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Chegando aos Andes: Entre a altitude e as folhas de coca em La Paz, Bolívia

PRÓLOGO

Os Andes são uma das regiões mais fascinantes do planeta. Aqui na cordilheira surgiu o memorável Império Inca, e outros povos mais antigos dos quais você talvez ainda não tenha ouvido falar. Os meus próximos posts, sobre viagem à Bolívia e ao Peru, e que culminam com a minha chegada a Machu Picchu, naturalmente falarão bastante sobre indígenas. Antes de começar a contar das minhas experiências, no entanto, eu preciso de um prólogo para esclarecer que quase tudo aquilo que você julga saber — e que infelizmente muitas crianças ainda aprendem na escola — sobre as civilizações das Américas está desatualizado. 

Descobertas arqueológicas, genéticas e antropológicas têm revelado que as sociedades indígenas das Américas eram muito mais antigas, numerosas e complexas do que se imaginava. Muito da desatualização curricular é desleixo, e muito também é o preconceito comum de achar que índio é um tipo sub-humano sem cultura, selvagem, pré-histórico, suspenso no tempo e que nem evoluiu e nem pode evoluir. (Já percebeu que ninguém questiona que o francês de hoje não seja igual ao de 1500, mas se um indígena hoje veste uma calça ou usa um telefone celular, “não é mais índio“, dizem os “antropólogos” de sofá.) Esse preconceito historicamente serviu para justificar a colonização das Américas como uma “terra de ninguém”, de bichos e gentes selvagens apenas, e ainda hoje ele nos faz ignorantes e discriminadores desses povos que são a raiz mais antiga das nações latino-americanas.

Pois bem. Pra começar, saiba que a tese de que as Américas foram povoadas pela primeira vez cerca de 12 mil anos a.C. pelo Estreito de Bering já caiu por terra. Descobriram-se evidências de presença humana nas Américas há mais de 20 mil anos, quiçá 50 mil, e admitem-se hoje muitas migrações. Embora a maioria dos índios seja mesmo aparentada dos nativos da Sibéria, eles começaram a migrar ainda durante a última Era Glacial (110.000-10.000 a.C.), e houve povos indígenas com DNA totalmente diferente — como os Botocudo ou Aimoré, que uma pesquisa recente revelou serem de origem polinésia (das ilhas do Pacífico), e terem provavelmente migrado navegando aquele oceano, não se sabe quando. O que os cientistas se dão conta é de que as Américas são habitadas há muito mais tempo do que se imaginava, e que provavelmente havia aqui muito mais gente quando os europeus chegaram do que se normalmente imagina.

O que os cientistas se dão conta é de que as Américas são habitadas há muito mais tempo do que se imaginava, e que provavelmente havia aqui muito mais gente quando os europeus chegaram do que se normalmente imagina.”

Hoje, estima-se que 95-97% da população indígena tenha morrido de doenças contagiosas, como varíola e sarampo, trazidas pelos europeus logo no primeiro século de contato. Costumamos imaginar as Américas como uma terra quase vazia antes de 1500, de natureza virgem e apenas esparsamente povoada por gente que não alterou seu ambiente. Não podíamos estar mais equivocados. É ainda a visão dominante hoje inclusive no Brasil, mas advém dos EUA no século XIX, fruto de sua doutrina nacionalista do “Destino Manifesto”, que via (ou vê) seus colonos e os Estados Unidos como o povo escolhido por Deus para vir habitar esta terra prometida, este novo Éden. Os primeiros relatos europeus nos séculos XV e XVI, ao contrário, falam de muitos índios, e pesquisas recentes confirmam mesmo que as Américas eram muito mais populosas que a Europa. Estima-se que só na parte central do México havia 25 milhões de pessoas quando o espanhol Hernán Cortés lá desembarcou em 1519 — o triplo do que tinham Espanha e Portugal juntos à época. Um século depois, a estimativa é de apenas 700 mil almas, entre colonos e indígenas remanescentes. (Veja Cidade do México, vulgo Tenochtitlán, a capital dos Mexica, vulgo “astecas”, e que era maior que qualquer cidade europeia da época).

