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Maastricht (Holanda) e a curiosa igreja transformada em livraria (com café)

Se, como escreveu São João evangelista, no princípio era o Verbo e o Verbo era Deus, então estamos aqui diante de uma bela manifestação divina. Preparem-se para uma das livrarias mais originais do mundo, no animado sul holandês.


Estamos no extremo sul da Holanda, em Maastricht. Aqui nesta cidade nasceram a União Europeia e o euro. Sua escolha para a assinatura dos acordos de 1992 — o chamado Tratado de Maastricht — certamente não foi acidental; aqui, neste rabinho sul da Holanda já espremido entre a Alemanha e a Bélgica (e pertinho da França), a cidade adquire um ecumênico espírito cosmopolita europeu. A maioria de amigos meus que vêm desta região dizem se afinarem mais com a identidade de europeus que de holandeses. Eis o futuro da Europa e talvez de todo o mundo: a substituição das identidades nacionais de país por identidade nacionais continentais. (Chegará o dia em que nos sentiremos mais sul- ou latino-americanos que brasileiros, do mesmo jeito que muitos de nós aprendemos a sentir-nos mais brasileiros que baianos, cariocas ou potiguares? O tempo dirá).


Mas aguenta lá que eu prometi aqui falar de igrejas, livrarias e café…

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Localização de Maastricht, num sul da Holanda e miolo da Europa.

Cheguei a Maastricht na semana passada, depois de quase seis anos desde a minha primeira visita à cidade. O inclemente chuvisco eterno holandês — ao meu ver, muito pior que na Inglaterra — fez-se lá como esperado. (Mentira, eu não esperava. Quando cheguei havia um lindo pôr de sol e esperei que no dia seguinte fosse fazer sol de novo. Tolice. Esqueci que dois dias de sol seguidos na Holanda são quase tão raros quanto raio cair duas vezes no mesmo lugar. Acordei no dia seguinte para uma manhã de chuva, a escuridão característica do outono/inverno nesta parte da Europa, quando sol nasce às 8:30h e passamos do negro da noite ao cinza do dia, até a noite retornar às 16:30h).


O lado positivo é que, quando não chove — ou mesmo debaixo de chuvisco — você passeia por lindos calçadões com as decorações de Natal a esta época do ano, lojas enfeitadas, e as típicas feirinhas de Natal (Christmas markets). Embora elas sejam mais características da Europa Central (Alemanha, Áustria, Suíça, Hungria, República Tcheca, Eslovênia, Eslováquia e Polônia), os holandeses recentemente abraçaram a tradição, pois perceberam que turista gosta.

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Pôr do sol sobre o Rio Maas, que corta a cidade. O centro histórico está todo de um lado, e a estação de trens do outro. Daqui, os holandeses — como sempre navegadores — chegavam ao Atlântico.
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Agradáveis ruas do centro de Maastricht com decoração natalina.
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As notórias feirinhas de Natal, com uma das muitas igrejas da cidade lá atrás. (Para quem ainda não conhece, essas feirinhas costumam vender artesanatos de vários tipos, decorações de Natal pra a casa, e comilanças diversas. Aqui na Holanda são muito comuns as oliebollen, umas bolas de massa frita, comidas com açúcar por cima. Não me apetecem muito, mas os holandeses adoram).
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Rinque de patinação no gelo. Sou um desastre nisso, mas os europeus em geral adoram. As crianças, sobretudo, se divertem bastante.
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Calçadões seculares de Maastricht, hoje repletos de lojas, bares e restaurantes.

Mas, seja qual for a época do ano, a atração mais conspícua de Maastricht é, sem dúvidas, a sua igreja dominicana transformada em livraria. É uma das livrarias mais originais do mundo, e uma visita obrigatória caso você venha aqui à cidade.


A igreja foi consagrada em 1294. Maastricht havia passado de vilarejo romano a vilarejo medieval dos duques do Sacro-Império Romano-Germânico. Curiosamente, numa guerra entre a França e esses duques, foi aqui que morreu em 1673 Charles Ogier de Batz de Castelmore, mais conhecido como Conde de D’Artagnan. Ele existiu mesmo; era capitão dos mosqueteiros sob o Rei Luís XIV (o Rei Sol). Mais tarde, no século XIX, é que o autor francês Alexandre Dumas romancearia sua vida, em obras como Os Três Mosqueteiros e outras. Morreu aqui em Maastricht, quem diria.


Noutro imbróglio com os franceses, a Holanda seria invadida em 1794 por Napoleão, que entrou em Maastricht e pôs os dominicanos pra fora. Era o fim daquela igreja enquanto igreja.


