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Visitando as “mulheres-girafa” do pescoço comprido e outras tribos das colinas na Tailândia

Eis a famosas mulheres do pescoço comprido (que até chegar aqui eu nem sabia que viviam na Tailândia).


Numas choças de madeira e palha vivem essas inigualáveis mulheres. Fazem parte da tribo Karen (às vezes escrito Kayan), uma das várias que habitam estas colinas aqui do extremo norte da Tailândia, sul da China, e áreas adjacentes nos outros países da região. São um povo de cultura particular, uma minoria étnica que desconhece as fronteiras políticas que lhes foram impostas nos tempos modernos.


A chegada até aqui não é complicada. De Chiang Rai, já no extremo norte da Tailândia, é facílimo organizar passeios de um dia que te levem a ver uma um grupo dessas tribos das colinas (hill tribes). A cidade é repleta de agências ofertando passeios — pesquise, pois os preços variam. (Há quem faça o passeio até aqui desde Chiang Mai, mas assim ele fica muito mais longo, e eu acho que pelo menos uma noite em Chiang Rai vale super a pena.)


Numa área meio roçado, meio floresta, 5 das tribos (inclusas aí as Karen) organizam elas mesmas um tipo de etnoturismo, que te permite vê-las em seus diferentes trajes tradicionais, comprar artesanatos feitos por elas próprias (você as verá fazendo ali no ato), e de quebra ver algumas performances musicais.


É ligeiramente salgado o preço da entrada (300 bahts, o equivalente a uns 30 reais), mas parece ir para as mãos certas. Não me arrependi hora nenhuma de tê-las visitado e conhecido-as pessoalmente. O lugar é bastante pobre, e inspira ajuda.

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O lugar onde as mulheres das tribos fazem sua exposição. Bastante simples e visivelmente pobre. Naquelas barracas elas passam o dia, em geral com suas crianças ali também. Estão sempre ansiosas por vender algo, fruto da necessidade.
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Este curioso portão cerimonial marca a entrada da primeira tribo que você encontra no percurso, a tribo Akha. O portão, segundo eles, é erigido num detalhado ritual todo ano, no mês de abril, para manter as forças do mal do lado de fora. Usa energias masculina e feminina, como você pode ver denotado pelos curiosos bonecos de madeira que eles põem ao lado das traves (sim, são um homem e de uma mulher “em ação”).
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Esta divertidíssima vovó Akha, que ria a valer, tentava nos vender todo tipo de artesanato, desde adereços femininos a apito de madeira que imita o som de pássaros (e ela soprava pra mostrar).
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Maroto com uma das gatinhas da tribo Yao.
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Agora com o traje tradicional (que lembra as vestes dos mandarins da época da China Imperial).

Os Yao são originários do sul da China, e são a única destas tribos a ter língua escrita (as demais têm uma língua oral distinta, mas sem escrita). Os Yao foram desde o século XIX envolvidos no cultivo de ópio, então comercializado pela Grã-Bretanha — o que levou às Guerras do Ópio contra a China Imperial. O tráfico ilegal de ópio, contudo, continuou século XX adentro, e em partes até hoje. Atualmente, estas famílias buscam outros modos viáveis de sustento, mas são o elo mais frágil da cadeia. (Situação semelhante à de famílias rurais mexicanas que às vezes não encontram outra atividade econômica além do mercado das drogas controlado pelos cartéis.)

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As condições de habitação são estas aqui.

As mulheres do pescoço comprido, naturalmente, são as que mais chamam a atenção. Aqueles anéis de metal que as caracterizam lhes são postos ao redor do pescoço a partir dos 5 anos de idade, adicionando-se mais um a cada ano até que se casem. (Sim, é uma das expressões mais bizarras de dominação machista em voga.)


Diz a lenda que, há muito, muito tempo (nesta galáxia aqui), uma das mulheres da tribo sofreu o ataque de um tigre na floresta, que lhe aplicou uma mordida fatal no pescoço. Desde então, como proteção, as mulheres passaram a vestir esses notórios anéis de metal.

“Anatomicamente falando não é o pescoço que cresce, mas o tórax que é rebaixado, distanciando-se da cabeça.”

