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Entre o chá verde e o ópio, no extremo norte da Tailândia

Eis uma visão das mais asiáticas: uma plantação de chá verde. Eu comentei anteriormente (ver Visitando Chiang Mai, a cidade mais “cool” da Tailândia) como este norte do país é mais pacato, relax, e dado mais a budismo & natureza do que o badalado sul, das praias ou da vida noturna de Bangkok. Esta plantação com as colinas deste extremo norte tailandês ao fundo ilustram bem.

Há, contudo, uma “sombra” histórica aqui pouco conhecida no Ocidente, mas que paira nesta parte da Ásia do mesmo jeito que a cocaína arrebenta a América Latina. Trata-se da produção de ópio e seus derivados. Este miolo do Sudeste Asiático é um dos maiores centros de tráficos de drogas do mundo. Não faltam adolescentes europeus e norte-americanos buscando este norte da Tailândia pra consumir ópio, cogumelos psicodélicos y otras cositas mas sem grande preocupação. (Basta falar em “norte da Tailândia” em qualquer albergue internacional e é provável que alguém mencionará alegremente o acesso a drogas, displicentes à miséria histórica que esta região sofre.) O uso recreativo local, no entanto, é somente a ponta do iceberg.

O ópio, pra quem não sabe, é o precursor da heroína e da morfina. Produzido a partir da papoula (Papaver somniferum), ele é das drogas mais antigas usadas pela humanidade. Seu uso medicinal é conhecido desde a Grécia Clássica — assim como os seus efeitos tóxicos altamente viciantes e criadores de dependência.

O maior produtor do mundo é o Afeganistão. Os mercados de ópio e heroína (vendidos sobretudo na Europa e nos Estados Unidos) são, na verdade, a principal fonte de renda dos radicais do Talibã — coisa que a mídia em geral omite, restringindo o debate apenas à religião.

O segundo lugar mais tradicional de produção de ópio no mundo é aqui onde eu estou, este chamado Triângulo Dourado na tríplice fronteira entre Tailândia, Laos, e Myanmar (ex-Birmânia). O famoso Rio Mekong, o mais caudaloso do Sudeste Asiático, compõe essa fronteira (ver abaixo).

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A tríplice fronteira entre Tailândia (deste lado, de onde estou fotografando), Laos (à direita da foto), e Myanmar (a partir dessa península mais à esquerda).
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Devido ao mercado de ópio, a tríplice fronteira ganhou o codinome singelo de Triângulo Dourado (Golden Triangle).

Perto deste marco, o nosso folgado motorista — que se convidou para ter o almoço “de grátis”, pago por nós — trocava uma conversa preguiçosa com dois homens tailandeses a rir assistindo a um vídeo de funk brasileiro no celular. (Tentei memorizar a música pra procurar e compartilhar depois, mas esqueci.)

O lugar como um todo é suspeitosamente quieto, aquela ar de que nada acontece às vistas claras, mas onde ocorre de tudo no submundo. Uma estátua de um escorpião negro gigante (talvez para simbolizar o veneno do ópio?) decora o ambiente junto com alguns templos budistas abertos.

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Tiozinho tailandês assistindo a vídeo de funk carioca pelo celular.
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Estátua de escorpião gigante voltado para Myanmar. A simbologia da coisa não estava muito clara. Fica aí aberta a interpretações.
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Templo budista ali ao lado, com uma moça ali orando.

Perto dali fica, notoriamente, o Museu do Ópio, que visitamos brevemente. Verdade seja dita, ele não é lááá esse balaio todo — acho que o que mais nos chamou a atenção foi, na verdade, um curioso casal de visitantes, um russo loiro enorme com ar de machão acompanhado de um lady boy tailandês. O museu é simples e a visita é rápida, mas serve pra ver algo da história tóxica que o ópio tem nesta região.

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Algumas das tribos das colinas retratadas no post anterior, com uma tia ali puxando um cachimbinho. Estas populações rurais tem estado no olho do furacão aqui.
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Maquete mostrando o uso tradicional de ópio. Esta é a posição típica: deitado de lado, com as pernas dobradas, e a cabeça num travesseiro duro — que, dizem, parecerá “macio como uma nuvem” depois que o ópio começar a fazer efeito.

Quase todo mundo já ouviu falar da Guerra do Ópio entre a Inglaterra e a China no século XIX, mas quase ninguém (no Ocidente) sabe que a promoção de ópio estimulada pelos comerciantes ingleses criou raízes profundas aqui no Sudeste Asiático.

Pra quem perdeu aquela aula de História, os ingleses queriam vender produtos no imenso mercado chinês, mas não possuíam nada que interessasse à China. Eis então que apareceu o ópio como uma opção viciante. Ele foi banido pelo imperador chinês devido aos seus efeitos na população, contrariando os interesses ingleses.

Um carregamento inglês foi confiscado, e daí iniciou-se a chamada “diplomacia do canhão”, feita com os canhões ingleses apontados para o porto de Cantão (atual cidade de Guangzhou), única onde era permitido aos ocidentais fazer comércio. Após alguns bombardeios surgiram os chamados tratados desiguais, através dos quais a Inglaterra obteve Hong Kong (até 1997) e, junto com outras potências ocidentais, uma série de privilégios imperialistas sobre a China — um “estupro” do qual a China nunca se esqueceu, um período a que ela hoje se refere como “o século da humilhação”. (Os meus contemporâneos do século XXI talvez assistam a muito do “karma” inglês ser pago.)