Exposição a patógenos mortais e até então ausentes das Américas devastaram as populações, desagregaram as sociedades, e facilitaram imensamente a sua conquista — muito mais do que a suposição comum de que foi principalmente por superioridade tecnológica europeia, ou porque os índios eram trouxas e prostravam-se a eles como se fossem deuses. Primeiro que os índios logo se deram conta de que os europeus eram péssimos de mira com seus arcabuzes do século XVI (se comparados às flechas certeiras que matavam do mesmo jeito). Segundo, muitos europeus foram mesmo recebidos com honras, mas seus joguetes logo foram percebidos (houve índios que mergulharam europeus na água pra ver se eles tinham mesmo poderes sobre-humanos). Os índios tentaram, sim, usar os europeus como aliados contra seus inimigos. O que não imaginavam é que havia doenças assim tão devastadoras e que os assolariam tão rapidamente. A História hoje mostra que quase todas as vezes que os europeus atacaram sem antes haver uma devastação por doença, eles falharam. 

Você aprendeu na escola que, das 15 capitanias hereditárias que Dom João III decretou no Brasil em 1523, apenas Pernambuco e São Vicente prosperaram. Nunca se perguntou por que as outras 13 não deram certo? Muito foi porque os portugueses foram expulsos. Na América do Norte foi a mesma coisa, tanto é que a história dos EUA tradicionalmente começa com a chegada dos peregrinos do navio Mayflower em 1620. Relatos de navegadores europeus do século anterior todos falam de uma costa americana toda povoada por indígenas que se organizavam no que pode ser descrito hoje como confederações de povos, e que cultivavam milho, feijões e abóboras junto com pomares de castanheiras e outras árvores. Evaporaram-se, todavia, e anos depois aquela terra tão povoada viraria um cemitério de vilarejos e gentes, e um século mais tarde ela pareceria que nunca foi habitada.

Foi como se os 200 milhões de brasileiros de repente fossem dizimados numa pandemia e restassem apenas 10 milhões espalhados pelo Brasil todo, e com o país para organizar enquanto colonos estrangeiros chegassem às centenas para ocupar o território.

Tenochtitlán (atual Cidade do México), antes de ser conquistada em 1521, sofreu em 1520 uma terrível epidemia de varíola que consumiu diretamente um terço da população e levou o restante à falta de alimentos e à fome. Já Huayna Capac, imperador inca, morreu perto de Quito (no atual Equador) em 1527 — junto com seu filho herdeiro, seu irmão, e centenas de milhares dos seus conterrâneos — de uma febre contagiosa que parece ter sido sarampo ou varíola. Araribóia, o cacique Temiminó que permitiu aos portugueses conquistar a Baía de Guanabara dos franceses em 1567, morreu de varíola anos depois junto com todo o seu povo. Para efeitos de comparação, foi como se os 200 milhões de brasileiros de repente fossem dizimados numa pandemia e restassem apenas 10 milhões (menos do que a população da cidade de São Paulo) espalhados pelo Brasil todo, e com o país para organizar enquanto colonos estrangeiros chegassem às centenas para ocupar o território. Como se organizar e manter suas instituições e a sociedade funcionando? O resultado está aí, Américas afora: populações sobreviventes e que sofrem 500 anos na marginalização nas próprias terras onde viviam. 

Para concluir, as sociedades indígenas eram muito mais complexas e tecnologicamente avançadas do que se imagina. Descobriu-se poesia asteca na língua Nahuatl, refletindo uma visão de mundo totalmente distinta daquelas dos europeus, africanos ou asiáticos. Descobriu-se a escrita tridimensional dos incas, em cordas, de que falarei mais num dos posts a seguir. E cada vez mais se reconhecem outros avanços. Os Mayas foram o primeiro povo no planeta a usar o número zero e fazer aritmética avançada com ele, desde antes de Cristo, e tinham um calendário de 365 dias mais preciso que o dos europeus na época. E, ao contrário do que se pensa, povos sul-americanos como os incas dominavam a metalurgia desde 2000 anos a.C., mas em vez de priorizarem a tenacidade para fabrico de ferramentas e armas, eles valorizavam a maleabilidade e a estética. Os incas elaboraram adornos pessoais e detalhes de arquitetura em ligas de ouro num grau de pureza que embasbacou os europeus. Os espanhóis pilharam tudo, derreteram, e mandaram pra casa. (Hoje você pode encontrá-los nas catedrais de época). 