A detentora do recorde de pescoço mais longo do mundo, segundo o Guinness, alcançou 40cm de pescoço usando esses anéis. A verdade, no entanto, é que anatomicamente falando não é o pescoço que cresce, mas o tórax que é rebaixado, distanciando-se da cabeça durante o crescimento (já que os anéis começam a ser postos desde tenra idade).


Um dos efeitos que você não imagina vendo apenas as fotos é que suas cordas vocais são danificadas. Como resultado desse processo, elas falam apenas baixo e com uma permanente rouquidão. É meio triste ao perceber.


Podemos achar curioso — e, é claro, não deduza que sejam todas miseravelmente infelizes; elas em geral parecem muito tranquilas, e algumas são até bem alegres —, mas suspeito que ninguém com escolha iria querer para si um destino desses.

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Uma delas com uma menininha da tribo, já com seus aros no pescoço.
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Acho que esta foi a senhora de pescoço mais longo que encontramos nesta visita.

Como você deve saber, é muito difícil remover os anéis depois de adultas, pois o pescoço fica sem sustentação suficiente. Dizem que é possível, e que elas às vezes o fazem quando necessário (ex. algum exame médico), mas já não é confortável viver sem os anéis. Hoje, eles são símbolo de sua identidade cultural apesar do trauma físico.


A moda agora, segundo elas, é usar anéis também nos braços e pernas, como enfeite. (É sério).

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Fiandeiras com anéis também nas pernas. Elas fazem uns xales simples mas muito bonitos, ali mesmo, de algodão, e que custam uma pechincha.

Aqui um curto vídeo de uma destas mulheres tocando violão para nós durante a visita.

A seguir encontramos a quarta tribo, os Palong, dos notáveis (e enormes) brincos. Onde mais você já viu brincos que chegam até os seios?


Essas mulheres tradicionalmente usavam rodas de marfim (proveniente das presas de elefantes) para expandir os lóbulos das orelhas. Hoje, como as populações de elefantes estão bem diminutas e a sua caça é ilegal, usam prata.


Essa tribo é relacionada com as Karen, do pescoço comprido, ainda que guardem suas distinções visíveis. São em geral budistas, com aquela mistura de animismo tribal tradicional. Assim como as outras tribos, os Palong vivem sobretudo no vizinho Myanmar e aqui na Tailândia. Sofrem, contudo, um problema “existencial”, pois muitos aqui não são reconhecidos como cidadãos tailandeses e ficam sem documentação.

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Com uma das garotas Palong.

Finalmente, conhecemos os Lahu. Estes vivem sobretudo na China, lá em número de quase 1 milhão — o que mesmo assim forma uma minoria ínfima naquele imenso país de 1.4 bilhão de pessoas. Centenas de milhares vivem cá na Tailândia, Myanmar, Laos e Vietnã, espalhados aqui pelo Sudeste Asiático.


A situação, como sempre, é de altíssima vulnerabilidade. Ainda que elas não façam nenhuma deformação anatômica, são pobres e vivem de pouquíssimos recursos. Faziam umas demonstrações simples de dança e percussão para os turistas aqui, pelas quais pediam uma doação voluntária ao final. A periclitância é tanta que algumas, em seu inglês extremamente limitado, já te cumprimentam falando o preço das coisas pra você comprar.

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Choça onde as Lahu fazem sua apresentação tribal.
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A criança (ou eu deveria dizer aS criançaS? não sei se a garota é mãe ou irmã), animada, sem saber ainda o futuro que a espera. Que futuro a espera?

Ao terminar, retornamos à entrada, completando o circuito, e lá nos esperava o nosso sorridente e folgado motorista. Havíamos o contratado para o dia, que pode sair mais em conta se forem várias pessoas — e te dá a liberdade de fazer o seu próprio ritmo. Mas tínhamos ainda coisa pela frente neste extremo norte do país.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Visitando as “mulheres-girafa” do pescoço comprido e outras tribos das colinas na Tailândia

  1. Muito interessante essas mulheres, essas comunidades e culturas. Lindo artesanato e muito simpáticas elas próprias.
    Região muito bonita embora haja o estigma da pobreza o que nos deixa a lamentar. Ótima experiencia e uma como sempre gostosa aula de antropologia. Esse sudeste asiático é maravilhoso. Muito bom. Adoro etnoturismo. Viajar, ver mundos e pessoas diferentes, conhecer suas culturas é muito gostoso. Obrigada.

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