”Toda essa zona rural empobrecida do sudeste asiático, sobretudo em regiões fronteiriças como esta, continua sofrendo a falta de alternativas econômicas viáveis.

Quem acha que os problemas ficaram no passado se engana. Toda essa zona rural empobrecida do sudeste asiático, sobretudo em regiões fronteiriças como esta, continua sofrendo a falta de alternativas econômicas viáveis. Myanmar, aqui ao lado, teve até os anos 90 um movimento guerrilheiro financiado pela venda de ópio tal qual as FARC da Colômbia se financiaram com a venda de cocaína. Aqui ainda são muitos os agricultores pobres arregimentados para a produção de papoula e ópio (este frequentemente transformado em heroína deste lado tailandês da fronteira ou em outras partes). Com a droga ali à mão, muitos acabam viciados também. Hoje, ironicamente, a China é quem mais cresce novamente como mercado consumidor, estimulando a produção sobretudo em Myanmar, mas também aqui na Tailândia.

Do alto da fronteira, eu lancei vista para aquele país (Myanmar) pela primeira vez na vida — e disse-lhe que o visitaria numa outra oportunidade. Houve a chance de cruzar a fronteira ali próximo, e há quem o faça para comprar quinquilharias baratas (Myanmar é muito mais pobre que a Tailândia, e há décadas sofre instabilidade política). Mas é necessário pagar 10 dólares ou o equivalente em moeda tailandesa pelo visto de entrada. Dado que o ambiente aqui lembra muito uma Ciudad del Este asiática, com toda a esculhambação e insegurança da versão paraguaia, não me senti muito atraído.

Como parte deste dia fomos, em vez disso, ver um Templo dos Macacos e a plantação de chá verde que mostrei no começo do post.

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Escadaria peculiar para o Templo dos Macacos lááá no alto da colina, com figuras draconianas ali a lembrar o célebre Tiamat, do desenho Caverna do Dragão.

Essa escadaria, no entanto, além de imensa, é defendida ferreamente por esses macacos, que de simpáticos não têm nada. Arrancam as suas coisas e puxam o seu cabelo sem a menor cerimônia. Não vi ninguém subindo.

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Dúzias de macacos por toda parte, a pular e grunhir.
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Aqui temos a linda plantação de chá verde, com os trabalhadores empregados aplicando pesticidas nas folhinhas.

Sim, meu querido, o seu chá verde, a menos que seja orgânico, vem cheio de agrotóxicos. (Esta é uma briga que tem ganho volume em anos recentes, pois ao contrário de lavouras onde você consome frutos que têm casca etc., no caso do chá o produto são exatamente as folhas ali sendo encharcadas.)

Neste caso aqui, onde paramos para um belo lanche, ele inevitavelmente veio com aquela dose gostosa de veneno.

Comi um bolo de chá verde e tomei uma de suas dezenas de variedades. Uma lanchonete especializada aqui vendia toda sorte de lanches feitos à base de chá verde — sorvete de chá, biscoitos, torta, doces, além do chá propriamente dito.

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Olhem que torta verdinha maravilhosa. Com creme, estava uma delícia.
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Ê vida mansa!

A lógica daqueles terraços escalonados é fazer a água fluir naturalmente de cima pra baixo, pela força da gravidade, irrigando todos os degraus no caminho. É típico aqui da Ásia.

Mostro isso pra dar uma ideia do “sabor” aqui deste extremo norte tailandês (nos diversos sentidos da palavra). A região, mesmo aflita pelo tráfico de drogas, não é perigosa de visitar. Passeia-se sem dificuldade, embora o lado birmanês da fronteira, em Myanmar, seja menos garantido, caso você se aventure por lá.

Era chegada finalmente a hora de partir ao outro extremo da Tailândia: o sul, com suas famosas praias. Um outro universo deste tão rico (e pouco conhecido) país.

Reencontro vocês em Phuket.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Entre o chá verde e o ópio, no extremo norte da Tailândia

  1. Menino que maravilha!… que regiao linnnnda, que belas plantações, que natureza esplendorosa, que postagem. Lindas plagas. Saborosa, mesmo nas suas nuances, na beleza das suas suas sugestivas e charmosas criações, na sua gastronomia singular e na sua criatividade. Como não poderia faltar, a maravilha dos seus templos, suas cores lindas, sua simbologia, a originalidade que salta aos olhos nas suas construções, na sua arte na sua cultura.
    Adorei o que fazem com o cha verde: o suco, os doces lindamente decorados.. Lindissimas paisagens, ótimo passeio. Imperdivel.
    Maravilhosos os templos, as escadas dos macacos, embora não os achasse muito simpaticos hahaha. uma a região é belíssima.
    E o senhor escarapachado ali ou de braços abertos na imensidão da paisagem, parece parte daquela regiao e integrado à paisagem haha. Muito bem meu jovem.
    Um comentário especial para a linda fronteira dourada, e uma menção ao histórico rio Mekong. É emocionante ver a sua beleza e a divisão entre os paises. Lindo.
    O talzinho do motorista folgado e sua comilança gratuita são uma curiosidade à parte. hahaha olhe seu menino, que se ve coisa nesse mundo de meu Deus, como dizia minha avo.
    O senão é mesmo o historico do ópio e o reinado da droga e seus desdobramentos inclusive com os agrotóxicos. a pobreza salta aos olhos.. Espero ver a Inglaterra pagar parte do muito que prejudicou a região e os seu povo. Linda viagem. ótima e gostosa postagem.

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