Finalmente, na agricultura, os indígenas foram e ainda são mestres na agroecologia. Meu estômago se revira quando eu me lembro da ênfase em minhas aulas de História de que os índios só caçavam e praticavam a collllleta, e não colheita. Isso não podia estar mais longe da verdade. Os indígenas das Américas fizeram das domesticações agrícolas mais importantes da história humana. Domesticaram há 12 mil anos o milho (o mais consumido cultivo no mundo hoje) através da hibridização de espécies, e antes da chegada dos europeus já haviam domesticado uma série de plantas nativas das Américas, como também as abóboras, a mandioca, os feijões, todas as pimentas coloridas, os tomates, os pimentões, as batatas, o girassol, o amendoim, e todos os três sabores do sorvete napolitano — morango, chocolate e baunilha — são cultivos das Américas. É tanta coisa que faz você indagar o que é mesmo que os outros povos comiam antes de vir pra cá. Dado que os avanços europeus em geral vieram muito depois, já se questiona quem é que realmente merece a alcunha de “Velho Mundo”.    

As abóboras, a mandioca, os feijões, todas as pimentas coloridas, os tomates, os pimentões, as batatas, o girassol, o amendoim, e todos os três sabores do sorvete napolitano — morango, chocolate e baunilha — são cultivos das Américas.

Não menos importante, os incas parecem ser sido o único povo antes da modernidade a conseguir erradicar a fome em sua população. Mas deles falaremos bastante nos próximos posts. Eis, enfim, a Bolívia, e depois o Peru.


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Na Plaza Murillo, centro de La Paz.

A Bolívia provavelmente é o país mais subestimado de toda a América Latina. Economicamente ela ainda é bastante pobre, devido aos séculos de exploração. Mas se trata de um país culturalmente riquíssimo e de certo modo, singular. A Bolívia me parece ser o país americano que melhor conseguiu conservar a sua população e cultura indígenas: 60% dos bolivianos são índios, 30% são mestiços e apenas 10% são não-índios. Tendo em vista a devastação histórica dos nativos das Américas, é de um valor cultural e antropológico imenso que haja, pelo menos aqui, uma sociedade de ética, estética, valores, e de traços biológicos e culturais dominantemente nativos. Isso torna a Bolívia diferente de tudo que você já viu. Eis, senhoras e senhores, praticamente um país indígena.

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A criançada com suas feições nativas, no centro de La Paz. A Bolívia, de certa forma, talvez mereça o título de país mais americano das Américas.

Nuestra Señora de La Paz é uma cidade simples. Colonial, fundada pelos espanhóis em 1548, a cidade cresceu desenfreadamente nas últimas décadas e tem quase toda ela um jeito bem “povão”. Prepare-se para ruas desprovidas de qualquer glamour; mas, se você não for fresco, poderá descobrir coisas curiosas e agradáveis. À primeira vista você verá pobreza, sentirá falta dos luxos e da beleza que encontra nas áreas ricas de outras metrópoles latino-americanas (onde turistas normalmente ficam, ou alguém aqui visita o Rio de Janeiro para conhecer a zona norte?). Mas em La Paz eu encontrei coisas que não havia visto em nenhum outro lugar do mundo.

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La Paz circundada pelas montanhas dos Andes, ao amanhecer.

Pousamos à tardinha no Aeroporto Internacional de El Alto, município vizinho a La Paz. El Alto é uma grande favela de casas sem reboco numa parte mais alta de La Paz, fazendo jus ao seu nome. Há alguns anos ganhou autonomia administrativa, mas o jeitão pobre continua. 


