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Noto (Sicília), uma explosão de barroco italiano pra você

Noto é uma pequenina cidade italiana na Sicília que é toda de uma cor. Pensadores italianos do passado a chamaram de “jardim de pedra”. Esse tom de areia está por todas as edificações, e resplandece lindamente à luz do sol. É resultado de um terremoto, que destruiu a cidade medieval em 1693 e a fez ser toda reconstruída assim, em estilo barroco siciliano. Todo o centro da cidade está tombado como Patrimônio Mundial reconhecido pela UNESCO.


Noto está a uma viagem curta de Siracusa. Vale a pena vir de manhã para passar o dia. Em bom estilo Mediterrâneo, e ainda mais num lugar tradicional como você imagina ser o interior da Sicília, aqui eles fazer a sesta e fecham tudo entre as 13h e as 16h. Tenha isso em conta e venha cedo.


Além disso, certifique-se de comprar uma passagem de ida e volta na estação de trens de Siracusa, pois a daqui é um posto abandonado perdido sem ninguém — mas o condutor no vagão vai querer que você tenha passagem. Melhor estar prevenido. (O custo da passagem não passa de uns poucos euros, e o trem que serve este trecho, embora bastante básico, resolve.)


Além de ver uma cidadezinha adorável, Noto é um ótimo lugar para ver arte italiana barroca e para experimentar granita, o original siciliano dos sorvetes raspadinha.

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Estação de trens em Siracusa. Bastante simples, mas funcional.
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Já a de Noto, parece que você está na roça (e está). Atrás de mim aí havia um pequeno abrigo, mas fechado. Você espera o trem passar aí mesmo, do lado de fora.

Bem à nossa frente no trem estavam duas senhoras suíças que havíamos encontrado no dia anterior. Falavam francês, bem com aquela retórica típica dos francófonos, cheia de maneirismos e interjeições (Bah oui!), e surpresas ficaram quando eu disse que vinha do Brasil, de tão longe.


Disseram-nos que eram da cidade de Lausanne, onde tenho alguns amigos que já visitei. “Bah! Il connait tout le monde, le monsieur, han!“, soltou uma com aquele ar que noutro contexto pareceria uma indignação.


Nem tanto, mestra, mas tento conhecer.


Da estação de trens é uma curta caminhada (uns 20min) até o centro. Noto tem basicamente uma rua principal que se estende de um lado a outro da cidade, e em menos de meia hora você a percorre inteira. O mimoso são as coisinhas no caminho: uma praça com feirinha de produtos típicos à frente do portal de entrada da cidade, igrejas e mais igrejas barrocas, e ótimos lugares onde comer. Uma cidadezinha pra uma visita curta, mas bem agradável.

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Prodotti tipici del territorio, como eles gostam de dizer. Aqui à direita há tomate seco (que é muito mais puxado pro salgado do que pro doce, diferente do que vejo no Brasil), e ali à esquerda muito azeite de oliva. (Caso você esteja se perguntando o que é Zibibbo, trata-se de um vinho branco siciliano feito com uva moscada. Também chamado de “Moscado de Alexandria”, é um dos tipos de vinho mais antigos do mundo, originalmente do Egito.)
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Arco de entrada do centro histórico de Noto.
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Vista para a rua principal, o Corso Vittorio Emanuelle, por dentro do arco.
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Tiozão com seu triciclo vermelho no Corso Vittorio Emanuelle, com esse ar confiante e ligeiramente contrariado típico dos coroas italianos.
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Coroas italianas também mui típicas, bem vestidas e conversadeiras. (Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência.)

Aproveitei para ver todas as igrejas que quis logo de manhã, antes que fechassem. Em algumas delas também é possível subir e ter ótimas vistas de Noto lá do alto.

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Igreja barroca de São Francisco, do século XVIII.
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Vista para a catedral, lá do alto.
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Vista para o outro lado.
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Interior da catedral.
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Pintura barroca em detalhe. (Por alguma razão a expressão da mulher no centro me lembra aquele cartaz “We can do it!” da trabalhadora segurando o muque, muito usado por feministas.)
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Mais arte barroca.
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Nesta temos São Francisco lá em cima, e outros queimando no inferno.
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Beleza também do lado de fora.
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A prefeitura. (A bandeira vermelha e amarela, caso você esteja se perguntando, é a da Sicília. A azul é a da União Europeia.)

Chegada a hora do almoço, perto da 1h da tarde, você verá as igrejas começarem a fechar as portas e as lojas porem seus produtos pra dentro. É hora da sesta.


Pra nós, foi hora de almoçar. Não é difícil achar um lugar pra comer por aqui. Como a maior parte dos turistas são outros italianos, a qualidade da comida é em geral boa.


