do pintor chileno Pedro Lira, retratando o que teria sido a fundação de Santiago em 1541 na colina Huelén, depois rebatizada de Santa Lucía pelos colonos. As terras eram habitadas pelos índios Mapuches.
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Cerro Santa Lucía hoje, com vista para o centro de Santiago.
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O cerro hoje é um local pra lá de agradável. Tranquilo, verde, e com lindas vistas da cidade. Só é preciso ter pernas para subir a colina.

Pedro de Valdivia governou as terras do Chile por 12 anos até as coisas encrencarem. Sabendo da morte de Francisco Pizarro em Lima, ele definiu que seu grupo não obedeceria mais ao governo colonial no Peru, mas diretamente à Coroa Espanhola apenas. Quis portanto expandir os seus domínios ainda mais a sul, até o fim da América do Sul, e encontrar ouro. Só que Pedro tinha inimigos tanto dentre os espanhóis quanto entre os índios Mapuche, nada contentes com a invasão europeia. Como noutras partes da América espanhola, os índios eram capturados e feitos escravos para trabalhar nos campos e nas minas. Seus povoados, dizimados.

“Como noutras partes da América espanhola, os índios eram capturados e feitos escravos para trabalhar nos campos e nas minas.”

Durante uma das ausências de Pedro, os Mapuche vingaram-se atacando e destruindo Santiago. Coube a Inés de Suárez liderar a defesa da cidade, ela que — segundo contam — foi das poucas sobreviventes junto com uns poucos soldados, três porcos e duas galinhas. (Eu adoro que aqui a História seja precisa quanto ao número de animais sobreviventes, mas não de soldados.)


Noutra ida de Pedro a Lima, no Peru, seus adversários aproveitaram-se para acusá-lo de crime contra o matrimônio (e lembrem que estamos falando da Espanha do séc XVI!), pois ele era casado com uma mulher e vivia abertamente com a outra. Foi preso. Aceitou, em troca da liberdade, casar sua amante Inés de Suárez com um de seus capitães e mandar trazer a sua esposa da Espanha para o Chile. Sua esposa, no entanto, jamais o reencontraria.

“Para contemplar a sua sanha por ouro, os Mapuche fizeram Pedro de Valdivia beber ouro derretido. Foi o seu dourado fim.”


Pedro voltou a guerrear com os índios após retornar a Santiago. Cumpriu sua promessa de casar Inés de Suárez com um de seus capitães, e marchou ao sul para tomar dos Mapuche as terras que iam dali até a Patagônia, no extremo do continente. Só que dessa vez ele perdeu. Foi capturado e, segundo dizem, para contemplar a sua sanha por ouro, os Mapuche fizeram Pedro de Valdivia beber ouro derretido. Foi o seu dourado fim. 


Permaneceria, no entanto, a colonização espanhola católica no Chile. Os Mapuche, destituídos de suas terras, miscigenaram-se à população. Os que se reconhecem Mapuche são hoje 1.5 milhão, dos 18 milhões de chilenos. 

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Imagem gigante da Virgem Maria no topo do Cerro San Cristóbal, ainda mais alto que o Santa Lucía, mas mais distante do centro.
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Vista de Santiago do alto do Cerro San Cristóbal. Aqui se sobe de plano inclinado. Cá no alto há uma simpática capelinha, lanchonetes, e jardins agradáveis onde se sentar por um momento. É quase uma versão chilena do Corcovado, mas bem mais sossegada.

Não há muito com cara de centro histórico colonial em Santiago (nada comparado ao que você encontrará, por exemplo, em Quito no Equador). Aqui os terremotos ocasionais e o tempo trataram de destruir o que havia. Este centro, pelo contrário, tem um ar bem moderno, ainda que com prédios antigos aqui e ali. O mais notável deles é a Catedral Metropolitana na praça principal da cidade — que, como em outros países hispânicos da América Latina, chama-se Plaza de Armas


As ruas, em geral, são agradáveis e tranquilas, como as melhores partes de Curitiba ou São Paulo. Santiago mostra que não é outro mundo; é América Latina como nós. Pelos calçadões você verá engraxates de sapatos enquanto homens de paletó leem jornal, grande movimento de pessoas, lanchonetes, e jovens sentados em barzinhos com mesas do lado de fora. 


Mas também verá uma quantia enorme de cães de rua (muitos deles fofamente vestidos com suéteres doados por alguém), e verá banquinhas de cartomantes à espera de clientes.