A 4.100m de altitude, este é o aeroporto internacional mais alto do mundo. Convenhamos que sair dos 520m de Santiago do Chile para toda essa altitude em questão de horas é um tanto drástico. Finalmente entendi o suplício dos jogadores de futebol nesta altura. Conforme fazíamos fila pelo pequeno aeroporto e passávamos pela tranquila imigração, eu sentia o ar rarefeito e a necessidade de dar aquelas inspiradas profundas para conseguir oxigênio suficiente. Você de início, pelo menos por uns dias, fica quase com aquela respiração de asmático.

Um táxi arranjado com o hotel nos esperava ao desembarque. O tiozinho — um homem baixo de meia-idade, jeito franzino e boné na cabeça — nos conduziu até o veículo, um carro daqueles de filme dos anos 70 ou 80 que a gente vê no Corujão. O rádio ligado transmitia um jogo de futebol com direito a trilha sonora épica e tudo, intercalando as falas empolgadas do narrador em espanhol. 

Você ziguezagueia descendo pela estrada com aquela magnífica vista de casas pobres no horizonte. (Ironia à parte, você vê em alguns momentos as montanhas cobertas de neve por detrás, e que são realmente bonitas.) Aqui e ali, ônibus mega coloridos e outdoors com a cara sorridente do presidente Evo Morales.

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Horizonte de casas pobres em El Alto.
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Apesar dos pesares, quando não há casas, há belas montanhas da Cordilheira dos Andes em vista. Perceba também a altura em que estamos.
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O jeitão geral de El Alto, vindo do aeroporto.

O centro de La Paz melhora, mas não muito. Afora algumas ruas e praças mais arrumadinhas, o geralzão te lembrará os centros comerciais populares das metrópoles brasileiras. Por outro lado, La Paz me pareceu bem mais segura.

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O jeitão geral das ruas em La Paz, afora algumas exceções.

Rodamos por muitas dessas estreitas ruas antes de chegar ao hotel no centro, vendo ruas repletas de veículos e vendedores. Quando a cidade em si não oferece grande aconchego, eu sempre sugiro pegar um hotel legal, que sirva de refúgio quando você se cansar da muvuca, do ruído e da poluição das ruas. 


Meu hotel era, de fato, um lugar angelical — jardins com flores, lindas decorações artesanais, um bom restaurante e, não menos importante, uma recepção simpática. Ali fomos atendidos por uma anja andina de longos cabelos negros e sorriso tranquilo (daquelas pessoas que sorriem também com o olhar), e que, Deus me perdoe, me fez pensar “Essas pessoas são tão boazinhas; é por isso que foram colonizadas“. 


Fora dali, o ambiente difícil de La Paz nos açoitava. A cidade infelizmente tem um problema terrível de poluição do ar. Seus ônibus e carros velhos lançam uma baita fumaça preta, como se respirar aqui já não fosse tarefa difícil, e de quebra La Paz ainda é cheia de subidas e descidas para testar a sua condição física. (E você aí achando que a vida na sua cidade é difícil…)

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Senhora com suas trouxas no centro de La Paz.

Eu acho que nunca estive num país onde cotidianamente visse mulheres fazendo tanto trabalho físico. Carregam trouxas imensas, às vezes com filhos pequenos nas costas, e vendem coisas na rua até tarde da noite para ter algum dinheiro.


Na noite em que cheguei, já passava das 22h quando ainda encontrei aberta uma loja de artigos gerais perto do hotel, onde uma senhora pesada com ar de mãe me atendeu. Com o tempo eu perceberia que há quase sempre uma TV ligada, e frequentemente também crianças pequenas brincando atrás do balcão. Lembro-me de várias vezes ter entrado nessas lojas na hora de uma novela (aparentemente mexicana) que todo mundo parecia assistir à tarde. A câmera fazia closes dramáticos no rosto de atrizes pálidas (nada representativas da população), que exibiam olhares de choro e apreensão enquanto tocavam de trilha de fundo aquele tom dom dom dom dom das cinco notas iniciais de In the End, do Linkin Park. 