Eles aqui no sul da Itália, como na Espanha, comem muito salami e presunto de porco, mas é possível achar boas massas sem isso. Os legumes (tomates refogados, berinjela grelhada…) são muitíssimo saborosos. (Pra você habituado à Itália unida, vale saber que a Sicília e todo o sul da Itália eram por séculos parte da Coroa Espanhola, desde o final da Idade Média até o século XIX. A inserção de produtos suínos foi parte da política de expulsão ou conversão forçada dos judeus e muçulmanos, que não comem porco.)

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Nossa deliciosa entrada de legumes refogados com pão e azeite. O negócio é tão saboroso que você começa a se perguntar o que são aquelas coisas sem gosto que você compra no supermercado.
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Meu delicioso espaguete com tomates secos, aspargos e manjericão — sem precisar matar nenhum porco.

A cidade é tão pacata e tranquila que você fica ali sentado um tempo à mesa, assistindo às pessoas passarem, e sentindo o vento do mediterrâneo no rosto.


Demos umas voltas, vimos algumas pracetas e fizemos hora até tomar uma granita. Este é um sorvete tipo raspadinha — original siciliano, e dos mais tradicionais! — que eles aqui comem com pão. É isso mesmo, com pão brioche. Não necessariamente sanduíche, mas acompanhando.


”Um sorvete tipo raspadinha — original siciliano, e dos mais tradicionais! — que eles aqui comem com pão. É isso mesmo, com pão brioche.

Há um bafafá enorme em torno da tal granita (como sempre fazem os italianos acerca de qualquer uma de suas comidas…), mas na prática é um sorvetinho deveras simples. Não é ruim, mas também não é essa maravilha do mundo que eles te farão acreditar que é. Nada mais é do que uma raspadinha bem feita. Tomei com gosto, mas eu dispensei o pão.


A melhor opção talvez seja pedir uma “seleção”, assim com várias pra você experimentar. A minha favorita foi a de limão. A mais escura, de amora, é deveras azeda, eu já vos aviso.

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Seleção de granita típica siciliana em Noto.
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Limão, pêssego, e amora. Praticamente sem açúcar.

Teríamos ficado para o pôr do sol mas, apesar do céu bastante azul nas fotos acima, veio uma chuvarada danada que nos botou pra fora. (Além disso, a disponibilidade de trens em Noto à noite não nos pareceu tão confiável. Optamos por assegurar o nosso retorno a Siracusa ainda hoje)


No caminho de volta, ainda compramos alguns dos prodotti tipici del territorio para levar conosco junto com as memórias da Noto barroca.


EPÍLOGO

Não demoramos a chegar em Siracusa, onde teríamos ainda um jantar antes de seguir viagem a outros lugares da Sicília no dia seguinte.


Acabamos indo a um personalíssimo restaurante com mesas na rua — e que as ruelas históricas italianas são adoráveis vocês já sabem. O cardápio basicamente era um bloco de notas de papel, das antigas, com todos os pratos e preços escritos a mão. Nunca tinha visto isso na vida, e achei de muito bom gosto. Coisas com personalidade.


Personalidade curiosa, no entanto, foi a da garçonete que nos serviu. Parecia ser um pouco a administradora ali da cousa, com um ar deveras elétrico, ansioso, e de gestos rápidos. (Não parecia do tipo que estava nervosa, mas do que é nervosa.) Tinha uns óculões de armação preta e um cabelo castanho meio desgrenhado, suas 35-40 primaveras.


Pedi um peixe com pistache por cima.

— “Mal passado, bem passado ou meio-ponto?“, perguntou ela rápida, olhando pro papel onde escrevia.

— “Bem passado“, respondi eu.

— “Hm-hm“, fez ela um negativo com a boca apertando os lábios, balançando negativamente a cabeça ainda com a vista no seu bloquinho. “Esse peixe bem passado fica parecendo uma borracha“, complementou.

Fiz uma cara ligeiramente descrente (que ela não viu), e tive que olhar pra Kim.


— “Ok, meio-ponto então“, decidi.

— “Bravo“, e ela partiu em disparada ainda assim sem olhar.


Figuraça.

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Nosso personalíssimo cardápio feito a mão.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 thoughts on “Noto (Sicília), uma explosão de barroco italiano pra você

  1. AAAiiii que fofinha essa cidade. Adoro cidadezinhas assim pequenas, aconchegantes, com pracinha e jardins floridos e ruelinhas com mesas e cadeiras como algumas cidades do Mediterraneo tem em particular em paises como a italia Espanha e Grecia. adoraveis.
    Belissimo esse barroco. Imagino como deve ser belo aos raios do sol. Belissima catedral. ruiquiissimo interior. Uma beleza para os olhos de quem gosta de arte e de historia..
    Adoro esse cheiro de cidade do interior. Adorei a estação ferroviária. E que lindo pórtico de entrada uaaau.
    As comilanças como sempre muito vistosas e com aparência de saborosas. Gostosa e charmosa a região. ótima postagem, comme d’habitude….haha

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