Muito tempo passaria, o templo viria a ser usado como depósito, garagem de bicicletas e — não pergunte por que os dominicanos depois não voltaram — ao fim a igreja foi adquirida por uma rede de livrarias para esta daqui. Os holandeses, em geral pouco ou nada religiosos, adoram. (Caso você esteja chocado, em Amsterdã há uma que virou casa de shows.)


A nave da igreja continua intacta, embora não haja mais imagens religiosas à vista. No chão, você caminha sobre o que parecem ser seculares tumbas com epitáfios. Diversas estantes de livros agora percorrem a área principal onde costumavam ficar os bancos. E onde era o altar, hoje está a cafeteria Coffee Lovers, num convite ainda à congregação e ao amor.

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Interior da livraria no que era uma igreja dominicana, com as antigas tumbas no chão e os vitrais góticos ainda cheios de personalidade lá ao fundo, criando um ambiente bastante original.
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Eu na livraria, estufado em roupas de inverno. Percebam que ali há dois pisos extras, montados num dos lados da nave, e que os afrescos religiosos no teto permanecem visíveis.
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Interior da livraria, com vista para os pisos superiores e a entrada.
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A cafeteria, como em toda livraria que se preze. Nesta aqui, no entanto, o café fica onde era o altar.
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Eu com cara ainda de sono antes do café. Na mão direita, um pedaço de nougat. (Pra você que, como a maioria dos brasileiros, conhece de nome mas não sabe explicar o que é, nougat é um tipo de doce besta muito comum na Europa, feito com açúcar, mais açúcar, clara de ovo e amêndoas ou nozes.)
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O nougat faz um estilo meio puxa-puxa, como você pode perceber nesta foto não autorizada.

Caso prefira um doce mais decente, aproveite que está em Maastricht para comer — lambuzar-se e devorar — as tortas limburguesas (Limburg pie). Limburg é está província da Holanda, da qual Maastricht é capital. Eles aqui falam o dialeto regional, o Limburguês, e têm o sotaque mais fofo de toda a Holanda. (Caso você não tenha tido o tempo de reparar, os holandeses do norte, onde estão as principais cidades do país, têm uma dicção gutural horrível, raspada na garganta e que me fez achar o alemão uma língua suave em comparação. Aqui no sul, não. Venha e confira o douceur do holandês falado aqui.)


Não deixe de conferir a doçura das tortas, também. São, em geral, tortas redondas com recheio molhado de maçã, nozes, morangos, amoras ou o que for — as típicas tortas de frutas de clima temperado. Em Amsterdã você pode encontrar as imitações, mas só aqui em Limburg você acha as originais. Eu tive a fortuna de encontrar uma padaria com muitas delas bem ao lado do moinho de água, que qualquer um na cidade sabe lhe dizer onde fica.

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Maravilhosas tortas limburguesas na vitrine, de vários tipos.
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Entrei. Mas você não me verá comendo, pois a lambuzança foi muito grande e nem parei pra pensar em tirar foto.

Por fim, para integrar a todos, deixem-me dizer àqueles que gostam de visitar também igrejas com atmosfera de igreja que não deixem de visitar a Basílica de Nossa Senhora Estrela do Mar (Onze Lieve Vrouwe Sterre der Zee) — uma referência aos navegantes holandeses que buscavam auxílio no mar, não ao equinodermo. Também conhecida pelo seu nome em latim, Stella Maris.   


Esta igreja românica, de estilo anterior ao gótico, é ainda mais antiga que aquela transformada em livraria. Esta aqui foi erigida ainda nos séculos XI e XII. É provavelmente a igreja mais notável que já visitei na Holanda, e uma das mais impressionantes da Europa — se não em riqueza material, em ambiente. A escuridão medieval anterior está mantida, e pelos vidros das pequenas janelas você recebe a pouca luz que vem do dia lá fora. O silêncio impera. No porão por uma escada estreita que parece levá-lo a alguma catacumba, você tem a uma lojinha. A capela a nossa senhora, sempre numa conflagração de velas, é impressionante e acolhedora.

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Entrada para a Basílica, com a capela logo ali à frente.
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Uma impressionante conflagração de velas, ali à frente e também dos lados, num ambiente envolvente.

Seja qual for a sua inclinação de gosto, Maastricht merece a sua visita. E, quer você prefira a igreja livraria ou essa igreja igreja — ou as duas —, não deixe de experimentar as tortas.

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Maastricht.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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