Naquela noite, lembro ter pechinchado algo com a tia. Disse que não tinha “aquele dinheiro todo” quando ela me deu o preço, ao que ela sorriu perguntando — em tom até amoroso — quanto eu estava pagando pela noite no hotel em frente. Desarmou-me e eu tive que sorrir de volta para o sorriso de ouro daquela senhora, cujos dentes deteriorados eram contornados com ouro (o que revelou-se muito comum aqui).    


Não levei nada naquela noite, mas depois voltaria para comprar algo da tia.


Certa vez um amigo meu de Feira de Santana, após retornar de uma viagem à Bolívia, me disse que achou os bolivianos muito diferentes dos brasileiros. São mesmo, mas só se você os comparar aos brasileiros não-índios. Na minha experiência, os brasileiros índios são muito parecidos com os bolivianos — aquele jeito taciturno de quem ouve mais do que fala, tão diferente da maioria dos brasileiros que conversam parecendo que é uma competição pra ver quem fala mais alto, quem faz a observação mais sagaz, e quem aparece mais. (“Vocês brasileiros falam demais“, diria-me certa vez uma amiga de Singapura.)

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Vendedoras na rua. Não me pergunte o que a senhora leva naquela trouxa tão grande.

Essas aí acima não eram, mas onipresentes nas ruas de La Paz e em toda a Bolívia (e Peru) são as folhas de coca, planta sagrada nas culturas andinas e melhor remédio contra as dificuldades da altitude. 


O soroche (nome dado ao “mal da altitude” na língua quíchua, falada pelos incas e ainda hoje na Bolívia, Peru e Equador) vai desde a simples falta de ar até tontura, náusea, dores de cabeça, palpitações cardíacas, vômitos e complicações mais sérias. Estes efeitos variam de pessoa pra pessoa a depender da condição física, respiratória, cardíaca, etc. Eu, ainda bem, não senti nada além de alguma falta de ar e uma certa pressão no peito — que desapareceu completamente com um belo chá de coca, antes mesmo de eu terminar a xícara. 


A folha de coca tem um estigma imenso na mídia e no imaginário coletivo mundial devido ao tráfico de cocaína, mas — como os bolivianos sempre repetem — coca não é cocaína. É o mesmo que comparar uma xícara de café a um hipotético pó de cafeína concentrada que te deixasse ligadão. Vício por vício, café e álcool também viciam, e nem por isso são suprimidos — pelo contrário, são tratados com muito glamour. A questão é política; os EUA e outros grandes mercados consumidores de cocaína preferem tentar eliminar o produto na origem, não se importando com a significação cultural e o uso tradicional da planta na região, do que tratar o tráfico de cocaína dentro das suas fronteiras.


Mascar folha de coca é um hábito ultra-comum aqui nos Andes, e que ajuda imensamente a evitar o mal da altitude. Você vê todo o tempo pessoas na rua com as bochechas cheias, mastigando. (Só não engula, é o que todo mundo me diz, pois dá indigestão.) Comum também é consumir o mate de coca, o chá, que aqui é vendido em qualquer supermercado. Todo hotel tem.


A significação cultural da coca nos Andes, no entanto, vai muito além do seu uso terapêutico. Os andinos fazem oferendas, dão “banho do descarrego”, e até leem o seu futuro nas folhas de coca. É semelhante a umbanda, o candomblé e outras tradições fazem com outras ervas, búzios e tal. (Quem achar isso esquisito, “comer o corpo de Cristo” e beber vinho como se fosse sangue não me parece menos estranho.)


Entre o mal da altitude e a folha de coca, fiquei com a última. Nos Andes, faça como os andinos. 

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Folhas de coca.
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Um chazinho de coca em La Paz.
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Oráculo com folhas de coca na calçada. Logo após, eu veria o tio de gorro dar o que me pareceu ser um passe no outro homem, pra usar uma terminologia espírita.
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Outdoors enormes de Evo Morales, com a periferia de La Paz ao fundo. Podem-se dizer muitas coisas dele, criticar o seu estilo personalista (embora Obama também o tenha e ninguém fale nada), mas é o primeiro presidente indígena da Bolívia (e do mundo), o que é democrático após séculos de governo por minorias europeias que deixaram o país assim, explorado e pobre. Com ele a Bolívia é das economias que mais crescem na América do Sul (média de 5% ao ano), suas políticas de redução da pobreza e reconhecimento dos direitos indígenas têm ajudado muita gente, e a Bolívia prepara-se para se tornar o sexto membro pleno do Mercosul. São fatos.