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Interior da Catedral Metropolitana, no centro de Santiago. Ela, neste estado, foi finalizada apenas em 1800, em substituição a versões anteriores que foram erigidas no local.
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Detalhes das imagens. Esta igreja é de uma riqueza estética impressionante.
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Do lado de fora, na praça, várias banquinhas de cartomantes. Não sei se era algo temporário ou permanente. Mas era curioso. Algumas tinham clientes, outros pareciam entediados, usando o smartphone enquanto não aparecia alguém.
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A catedral metropolitana ao anoitecer, na Plaza de Armas. Esta armação toda foi para um show público de tango que estava a ocorrer nestes dias. Sorte, pois foi um lindo espetáculo.
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Ruas do centro ao entardecer.
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Calçadões.
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Aqui o rapaz tocava nesse piano público a tocante Comptine d’un autre été, do filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

Eu caminhava sossegado, a observar a tudo e a todos. Como falei, são ruas agradáveis aqui no centro. Você pode esticar as pernas tranquilamente, no seu próprio passo. Talvez Santiago seja daquelas cidades com mais jeito de “boa pra morar” do que de destino turístico badalado como Paris ou o Rio de Janeiro.

Eu só lamentei duas coisas aqui, duas paixões minhas que aqui são proibitivas: leitura e café. Os livros são horrendamente caros no Chile devido aos impostos, e as livrarias preservam tacanhamente a herança da era da ditadura de vender livros como se vendem revistas: enrolados no filme plástico, impedindo você de folhear gostosamente na livraria antes de comprar. Já o café, este merece um comentário à parte.


Apesar de estarmos na América Latina, o café no Chile é horroroso. Inexiste. Basicamente, você encontra Nescafé em todos os lugares, com aquele gosto azedo de café solúvel. O hábito aqui é beber chá preto, introduzido pelos ingleses. No entanto, há algumas décadas, empresários perceberam a oportunidade de mercado em criar aqui o hábito de beber um bom café, e o fizeram de maneira persuasiva: através dos notórios Cafés con piernas.

Basicamente, a ideia foi pôr garçonetes sensuais de saia curta para servir nas cafeterias e assim atrair os homens. Algumas cafeterias foram mais longe e as puseram de biquíni, sob protesto de parte da população. Segundo a lenda, muitos proporcionam uma vez ao dia o “minuto feliz”, no qual — de surpresa — as portas são fechadas e as garçonetes realizam um show de striptease para os sortudos presentes. Lenda urbana, dizem alguns, mas vários cafés con piernas y algo más foram realmente fechados por comércio sexual. 


Que as chilenas são atraentes, isso são. Quanto ao café, ainda é difícil achar um bom fora dessas cafeterias especializadas.  

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Basicamente a receita certa pra você derrubar o café…

E, falando em pernas, deixem-me compartilhar com vocês os audaciosos movimentos de pernas do tango que assisti aqui, na Plaza de Armas. Tango mostrado sem ser ouvido não tem graça, então assistam ao vídeo abaixo. A qualidade pode não estar perfeita, mas dá pra captar a emoção e tentar replicar os movimentos em casa.


Você pode estar acostumado a associar o tango exclusivamente à Argentina, mas ele é característico também do Chile e do Uruguai. Vai aí a prova.

Eu volto com a segunda parte de Santiago na próxima semana.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Santiago do Chile: Cerros, charme, tango e “café con piernas”

  1. Santiago do Chile!…. que gostosa cidade!.. com certeza boa de morar!… desenvolvida, ..limpa, tranquila, de ótimo transporte, com aprazíveis locais, agradáveis calçadões, praças e ruas arborizadas e frescas, onde a vida parece correr tranquila. Linda com suas largas avenidas, seus bairros boêmios onde se misturam estudantes, turistas e mercados de produtos tipicos, com belissimas peças de cobre e varios bares e restaurantes além do, teatro de ruas e musicais. Um primor!… desde a tangueria ao pianista e ao flautista. Linda e gostosa, com seu clima ameno seus belos cerros e sua vida noturna.´´Ótimo e moderno metrô com o qual se vai de um lado a outro da cidade. Belos cerros de San Cristobal e de Santa Lucia. Com uma maravilhosa arquitetura como pode se ver nas fotos da impressionante Catedral Muito bonita..Passeio imperdível. É isso ai. Linda região. Muito bem descrita viajante brasileiro.

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