Chá de coca já me permitindo respirar na altitude de 4.000m e enfrentar melhor as ruas de La Paz, vamos a elas. Eu retorno com os pontos interessantes da cidade a visitar, música boliviana, curiosidades gastronômicas e outros elementos culturais daqui no próximo post.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 thoughts on “Chegando aos Andes: Entre a altitude e as folhas de coca em La Paz, Bolívia

  1. Ahhhhhhhh!…A Cordilheira!….. Magnificat…. os Andes!…. pobre linguagem, dificil de definir sua aura, sua beleza, sua força e majestade estupendas. Impressionante em seus contornos, altitude, efeitos visuais, psicológicos, energéticos, telúricos; onipresente nesses paises de que fala este jovem viajante nesse bloco. Não ha como não sentir a ”energia”, o ” clima” dessas montanhas sagradas que guardam tantas historias de tantas lutas, de tantas vidas e de tantas explorações. Parece a cordilheira guardar a alma da latinoamérica e desvelar para aqueles que até ela chegam e são expectadores de tanta beleza de tanta pujança. Há vida naquela cordilheira!… a sensação é de que ela toda é um grande organismo vivo.
    Essa energia, essa mágica impressão de um ser vivo que acontece ao se chegar à Cordilheira ja começa durante o voo quando a tripulação informa: atenção, vamos começar a passar sobre a Cordilheira. Um frêmito percorre o corpo ao olhar pela janela e ver a pouca distancia do avião, os picos nevados do gigante da America. E como demora passando sobre ela. Meus respeitos, grande Cordilheira dos Andes. Ninguém volta a mesma pessoa apos te-la conhecido e dela recebido a energia.
    Dito isso vamos à Bolivia de Evo Morales, das mulheres trabalhadoras, do povo que parece que dorme na rua para trabalhar, da pobreza, mas também da riqueza da sua cultura e civilização, dos seus monumentos, da valorização do povo indígena, da sua historia, das suas lutas, da sua índole, da sua cultura, como bem sobressai a pena clara, leve e crítica e por vezes mordaz, do viajante brasileiro.
    Como bem diz o escritor -autor, a Bolívia tem a alma da Latinoamerica e do seu povo sofrido e bom. A sua prata em Potosi, e suas outras riquezas podem mesmo ser encontrada/s nas magnificas catedrais espanholas revelando o tráfico e a exploração que empobreceram a região. Triste ver o que a Europa orgulhosa fez com os países dos quais se apossou e que ate hoje olha com desdem. Ah”…Europa que ate hoje não aprendeu a lição, quiça nunca aprenderá .
    Quem quiser conhecer a Latinoamérica e sua álma terá que visitar a Bolivia e sentir de perto suas agruras e belezas, seus limites e desafios.
    Parabéns, viajante brasileiro pela postagem histórica, digna de ser lida e debatida nos bancos escolares entre os jovens e crianças dessa grande Patria latina. Obrigada também pelo belo, verdadeiro, esclarecedor e instigante prólogo. Obrigada pela retirada do véu, pelo resgate desse passado histórico rico e tão pouco conhecido por todos em particular por nós ocidentais e brasileiros. É isso ai. Congratulações. Uma grande e linda postagem sobre um povo que ja merecia ser conhecido e reconhecido. Vamos que vamos.

  2. Ah!.. esqueci de falar que adorei a desmistificação da coca e do seu chá e a descoberta das maravilhas da planta para a digestão, a respiração e para o mal das alturas. Muito bom, muito salutar e esclarecedor. Necessitamos com urgência deixar de repetir como papagaios, discursos norte-americanos que so convêm a eles.

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